Ainda estou aqui – humanismo eficiente e despolitizado

Marcelo Guimarães Lima, Jardim Oculto, pintura digital, 21x29cm, 2023
image_pdf

Por RODRIGO DE ABREU PINTO*

Comentário sobre o filme dirigido por Walter Salles.

Ainda Estou Aqui  estreou nos cinemas brasileiros após uma trajetória de sucessos em festivais internacionais, com destaque para o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza.

Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o filme conta a história da família do autor a partir do sequestro do seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar em 1971.

Após o desaparecimento do marido, Eunice Paiva assume as rédeas da casa e da família, dali em diante formada por ela e os 5 filhos do casal. Ainda Estou Aqui é a história de superação da personagem interpretada por Fernanda Torres cuja empatia levou mais de meio milhão de espectadores aos cinemas brasileiros na semana de estreia.

O filme está dividido em 2 momentos – o antes e o depois da morte de Rubens Paiva (Selton Mello) – cada qual imerso em uma estética própria.

O primeiro momento transcorre na casa da família, localizada no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Uma casa na beira da praia e sempre de portas abertas, por onde entram os amigos e colegas de todas as idades para comer, conversar, ouvir música. A luz do sol invade a casa e caracteriza a fotografia do filme, enquanto as músicas (Caetano, Gal, Tom Zé, Tim Maia), os gritos de crianças e as ondas do mar acompanham os diálogos animados entre os personagens.

À medida que o sequestro do pai se aproxima, Walter Salles é habilidoso em inserir elementos que destoam do carpe diem imanente e erguem uma sensação de tragédia iminente. A nostalgia inspirada pelas imagens em Super8 gravadas pela filha Vera (Valentina Herszage) sugere que o presente está prestes a se tornar uma recordação distante, mas são os olhos e ouvidos de Eunice que flagram o que está por vir: caminhões com soldados descendo a rua, helicópteros cruzando os céus e a demora da filha em voltar para casa.

Quando a família e os amigos se reúnem para a foto na praia na despedida de Vera, ficamos certos de que a fotografia representa mais do que isso: a despedida de uma era.

Rubens é sequestrado pelos militares e os efeitos são representados na súbita transformação da casa dos Paiva. As crianças, alheias ao que acontece, continuam entrando e saindo, subindo e descendo as escadas… até que se dão conta da espontaneidade petrificada em fatalidade: não mais os amigos, e sim os policiais que acompanham e vigiam a rotina da família. A estética do filme se redefine pelas janelas fechadas e a fotografia escura, os diálogos balbuciantes e a trilha sonora silenciada, que em tudo contrastam com a casa que até então existia.

Chama atenção a adoção do ponto de vista da casa para ilustrar as transformações impostas na marra pelos militares, em especial porque vem um diretor que despontou pela filiação ao gênero do road movie. É o impulso pela deriva que caracteriza os personagens de Terra Estrangeira (1995) e Central do Brasil (1998), os primeiros longas de Walter Salles, por exemplo.

Desta vez, em lugar da deriva junto aos intelectuais e militantes que tentavam libertar Rubens, o filme permanece junto de Eunice. E mesmo na representação desta personagem, o foco é menos em suas andanças atrás de informações sobre o marido, e mais nos desafios de gestão da casa e dos filhos após o desaparecimento do marido.

Em Ainda Estou Aqui, a experiência política é meio para a dramatização da experiência íntima da família, e não o contrário. Não está em jogo se Rubens Paiva era inocente; se os métodos da luta armada eram justificados; se o perigo comunista era uma fantasia quixotesca, tal como discutidos no livro de Marcelo Rubens Paiva. Não está em jogo nem mesmo as opções políticas da protagonista, já que os seus atributos enfatizados pelo filme são dedicados à preservação da família – e o melhor exemplo disso é que, embora a parte final apresente a atuação política de Eunice em defesa dos povos indígenas e da preservação da memória da ditadura militar, o foco do filme sempre recai em suas faculdades voltadas à família, como a lembrança de onde foram tiradas as fotografias e o dinheiro que empresta à filha Bia (Olivia Torres) já adulta.

Sem a identificação com projetos políticos definidos, a protagonista é movida por um senso de responsabilidade baseado na esfera privada do sentimento (o amor materno, no caso). Ainda Estou Aqui não condena uma visão de mundo (de esquerda ou de direita), mas o “mau”, o “cruel”, o “desumano”, como encarnados especialmente nos métodos de tortura (praticados pela direita), mas também nos sequestros de embaixadores (praticados pela esquerda) que o filme repetidamente apresenta, incluída a insistência do amigo Baby Bocaiúva (Dan Stulbach) para Eunice de que Rubens jamais tivera qualquer participação em luta política. O resultado disso é um humanismo despolitizado em que a Família Paiva é apresentada como uma “reserva moral” em meio ao mar de iniquidade do país.

Se Ainda Estou Aqui se mantém irresistível, é porque Walter Salles é habilidoso a ponto de impedir que a valorização da intimidade se torne piegas ou emotiva. Ao mesmo tempo que Eunice reprime o choro e o conteúdo das falas para proteger os filhos, o filme administra um contínuo anticlímax que obstrui os excessos sentimentais e catárticos típicos do melodrama. E ao fim, admiramos Eunice pela sua integridade, coragem e inteligência na defesa da família, e não por complacência ou paternalismo diante de sua situação (como acontece com a protagonista de outro sucesso recente do cinema brasileiro, A Vida Invisível (2019) de Karim Aïnouz).

Há também política em retratar uma dona de casa desta forma, é claro. Aliás, justamente o rigor em retratar sentimentos e temas universais (luta pela sobrevivência, ausência paterna, recomeço) que rendeu a trajetória de sucesso do filme no circuito internacional. Sem minimizar a importância disso após anos de censura, desmonte da cultura e ataques às instituições do cinema brasileiro, cabe indagar se a eficiência do discurso não ocorre sob a pena de achatar o horizonte de compreensão social do país.

*Rodrigo de Abreu Pinto é advogado e professor de filosofia no ensino básico.

Referência

Ainda estou aqui
Brasil, 2024, 135 minutos.
Direção: Walter Salles.
Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega.
Direção de Fotografia: Adrian Teijido.
Montagem: Affonso Gonçalves.
Direção de Arte: Carlos Conti
Música: Warren Ellis
Elenco: Fernanda Torres; Fernanda Montenegro; Selton Mello; Valentina Herszage, Luiza Kosovski, Bárbara Luz, Guilherme Silveira e Cora Ramalho, Olivia Torres, Antonio Saboia, Marjorie Estiano, Maria Manoella e Gabriela Carneiro da Cunha.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
A rede de proteção do banco Master
28 Nov 2025 Por GERSON ALMEIDA: A fraude bilionária do banco Master expõe a rede de proteção nos bastidores do poder: do Banco Central ao Planalto, quem abriu caminho para o colapso?
2
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
3
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
4
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
5
A poesia de Manuel Bandeira
25 Nov 2025 Por ANDRÉ R. FERNANDES: Por trás do poeta da melancolia íntima, um agudo cronista da desigualdade brasileira. A sociologia escondida nos versos simples de Manuel Bandeira
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
8
A feitiçaria digital nas próximas eleições
27 Nov 2025 Por EUGÊNIO BUCCI: O maior risco para as eleições de 2026 não está nas alianças políticas tradicionais, mas no poder desregulado das big techs, que, abandonando qualquer pretensão de neutralidade, atuam abertamente como aparelhos de propaganda da extrema-direita global
9
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
10
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
11
Totalitarismo tecnológico ou digital
27 Nov 2025 Por CLAUDINEI LUIZ CHITOLINA: A servidão voluntária na era digital: como a IA Generativa, a serviço do capital, nos vigia, controla e aliena com nosso próprio consentimento
12
Argentina – a anorexia da oposição
29 Nov 2025 Por EMILIO CAFASSI: Por que nenhum "nós" consegue desafiar Milei? A crise de imaginação política que paralisa a oposição argentina
13
O parto do pós-bolsonarismo
01 Dec 2025 Por JALDES MENESES: Quando a cabeça da hidra cai, seu corpo se reorganiza em formas mais sutis e perigosas. A verdadeira batalha pelo regime político está apenas começando
14
A voz da saga
30 Nov 2025 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Prefácio do livro “Melhores contos”, de João Guimarães Rosa
15
Por que a Inteligência artificial não faz justiça? – 2
29 Nov 2025 Por ARI MARCELO SOLON & ALAN BRAGANÇA WINTHER: Os fundamentos da ciência da computação e da filosofia do direito mostram que a Inteligência Artificial é estruturalmente incapaz de realizar justiça, pois esta exige historicidade, interpretação contextual e uma "variável caótica" humana que transcende a mera racionalidade algorítmica
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES