A repactuação republicana

Imagem: Eugênio Barboza

Por CRISTIANO ADDARIO DE ABREU*

O fim da Nova República e como poderá ser uma repactuação democrática no Brasil

Como será o Brasil após Jair Bolsonaro? Eis a pergunta que fazemos nesta entrada de 2022 (bicentenário da Independência do Brasil). Todos fazem para nós, historiadores, tal pergunta. Começo focando no simbolismo do ano, que nos força a notar que qualquer independência, se não for cuidada e valorizada pelos interessados, pode ser revertida, como os anos de Bolsonaro no Planalto nos mostram.

Os já mais de sete anos de regressão que o Brasil vive, desde 2013/14, precisa ser revertido, para definirmos uma nova rota de desenvolvimento. É evidente que aquela chamada Nova República, começada nas Diretas Já, que deu na eleição indireta do Tancredo Neves (1985), acabou quando do não reconhecimento da reeleição da presidenta Dilma, pelo neto de Tancredo. O sr. Aécio Neves entrou para a história como o coveiro da Democracia que seu avô trabalhou para gerar. Sua campanha de ódio contra Dilma e o PT acabou destruindo seu próprio partido: o PSDB parece que terá o destino do partido liberal inglês (Whig), que foi esmagado entre Trabalhistas e Conservadores. Enquanto isso, o PT segue sendo, cada vez mais, o partido mais forte do Brasil.

Para pensarmos como será uma repactuação democrática no Brasil, veremos a própria experiência da Nova República. Muitos têm falado do Pacto de Moncloa[i], como um possível modelo para uma repactuação republicana pós Bolsonaro. Seguramente a saída brasileira será uma saída Moncloa: acordada e moderada, sem caça às bruxas. Contudo, reparando na história da Nova República, vê-se que a total falta de julgamento e punição das forças antidemocráticas foi a origem de muitos males. A sociedade brasileira de 2014 era muito diferente, muito mais complexa, do que era em 1964, e ainda assim tais forças golpistas saíram do armário.

Durante todo este período o Brasil, e sua Democracia, mostraram-se mais fortes do que muitos imaginavam. ANVISA, MEC, corpos técnicos de Ministérios: o Brasil tem funcionários públicos concursados, de extrema qualidade que, graças à estabilidade do funcionalismo público, nos têm salvado de catástrofes maiores nesses dias de um governo antinacional, malthusiano, anti-Povo e anticientífico.

Para falar do Brasil pós Bolsonaro, falaremos do que da Nova República sobreviveu ao golpe, e nos tem salvado a democracia. Funcionários públicos concursados e estáveis, agências reguladoras, e as Estatais, as que ainda existem, mostram-se cada vez mais necessárias para uma Democracia forte. As Instituições republicanas eficientes e resistentes precisam ser valorizadas. E, dentre elas, a maior instituição política do Brasil a atravessar esta onda golpista foi um partido político de duas letras: o PT.

 

Valorizar nossa história e nossas instituições políticas

Ocorre, desde 2013, uma guerra contra a política, com campanhas por sua deslegitimação, com um histérico lacerdismo anticorrupção gritado pela mídia. E o foco dessa deslegitimação da Política foi o PT.

O PT é o maior partido do Brasil, esteve em todos os segundos turnos presidenciais da Nova República, desde 1989, e venceu metade deles. Na prática, essa campanha de ódio ao PT, travestida de jornalismo, foi uma campanha da antipolítica, com consequências ainda imensuráveis na história do Brasil. Para derrotarem o PT, a velha direita (globo, PSDB, direita tradicional) abriu as portas do golpismo. Para que, encharcados com tanta campanha contra corrupção (tal como fizeram com Vargas: o mar de lama… do lacerdismo), conseguiram que pessoas que dizem odiar políticos corruptos que nada fazem, elegessem em 2018 um ex-capitão de pornochanchada, do baixo clero parlamentar do centrão, responsável por rachadinhas[ii] e roubo de gasolina[iii], folcloricamente patético, que aprovou só 2 projetos de lei em 28 anos como deputado federal…

Os que dizem odiar parlamentar corrupto/encostado elegem para presidência este deputado. Realmente as palavras perderam conexão com as coisas, abrindo-se um abismo do não diálogo, dessa morte da Política, que é o Brasil bolsonarista, que usa o antipetismo como um espantalho desonesto para os ressentidos. Tal como o nazismo usou o antissemitismo na Alemanha: a culpa de tudo na Alemanha era dos judeus, tal como hoje, para os golpistas/bolsonaristas, a culpa de tudo no Brasil é do PT.

O Judiciário foi fundamental na Alemanha nazi também: dando condenações absurdas para quem era de esquerda, e inocentando, de ações equivalentes, quando os artífices eram de direita. O discurso tóxico, e sonso, de anticorrupção da mídia corporativa, alcançou níveis de guerra midiática na Lavajato. Estávamos no governo Dilma, uma política de perfil técnico, que seguramente foi uma das pessoas mais honestas a pisar em Brasília. Mas, orwellianamente, foi apeada da presidência sem ter cometido nenhum crime de responsabilidade, por um Congresso presidido pelo bandido Eduardo Cunha[iv].

Dilma nem sofreu, sequer, acusação de crime de responsabilidade (único motivo previsto pela Constituição para abrir processo de impeachment), mas foi derrubada, numa inovação jurisprudencial criminosa/oportunista, por…pedaladas fiscais…, algo praticado por todos os presidentes antes e depois dela. Não só rasgamos a Constituição naquela sessão abjeta do impeachment de Dilma, mas aquilo foi uma aula de criminalização da Política. Criminalizaram a política que ousa sair fora da cartilha escolástica do que chamo de gerontoliberalismo[v] (o neoliberalismo).

 

As instituições que precisam se refundar: mídia, Judiciário e Forças Armadas

Curiosamente a mídia cobrou muito uma autocrítica do PT. Mas para uma repactuação democrática, as três instituições que precisariam se refundar são as aqui citadas no subtítulo.

As Forças Armadas é a de trato mais difícil. Mas sua saída do barco bolsonarista também teria que ter um eixo econômico, que eu chamo de pacto geiselzista[vi]. Com defesa de alguma base, e diversificação, industrial interna. Logo, algum nacionalismo econômico. Para haver alguma margem de geração de empregos: assim algum progresso, até para ser possível qualquer ordem mínima na sociedade. Mas, estranhamente, as Forças Armadas se mostram sequestradas ideologicamente pelo liberalismo econômico fundamentalista, e um Atlantismo/Otantismo (OTAN), avesso a qualquer debate de projeto nacional.

Já o Judiciário iniciou sua retirada do golpe, anulando as sentenças viciadas e criminosas da Lavajato, decretando Moro, um juiz que combinava sentença com a Promotoria, o que todos sempre soubemos que ele era: incapaz de ser juiz, por comprometimento com a acusação. O STF saiu do barco golpista, daí tamanho ódio dos bolsonaristas contra eles.

A mídia é que segue em crise narrativa: dizendo-se politicamente contrária a Bolsonaro, mas em economia segue fidelíssima à agenda Paulo Guedes. E aqui está o fio de Ariadne interpretativo para o Labirinto do Brasil golpista: a questão econômica na mídia corporativa do Brasil é o coração do Golpe de 2016.

A saída histórica ao bolsonarismo será quando as forças que apoiaram o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma[vii], e a prisão ilegal de Lula[viii], gerando essa novelização “anticorrupção” seletiva, aceitarem fazer, elas mesmas, uma autocrítica. O Judiciário já desembarcou do golpe. Mas a instituição que segue escondida neste descalabro do bolsonarismo é a mídia corporativa: todas as TVs e grandes rádios e jornais das capitais se recusam a qualquer autocrítica. O centro dinâmico da sociedade brasileira segue manipulado para a direita, com a Globo focando em ser liberal em costumes, pró agenda race and gender, enquanto o massacre antitrabalhista, de destruição de empregos e destruição da legislação trabalhista, com disparada inflacionária, de Paulo Guedes, segue sagrado nas redações da Globo e toda a imprensa.

Neste ponto está o coração do golpe de 2016/2018: is the economy stupid. Defender a paridade feminina nos parlamentos (depois de fazerem campanha para derrubarem sem causas legais a primeira mulher a chegar à presidência da República!) é um figurino perfeito para esta mídia golpista, como na reescrita da história no livro 1984: dirão hoje, no genérico, o oposto do que disseram ontem. O figurino moderninho, de liberal em causas comportamentais, na agenda pró race and gender, é o disfarce ideal para a instituição mídia seguir no golpe, focando apenas na manutenção da agenda econômica, que é, e sempre foi, o coração do golpe. nenhuma autocrítica parece que ocorrerá no monopólio midiático, isso precisará ser forçado. pois isso atacaria a cosmogonia que nos arrastou ao Paulo Guedes: o coração econômico do antipetismo. Se o antipetismo é um fenômeno político, seu combustível, e fim, é econômico.

 

A traição liberal na Nova República

Isso que está ocorrendo agora, da mídia coorporativa brasileira se travestir com algum disfarce liberal, ao fim do baile golpista, com alguma licença poética, podemos dizer que já ocorreu na origem da Nova República. Naquela vez ocorreu como tragédia, hoje ocorre como farsa. Nos anos 1980 o disfarce foi o neoliberalismo. Modismo acadêmico dos anos 1980, cujos ensaios reais foram sob as botas de Pinochet no Chile (1973) e as de Videla na Argentina (1976), que desindustralizaram tais países o quanto puderam. Mas na para-realidade orwelliana da mídia coorporativa, eles se vestiram para a cruzada liberal em economia, casando o totalitário neoliberalismo com a Democracia no pós ditadura brasileira.

A queda do Muro de Berlim e fim da URSS, foi o pano de fundo dos sonhos para esta criação narrativa da mídia, de casar na mente das pessoas o ultraliberalismo econômico com a redemocratização do Brasil. E isso tornou-se uma Guerra Cultural de longa duração no Brasil, que gerou o golpe de 2016: o Brasil pode ter eleições livres, desde que o governo não se afaste, nem minimamente, do dogma totalitário do livre mercado absoluto. A campeã desta agenda de discurso único em economia no Brasil foi, e é, uma empresa de perfil monopolista: a Rede Globo. O grupo de comunicações, com seu jornal carioca, já existia, com sua histórica luta contra Vargas e o Trabalhismo, mas em 1965, no ano seguinte ao Golpe, o canal de TV é criado, quase como uma estatal do regime: seus contratos e licenças têm total perfil monopolista. Sua fundação ocorre numa associação com o grupo norte-americano TIME-LIFE, cuja participação estrangeira era ilegal então[ix].

Ao fim do regime militar, liderada pelo Grupo Globo, toda mídia corporativa do Brasil transformou o neoliberalismo econômico num dogma único em suas redações. Mas o pior não é isso: é que desde o começo da Nova República até hoje é assim! Não há padrões mínimos de democracia se não houver alguma porosidade e discussão das ideias. Quando o debate econômico fica restrito entre mais liberais e ultra liberais… Não há democracia que sobreviva.

E o que é mais orwelliano: numa Nova República (1985-2018) que votou em metade das vezes para presidente no PT, qualquer palavra que apoie as linhas econômicas deste partido, é censurada no debate público desta mídia. Como diria um dos pais do pensamento heterodoxo do Brasil, Amaro Cavalcanti, “…alguma coisa precisa ser alterada, ou na definição, ou no definido”[x].

Como será a repactuação democrática? Só será se passarmos a ter uma mídia, minimamente, democrática: que não censure as ideias econômicas heterodoxas, apoiadas pela maior parte do Povo brasileiro.

 

Ditadura de mídia e novelização da realidade

Mas o problema é que, no Brasil, os grupos midiáticos internos, são todos de propriedade de grupos submissos e ligados umbilicalmente ao sistema financeiro: Folha de S. Paulo (PagSeguro)[xi], Globo (ligada a Órama, além de ter uma fortuna, como uma empresa monopolista sem capital aberto, sua fortuna financeirizada está em grande parte fora do Brasil, país que gerou tal fortuna)[xii] , SBT[xiii], Bandeirantes[xiv]… jornal O Estado de S. Paulo (do Grupo Unibanco/Itaú)[xv]. Tal financeirização total, monopólica da imprensa, tinha que ser ilegal. Temos uma imprensa que não pode expressar outra opinião do que a que beneficia o monopólico sistema financeiro: toda opinião em defesa da indústria e produção é demonizada por essa imprensa de meia dúzia de famílias do capital financeiro.

Isso não é liberdade de imprensa. Isso gerou um monopólio narrativo liberaloide em economia (pois não é nem liberal), que deforma diariamente a visão do brasileiro médio sobre a realidade. Eis aqui a origem do golpe: na falta de uma democracia argumentativa mínima em economia na mídia. O que gerou um petrificado e morto discurso econômico único: uma escolástica totalitária do neoliberalismo. Que desde os anos 1980 repete monopolicamente tal discurso único, endeusando o tal neoliberalismo, que já poderia há muito tempo ser rebatizado de gerontoliberalismo econômico.

A sociedade ignora cada vez mais TVs e rádios abertas (TV aberta é, cada vez mais, para velhos muito pobres). Isso pelo avanço da internet, mas também pelo golpe de 2016: não por acaso, desde então o envenenamento simbólico, antinacional, Dark mesmo, das narrativas de tais canais sobre o Brasil, os têm tornado cada vez mais insuportáveis. E a agenda aplicada pelo sr. Paulo Guedes é a vitória da agenda gerontoliberal, endeusada pela mídia desde 1980, defendida por todos os canais. Defendida também por Moro e Bolsonaro, o Partido “Novo” (a obsessão pela novidade dos anarco-liberais…): todos eles concordam com a economia de Guedes. E a inviabilidade de qualquer sustentabilidade em se manter tal agenda malthusiana por mais anos é tão gritante, que reflete até na tolerância popular em aguentar assistir jornais que latem a mesma mentira em economia há 40 anos…

Moro tentou destruir a Justiça brasileira, Bolsonaro a Política, mas Paulo Guedes destruiu a ilusão, dos analfabetos econômicos, em acreditar no discurso único em economia dessa velha mídia: é intolerável, para 90% do Povo o regime de monopólios privados desregulados, a roubar todo o país, que tal ultraliberalismo nos impõe.

Depois do delírio, manipulado pelos algoritmos das redes sociais, de gritarem por totalitárias soluções simplistas e binárias, que vivemos desde 2013, cada vez mais entende-se que o retorno da valorização da Política é a chave para sairmos desta catástrofe. O caminho do meio, a regular e constante mediação política, será a estrada para sairmos do Labirinto em que fomos atirados. E eis que aqui perguntamos: como repactuar a República, permitindo essa traição liberal seguir intocável na mídia corporativa? Uma democratização midiática do Brasil é a única saída para nossa Repactuação Republicana após o dilúvio. Com o discurso econômico na mídia sendo o que mais se precisa se democratizar.

 

Saída do golpe: repactuação republicana e valorização das instituições

Há uma crise narrativa, da outrora direita tradicional, vocalizada pela mídia, que embarcou no antipetismo. Revalorizar a política e os debates públicos irá recolocar em marcha as forças sociais da redemocratização brasileira. Logo, irá recolocar o PT no centro da política. O embarque no antipetismo foi um mergulho numa novelização negacionista da realidade. O antipetismo é o irracionalismo negacionista da realidade política do Brasil. Pois não quer que o maior e mais organizado partido do Brasil exista. Dizer que topa um compromisse, desde que o PT não exista… é apenas um delírio. Isso é rachar o Brasil, negar sua história, e só jogará o Brasil numa Guerra Civil permanente[xvi].

Pois mesmo imaginando essa distopia de um Brasil sem o PT, as pautas trabalhistas, sociais e humanas, que o PT defende, seguirão na sociedade. Isso lembra a Argentina dos anos do exílio de Perón, quando se propunham leis até para proibir que se pronunciasse o nome Perón, num negacionismo lunático da história política da Argentina: brigar por uma Argentina sem peronismo é como brigar por uma Argentina sem tango. Mas tal negacionismo histérico, antitrabalhista, foi perseguido lá. No Brasil atual o mesmo ocorre com o bizarro fenômeno dessa antipolítica, que é o antipetismo. Querer acabar com o PT é um delírio anti-institucional, contra a história política do Brasil, e suas tradições trabalhistas. O PT é a maior instituição partidária do Brasil, ligado à terceira maior central sindical do mundo (CUT). Ponto.

O Golpe de 1964 combateu a herança varguista e o Trabalhismo. Mas combateram na política, sendo sonsos na economia: mantiveram o tripé econômico de JK (Estatais, capital interno e multinacionais). Mesmo em seu momento mais liberal em economia (Castelo Branco), os militares não destruíram as Estatais. A reforma Campos/Bulhões modernizou as Estatais, e durante o governo Geisel, com o II PND, houve grande aumento delas. Já o Golpe de 2016 foi radicalmente liberaloide em economia: desde Temer destruindo os estoques reguladores, e retirando a obrigatoriedade do imposto sindical, até a apoteose distópica do Ministério Paulo Guedes. A regressão econômica é tão vergonhosa, que ele conseguiu trazer de volta a inflação. E o mais evidente: ninguém no Povo apoia. Em qualquer eleição quem chegar defendendo uma agenda econômica Paulo Guediana terá, no máximo, 3% em eleição presidencial. Apesar do crônico silencio acovardado do Povo, a discordância popular é total.

 

Precisamos voltar a falar: estatais

Há uma ampla e articulada produção intelectual brasileira sobre nossa História Econômica[xvii]. O Brasil, junto ao Japão e URSS, foi o país que mais cresceu no mundo, entre 1930 e 1980. Não por acaso o período em que estruturamos Planos quinquenais, planificações, e estruturamos as… Estatais. Essa palavra foi proibida nas redações da mídia corporativa, mas ela é a base da alocação de recursos otimizados, em longo prazo, para a produção real, de uma forma que o capital privado, extrativista e curto prazista, jamais consegue fazer. Hoje o agronegócio é estrela do nosso superávit comercial, mas fingem esquecer que o que fez isso possível foi uma estatal: EMBRAPA. Que, entre outras coisas, domesticou a soja, de clima temperado, para o cerrado. Curioso como os EUA não privatizam a NASA, empresa Estatal americana na vanguarda tecnológica de toda produção de maior valor agregado daquele país.

O pensamento econômico heterodoxo brasileiro precisa furar a ditadura midiática no Brasil, e exigir ser escutado: repactuar a República é democratizar a mídia, que precisará parar de censurar a palavra Estatais.

