A reabertura do Instituto Capobianco

Instituto Capobianco. Foto de Douglas Nascimento (https://saopauloantiga.com.br/remo-capobianco/)
image_pdf

Por LUCAS GARIANI*

A reabertura do Instituto é uma vitória para a cultura paulistana, mas expõe a necessidade de equilíbrio entre o mecenato privado e a garantia de espaços públicos democráticos

1.

Nos últimos anos, dificuldades de várias ordens – sobretudo econômicas, intensificadas pelo avanço da especulação imobiliária – levaram ao fechamento de importantes espaços teatrais na cidade de São Paulo, tais como o Teatro Vento Forte, o Teatro Aliança Francesa e o Viga Espaço Cênico. Por isso, quando o teatro ganha uma nova sala na cidade, trata-se de um acontecimento a ser celebrado.

Esse é o caso da reabertura do Instituto Capobianco, localizado em um charmoso casarão próximo à Ladeira da Memória, no centro da cidade de São Paulo. Ao longo das últimas duas décadas, o espaço se tornou um importante polo de produção e circulação de parte da cena teatral paulistana. Sem se limitar à difusão das artes cênicas, o Instituto se consolidou como um espaço aberto à pesquisa de linguagem e à experimentação artística.

Além de oferecer uma programação diversa e perene de espetáculos, o espaço abarcou uma ampla gama de atividades direcionadas à pesquisa e à formação de público, como apresentações em processo, ensaios abertos, experimentações cênicas, leituras dramáticas, núcleos de dramaturgia, residências de coletivos, workshops, palestras, exposições, ciclo de debates e mostra de filmes.

Por lá, já passaram coletivos importantes como Pessoal do Faroeste, Velha Companhia, Cia. Mungunzá de Teatro e Companhia Empório de Teatro Sortido, além de figuras de ponta como Cibele Forjaz, Denise Stoklos, Denise Weinberg, Christiane Jatahy, Rafael Gomes, Vinicius Calderoni, Ruy Cortez, Zé Henrique de Paula, Naum Alves de Souza e Adolp Shapiro.

Fechado desde a pandemia, o Instituto agora reabre suas portas para seguir sua vocação e abrigar uma rara residência artística de dez meses da Mundana Companhia. Coordenado por Aury Porto e Mariano Mattos Martins, o projeto irá ocupar o casarão todos os finais de semana do ano, com cinco espetáculos e um conjunto extenso e variado de atividades, com preços acessíveis ou gratuitas.

Dentro do panorama das instituições culturais paulistanas, a iniciativa é dotada de singularidades, não apenas por oferecer uma espécie de carta branca a um importante grupo teatral, garantindo um trabalho contínuo de pesquisa e formação de público, mas também por ser patrocinada por um grupo familiar, a família Capobianco.

2.

Construído pelo imigrante italiano Remo Capobianco no início da década de 1920, o casarão familiar iniciou suas atividades artísticas em 1999, por iniciativa de seu filho, o engenheiro Julio Capobianco, fundador do Grupo Construcap. Com o objetivo de ser um centro de formação, criação e circulação das artes cênicas, o espaço da família Capobianco configura uma prática incomum de mecenato dedicado particularmente às artes cênicas na cidade de São Paulo.

Desde o final da década de 1990, a modernização da legislação relativa à política cultural permitiu uma ampliação e diversificação das formas de mecenato privadas. Se nossa formação histórica legou uma elite econômica agrária pouco afeita ao universo ampliado da cultura, coube a parcos estratos cosmopolitas e financeiros das elites econômicas a criação de instituições culturais privadas, comprometidas com alguma espécie de modernização de nosso patrimônio cultural e histórico.

Nesse sentido, é notável o espaço ocupado pelas artes visuais como epicentro do interesse histórico de nossos mecenas, como bem ilustra o caso do Masp ou do acervo do MAC-USP, em São Paulo. Ao dedicar certa centralidade às artes cênicas, o Instituto Capobianco preenche uma lacuna importante no fomento privado à cultura, ao passo em que reafirma uma gestão personalista, em tempos em que o modelo de gestão mais institucionalizada já ganhou corpo com a atuação de instituições como o Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles.

Em um quadro em que os programas públicos de fomento lograram favorecer o surgimento e manutenção de uma vibrante cena teatral paulistana, que resiste à precariedade e à insuficiência de recursos e políticas que deem conta de sua pujança, a participação de instituições privadas de fomento, manutenção e estímulo às artes cênicas nesse ecossistema não deixa de ser importante.

Ainda assim, há contradições que precisam ser enfrentadas, de modo que a cultura não seja apenas instrumentalizada como arena para ganhos simbólicos por parte de grupos familiares que também guardam outros interesses. Isso porque um dos herdeiros de Júlio Capobianco, o engenheiro Roberto Capobianco, é presidente do grupo Construcap e da Urbia, concessionária responsável pela gestão do Parque Ibirapuera e outros cinco parques paulistanos. Se a contribuição do Instituto Capobianco para o fortalecimento da cena teatral e cultural da cidade parece evidente, por outro lado, a atuação da Urbia tende a ser mais obscura.

Isso porque a concessionária também é responsável por administrar equipamentos culturais importantes do parque, dentre os quais o Auditório Ibirapuera. Como apontado em outro texto, desde a concessão, o Auditório viu sua programação cultural gratuita ou acessível praticamente desaparecer, em benefício da cessão do espaço para uso privado, com a realização de festivais de música e eventos corporativos e de promoção de marcas.

A gestão de Roberto Capobianco à frente da Urbia tem legado ao Auditório Ibirapuera o fim de seu caráter público e de seu papel na democratização da cultura e na formação de plateia, fazendo da apropriação privada do bem público um grande negócio.

É preciso apontar as contradições que regulam as relações entre a lógica de funcionamento do capital e o humanismo esclarecido. Afinal, do que vale para a cidade um patrimônio privado interessado em contribuir para o bem comum enquanto outro patrimônio público é privatizado?

3.

A coletiva de imprensa de reabertura do Instituto Capobianco contou com a participação do novo secretário de cultura da cidade, Totó Parente, cuja presença tem se tornado frequente em eventos e círculos culturais da cidade nos últimos meses. Seu voluntarismo parece buscar construir pontes com os diversos setores da cultura, a fim de tranquilizar a classe e demonstrar sua abertura para o diálogo.

É notável a sinceridade com que o secretário assume que seus três meses à frente da gestão da pasta lhe sensibilizaram para a importância da cultura e da manutenção de seu orçamento. Não se esperaria o contrário de um secretário de cultura da maior metrópole da América do Sul. Melhor seria se tivesse conhecimento da área e apresentasse um plano para execução de políticas afinadas com o Plano Municipal de Cultura.

Ainda assim, se a defesa do óbvio não deve ser celebrada, ao menos ela garante um pouco de respiro em meio a uma gestão assumidamente inepta, que tem fracassado na resolução dos problemas estruturais da cidade.

*Lucas Gariani é mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
A rede de proteção do banco Master
28 Nov 2025 Por GERSON ALMEIDA: A fraude bilionária do banco Master expõe a rede de proteção nos bastidores do poder: do Banco Central ao Planalto, quem abriu caminho para o colapso?
2
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
3
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
4
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
5
A poesia de Manuel Bandeira
25 Nov 2025 Por ANDRÉ R. FERNANDES: Por trás do poeta da melancolia íntima, um agudo cronista da desigualdade brasileira. A sociologia escondida nos versos simples de Manuel Bandeira
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
8
A feitiçaria digital nas próximas eleições
27 Nov 2025 Por EUGÊNIO BUCCI: O maior risco para as eleições de 2026 não está nas alianças políticas tradicionais, mas no poder desregulado das big techs, que, abandonando qualquer pretensão de neutralidade, atuam abertamente como aparelhos de propaganda da extrema-direita global
9
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
10
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
11
Totalitarismo tecnológico ou digital
27 Nov 2025 Por CLAUDINEI LUIZ CHITOLINA: A servidão voluntária na era digital: como a IA Generativa, a serviço do capital, nos vigia, controla e aliena com nosso próprio consentimento
12
Argentina – a anorexia da oposição
29 Nov 2025 Por EMILIO CAFASSI: Por que nenhum "nós" consegue desafiar Milei? A crise de imaginação política que paralisa a oposição argentina
13
O parto do pós-bolsonarismo
01 Dec 2025 Por JALDES MENESES: Quando a cabeça da hidra cai, seu corpo se reorganiza em formas mais sutis e perigosas. A verdadeira batalha pelo regime político está apenas começando
14
A voz da saga
30 Nov 2025 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Prefácio do livro “Melhores contos”, de João Guimarães Rosa
15
Por que a Inteligência artificial não faz justiça? – 2
29 Nov 2025 Por ARI MARCELO SOLON & ALAN BRAGANÇA WINTHER: Os fundamentos da ciência da computação e da filosofia do direito mostram que a Inteligência Artificial é estruturalmente incapaz de realizar justiça, pois esta exige historicidade, interpretação contextual e uma "variável caótica" humana que transcende a mera racionalidade algorítmica
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES