A elite do atraso e suas mazelas

Imagem: Pieter Bruegel

Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

Fora da mídia alternativa, quase não há mais espaço para visões críticas ao “consenso do mercado”, só são amplamente divulgadas opiniões condizentes com as prioridades e os preconceitos da elite

Gostaria hoje de dar uns tecos na “elite do atraso”. Ela merece muito mais do que tecos, claro. Mas vou exercer certa autocontenção. Não é fácil fazê-lo, como o leitor certamente imagina. No Brasil, os donos do dinheiro e do poder apresentam características altamente problemáticas, como se sabe há muito tempo. Machado de Assis já notava em 1861: “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”. Machado foi um de muitos grandes brasileiros que não se conformaram com o contraste entre o país e suas camadas dirigentes.

A hipocrisia da elite tupiniquim, por exemplo, é fora do comum. De uns tempos para cá, o esporte preferido de uma parcela da mídia tradicional tem sido atacar o governo federal, considerado incivilizado, incompetente e danoso à imagem do país no exterior. Ainda bem, o ataque tem cabimento. Não tem cabimento, porém, culpar apenas Bolsonaro e o bolsonarismo pelos nossos dramas e impasses. A “elite do atraso”, inclusive e destacadamente figuras proeminentes que agora estão na oposição ao governo, contribuíram de modo apreciável para a desgraça atual. Ou não? Tenho a ligeira impressão que sim. Nem se sabe, ao certo, a sinceridade e firmeza desses neo-opositores.

“Elite do atraso”. Talvez não exista designação melhor do que essa, cunhada por Jessé Souza, para as classes dirigentes brasileiras ou suas frações dominantes. Mesmo quando se creem modernas e cosmopolitas, a sua marca distintiva é o atraso, o apego ao passado e ao ultrapassado.

A ortodoxia de galinheiro

A aversão ao debate livre e aberto de ideias é outro traço marcante da elite do atraso. Isso se reflete na virtual inexistência de debate econômico na mídia corporativa, o que permite a consagração de doutrinas primárias e antiquadas como verdades incontestes. Se o debate tivesse sido mais livre nas décadas recentes dificilmente teriam prosperado teses econômicas extravagantes e danosas ao interesse nacional. Por exemplo, a ideia de que a “poupança externa” é indispensável ao desenvolvimento de uma economia emergente e o postulado correlato de que são desejáveis déficits expressivos nas contas externas correntes. Ou a suposição ingênua de que o regime de câmbio flutuante exime um país de manter reservas internacionais elevadas. Ou, ainda, a crença de que a expansão monetária resulta necessariamente em inflação. Pérolas da ortodoxia de galinheiro…

Quando voltei da China, em fins de 2017, constatei que as discussões de temas econômicos nos principais órgãos de comunicação brasileiros, que nunca fora das mais diversificadas, havia quase desaparecido. Só são amplamente divulgadas opiniões condizentes com as prioridades e os preconceitos da elite do atraso, sobretudo da sua fração hegemônica, o sistema financeiro – a notória turma da bufunfa. Essa confraria, quando pensa, ou finge que pensa, recorre ao que costumo chamar de “ortodoxia de galinheiro”, uma versão simplificada da ortodoxia econômica inventada nos Estados Unidos em décadas passadas. Ora, sem debate, sem confrontação de ideias, não se pode propriamente falar em democracia.

Um pouco de história política nacional

O que acabo de dizer pode e deve provocar indignação, mas nunca surpresa. A elite do atraso só é democrática no discurso. A sua prática é autoritária e, quando necessário, golpista. O exemplo clássico é a velha UDN – a assim chamada União Democrática Nacional, partido supostamente liberal criado em 1945 e extinto em 1965. Por experimentar quase sempre grande dificuldade em vencer eleições presidenciais, a UDN apoiou ou liderou quase todos, senão todos os golpes políticos da época – contra Getúlio, contra JK, contra Jango. Havia, na realidade, um pequeno equívoco na denominação do partido – deveria ter se chamado não UDN, mas UGN, União Golpista Nacional. A UGN e seus sucedâneos só conseguiam chegar à Presidência pela via eleitoral quando se fixavam em figuras exóticas, meio destrambelhadas, como Jânio Quadros e, mais tarde, Fernando Collor. Nos dois casos, o exotismo era tanto que não chegaram a concluir os mandatos para os quais foram eleitos. Jair Bolsonaro é a última versão desse recurso “ugenista”, agravada, entretanto, por traços mais perigosos, fascistas ou pelo menos protofascistas.

A UGN tem importantes sucessores contemporâneos, que se destacaram nas crises políticas recentes. O PSDB, hoje decadente, foi o que mais se aproximou do modelo “ugenista”. Aécio Neves, derrotado em 2014, clamou pela sabotagem contra o a presidente reeleita, deu a largada para o golpe parlamentear e formou a imagem perfeita da UGN no século 21.

A mídia alternativa é a salvação da lavoura

Mas volto ao estreitamento do debate econômico nacional. Fora da mídia alternativa, quase não há mais espaço para visões críticas ao “consenso do mercado”. Na mídia corporativa, o espaço é exíguo e rigorosamente controlado. Aliás, se não fosse a mídia alternativa, com sua variedade de publicações, sites, blogs etc., este economista que vos escreve se veria reduzido a um silêncio praticamente total. Estaria subindo pelas paredes, feito lagartixa profissional (como diria Nelson Rodrigues).

A virtual supressão do debate econômico cobra seu preço. O leitor talvez não tenha condições de aquilatar o estrago que está se fazendo no país, há décadas, com a subordinação da política econômica ao que há de pior na ortodoxia de galinheiro!

Paro e releio o que escrevi. Ficou um pouco violento. A autocontenção não funcionou bem. Peço desculpas, leitor, pela exaltação de algumas passagens. Bem sei que carregar nas ênfases, nas palavras e nos pontos de exclamação, pode prejudicar mais do que convencer. Mas o quadro emergencial que estamos vivendo talvez justifique e perdoe os excessos retóricos.

*Paulo Nogueira Batista Jr. foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. Autor, entre outros livros, de O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata (LeYa).

Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista Carta Capital, em 5 de fevereiro de 2021.