Aceleracionismo e cosmovisões

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Por MATHEUS CASTELO BRANCO DIAS*

Enquanto o aceleracionismo prega a aceleração uniforme, as cosmovisões amazônicas lembram que cada modo de existência tem seu ritmo, e a floresta não obedece o mesmo tempo que o do capital

1.

Existe um momento peculiar nas madrugadas de trabalho em que a mente, cansada mas ainda alerta, começa a traçar conexões inusitadas. Foi em uma dessas ocasiões que me vi ponderando sobre o que parecia ser um completo desencontro: as proposições do aceleracionismo de Nick Land e as cosmovisões dos povos indígenas amazônicos. Mais do que um exercício de comparação, tornou-se uma reflexão sobre a própria natureza do pensamento teórico quando confrontado com realidades radicalmente distintas.

O aceleracionismo para Nick Land representa uma corrente de pensamento que defende a aceleração dos processos sociais por meio da tecnologia como motor de transformações radicais na sociedade, a tecnologia é vista como um mecanismo de transcendência perante as limitações do sistema atual. Trata-se de uma posição que vê na intensificação, e não na contenção, o caminho para superação das estruturas existentes.

Nick Land propõe que devemos levar a lógica capitalista às suas últimas consequências, acelerando seus processos até o ponto de colapso transformador, uma proposta minimamente sedutora para uma geração esgotada perante o círculo vicioso de contradições que o capitalismo como organismo máximo da sociabilidade gera nos sentimentos, do meu até o seu, caro(a) leitor(a).

Mas estamos na Amazônia, pelo menos eu estou, estamos falando de particularidades intrinsecamente condicionadas sobre nosso ser social. Ao examinar esta proposta à luz das cosmovisões amazônicas, encontramos não uma simples discordância, mas diferenças fundamentais que começam pela própria concepção de realidade.

O trabalho do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro nos oferece aqui uma chave importante. Seu conceito de perspectivismo ameríndio descreve um universo onde humanos, animais e espíritos compartilham uma condição subjetiva comum, mas experimentam o mundo a partir de corpos diferentes.

Enquanto o aceleracionismo opera dentro de um quadro que presume uma realidade universal passível de aceleração uniforme, o perspectivismo nos apresenta um pluriverso onde diferentes modos de existência demandam diferentes temporalidades e ritmos, nos remetendo inclusive aos conceitos rizomáticos presentes em Deleuze e Guatarri, somos uma teia de multiplicidades e devemos ser lidos a partir destas concepções.

2.

Esta diferença se aprofunda quando consideramos as estruturas políticas. Pierre Clastres, em sua obra fundamental, A sociedade contra o Estado, demonstra como muitas sociedades indígenas desenvolveram mecanismos sofisticados para evitar a concentração de poder. O que ele chamou de “sociedade contra o Estado” representa uma organização social que opera através de freios e contrapesos à autoridade centralizada.

Neste aspecto, enquanto o aceleracionismo de Nick Land, que passarei a nomear de aceleracionismo landiano, prega a dissolução das instituições através da aceleração, do esgotamento radical da institucionalidade estatal através da aceleração provinda da tecnologia dos meios de produção de sociabilidade, economicidade e da mentalidade coletiva, as sociedades indígenas criaram arranjos que impedem a própria emergência de estruturas estatais coercitivas, ou seja, um tempo completamente distinto frente a um mesmo contraponto, um contraponto ás contradições das instituições do Estado Moderno.

A questão do tempo revela outro ponto de divergência conceitual. Ailton Krenak tem argumentado de forma persuasiva sobre a incompatibilidade entre a noção ocidental de tempo linear e progressivo e as temporalidades cíclicas que regem a floresta e seus povos. Para Ailton Krenak, a ideia de progresso como aceleração em direção a um futuro abstraído dos ritmos naturais representa uma ruptura problemática com os ciclos vitais que sustentam a existência.

