A chanchada brasileira

Por AFRÂNIO CATANI

Comentário do livro “Este Mundo é um Pandeiro”, de Sérgio Augusto

Exercendo seu ofício há 60 anos, desde que iniciou sua carreira como critico de cinema no diário carioca Tribuna da Imprensa, em 1960, o jornalista Sérgio Augusto (1942) dispensa apresentações. Após anos de pesquisa escreveu Este Mundo é um Pandeiro (A chanchada de Getúlio a JK), um trabalho de fôlego, com quase 300 páginas, editado pela Companhia das Letras em co-edição com a Cinemateca Brasileira.

O título da obra foi retirado do filme de mesmo nome, realizado pela Atlântida por Watson Macedo nos últimos dias de 1946 e lançado em fevereiro de 1947, acompanhando uma série de comédias musicais nacionais produzidas desde o início do século até o começo dos anos 1960. Evidentemente, o autor debruça-se mais sobre o período que vai de 1947 a 1961, nessa década e meia em que a Atlântida, a produtora de Watson Macedo e a de Herbert Richers produzem a quase totalidade dos filmes do gênero.

No início do livro Sérgio Augusto se pergunta e responde em seguida: “Mas, afinal, como era o Brasil que fazia fila para ver as chanchadas de Oscarito e Grande Otelo? Era um país de Getúlio e de Dutra, de Getúlio e JK, da Rádio Nacional e do Teatro Recreio, de Carmen Miranda e de Haydée Miranda, de Marlene e Emilinha, dos bondes e dos lotações, do Rhum Creosotado e do mate Ildefonso; de Miss Cinelândia e da Miss Bangu, das balas Fruna e do Hydrolitol, da Revista do Rádio e da Cinelândia, do anil Reckitt e do batom Tanges, da Casa Nunes e d’A Exposição, do Gumex e do Fixbrill, do sabonete Dorly (o preferido dos heróis do gibi) e do sabonete Lever (o preferido por nove entre dez estrelas do cinema), de Marta Rocha e de Maria Esther Bueno, da boate Vogue e do Sacha’s, do Night and Day e da Galeria Cruzeiro, de Walter Pinto e de Barreto Pinto, dos bailes de High Life e do chope na Taberna da Glória, da piteira medicinal Kirsten e do terno Palm Beach, da caneta Parker 51 e da lapiseira Eversharp, do Capivarol e do gasogênio, do Clube da Chave e do Clube dos Cafajestes, de Pelé e de Garrincha, de Pabium e do suco V-8, do Biriba e do Globo Juvenil, da vitrola Silvertone e do televisor Zenith, do relógio da Mesbla e do relógio da Standard, da Panair e da PRK-30, do travesseiro ventilado Yankes e do XPTO. E, acima de tudo, da vontade de ser americano do norte e fazer sucesso em Hollywood” (p. 31).

Pelas páginas de Este Mundo é um Pandeiro desfilam, entre outros, Genésio Arruda, Tom Bill, Oscarito, Zezé Macedo, Eliana, Cyll Farney, Anselmo Duarte, Mesquitinha, Zé Trindade, Violeta Ferraz, Ankito, Dercy Gonçalves, Jayme Costa, Fada Santoro, Adelaide Chiozzo, Chico Anysio, Golias, Fred, Carequinha, Colé Santana, Catalano, Modesto de Souza, Margot Louro, Walter e Ema D’Ávila, Costinha, John Herbert, Herval Rossano, Eva Wilma, Jô Soares, Eva Todor, Nancy Wanderley e Chocolate; os vilões Wilson Grey, José Lewgoy, Renato Restier, Jece Valadão, Augusto Cesar, Carlos Imperial e Roberto Duval; as boazudas Renata Fronzi, Sônia Mamede, Anilza Leoni, Inalda de Carvalho, Maria Antonieta Pons, Rosa Rondelli, Cuquita Carballo, Odete Lara e Norma Bengell. Números musicais? Pois não, temos Marlene, Emilinha Borba, Francisco Carlos, Joel e Gaúcho, Alvarenga e Ranchinho, Virginia Lane – que poderia, também, reforçar o time das boazudas –, Carmen e Aurora Miranda, Nora Ney, Jorge Goulart, Ivon Cury, Blecaute, Dick Farney, Ataulfo Alves, Dalva de Oliveira, Ciro Monteiro, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Benê Nunes, Luiz Gonzaga, Dóris Monteiro, Orlando Silva, Ângela Maria, Jorge Veiga, Nélson Gonçalves, Elisete Cardoso, Trio Irakitan, Dircinha e Linda Batista, Heloísa Helena, Herivelto Martins, Cauby Peixoto, 4 Ases e 1 Coringa, Jackson do Pandeiro e Almira, Mary Gonçalves e Bob Nelson.

Grosso modo, é possível destacar duas fases distintas na trajetória dos filmes musicais brasileiros e chanchadas. A primeira vai até aproximadamente o início dos anos 1940, podendo ser caracterizada por argumentos, motivos e situações bastante simples e com números musicais homogêneos, carnavalescos e, às vezes, até juninos. Filmes típicos dessa fase seriam, por exemplo, Alô, Alô, Brasil (1935), Alô, Alô, Carnaval (1936) – ambos produzidos pela Cinédia e Waldow, sendo o primeiro dirigido por Wallace Downey e o outro por Adhemar Gonzaga – e Banana da Terra (1939), da Sonofilmes, dirigido por Rui Costa.

A partir dos anos 1940 tem início uma nova fase, que se prolonga até o começo da década de 1960, período em que os argumentos, situações e enredos tornam-se mais complexos e os números musicais mais heterogêneos. É, também, o momento em que a chanchada atinge o seu auge, devido à empatia com o público e à produção contínua de uma grande quantidade de filmes.

Luís Severiano Ribeiro Júnior, tendo nas mãos a partir de 1947 – quando se torna o acionista majoritário da Atlântida – a produção, a distribuição e a exibição de filmes, resolve incrementar a produção das chanchadas, ao perceber que elas poderiam ser uma fonte de polpudos lucros. Assim, em menos de vinte anos de atividade, a Atlântida fabricou 62 filmes de ficção, 2 documentários e centenas de cinejornais.

Em meados dos anos 1950, entretanto, Ribeiro “passou a disputar o mercado com dois trânsfugas de sua linha de montagem: Watson Macedo e o diretor de fotografia Herbert Richers, transformados em produtores independentes. Richers, às vezes sozinho, outras em sociedade com Oswaldo Massaini, ampliou o bloco carnavalesco, contrabandeando para as suas hostes outras revelações do rádio (Zé Trindade), do circo (Ankito, Fred e Carequinha) e da televisão (Ronald Golias). Aos poucos, o carnaval foi sendo posto de lado, sem, contudo, abandonar-se o espírito das estripulias de Oscarito e seus rivais…” (p. 30).

Nessa segunda fase, com um mercado garantido para as chanchadas, observa-se que os temas carnavalescos e juninos vão, aos poucos, tornando-se secundários, substituídos por outros, que se referem ao cotidiano do homem urbano, a aspectos políticos e a problemas da realidade sócio-econômica vizinha: a carestia, a falta de água, as deficiências do transporte urbano, a demagogia eleitoreira, a corrupção política, a indolência burocrática, o empreguismo generalizado no serviço público etc. Mas tudo isso, com muito humor, ginga e marotice.

Os roteiros das chanchadas acabaram obedecendo a um princípio de elaboração esquemático, que se manteve intacto em praticamente ao longo de todas as produções. As situações básicas eram as seguintes: mocinho e mocinha se metem numa situação delicada; cômico (o amigo do mocinho, da mocinha ou de ambos) tenta protegê-los; vilão leva vantagem, inicialmente; vilão perde a vantagem e é derrotado, com a participação decisiva do mocinho e do cômico.

Além disso, outro macete medular da chanchada era a troca (de objetos, de identidade). Em torno de uma troca, por exemplo, é que se arma toda a entrega de Carnaval no Fogo (1949 – direção: Watson Macedo), considerado como a chanchada-modelo. Ricardo (Anselmo Duarte), o mocinho, toma o lugar de “Anjo” (José Lewgoy), ao apossar-se de sua cigarreira perdida na entrada do Hotel Copacabana Palace. A perda da cigarreira significava, para o vilão, a perda de sua identidade – de seus atributos de chefe –, pois seus novos comparsas só podiam reconhecê-lo através daquele objeto. A mocinha (Eliana) e o mocinho seriam protegidos por Oscarito, seguindo assim os estágios previstos no esquema geral das chanchadas (p. 15).

Sérgio Augusto lembra ainda que “trocava-se e roubava-se de tudo nas chanchadas”: chapa de pulmão (Este mundo é um Pandeiro), passaporte (Aviso aos Navegantes, 1950), colar (É Fogo na Roupa, 1952), peruca (Nem Sansão Nem Dalila, 1954), moedas incaícas (Colégio de Brotos, 1956), carteira de colunista social (O Batedor de Carteiras, 1958), mala (O Camelô da Rua Larga, 1958). “Até posições sociais mudavam de mão, principalmente nas comédias de José Carlos Burle” (p. 15).

E os tipos e personagens? Ah, tinha de tudo: mágicos e hipnotizadores sinistros, cientistas loucos, laboratórios misteriosos, nobres (postiços ou autênticos), príncipes, monarcas, baronesas, condessas, paxás e outros menos cotados. Por sua vez, os críticos ficavam fulos com os “abacaxis” (azuis ou não) que eram obrigados a assistir. Antônio Moniz Vianna, do Correio da Manhã, resumiu sua opinião numa única frase: “caiu mais uma manga”.

Quando Carlos Manga lançou Colégio de Brotos (1956), Moniz Vianna voltou à carga, insinuando que o dono da Atlântida (Severiano Ribeiro) ou Manga (diretor), um dos dois, ou ambos, eram adamados: “o que é que está havendo entre esses dois?”, perguntava atônito. Pedro Lima, Fred Lee, Jonald, Salvyano Cavalcanti de Paiva, Alex Viany e muitos outros, em maior ou menor intensidade, se irritavam com o que viam (Glauber Rocha chegou a chamar a chanchada de “câncer reformista do subdesenvolvimento”).

Acrescente-se ao que já se escreveu aqui algumas formulações de Miguel Chaia, em sua dissertação de mestrado intitulada O Tostão Furado. Segundo ele, um golpe de sorte (herança, prêmio, sorteio etc.) muda a vida dos personagens principais – geralmente um herói virador, de bom coração, pertencente à condição de classe subalterna. O personagem simples da chanchada tem sua existência mais próxima de uma ordem social estamental do que de uma estrutura de classes.

É um universo estamental mesclado com fundamentos de classe que acaba caracterizando personagens como a manicure, o camelô, a atriz, o engraxate, o compositor de morro, ricos sem posse, desqualificados, pretendentes ao estrelato etc. Eles movimentam seus valores coletivos de família, vizinhança, parentesco e trabalho. São agentes que não assimilaram a individualização da sociedade urbano-industrial, mas nem por isso são esmagados ou achatados pelas relações que se estabelecem no interior dessa sociedade.

Quando os personagens trabalham, não são operários do sistema, configurando-se assim, muitas vezes, o trabalho marginal; eles não são protegidos por legislações sociais ou trabalhistas. Em suma, no entender de Chaia, a chanchada trata dos simplórios que não entram no jogo desenvolvimentista. De fato, não há lugar dentro desse jogo para camelôs, empregadas domésticas, mulherengos, preguiçosos, malandros, donas de pensão, manicures, barbeiros etc. – ver a respeito Catani e Souza, 1983.

O texto acompanha com detalhe as carreiras  de Luiz (Lulu) de Barros, Watson Macedo, Moacyr Fenelon, Alinor Azevedo, Cajado Filho, J. Rui Costa, José Carlos Burle, Carlos Manga, J.B. Tanko e Victor Lima, roteiristas, argumentistas e diretores (entre outras habilidades) das chanchadas mais significativas realizadas. Também são estudadas as carreiras de Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade (esse último até então pouco pesquisado). Carlos Augusto Calil, autor da apresentação do livro, chama a Zé Trindade de “o demônio encarnado na malícia nacional”, enquanto no penúltimo capítulo ficamos sabendo que Sérgio Augusto vinha anunciando seu livro há uns dez anos, criando grandes expectativas acerca de sua detalhada pesquisa sobre as chanchadas.

Isso fez com que, acabado de sair, aqui e ali, críticas lhe fossem dirigidas. Alguns esperavam que a obra contivesse maior teor analítico; outros lembraram que o autor não fornece todos os créditos devidos às informações obtidas em fontes inéditas ou já publicadas; além disso, há quem tenha notado que em vários momentos, lacunas factuais ou interpretativas são contornadas com uma tirada espirituosa e bem escrita, permanecendo as dúvidas. Acredito que todas essas objeções têm razão de ser.

Entretanto, o livro de Sérgio Augusto é, dentre as publicações sobre o tema, o que há de mais exaustivo até o momento, permitindo que vertentes outras sejam exploradas. Como vi grande parte das chanchadas feitas de meados dos anos 40 em diante, dei gostosas gargalhadas ao longo da leitura. Todavia, os leitores mais jovens encontrarão dificuldades, por vezes insuperáveis, para consultar a excelente e detalhada filmografia inserida no final do volume, uma vez que a mesma está disposta em ordem cronológica de produção dos filmes – e, no interior de cada ano, em ordem alfabética –, sendo que, nem sempre, ao longo do texto, menciona-se o ano em que a película foi terminada. A tradicional ordem alfabética, pura e simples, facilitaria as coisas.

Esse Mundo é um Pandeiro me trouxe de volta às matinês de domingo no interior, aos seriados, às trocas de gibis, aos dribles que tínhamos de dar nos lanterninhas, aos drops redondos que, se caíssem rolavam para longe de nosso alcance, às maravilhosas chanchadas…Os últimos acordes destes inesquecíveis musicais ainda martelavam minha cabeça quando, ofegante, chegava nos minutos iniciais ao Estádio Roberto Gomes Pedrosa – depois, ao Barão de Serra Negra – para ver o meu XV de Piracicaba jogar.

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF. Autor, entre outros livros, de 4 ensaios sobre o cinema brasileiro (Panorama).

 

Referência


AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um Pandeiro (A chanchada de Getúlio a JK). São Paulo, Companhia das Letras / Cinemateca Brasileira, 1989.

CATANI, Afrânio; SOUZA, José Inácio de Melo. A Chanchada no Cinema Brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.

Nota


A presente resenha foi publicada originalmente no “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde em 02.09.1