A vacinação na redução do impacto da COVID-19 – algumas considerações

Foto de Hamilton Grimaldi

Por GIL VICENTE REIS DE FIGUEIREDO*

A imunização vem desempenhando um papel decisivo na redução de óbitos por COVID-19

Introdução

Neste final de 2021, quase um ano após o início da aplicação de vacinas contra a COVID-19, houve uma redução drástica de casos e de óbitos em um número importante de países, enquanto que, em outros, registra-se uma nova onda da doença.

Para entender um pouco melhor essa complexa situação apresentamos a seguir alguns dados que relacionam três dos múltiplos fatores que condicionam e descrevem o impacto da presente pandemia: quantidade de vacinas aplicadas, por 100 habitantes; estrutura etária e número de óbitos por dia por milhão de habitantes.

Não há aqui a menor pretensão de haver esgotado com isso a compreensão da dimensão e da heterogeneidade da doença no mundo, ou da dinâmica deste período de pós vacinação, posto que há outros múltiplos fatores dos quais a transmissão comunitária, o número de casos e o de óbitos depende: mobilidade urbana, e apoio econômico suficiente para reduzi-la; clima, que influi no confinamento em ambientes fechados; disponibilidade de equipamentos de proteção individual (máscaras, álcool gel, etc.); número de habitantes por metro quadrado e em cada unidade habitacional; hábitos culturais, que influenciam um maior ou menor distanciamento social e, também, o grau de aceitação da vacinação – dentre outros. Contudo, a partir dos dados que se seguem é possível observar alguns padrões presentes no estágio atual da pandemia.

 

Vacinação no mundo

O andamento das campanhas de vacinação nos diferentes países tem sido muito diferenciado. De forma geral, os países ditos ‘desenvolvidos’ têm tido acesso privilegiado às doses vacinais, em detrimento da maioria dos classificados como ‘em desenvolvimento’. O Brasil ocupa um lugar especialmente dramático nesse cenário, pois, sendo um país que, em tese, poderia ter iniciado a imunização de forma relativamente precoce, foi gravemente prejudicado pela demora excessiva no enfrentamento da pandemia, resultado de um boicote oficial sistemático que foi desde a minimização dos efeitos do vírus até a propaganda permanente contra o distanciamento social, o uso de máscaras e a adoção das demais precauções sanitárias. Como consequência, o processo de vacinação foi deflagrado tardiamente, com a subsequente e evitável perda de centenas de milhares de vidas.

O quadro abaixo dá os números da vacinação no presente momento (23 de novembro de 2021), em termos do número de doses aplicadas, por 100 habitantes, em cada um dos 62 países listados.

Tabela 1: Número de doses aplicadas em 23 de novembro de 2021, por 100 habitantes
Fonte: https://ourworldindata.org/coronavirus
Acesso em 23 de novembro de 2021[i]

Óbitos por COVID-19 no mundo

Já a média móvel de 7 dias de óbitos por milhão de habitantes, por dia, é a seguinte:

Tabela 2: Número de óbitos por dia por milhão de habitantes (média móvel de 7 dias), em 23 de novembro de 2021
Fonte: https://ourworldindata.org/coronavirus

Acesso em 23 de novembro de 2021[ii]


Vacinação x óbitos

Gráfico 1: Média móvel (7d) de óbitos por dia, por milhão de habitantes x Vacinação, expressa em total de doses por 100 habitantes[iii]

 

 Vacinação x óbitos: algumas considerações

Uma conclusão imediata e alvissareira salta à vista quando se compara, no dia 23 de novembro de 2021, o número de óbitos com o nível de imunização das populações:em todos os países onde se ultrapassou o patamar de pelo menos 150 doses aplicadas para cada 100 habitantes – algo da ordem de 70% da população com vacinação completa – o número de óbitos foi reduzido fortemente, não ultrapassando a casa dos 2 por milhão de habitantes por dia (média móvel de 7 dias), ou o equivalente, no Brasil, a cerca de 400 óbitos/dia.Em outras palavras, nas duas dezenas de países em que a vacinação atingiu ou superou a casa dos 70% da população verifica-se que o número de óbitos é hoje da ordem de grandeza de 2 por milhão de habitantes, por dia, ou menos do que isso. Esse é um fato muito positivo e, ao mesmo tempo, trágico, porque significa que, se o processo de imunização não tivesse tardado mais do que deveria, poderíamos ter salvo um número expressivo de vidas no nosso País.