O antropólogo Philippe Descola, em seu trabalho sobre ontologias e a relação homemnatureza, oferece uma perspectiva adicional valiosa. Sua tipologia das formas de identificar e relacionar-se com a natureza nos ajuda a entender que o que o aceleracionismo vê como recursos a serem transformados e explorados radicalmente, muitas cosmovisões amazônicas veem como parentes com os quais se mantém relações de reciprocidade. Esta diferença ontológica fundamental coloca em questão a própria possibilidade de aplicar uma lógica uniforme de aceleração a realidades tão diversas.

Davi Kopenawa fornece talvez a expressão mais eloquente desta diferença. Em sua cosmovisão e cosmopolítica yanomami, a floresta demonstra-se um ser vivo com quem se mantém um diálogo constante, isso mesmo, a relação homem-floresta une aspectos metafísicos e materialistas nas concepções de relações sociais e fenomenológicas a partir da cosmovisão Yanomami.

As intervenções predatórias não são vistas simplesmente como danos ambientais, mas como rupturas em relações cosmológicas mais amplas. O que ele chama de xawara representa não apenas a doença física, mas o desequilíbrio cósmico resultante da quebra dessas relações.

3.

Michael Taussig, por sua vez, nos mostra como as práticas xamânicas podem ser entendidas como formas de conhecimento que operam através de lógicas distintas da racionalidade ocidental moderna. Seu estudo sugere que o xamanismo funciona como um sistema de mediação entre diferentes ordens de realidade, oferecendo modos de compreensão e ação que não se subordinam à lógica da aceleração landiana, esse xamanismo de caracteristicas não somente esotéricas, mas materiais como rituais que geram concepções físicas, mentalidade de aplicação do agir e do sentir por parte daqueles que o reproduzem, aqui em especial menciono os povos indígenas da Amazônia, mas podemos também incluir o nosso próprio ser social que deriva de culturas e ancestralidades destes, não consegue encaixar-se de forma alguma em uma teoria que busca o colapso de forma técnica e cientifica.

Ao final desta reflexão, percebo que não se trata de declarar uma posição superior à outra, mas de reconhecer que estamos diante de universos conceituais com premissas fundamentais distintas. O aceleracionismo opera dentro de um quadro que presume a possibilidade e desejabilidade de uma aceleração uniforme dos processos sociais e tecnológicos. As cosmovisões amazônicas, por outro lado, nos lembram que diferentes modos de existência podem demandar diferentes temporalidades, diferentes ritmos, diferentes velocidades.

Talvez a lição mais valiosa deste exercício intelectual esteja justamente em nos lembrar que a aceleração, como conceito, não é universal, mas situada. E que antes de aplicarmos qualquer receita teórica ao mundo, precisamos nos perguntar: para quem e sob quais condições esta aceleração faz sentido? A resposta pode nos levar a um entendimento mais nuancado tanto das potencialidades quanto dos limites do pensamento aceleracionista.

Cabe a nós, levar a vida no tempo que for necessário e no qual nossa cultura e forma de ser habita, e quanto ao aceleracionismo landiano, é divertido e as vezes rigorosamente necessário academicamente falando, sobretudo para posicionar novos estudos anti-sistema e atualizar as dinâmicas de debates filosóficos para as pujantes caracteristicas efêmeras presentes no século XXI.

Mas ressaltando como amazônida que sou, vamos com calma, podemos desacelerar o capitalismo no ritmo que bem entendermos também, as nossas multiplicidades e diversas formas de resistências e existências estão ai para provar, onde Nick Land pelo menos por enquanto nem imagina!

*Matheus Castelo Branco Dias é mestrando em ciência política na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Referências


CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, Vol. 1. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira e Cláudia Barcellos. São Paulo: Editora 34, 1995

DESCOLA, Philippe. Beyond Nature and Culture. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LAND, Nick. Fanged Noumena: Collected Writings 1987–2007. Falmouth: Urbanomic, 2011.

TAUSSIG, Michael. Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem. São Paulo: Unesp, 2019.


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