A “invasão zapatista” está começando!

Imagem: Brett Saules

Por JÉRÔME BASCHET*

O EZLN faz uma turnée internacional a fim de contribuir para que as lutas contra o capitalismo se encontrem na plena consciência de suas diferenças

“Anunciada há seis meses, cá estamos. A viagem zapatista começou. É a “conquista inversa”.

Quando os zapatistas publicaram seu comunicado “Uma montanha em alto mar”, no dia 5 de outubro de 2020, foi grande a surpresa com a notícia de que estavam preparando uma turnée do EZLN (Exército Zapatista de Liberação Nacional) através dos cinco continentes, a começar pela Europa. É a primeira vez (salvo uma pequena exceção) que eles saem das fronteiras de seus país.

Depois, no dia primeiro de janeiro, eles escreveram e assinaram com centenas de pessoas, coletivos e organizações, uma Declaração pela vida [ver primeiro texto nessa mesma aba] expondo as razões desta viagem: contribuir para que as lutas contra o capitalismo – indissociáveis da luta pela vida – se encontrem na plena consciência de suas diferenças e longe de toda vontade de homogeneização ou de hegemonia.

Ao longo desses seis últimos meses, um amplo processo de organização foi instaurado em escala europeia, mas também em cada país ou “geografia”, conforme a terminologia zapatista. Uma coordenação francófona surgiu, e no seu interior, oito coordenações regionais, abarcando coletivos e iniciativas locais. Ao mesmo tempo, o EZLN confirmou que preparava uma grande delegação composta de mais de uma centena de membros, três quartos constituída por mulheres. Essa delegação seria acompanhada por dez membros do Congresso Nacional Indígena – Conselho Indígena de Governo, que reúne as lutas indígenas do México inteiro, assim como por uma delegação do Fronte das Cidades em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla et Tlaxcala, constituída contra a implantação de uma dupla central termoelétrica que ameaça desviar os recursos em água indispensáveis aos camponeses da região[i].

No último 10 de abril – aniversário do assassinato de Emiliano Zapata –, foi anunciada a partida da primeira delegação zapatista a fazer a viagem por via marítima. Esperava-se vê-la partir, naquele dia, do caracol[ii] de Morelia, cujos membros se preparavam há meses. Houve de fato um ritual conforme manda o figurino, com música tradicional, incenso e gestos de purificação (“limpia”), tudo isso sobre a réplica de uma proa de navio; no entanto, a montanha não se deslocou[iii]. Com efeito, foi anunciado que a delegação entrou em quarentena por quinze dias a fim garantir que não seria portadora de um outro vírus que não o da rebelião – uma escolha que reitera a decisão do EZLN de tomar (por si mesma, e longe de qualquer injunção estatal) todas as medidas de precaução sanitária requeridas para evitar a propagação do SARS-Cov-2. De fato, desde o dia 15 de março de 2020 um alerta vermelho fechou o acesso a todos os caracoles zapatistas.

Soube-se também que essa delegação marítima havia sido batizada de “Esquadra 421”, por ser composta de quatro mulheres, dois homens e uma pessoa transgênero (“um/a outroa”, no léxico zapatista), apresentadas individualmente num comunicado do subcomandante Galeano[iv]. Depois de mais uma festa de partida, no domingo 25, com a exposição de numerosas pinturas e esculturas, palavras de encorajamento do conselho do bom governo e baile popular[v], esta segunda feira dia 26 de abril é o dia efetivo da partida de Morelia. Dali irão até um porto mexicano onde as aguarda um navio chamado “A Montanha”, e no dia 3 de maio, largarão as amarras para a travessia do Atlântico. A Esquadra 421 será então submetida às imponderáveis circunstâncias oceânicas, sob a competente condução da tripulação do navio. Ele deve chegar nas costas europeias por volta da segunda metade de junho (o país só será informado mais tarde).

Paralelamente, nesses últimos dias, pequenas festas foram organizadas ao som dos tambores e dos encorajamentos de todo tipo para celebrar a partida de outros membros da delegação zapatista, moradores da floresta lacandona, que por vezes desceram os rios dessa região tropical na fronteira com a Guatemala em pirogas[vi]. Elas e eles farão parte dos grupos da delegação que, desta vez em avião, chegarão ao velho continente a partir do início de julho.

Começarão aí meses de intensas atividades, encontros e trocas em toda a Europa, visto que os zapatistas anunciaram ter recebido e aceito convites de muitas “geografias”: Alemanha, Áustria, Eslovênia, Catalunha, Sardênia, Chipre, Croácia, Dinamarca, Estado espanhol, Finlândia, França, Grécia, Países Baixos, Hungria, Itália, Luxemburgo, Noruega, País Basco, Polônia, Portugal, Reino Unido, Romênia, Rússia, Sérvia, Suécia, Suíça, Turquia, Ucrânia.

