A demografia contra Lula

Imagem: Tom Fisk
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Por LUÍS FERNANDO VITAGLIANO*

Treze milhões de jovens nordestinos nasceram entre 1995 e 2010, crescendo com cisternas, Bolsa Família e luz elétrica como realidade dada, não como conquista histórica

A região Nordeste tem hoje cerca de 13 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Significa que essas pessoas nasceram entre 1995 e 2010; via de regra elas não têm memoria da intensidade da transformação social provocada pelos primeiros governos Lula na sua localidade. Não viveram a geografia da fome, a seca, as reservas de vagas nas universidades para as elites.

Encontraram cisternas, luz para todos, bolsa família, aposentadoria rural. Não lutaram por condições mais dignas de existência. Essa geração tem na memoria 2013, “não vai ter copa”. Quem tem hoje 27 a 30 anos, tinha pelo menos 15 anos em 2013. É parte de uma geração que cresceu sob o ataque a tudo que é público e coletivo pode fazer mal ao egoísmo do mercado.

Considerando a população do Nordeste como a que mais se transformou neste século XXI, temos 44 milhões de eleitores. Desses, 30 milhões viram as transformações na região. Mas a juventude não vivenciou essa experiência a não ser pelo relato de familiares e amigos. Projetando para o Brasil, são 49 milhões de jovens que não presenciaram as transformações sociais e de renda do país e, portanto, ao considerar o país como um todo perto de 25% da fração da população nacional entre os 15 e 29 anos que foi educada com os benefícios que ainda são tratados como transformadores.

Para completar a visão desta categoria de jovem, que de um lado não vivenciaram as transformações, soma-se o fato de que estão agora desassistidos de políticas públicas efetivas. Ou seja, os “jovens” estão limitados no BPC, não cabem no INSS e é melhor que não caibam no Bolsa-Família (mesmo o pé-de-meia ainda não tem envergadura para expressar mudanças significativas). Ao mesmo tempo esses mesmos jovens apontam para ser uma geração que não tem grandes pretensões por universidades e está caindo no discurso do empreendedorismo – talvez por falta de opção.

Em São Paulo, por exemplo, estado considerado mais industrial, a juventude tem uma tendência a se ligar ao discurso do empreendedor, os dilemas são parecidos com a relevância da periferia é bastante afetada pelos problemas urbanos de megalópoles. A mesma juventude que vai à paulista para protestar contra a Copa, é que fez aqueles protestos de ocupação das escolas. O caldo de identidades é controverso, confuso e típico de uma idade onde as orientações não estão claras.

É certo que para a sociologia “juventude” é um conceito controverso. De forma fria e sem consistência analítica, define uma faixa de idade (dos 15 aos 29 anos), mas pode ter diferentes recortes se considerarmos que um espectro da demografia. Início da vida adulta entre os 15 e 29 anos parece ser um conceito adequado. Mas, dizer que esse estrato tem ideias parecidas, valores parecidos, comportamento parecido é um erro.

Um jovem do interior de Alagoas não tem os mesmos problemas de um jovem da periferia de Diadema. O que unifica pensar em políticas públicas para essa categoria são questões objetivas como tipos de educação e formação, trabalho e renda, cultura e também questões mais subjetivas como perspectivas de futuro. Mas, considerando que há muitas limitações que a diversidade nos apresenta.

Do ponto de vista de uma época, juventude surge para definir um período de transição na sociedade do trabalho entre o fim da alfabetização e o início do primeiro emprego. Então, temos que parte das classes trabalhadoras antecipa a juventude para o início da vida adulta com o trabalho e parte da classe dirigente adia o fim da juventude com mais anos de estudos para formar elites.

Mas, com oportunidades cada vez menores de ascensão social e poucos empregos formais, esse momento que era bem definido na sociedade industrial, está cada vez mais achatado pela dificuldade atual de dar sentido a educação e dar identidade aos trabalhadores. Veja o exemplo dos “Nem; Nem”:

Nem estudam, nem trabalham

Nem trabalha, nem estuda. Pior, está vulnerável a economia da atenção da internet e a economia do tráfico na localidade. Fugir disso pode representar a adesão ao fundamentalismo religioso que nega todos esses aspectos e aposta na integração comunitária ligada a proposta de prosperidade da Igreja.

Soma-se isso ao fato de que a ilusão do empreendedorismo como discurso fácil para o enriquecimento é a droga de entrada da ideologia da deep fake. Jovens em condições ideais para sofrerem um ataque das redes sociais para a narrativa da teologia da prosperidade contra o Estado e as políticas públicas.

Os motivos pelos quais diferentes estratos da sociedade nem estudam, demonstram que o problema é mais complexo. Podemos defender que pobres, não estudam porque ao terminar o ensino médio na faixa dos 17 anos, não encontram emprego e não podem acessar universidades por condições econômicas varias. Na classe média, esse momento vem aos 22, 23 anos ao terminarem o ensino superior, seja graduação ou tecnológico. O desemprego e a falta de postos de trabalho ligado às profissões é outro problema.

Somado a esses elementos, está a violência e o crime organizado. A violência tira jovens da sociabilidade, com as famílias estimulando que cada vez mais fiquem em casas e o crime organizado alicia os ‘nem-nem’ a uma perspectiva de ganho fácil e vida regada a enredo de cinema. O crime organizado é a resposta que a sociedade dá a falta de opções da sociedade industrial para os jovens. E o contraponto vem sendo muito bem definido com muitas famílias recorrendo a religião para apoiar-se contra as facilidades oferecidas pelo tráfico.

Diante de tantas variáveis, as saídas apresentadas pelos governos Lula I e II não tem mais o mesmo efeito. Resolveram alguns gargalos estruturais e agora apareceram outros. No início do século XXI, o represamento de vagas em universidades era um escândalo, não havia FIES, PROUNI e principalmente não havia ENEM; as vagas em universidades federais estavam concentradas no litoral e em capitais.

Hoje, o cenário é diferente e o gargalo se encontra na geração de emprego e renda para os jovens – não só os egressos de universidades, mas os que saíram do ensino médio. As profissões estão também em transição e os currículos desatualizados. As opções sobre que direções assumir não estão obvias. Somados, com a dificuldade de encontrar caminhos, essa base social tem menor aceitação das políticas públicas do governo Lula.

De um lado, existe a ausência de uma experiência histórica de ver as transformações realizadas pelos primeiros governos do PT: da água a eletricidade chegando às casas, ou das políticas sociais de combate à fome, da renda mínima ao financiamento que permitiu comprar uma moto para tocar o rebanho.

O Brasil sob o PT é outro

É fato que o Brasil sob o PT é outro e principalmente o Nordeste é outro: cresceu, modernizou e mudou suas cores. De outro lado, essa percepção tem mais de 30 anos, portanto, para a juventude, ou é parte dos livros de história ou é inexistente. Não é uma percepção de vida. Os nascidos 30 menos foram inseridos nessa realidade com as políticas sócias dos anos 2000.

Por isso, quando o governo tem dificuldades para atualizar sua política para essa faixa de idade – na verdade a dificuldade é atualizar currículos e empregos; um estrato da sociedade que tem pressa, está antenada nas redes sociais, não encontra na escola ensinamentos que as ajudem a lidar imediatamente com as Inteligências artificiais, que estão completamente soltas nas ruas e a mercê de um lado do crime organizado e do fundamentalismo, o caminho da estabilidade parece não estar relacionado as políticas públicas.

A resposta da direita para a situação é conhecida e estudada em sua inocuidade: “faça você mesmo” – laissez-faire, laissez-passer – ou em termos mais modernos: “seja um empreendedor”.

Não quero dizer com isso tudo que as eleições de 2006 estão comprometidas para Lula e/ou para as esquerdas. O fato de ter uma base social mais frágil, com esse estrato da sociedade menos aderente às suas propostas não significa que são oposição ao PT ou às políticas das esquerdas. Mas, obviamente são menos orgânicos e parte desses eleitores suscetíveis a mudar de voto, como demonstram as pesquisas de 2025. A resposta a isso pode ser eleitoral, a propaganda nas eleições mostra e convence eleitores. E quanto a isso, no Nordeste ainda há uma força social que mantem firme a base social do lulismo.

De outro lado, a questão é o governo. Olhar para esse estrato e principalmente para esse momento da vida social brasileira é urgente. As políticas de saúde avançam. O cuidado com as crianças permite que políticas sejam criadas. O Bolsa-Família, valorização do salário mínimo, políticas para as escolas, FUNDEB, FUNDEF, geração de crédito, tudo isso permite que famílias se estabilizem e crianças sejam educadas e se insiram melhor no mundo.

Políticas do BPC, aposentadoria rural, garantias previdenciárias, também permitem pela renda que outra parte da vida seja estabilizada com outro tipo de políticas pública; mas este meio entre o primeiro emprego e o início da vida profissional está descoberto.

O objetivo deste texto não é apontar culpados por falhas, mas demonstrar justamente uma lacuna que tem consequências no apoio social. As dificuldades das esquerdas brasileiras atuais com essa fração da sociedade são reais e encontram justificativa concreta para ocorrerem. Portanto, o governo Lula tem dois caminhos: ou segue parte dos seus analistas que acusam essas pessoas de ingratas e se defendem como incompreendidos nas suas políticas; ou aceita que tem que rever determinadas políticas e bota a cabeça para pensar.

Para aqueles que, como eu, sugerem que se deva optar pelo segundo caminho, é importante considerar o mantra do Estado de Bem-Estar Social quando surgiu: o cuidado das políticas públicas “do berço ao túmulo”. No Brasil está no rumo do berço e do túmulo, mas encontra descontinuidades na jornada entre um e outro. Corrigir isso e preencher essa lacuna não é uma mera questão eleitoral, mas uma questão de coerência programática.

*Luís Fernando Vitagliano é doutor em “Mudança social e participação política” pela EACH-USP. Autor, com Marcio Pochmann, do livro O atraso do futuro e o “homem cordial” (Hucitec). [https://amzn.to/3CRWcNw]


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