 

Agenda desenvolvimentista e hegemonia política do PT

O mundo vive uma crise de hegemonia entre EUA e China. Que está longe de acabar[xviii]. É a hora perfeita para um país de renda média, ainda mais do porte gigante do Brasil, completar seu desenvolvimento, retirando das partes em disputa maiores vantagens. Como Vargas fez na última grande disputa intracapitalista, vivida entre Alemanha e EUA: não por acaso a CSN (1943), e uma série de cadeias industriais do Brasil surgiram então. Com a atual crise ecológica, tal posição estratégica do Brasil tornava-se ainda mais confortável para nos desenvolvermos: qualquer que seja a base energética (eólica, das marés, hidráulica, biomassa, petróleo…) o Brasil é rico: basta atrelar, obrigatoriamente, cadeias industriais à extração energética. Como Canadá e Noruega fazem.

O PT, quando consolidado no executivo federal pelo voto popular, copiou o modelo norueguês e canadense, e mostrou sua estratégia de desenvolvimento industrial com os decretos presidenciais para a exploração do Pré-Sal, com: (1) conteúdo nacional de 1/3 de todo material industrial usado na exploração; (2) regime de partilha com a Petrobrás,(algo nada radicalmente nacionalista… bem moderado até), e; (3) Fundo Soberano[xix] para saúde e educação.

Pois o golpe de 2016 veio para impedir que este projeto se consolidasse[xx], com o qual o Brasil se tornaria um país de renda alta, sem pobreza extrema, importando trabalhadores para dar conta da criação de empregos industriais que teríamos. Mas é claro: o PT ficaria mais uns 60 anos na presidência do Brasil, liderando politicamente nosso salto desenvolvimentista. O que teria sido ótimo: todo país que se desenvolveu o fez com um grupo político hegemônico no poder. Como o partido republicano de Lincoln, que da Guerra Civil até a I Guerra, monopolizou a Casa Branca nos EUA, a socialdemocracia na Suécia (mais de 50 anos no poder), ou de Gaulle na França do pós guerra. Sem hegemonia política, não há desenvolvimento econômico completo e sustentável: há só voos de galinha. Economia é política concentrada.

Curioso, como o induzido ódio ao PT, cegou as parcelas médias da sociedade brasileira para este fato: de que uma hegemonia do PT lhes favoreceria economicamente. A antiga classe média, que ascendeu socialmente com o PT na presidência, e de 2016 em diante vive uma acelerada regressão econômica, tem uma obsessão política, e uma cegueira econômica com relação ao PT. O que torna essa classe média, orwellianamente, tão contra seus próprios interesses é a mídia monopolista lhe manipulando o ódio à ascensão dos mais humildes, que o PT também fez. Mas de novo a mídia, e as seitas evangélicas, fizeram esse discurso elitista da classe média escorrer para a boca dos pobres(e até lá chegou o antipetismo).

Sempre com o discurso único da mídia monopólica repetindo alguns vetores pavlovianos enfiados na população, de forma totalitária por esta mídia. A saber: (1) o discurso auto meritocrático de que minha vitória econômica é só minha, (there is no such thing as Society[xxi]). Aqui há um casamento do gerontoliberalismo com a ideologia da predestinação, tão gritada nas seitas evangélicas, mas que penetra em toda a sociedade, sobretudo pelas novelas: eu sou predestinado, eu ficarei rico, eu vencerei… E o pronome nós é ocultado deliberadamente: pois toda riqueza é, em grande parte, uma construção coletiva que exige repartição, e convida à divisão de responsabilidades e dos retornos. Em qualquer sociedade é assim. Inclusive na capitalista. Como os EUA, uma sociedade profundamente contratualista, nos mostra: direitos e deveres se contrapõem, contratos e sindicatos precisam ser respeitados para o funcionamento do capitalismo. Mas na novelização ególatra, que TVs e seitas evangélicas criaram no povo brasileiro, a predestinação para a riqueza se tornou uma ideologia fantasmagórica, descolada do coletivo, que é onde o trabalho, de fato, existe.

Exemplo: o campeão olímpico de canoagem, que saiu do interior pobre da Bahia (graças às políticas públicas criadas nos anos do PT), é mostrado no jornal como campeão apenas graças aos seus esforços individuais: toda construção coletiva, e pública, por trás, é apagada da narrativa novelizada dos jornais, para forçarem esta visão predestinadora da realidade. Caso pudessem, os jornais apagariam o BNDES (banco público nacional) estampado nas camisas de todos os atletas do Brasil. A mensagem é totalitária: vitórias são feitos privados, enquanto derrotas são problemas públicos. A corrupção é só a pública nessa mídia, nunca coorporativa e privada. E por aí vai.