Centenas de encontros e atividades foram propostos aos zapatistas e agora estão em curso de preparação. Os coletivos e organizações concernidos so divulgarão chegado o momento oportuno. É possível que haja ajuntamentos amplos, implicando todas as lutas do período atual, desde os Coletes amarelos na França até as Zonas a Defender (ZAD), além de várias resistências territoriais contra grandes projetos destrutivos, coletivos feministas de apoio aos migrantes, lutas contra as violências policiais por quem batalha contra a dominação colonial, redes de ajuda mútua nascidas nas metrópoles e destinadas às regiões rurais onde se esboçam outras maneiras de viver, sem esquecer da mobilização prioritária à qual nos obrigam, como o sublinham os zapatistas, os soluços trágicos de nosso planeta machucado. A lista é longa (e aqui incompleta) no meio da galáxia de rebeliões contra todos os aspectos da barbárie capitalista e das resistências, que visam dar lugar a outros mundos mais desejáveis.

Sobretudo, os zapatistas explicaram que viajariam a fim de trocar – quer dizer, falar, e ainda mais escutar – com todas e todos que os convidaram “para falar de nossas histórias mútuas, de nossas dores, de nossas raivas, de nossas conquistas e nossos fracassos”[vii]. Encontros em pequena escala, para dar-se o tempo de se conhecer e começar a aprender uns dos outros, umas das outras, esses daqueles. Faz muito tempo que os zapatistas insistem no fato de que nossas lutas não podem permanecer isoladas umas das outras, sublinhando a necessidade de construir redes planetárias de resistência e de rebelião. É inútil lembrar aqui de todos os encontros internacionais organizados em Chiapas, desde o Encontros Internacionais pela humanidade e contra o neoliberalismo (dito “Intergalático”), em 1996, até o seminário “O pensamento crítico contra a hidra capitalista”, em 2015[viii]. Mas pode-se notar que em agosto de 2019, no momento de anunciar um novo avanço da autonomia, com a criação de quatro novas comunas autônomas e 7 novos conselhos de bom governo, eles precisaram que não propunham mais organizar grandes encontros, porém antes fazer “reuniões com os grupos, coletivos e organizações que trabalham [lutam] em suas geografias”[ix].

Naquele momento não se falava da viagem pelos cinco continentes, mas agora, esta ocasião poderia ser – além de outras razões para empreender um tal périplo – uma maneira de disparar esse processo. Contudo, se uma tal perspectiva pode ressoar com a necessidade que muitos sentem de tecer mais laços entre as lutas existentes, é claro que ela requer de antemão não apenas a troca, que permite identificar o que se partilha, sem denegar as diferenças e divergências, mas também e sobretudo o encontro que cria um mútuo conhecimento real.

A viagem pela vida será pois a oportunidade para um número bem maior de pessoas encontrarem os zapatistas e conhecer mais sobre essa experiência de autonomia e de dignidade que persevera contra ventos e marés, há um quarto de século. E, esperemos, será uma oportunidade também de se deixar levar pelo contágio rebelde de que os zapatistas são os virulentos portadores. Esperemos que todas e todos que reconhecem na Declaração pela vida e para quem a autonomia zapatista brilha forte no céu de nossas aspirações (e inspirações) estejam prontas e prontos a acolher e apoiar sua iniciativa itinerante (por exemplo, contribuindo e fazendo circular a plataforma de crowdfunding criada para essa finalidade[x]), e a participar, da maneira que melhor convir a cada um e uma, na VIAGEM PELA VIDA.

Mas voltemos à Esquadra 421. Desde o anúncio da viagem rumo à Europa, os zapatistas sugerem que se trata de refazer ao contrário o processo da conquista. Eles se divertem com a ideia de uma invasão inversa (e, desta vez, consentida). É seu humor, claro (mas será apenas humor?)[xi]. Em todo caso, anunciaram que no dia 13 de agosto de 2021 estariam em Madri para celebrar à sua maneira os 500 anos da conquista de Mexico-Tenochtitlan pelo exército de Hernan Cortés. Os indígenas de Chiapas, como aqueles de todo o continente americano, experimentam há cinco séculos sobre sua carne o que significam a colonização e todas as formas de colonialismo interno e de racismo, que são seu prolongamento. Mas os zapatistas disseram claramente que não iriam a Madri para exigir que o Estado espanhol ou a Igreja Católica peçam perdão. Eles recusam tanto a condenação essencializante de um “Ocidente” diabolizado e inteiramente assimilado aos colonizadores como a atitude que consiste em trancar os colonizados na posição de vítimas. Ao contrário, eles querem fazer os espanhóis ouvir “que eles não nos conquistaram [e] que nós continuamos em resistência e rebelião”. Refazer a viagem na direção contrária é desmontar uma história toda pronta, que assinala lugares congelados e unívocos aos vencedores e vencidos. Trata-se de abrir por efracção a possibilidade de uma outra história.

Quando a delegação marítima zapatista tocar a terra em um ponto ainda desconhecido do continente europeu, é Marijose, “um/a outroa” da Esquadra 421 que desembarcará primeiro. E eis como o subcomandante Galeano descreve de antemão a cena, numa inversão do gesto de Cristóvão Colombo – que no entanto não desembarcou, no dia 12 de outubro de 1492, conquistando, nem mesmo descobrindo, pois ele só tentava encontrar as terras já conhecidas do Japão e da China, e se apressou em cravar sua cruz e impor o nome de São Salvador à Ilha de Guanahaní:

Assim, o primeiro pé a pisar em solo europeu (claro, se nos deixarem desembarcar) não será nem de um homem nem de uma mulher. Será de um.a outra.

No que o falecido SubMarcos teria descrito como “um tapa dado com uma meia de seda negra sobre toda a esquerda heteropatriarcal”, foi decidido que a primeira pessoa a desembarcar será Marijose.

Assim que ela tiver pousado os dois pés sobre o solo europeu e tiver se recuperado do enjoo marítimo, Marijose gritará:

Rendam-se, pálidos rostos heteropatriarcais que perseguis o que é diferente

Não, estou brincando. Mas seria lindo que ele-ela o dissesse, não?

Não, ao descer à terra, @ companheira zapatista Marijose dirá com uma voz solene:

Em nome das mulheres, crianças, homens, velhos e, claro, dos zapatistas outros, declaro que o nome dessa terra, que seus nativos chamam hoje de Europa, se chamará doravante: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa “Terra rebelde”, ou “Terra que não se resigna, que não falha”. E é assim que ela será conhecida pelos habitantes e estrangeiros enquanto houver aqui alguém que não abandone, não se venda e não capitule.”

Bem-vindos, compañeroas, compañeras y compañeros zapatistas, nas diversas geografias do continente logo mais renomeado Slumil K’ajxemk’op.[xii]

*Jérôme Baschet é historiador medievalista e estudioso do zapatismo, entre outros. Divide seu tempo entre Paris e Chiapas

Tradução: Peter Pál Pelbart para o site da n-1 edições [https://www.n-1edicoes.org/a-invasao-zapatista-esta-comecando]

Publicado originalmente no portal lundimatin.

Notas


[i] https://reporterre.net/Au-Mexique-les-zapatistes-du-Chiapas-s-opposent-aux-grands-projets-nuisibles

[ii] Nome dos centros regionais que sediam os “conselhos de bom governo” da autonomia zapatista e onde acontecem notadamente os encontros nacionais e internacionais organizados pelo EZLN.

[iii] http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2021/04/12/en-route-vers-leurope/

[iv] https://lavoiedujaguar.net/Escadron-421-La-delegation-maritime-zapatiste. Aí ficamos sabendo que essa delegação marítima devia ser composta por 20 anos, mas que os outros não conseguiram vencer os obstáculos para a obtenção de seu passaporte. NB: A esquadra 201 é uma unidade aérea mexicana que participou na Segunda guerra mundial.

[v] https://espoirchiapas.blogspot.com/2021/04/reveillez-vous.html et https://radiozapatista.org/?p=37273

[vi] http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2021/04/24/y-mientras-tanto-en-la-selva-lacandona/

[vii] http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2021/04/12/en-route-vers-leurope/

[viii] Ver https://fr.wikipedia.org/wiki/Zapatisme

[ix] http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2019/08/28/communique-du-ccri-cg-de-lezln-et-nous-avons-brise-lencerclement/. Voir aussi: https://reporterre.net/Ici-le-peuple-dirige-le-gouvernement-obeit-au-Mexique-le-zapatisme-est-bien

[x] https://www.helloasso.com/associations/une-montagne-en-haute-mer/collectes/la-route-pour-la-vie-2021

[xi] Durante a festa do 25 de abril, em Morelia, maquetes de bavios foram expostas, com nomes fazendo referência unicamente às caravelas de Cristóvão Colombo: “Santa Maria – La Revancha”; “No soy Niña”…

[xii] Atualização: ver o novo comunicado “A rota de Ixchel”, publicado neste 26 de abril, depois da publicação do presente artigo: http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2021/04/26/la-ruta-de-ixchel/