Verifica-se também, a partir dos dados apresentados, que, quando o nível de vacinação é mais baixo, não necessariamente está em curso o que se convencionou chamar da ‘quarta onda da COVID-19’.

Para entender melhor a situação, do ponto de vista geográfico, construímos abaixo duas representações gráficas.

A primeira, constante do Gráfico 2, em que os países menos vacinados aparecem em cor mais escura (o índice utilizado aqui foi o inverso da vacinação – veja nota de rodapé, adiante, para os necessários detalhes). E a segunda, conforme está no Gráfico 3, em que os países mais impactados, em termos da média móvel de 7 dias do número de óbitos por dia, por milhão de habitantes, aparecem também em cor mais escura.

Vê-se com clareza, comparando o Gráfico 2 com o Gráfico 3, que há uma coincidência quando se olha apenas para os países de zonas temperadas: quanto menos vacinados, mais óbitos. No caso desses países o Gráfico 1 mostra que quando a vacinação está abaixo de 150 doses por 100 habitantes – o que corresponde aos rótulos de países marcados com as cores amarelo e vermelho – a incidência do número de óbitos é inversamente proporcional à quantidade de pessoas vacinadas.

Nos trópicos, contudo, há lugares em que a vacinação acumulada até o momento é reduzida e, ainda assim, o número de óbitos mantem-se em níveis baixos – esses são os países marcados com a cor azul, no Gráfico 1.

Gráfico 2: Inverso da vacinação (quanto menos vacinados, mais escuro)

Gráfico 3: Óbitos, média móvel de 7 dias de mortes por milhão de habitantes (quanto mais óbitos, mais escuro)[iv]

Uma análise mais detalhada, contudo, revela que essa diferença não se limita a questões de natureza geográfica ou climática. Há um outro fator – e seguramente não será o único – que tem importância estatística: é a estrutura da pirâmide etária nos países em estudo, o que pode ser visto comparando os marcados em vermelho com os que estão em azul (no Gráfico 1). É o que mostra a Tabela 3.

Tabela 3: Vacinação, óbitos e percentuais da população acima de 70 anos.

23 de novembro de 2021, Fonte: Our World in Data, https://ourworldindata.org/coronavirus. Elaboração: Gil Vicente Reis de Figueiredo

 

A Tabela 3 nos mostra que os países com baixa vacinação e, ao mesmo tempo, número reduzido de óbitos, apresentam em suas populações baixos percentuais de idosos (idade ≥ 70 anos), no patamar de 2% – 3% da população, enquanto os que, nas mesmas condições, enfrentam a ‘quarta onda’, esse percentual se situa na faixa 7% – 13%, mais do triplo, portanto. Vale observar que para esse diferencial de óbitos provavelmente contribui também a influência de fatores climáticos (aproxima-se o inverno no hemisfério norte), que levam à maior concentração de pessoas em espaços fechados. Os dados disponíveis mostram, pois, que em países com poucos idosos a diminuição dos óbitos é alcançada com um percentual relativamente baixo de imunização; e que, mesmo onde há mais idosos, o número de óbitos é pequeno naqueles em que a vacinação avançou suficientemente. Já é possível concluir, ainda que devamos estar atentos a desdobramentos futuros, que a imunização vem desempenhando um papel decisivo na redução de óbitos por COVID-19.

*Gil Vicente Reis de Figueiredo é professor aposentado do Departamento de Matemática da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

 

Notas


[i]https://ourworldindata.org/grapher/covid-vaccination-doses-per-capita?tab=map&time=latestCOVID-19 vaccine doses administered per 100 people, Nov 23, 2021

[ii]https://ourworldindata.org/explorers/coronavirus-data-explorer?zoomToSelection=true&time=2020-03-01..latest&facet=none&pickerSort=desc&pickerMetric=new_deaths_per_million&Metric=Confirmed+deaths&Interval=7-day+rolling+average&Relative+to+Population=true&Align+outbreaks=falseDados disponíveis em COVID-19 Data Explorer, Daily new confirmed COVID-19 deaths permillionpeople7-day rollingaverage.

[iii]Óbitos no eixo vertical. Vacinação no eixo horizontal. 23 de novembro de 2021, Fonte: Our World in Data, https://ourworldindata.org/coronavirus.Elaboração: Gil Vicente Reis de Figueiredo

[iv]Média móvel de 7 dias do número de óbitos por dia, por milhão de habitantes. Os países analisados são os constantes da Tabela 1. 23 de novembro de 2021, Fonte: Our World in Data, https://ourworldindata.org/coronavirus Elaboração: Gil Vicente Reis de Figueiredo.