(2) Ódio à pobreza. Neste ponto há uma continuidade com o primeiro, pois a predestinação de que eu ficarei rico, de que todas minhas vitórias econômicas nada têm de coletivo, culminam neste segundo ponto: o ódio à pobreza. Mesmo que o sujeito seja ele mesmo, como em 99% dos casos, pobre também. Nisso há um ódio a si mesmo, ódio ao Brasil, exalado das pessoas sob esta novelização da realidade. O impatriotismo militante, e o estímulo a um auto racismo antibrasileiro é algo que exala daí também, e é central na manipulação que nos atitou no Golpe regressivo de 2016. O Brasil estava estrategicamente colocado para ser uma força secundária em ascensão na disputa EUA/China. O Golpe, derrubando uma presidente eleita que governava num Brasil quase em pleno emprego, foi obra das forças financeiras (nacionais/internacionais) para impedir o desenvolvimento do Brasil. Os 40 anos de combate à indústria no Brasil, desde os 1980, é obra da mídia monopólica (financeirizada): os contrários ao protecionismo no séc. XIX criticavam as indústrias artificiais, pois seus descendentes liberaloides realizam uma campanha tão irracional, que com o Golpe de 2016 conseguiram gerar a distopia liberaloide de uma desindustrialização artificial no Brasil.

 

Uma autocrítica que o PT precisa fazer: como politizar a maioria beneficiada por suas políticas?

Economia é política concentrada, e política só se faz sobre uma base cultural. Os evangélicos e o público de TV, os novelizados, acreditam numa predestinação seletiva: o ruim da vida deles é público, o bom é privatizado. Toda vitória econômica é privatizada, com todas as políticas públicas que lastrearam os grupos econômicos vitoriosos em certas gerações (Era Vargas, anos JK, milagre econômico, anos Lula/Dilma) sendo esquecidas as políticas econômicas que permitiram tais enriquecimentos pessoais. A coletividade é ignorada nesta ideologia da predestinação novelizada, de grupos evangélicos ou não. Os que ascenderam às Universidades graças ao FIES, PROUNE, e expansão das federais, muitos oriundos de origem humilde, esquecem tais políticas públicas que lhes abriram as portas das oportunidades culturais e econômicas, e muitos privatizam suas vitórias em suas mentes

Curiosamente, tal juventude universitária de origem humilde, em grande parte, é muito moralista, com posturas regressivas quanto à sexualidade, por vezes até praticantes de abstinência sexual, e conservadores politicamente também. No privado e no público grande parte é avessa ao coletivo, atualizando o grande historiador paulista Sergio Buarque de Holanda, são os “homens cordiais”, que tudo trazem para uma esfera familiar, personalista: o que é Público, coletivo, não lhes interessa, só o que se apresenta privatizado, em privilégios, lhes interessa. Também, muitas vezes, são culturalmente conservadores, não aproveitando as oportunidades culturais das suas Universidades e das cidades grandes: adestrados pela TV, não têm estrutura de acolhimento para os bens e oportunidades culturais com as quais tomam contato, preferindo se restringir mentalmente, escolhem ter como centro cultural a TV, ou a internet de perfil televisivo popularesco.

No maio de 1968 na França, foi muito clara a percepção da força de uma geração de filhos de operários chegando pela primeira vez à Universidade, estando tal fato social na base dos levantes estudantis que juntaram Marx e Freud nas ruas da França. Les Trente ans Glorieuses, como são conhecidos os anos keynesianos do pós guerra na França, viram a universalização do acesso à universidade gerar um levante cultural libertador.

No Brasil lulista, a extraordinária acessão educacional das classes populares, realizada pelo PT, teve como consequência cultural um levante do reacionarismo popular mais moralista: filhos de famílias humildes, sem formação sindical em suas famílias, têm suas referências culturais presas em novelas e igrejas. Os trabalhadores sindicalizados fortalecem a educação política das massas, por isso a necessidade de defesa da sindicalização, como foi o caso da França dos anos 1960/70, e por isso precisamos defender os sindicatos no Brasil.

Por isso o ódio ao PT no Brasil golpista: sindicalizar educa politicamente o Povo. Mas os filhos de famílias humildes, que ascenderam pelas políticas públicas do PT, reproduzem o discurso da predestinação novelizada: suas vitórias são só pessoais, e odeiam os pobres (de onde emergiram). Assim fortalecem um mundo cultural regressivo, moralista, avesso à política, e privatista. O discurso moralistoide do lavajatismo lhes encanta, e mesmo a talebanização evangélica dos comportamentos é, muitas vezes, vista com simpatias, quando não apoiada.

Resumindo: num fenômeno cultural oposto ao de 1968 na França, essa juventude apolítica/reacionária favoreceu o levante fascista de 2016. Por mais que este levante seja contrário aos seus interesses, e aos de suas famílias, essa juventude de origem humilde não se organizou contra o Golpe, em nenhum momento. Ou, em muitos casos, apoiou de forma difusa o Golpe contra o ensaio rooseveltiano do PT, que os tirou da beira da estrada, e os incluiu no orçamento. A esquerda brasileira precisa ter coragem política para olhar para este problema desagradável: este exército de jovens reacionários. Rastrear, e entender, como tal frankestein histórico foi possível é o começo da solução. Sem se pensar, seriamente, num plano cultural e político corajoso para essa parcela da juventude brasileira, não haverá saída progressista para o Brasil pós Bolsonaro.

 

Cultura e produção, com o retorno das estatais

Sou um historiador econômico, especializado na origem do pensamento econômico heterodoxo no Brasil e nos EUA. Meu tempo de estudo é o século XIX, o século Romântico. E é muito curioso ler os autores desse século, pois é um século que ainda tinha escravidão, e as misérias eram muitas. Lendo Victor Hugo, Dickens, ou Marx, a impressão que temos é que a Europa era uma grande favela no século XIX. Não obstante as dificuldades, os autores desse século são cheios de esperança e confiança no progresso humano. Suspeito que, mesmo com todos nossos problemas, para construirmos as soluções hoje, precisamos de mais esperança e alegria. Pois temos motivos, uma vez que há soluções, e nossa experiência histórica é plena de ensinamentos.

O Brasil do começo da República[xxii] era um país fragilíssimo, saindo da escravidão, sem diversidade produtiva relevante, enquanto o centro do capitalismo entrava na segunda revolução industrial. Nosso atraso relativo era assustador, maior do que é hoje, em relação aos centros. Mas de 1930 até 1980 tivemos um crescimento extraordinário. Nossa entrada na segunda revolução industrial deu-se a partir dos anos 1940, via Estatais. Pois é exatamente isso o que devemos retomar, como base para projetos produtivos de longo prazo, para o Brasil.

O fosso relativo que se abriu nestas terceira e quarta revoluções industriais, a da digitalidade, precisará ser atacada como questão estratégica. O Brasil hoje está sendo recolonizado pelas Big Techs (Amazon, Apple, Facebook/Whatsapp, Google, Microsoft): caso um ataque digital ocorra, as pessoas não conseguem se comunicar ou trabalhar mais. Isso é uma questão de segurança comunicacional, que é sim, questão de segurança nacional, que na Universidade pública estamos tentando colocar destaque, e tratar como questão estratégica. Um correio público é estratégico, e um e-mail e whatsapp do correio são exigências comunicacionais do século XXI, que precisaremos encarar, como questão de segurança nacional. Fazer um e-mail do correio público[xxiii], obrigatório para tirar passaporte, e acessar qualquer função do Estado, será algo que precisará ser feito logo. E que seja vinculado ao imposto de renda: taxando os mais ricos, e gratuito aos isentos do imposto de renda.

 

Conclusão

O quadro de uma Repactuação Republicana precisa democratizar a mídia, com a democratização da narrativa histórica, obrigando as corporações midiáticas a aceitarem como presença obrigatória constante nas redações os economistas heterodoxos. Uma TV pública nacional, mas com recursos, seria uma excelente quebra do monopólio narrativo da mídia. No Brasil quem quebra o monopólio é o Estado quando democratizado.

Uma agenda reestatizante precisa voltar a emanar das forçar populares: essa pauta precisa voltar a pesar na agenda parlamentar do ano que vem, sobretudo na base petista. O coração do Golpe de 2016 foi o Pré-Sal e o plano de partilha e conteúdo nacional dele. Saiu um artigo do Guido Mantega[xxiv] dando diretrizes econômicas num, provável, retorno do PT ao Planalto. Com todo o respeito, mas diante desta pandemia crônica e do estagnacionismo estrutural, precisaremos de algo mais audacioso, cujo eixo, proponho, seja quebrar os monopólios privados criando empresas brasileiras Estatais, para destruir as correntes estagnacionistas que nos foram presas desde os anos 1990.

Na Guerra Civil brasileira: a causa perdida segue sendo a agenda desenvolvimentista. A péssima internet do Brasil precisa de uma opção nacional, uma NETCOMBRAS(sic), a ampliar os serviços com qualidade e regular preços. Como e-mail e rede de comunicação do Correio, nos libertando do monopólio das Big Techs. Caberia até que seja recriada, como Estatal, a ODEBRECHT, com esse nome mesmo. Como um simbolismo da luta pela industrialização no Brasil, a não permitir a destruição produtiva e empregatícia, pela desculpa de combate à corrupção. Caso ocorra corrupção, que se julguem e condenem as diretorias, mas jamais destruam a empresa.

Ninguém adulto acredita que o problema do PT (para os golpistas) tenha sido a corrupção (o PT que criou os dois melhores instrumentos institucionais de combate à corrupção: a Lei de Acesso à Informação[xxv], e o Portal Transparência[xxvi]), o que eles combateram foi a perspectiva de um forte crescimento de cadeias industriais no Brasil, atreladas à exploração do Pré-Sal. Sair do golpismo é forçar uma contra narrativa, escorada em nossa história de sucesso de luta pela industrialização, que dê em resultados produtivos, via reestruturação e criação de Estatais. Para assim passar a ter uma sindicalização crescente do Povo, a lhe dar uma escola política viva, e revertermos o golpismo estrutural, cujo plano é nos tornar uma colônia extrativista desindustrializada. Aceitar isso, em pleno centenário da independência é esquecer e negar uma fantástica história de superações.

*Cristiano Addario de Abreu é doutorando do Programa de História Econômica na USP.

 

Notas


[i] https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/pacto-de-moncloa-que-inspira-presidentes-do-brasil-marca-espanha-nos-anos-70-17019322

[ii] https://www.poder360.com.br/justica/quebras-de-sigilo-revelam-indicios-de-rachadinhas-de-jair-bolsonaro-e-carlos/

[iii] https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2020/04/30/acusacao-de-que-bolsonaro-teria-fraudado-cota-parlamentar-e-encaminhada-a-pgr.ghtml

[iv] https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2020/09/09/eduardo-cunha-e-condenado-a-15-anos-de-prisao-por-corrupcao-passiva-e-lavagem-de-dinheiro-na-lava-jato-no-parana.ghtml

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/com-condenacoes-que-superam-55-anos-cunha-depos-sem-algemas-nem-tornozeleira/

[v] https://gmarx.fflch.usp.br/boletim-ano2-09 POR UMA EDIPIANA REPACTUAÇÃO KEYNESIANA FRENTE AO GERONTOLIBERALISMO MINOTÁURICO

[vi] https://revistaforum.com.br/debates/guerra-civil-brasileira-ii-rale-empoderada-por-cristiano-abreu/

[vii] https://www.justificando.com/2017/08/31/dilma-rousseff-foi-afastada-do-cargo-sem-ter-cometido-crime-de-responsabilidade/

[viii] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56327483

[ix] https://memoriaglobo.globo.com/acusacoes-falsas/caso-time-life/

[x] CAVALCANTI, Amaro. O Meio Circulante Nacional (1808-1835). Ed. Universidade de Brasília. Brasília, 1983. Pg. 3.

[xi] https://pagseguro.uol.com.br/sobre/#rmcl

[xii] https://valor.globo.com/financas/noticia/2017/06/21/globo-compra-fatia-minoritaria-na-orama-1.ghtml

[xiii] https://investidorsardinha.r7.com/opiniao/como-silvio-santos-quebrou-banco/ https://www.poder360.com.br/midia/sbt-completa-40-anos-como-plataforma-para-negocios-de-silvio-santos/

[xiv] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/11/band-fecha-acordo-com-tv-estatal-chinesa.shtml https://braziljournal.com/na-band-a-maioria-dos-acionistas-quer-mudar-de-canal

[xv] https://www.youtube.com/watch?v=_P_v3a0kE4Q&t=1891s

[xvi] https://revistaforum.com.br/debates/guerra-civil-brasileira-i-o-inquestionavel-dogma-do-mercado-por-cristiano-abreu/

[xvii] https://congressohistoriaeconomica.fflch.usp.br/

https://www.youtube.com/channel/UCyG-X28drZfxWVLGES3XS7Q https://www.youtube.com/watch?v=0PRgYzHFb0w&t=5140s

[xviii] https://www.economist.com/the-world-ahead/2021/11/08/rivalry-between-america-and-china-will-shape-the-post-covid-world?utm_medium=social-media.content.np&utm_source=facebook&utm_campaign=editorial-social&utm_content=discovery.content&fbclid=IwAR2FNqk3OWOg83y6kiyHoTZqhWsQ7pUNYQ8if-COvXDgB7rGPM_jUGj6Hao

[xix] https://www.gov.br/tesouronacional/en/fundo-soberano-do-brasil-fsb

[xx] https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-12/presidente-da-petrobras-defende-fim-do-regime-de-partilha

[xxi] https://newlearningonline.com/new-learning/chapter-4/margaret-thatcher-theres-no-such-thing-as-society

[xxii] https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-31032015-113729/pt-br.php

[xxiii] https://www.youtube.com/watch?v=XhVOL9eb-Q0&t=3876s “A Ciência no Brasil e o conceito de soberania nacional na Geopolítica mundial atual”

[xxiv] https://pt.org.br/bolsonarismo-levou-brasil-a-crise-e-retomada-vira-com-o-seu-fim/

[xxv] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_acesso_%C3%A0_informa%C3%A7%C3%A3o

[xxvi] https://www.portaltransparencia.gov.br/sobre/o-que-e-e-como-funciona