A hora dos predadores

Merlyn Oliver Evans, Grupo Trágico, 1949–50
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Por SÉRGIO GADINI*

Comentário sobre o livro recém-editado de Giuliano da Empoli

1.

“Ao longo das três últimas décadas. Os líderes políticos das democracias ocidentais se comportaram, diante dos conquistadores da tecnologia, exatamente como os astecas do século XVI. Confrontados com os trovões e os relâmpagos da internet, das redes sociais e da inteligência artificial, eles se submeteram – na esperança de que um pouco de seu pó de pirlimpimpim respingasse sobre eles” (p. 10).

Este é um retrato atualizado, em diálogo com a história moderna, que resume a era da desinformação em escala industrial, onde meia dúzia de controladores das big techs dão as cartas e já não se escondem, mas pousam em imagens ao lado de tiranos, que se impõem pela força da indústria da guerra e da morte, do poder do mercado financeiro, ou pelo blefe e na mentira que, diuturnamente, chega às telefones e computadores de bilhões de pessoas, orientando gostos, vícios e comportamentos que enriquecem as mesmas oligarquias digitais.

Como ocorreu com a chegada de colonizadores europeus à capital do império Asteca, no século XVI, continua o autor, “a docilidade não foi suficiente para garantir a sobrevivência de nossos governantes”. E, assim, “depois de fingirem respeitar sua autoridade enquanto estavam em posição de fraqueza, os conquistadores pouco a pouco impuseram seu próprio império. Hoje, a hora dos predadores chegou, e por toda parte as coisas caminham para um desfecho em que tudo será resolvido pelo fogo e pela espada” (p. 11).

Giuliano da Empoli busca na história medieval uma personagem que atualiza a figura dos predadores contemporâneos: César Bórgia, o ‘modelo’ de príncipe que Nicolau Maquiavel. “Não o soberano ideal, mas a fera de poder real, metade raposa e metade leão, que sabe usar a astúcia para bajular os homens e a força para subjuga-los” (p. 48), compara.

E com a imagem de uma elite de oligarcas da tecnologia que o autor caracteriza os ‘novos borgianos’ que pousam para selfies, enquanto aumentam o poder econômico e político pelo mundo, diante da inércia de governantes que preferem bajular, praticamente atuando como serviçais que, por sua vez, repassam a conta do servilismo aos mesmos povos que os elegem e reelegem em intervalos de tempo que ainda reivindicam nomear democracia.

“O príncipe é o manual do usurpador”, ao destacar que “a primeira lei do comportamento estratégico é a ação” (p. 49). “Se Tolstói demonstra que a condição do poderoso é sempre a limitação, a ação resoluta do príncipe constitui o antidoto para esse mal” (p. 50), explica o autor.

2.

Os capítulos do livro abrem em forma de crônica, com relatos a partir de diversas cidades do mundo (Nova York, Florença, Riade, Whashington, Chicago, Montreal, Paris, Berlim, Roma, Lisboa e Lieusaint) onde o autor circula, presenciando eventos políticos sob impacto da onipresença algorítmica que praticamente determina os rumos de debates ou decisões por governantes da maioria dos países do globo.

Giuliano da Empoli é também autor de um dos livros mais lidos sobre o papel dos ‘engenheiros do caos’ na era das redes de desinformação, que destróem instituições seculares e elevam desinformados à visibilidade de milhões, mesmo que à base de memes, chistes ou preconceitos contra as maiorias silenciosas (pobres, migrantes e demais excluídos). Engenheiros do caos foi publicado pelo autor em 2019 e conta com edição (traduzida) em diversos países do mundo. Jornalista, o autor é analista político, com formação em direito e ciência política.

Não é um mundo promissor. E uma das impressões que o leitor fica ao concluir a leitura é de que, se não saída imediata para se libertar do crescente império de tecnocratas da desinformação, ao menos existe alguma esperança. E, dentre as possibilidades, pode ser a partir dos países, sob iniciativa de organizações sociais e moradores/cidadãos, exigindo a aprovação e o respeito às legislações que impõem regras ao atual descontrole operacional das big techs, como já é possível encontrar em alguns poucos países do mundo.

Embora, é oportuno situar, a busca de alternativas seja recente e ainda se encontre resistência entre serviçais de plantão, que seguem dispostos a defender oligarquias, impérios ou empresários inescrupulosos que chegam ao controle governamental pelo voto de pobres desinformados ou iludidos pela promessa de enriquecimento das ‘teologias da prosperidade’ neopentecostais.

E, pois, embora é sempre preciso esperançar, a viabilidade de romper com os grilhões da dominação (seja tecnológica, religiosa ou econômica) é na capacidade de organização popular e cobrança por políticas públicas que se pode conter a onda desinformacional que destrói instituições, exclui bilhões e enriquece poucos às custas da maioria de pobres.

A leitura vale, portanto, para atualizar cenário, compreender o poder inegável de tecnocratas predadores e a buscar alternativas para uma vida um pouco fora do controle cotidiano dos algoritmos. Fica o convite à leitura, reflexão e, claro, também ao apoio de iniciativas que ousam questionar o crescente monopólio das big techs, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Silenciar não é possível!

Sérgio Gadini, jornalista e professor do curso de jornalismo Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Referência


Giuliano da Empoli. A hora dos predadores. Tradução: Júlia da Rosa Simões. São Paulo, Vestígio, 2025. 126 págs. [https://amzn.to/3Mo6F8c]


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