André Breton e a constelação negra do Caribe – a antropologia da magia

Wassily Kandinsky, Small Worlds VII, 1922.

Por MICHAEL LÖWY*

Capítulo do livro recém-lançado “O cometa incandescente: Romantismo, Surrealismo, Subversão”

Foi por iniciativa de seu amigo Pierre Mabille, autor de uma surpreendente obra de inspiração surrealista – Le Miroir du merveilleux [O espelho do maravilhoso] (1940) –, e que viria a ser nomeado adido cultural da França no Haiti – ele fundaria, em dezembro de 1945, o Instituto Francês do Haiti – que André Breton foi convidado, em setembro de 1945, para dar uma série de conferências em Porto Príncipe.

Elisa e André Breton, que neste momento estavam em Nova York, chegam então ao Haiti, de avião, em 4 de dezembro. Os testemunhos de Paul Laraque e René Depestre demonstram a atmosfera de expectativa e entusiasmo que envolvia esta visita. Essa atitude era compartilhada pelos jovens que publicavam a revista La Ruche. Organe de la Geune Génération, cujo número de 7 de dezembro de 1945 anunciava, com um grande título na primeira página: “Boas vindas ao grande surrealista André Breton”. Essa homenagem caberia tanto ao poeta quanto ao combatente pela liberdade:

André Breton é uma dessas inteligências cujas convicções antifascistas ultrapassaram as fronteiras da França, por encontrar a aprovação dos milhares de não conformistas do mundo. O Surrealismo é a negação absoluta dos valores corrompidos aos quais os escritores reacionários vinculam-se obstinadamente. Sua atitude diante da derrota francesa foi admirável.

Se o autor dos Manifestos do Surrealismo aceitou o convite, foi porque a cultura negra do Caribe o interessava profundamente. Isso diz respeito, evidentemente, aos artistas surrealistas pelos quais ele tinha a mais viva admiração: os poetas Magloire Saint-Aude, Aimé e Suzanne Césaire e o pintor Wifredo Lam. Breton havia conhecido o casal Césaire durante sua estadia na Martinica, em 1941: esse caloroso encontro é relatado no livro Martinica, charmeuse de serpents [Martinica, encantadora de serpentes] (1948), no qual celebra o Diário de um retorno ao país natal do poeta martinicano como sendo “o maior monumento lírico dessa época” e pouco depois, Saint-Aude seria objeto de uma bela homenagem: encontramos em seus poemas, escreve Breton, “a pedra filosofal ou quase, a incrível nota que doma o mundo, o dente único cuja roda da angústia se entrelaça ao êxtase”.

Césaire – que viria a ser eleito deputado comunista e prefeito de Fort-de-France – e Lam são descritos, na conferência do Hotel Savoy, como sendo, simplesmente, os que forneceram, no decorrer dos últimos cinquenta anos, “os maiores impulsos para os novos caminhos do Surrealismo”. Houve uma exposição das obras de Wifredo Lam em Porto Príncipe no final de janeiro de 1946 e Breton contribuiu para o seu catálogo com o texto “A noite no Haiti”, em que descreve a arte do pintor cubano como “testemunho único e fremente… voo de garças ao fundo do lago onde se elabora o mito atual”.

Mas havia ainda outra motivação mais ampla, ao mesmo tempo política, cultural e poética: não apenas a simpatia do militante anticolonialista pelos “povos de cor”, mas também, e sobretudo, a convicção, profundamente ancorada no Surrealismo, de que as culturas ditas “primitivas” – principalmente a dos índios Hopi, que Breton  havia visitado no Arizona em agosto de 1945, e a dos negros haitianos – tiveram uma relação privilegiada com as fontes mais íntimas do espírito humano e que ainda não haviam sido contaminadas pela alienação capitalista predominante nos países ocidentais “avançados”…

De fato, para Breton e os surrealistas, esses dois aspectos estão diretamente vinculados: uma das razões, e não a menos importante, de seu anticolonialismo era precisamente a admiração pela qualidade humana e poética das culturas dos povos colonizados, e sua indignação diante da tentativa das potências ocidentais de impor – pela ação articulada entre sua força militar, seus missionários e mercadores – a civilização capitalista “moderna”, além do apagamento ou destruição desses “indígenas” por parte dessas mesmas potências.

Eis um comentário dele sobre o assunto em uma entrevista – que teve grande repercussão na ilha – concedida ao poeta haitiano René Bélance, publicada no Haïti−Gournal, em 13 de dezembro de 1945: “O Surrealismo está relacionado com os povos de cor, por um lado, porque sempre se posicionou contra todas as formas de imperialismo e de pilhagem dos brancos, como evidenciado nos manifestos publicados em Paris contra a guerra do Marrocos, contra a exposição colonial etc.; por outro, devido às mais íntimas afinidades existentes entre o pensamento dito ‘primitivo’ e o pensamento surrealista, em que ambos visam suprimir a hegemonia do consciente e do cotidiano, apoiando-se na conquista da emoçaão reveladora. Essas afinidades são evidenciadas por um escritor negro martinicano, Jules Monnerot, em obra recentemente publicada: A poesia moderna e o sagrado.

Publicado em 1945, esse livro refutava a avaliação equivocada sobre a “mentalidade primitiva” pela antropologia oficial (Lévy−Bruhl) e avança na seguinte hipótese, que parece ter suscitado a plena aprovação de Breton: “O surreal ou maravilhoso a que visam os surrealistas podem evocar, sem inadmissíveis abusos de linguagem, o mundo imaginário-real de certos ‘primitivos’ […]. Um domínio privilegiado da experiência opõe-se à consciência da vida ordinária que, em nossa sociedade, não pretende tolerar nada que esteja circunscrita fora dela”.

Na Ode a Charles Fourier, é citada uma passagem do livro de Monnerot, que compara a abordagem de Breton à dos indígenas Soulteaux: “[Fourier] Eu te saúdo desde a encruzilhada de caminhos como sinal de prova e desde a trajetória sempre potente desta flecha preciosamente recolhida a meus pés: “não há separação e heterogeneidade entre o sobrenatural e o natural (o real e o surreal). Nenhum hiato. É um ‘continuum’, parece estarmos ouvindo André Breton: mas é um etnógrafo que nos fala em nome dos índios Soulteaux”.

Monnerot serve a Breton para evidenciar as afinidades secretas entre os índios da América do Norte, Charles Fourier (que será longamente discutido nas conferências do Haiti), as culturas negras do Caribe e o Surrealismo.

Ele retomará esse tema, sob diversas formas, em suas conferências, a começar pela primeira, quando se encontra com os poetas haitianos no Hotel Savoy (5 de dezembro de 1945): “Não receio em afirmar que os homens ditos ‘de cor’ sempre desfrutaram de um fervor e de um prestígio excepcionais dentro do Surrealismo. Há nesse fato uma excelente razão: […] pensamos, meus amigos e eu, que eles são os que permaneceram mais próximos das fontes e que, nessa abordagem essencial do Surrealismo, que consiste em escutar a voz interior de cada homem colocado à parte, buscamos nos conectar imediatamente com o pensamento chamado ‘primitivo’, o qual é menos estranho a vocês do que para nós e que, além disso, se mostra estranhamente destemido no Vodu haitiano”.

De fato, o pensamento chamado “primitivo” – Bre ton utiliza o termo com muita reserva – não é exclusividade desta ou daquela etnia: para ele, este pensamento designa uma instância espiritual comum a toda humanidade, mas que é desprezado e desvalorizado pelo Ocidente.

De que se trata essas fontes ocultas nas profundesas mais íntimas do espírito humano? Parece-me se tratar da magia, isto é, do encantamento do mundo que se manifesta nos rituais, nas palavras, nos gestos, nas danças, nos mitos, nas imagens e nos objetos, e que inspiram tanto a cultura negra quanto a da Oceania ou, ainda, a dos indígenas das Américas. Há nas obras de Breton, Péret, Leiris e, mais tarde, na de Vincent Bounoure, uma espécie de antropologia da magia que é, também, uma antropologia do desejo – que lhes permite construir vasos comunicantes entre o hermetismo, o Romantismo, o Surrealismo e as culturas ditas “primitivas”.

O que é magia e qual sua relação com o desejo? Segundo Henri Hubert e Marcel Mauss, citados por Jules Monnerot, “a essência da magia é unicamente a crença noturna na eficácia do desejo e do sentimento”. A poesia moderna, e em particular a dos surrealistas, não é afinal uma prática mágica que busca sua finalidade em si mesma, uma magia “sem esperança” (de matar o inimigo ou seduzir o ser amado)? Esta é a hipótese de Jules Monnerot. Segundo o pensador antilhano, o Romantismo e o Surrealismo com partilham da profunda nostalgia de um “mundo perdido” – eu ainda acrescentaria: de um mundo encantado –, de um “período mítico”, em que “poesia, ciência, adivinhação, filosofia, religião e organização social não eram irremediavelmente distintas”.

O discurso de Breton no Haiti está em conformidade com o espírito surrealista de simpatia – no sentido etimológico da palavra: um pathos compartilhado – pelas culturas ditas “primitivas”, que preservaram algo desta unidade mágica originária e conseguiram resistir ao corrosivo valor de troca capitalista.

A referência ao Vodu no discurso de Breton não é acidental. Ela corresponde a um interesse profundo do poeta por este culto mágico popular, do qual sem dúvida havia tomado conhecimento por intermédio de Pierre Mabille. Foi graças a seu amigo que ele pôde participar, durante sua curta estadia no Haiti, de oito sessões desse ritual secreto, uma experiência inesquecível da qual se recordará alguns anos depois em um prefácio à reedição do livro de Pierre Mabille, Le Miroir du merveilleux: “Pierre Mabille guiou-me rumo a um desses houmphors ou templos Vodu, onde mais tarde, mais ou menos clandestinamente, aconteceria uma cerimônia. […] O patético das cerimônias Vodu assaltou-me durante muito tempo para que, dos persistentes vapores de sangue e rum, eu pudesse tentar extrair o espírito gerador e mensurar seu verdadeiro alcance. Não me foi dado mais que impregnar-me de seu clima, tornar-me per- meável à profusão de forças primitivas as quais eles colocam em ação”.

Dessas visitas, Breton trouxe um fetiche de ferro, ao qual os praticantes de Vodu atribuíam poderes maléficos; segundo testemunho de Roger Caillois, Breton não estava longe de compartilhar desta mesma crença. Lembremos que o presidente Lescot adotou, em colaboração com a Igreja católica, uma virulenta campanha contra o Vodu, chamada “Campanha Antissupersticiosa” (1942), denunciada por Jacques Roumain – daí a natureza “mais ou menos clandestina” dos rituais que Mabille e seu amigo puderam assistir.

É a partir do Vodu que Breton tentará compreender a arte haitiana e, em particular, a obra do grande pintor popular haitiano Hector Hyppolite, que ele havia descoberto durante sua visita ao Centro de Arte Haitiana, considerando-a “um sopro invasivo de primavera”. Em um artigo de 1947, ele observa: “A pintura de Hector Hyppolite exibe, penso eu, as primeiras representações de divindades e cenas Vodu. […] A visão de Hyppolite consegue conciliar um elevado realismo com um sobrenaturalismo extremamente exuberante. Ninguém poderia exprimir melhor que ele a angústia de certos céus do Haiti nem sugerir, pela fusão de vegetações e ferrugens, o aspecto tão fechado e denso dessas folhagens. Por outro lado, em sua obra, o que é resultado da percepção visual não se distingue daquilo que é resultado da representação mental: é assim que, em […] uma de suas pinturas, o deus-serpente Damballah não é nem mais nem menos real e concreto do que o sacerdote, o mestre de cerimônias e as duas sacerdotisas que carregam os estandartes”.

Assim como os poetas surrealistas das Antilhas e o pintor Wifredo Lam, Hector Hyppolite – cujas obras seriam apresentadas na Exposição Internacional do Surrealismo de 1947 – é outra estrela dessa constelação negra do Caribe com quem Breton se sente em conjunção direta durante essas semanas decisivas entre dezembro de 1945 e janeiro de 1946.

Em seu discurso no Hotel Savoy, tão radical em sua ruptura com o racismo branco, o eurocentrismo ocidental, o paternalismo colonial e a “compaixão” missionária, Bre ton exprimia o sentido profundo que atribuía a esta visita, que era para ele, tal como lhe ocorreu entre os Hopis, uma espécie de viagem iniciática. Assim, percebia-se como alguém que não apenas vinha apresentar suas ideias e seus conhecimentos, mas também para escutar e aprender: uma atitude que contribuiu sensivelmente na criação, entre ele e seus interlocutores haitianos – poetas, artistas, estudantes ou simplesmente espíritos curiosos –, de uma relação de confiança e um vínculo de cumplicidade amistosa dos quais todos foram testemunhas. Poderíamos também dizer que se desenvolveu entre eles um processo de afinidade eletiva, no sentido alquímico do termo – mais tarde reformulado por Goethe em seu célebre romance As afinidades eletivas –, isto é, uma atração recíproca a partir de analogias íntimas do espírito e dos sentimentos (a afinidade “química”).

O Surrealismo como faísca: os discursos do Hotel Savoy e do Teatro Rex

O que torna esse encontro único, tanto na história do Surrealismo quanto na do país de Toussaint Louverture, é a “coincidência” entre a visita de Breton e a eclosão da Revolta de Janeiro de 1946, que derrubou o regime detestável do presidente Lescot. Certamente, poderíamos comparar esta convergência, ou conjugação ativa entre Surrealismo e revolução, com os eventos de Maio de 1968 na França, mas a influência do Surrealismo foi, neste momento, bem mais difusa e concorrida que aquela, mais visível, de um ramo dissidente: o Situacionismo. Se a vocação revolucionária do Surrealismo não deixou dúvida, a constelação que ocorreu no Haiti neste momento, entre a palavra surrealista e a ação subversiva, é um acontecimento singular, sem precedente ou equivalência.

Sabemos que o discurso de André Breton no Hotel Savoy foi publicado na primeira página da revista dos jovens poetas e revolucionários, La Ruche, cujo confisco pelas autoridades, por assim dizer, foi a faísca que acendeu a pólvora. Por outro lado, podemos nos colocar a questão das razões dessa medida liberticida: foi o discurso de Breton, algum outro artigo, ou o conjunto da publicação que suscitou os temores do poder e sua reação brutal? É verdade que a publicação do discurso acompanhava um comentário sobre as glórias do Surrealismo, não escondendo suas intenções subversivas. Em todo o caso, a proibição da revista foi, como as Leis de Imprensa de Charles X em 1830, o motivo imediato da mobilisação dos jovens contra o regime e que, finalmente, o conduziu à sua derrota.

Recordemos que três dos jovens “abelhas” de La Ruche estiveram entre os principais atores das jornadas de janeiro: Gérald Bloncourt, René Depestre e Jacques-Stéphen Alexis. O fato deles serem artistas –  pintor, poeta e escritor, respectivamente – sem dúvida favoreceu a recepção da palavra de Breton. Todos eles também prometiam um futuro brilhante: o primeiro, jovem pintor, exilado na França, viria a se tornar o mais importante fotógrafo do movimento trabalhador francês; o segundo, célebre poeta comunista, exilado em Cuba durante ditadura de Duvalier (mais tarde ele abandonaria o comunismo e a poesia por uma carreira diplomática, como representante do Haiti na Unesco); e o terceiro, escritor comunista com destino trágico, autor de um dos mais importantes romances da literatura haitiana, Compère Général Soleil [Camarada General Sol] (1955), morreria pelas balas da polícia duvalierista em 1961.

Quais foram, então, as asserções de Breton nesse discurso de 5 de dezembro e nos discursos das semanas seguintes, que puderam contribuir, direta ou indiretamente – em todo o caso involuntariamente, já que o autor de L’Amour Jou [O amor louco] não tinha qualquer intenção de provocar tumulto – com os eventos ocorridos no início de janeiro de 1946? Sem querer exagerar sua importância, e sabendo apropriadamente que os jovens marxistas haitianos já tinham projetos insurrecionais bem antes da chegada de Breton, não há dúvidas de que as intervenções do poeta surrealista deram algum suporte à gestação – entre os estudantes, a juventude e uma camada popular mais culta – de um certo estado de espírito, um clima, uma atmosfera agitada favorável a um grande impulso emancipatório.

Um clima também favorecido pela esperança, em toda a América Latina em 1945, de que a derrota do fascismo conduziria à queda dos ditadores e regimes autoritários do continente. Em suma, André Breton foi, não apenas ele, mas certamente, em conjunto com os jovens poetas revolucionários de Porto Príncipe, um dos mensageiros da tempestade de janeiro de 1946. Ou antes, uma das fontes que, como os hougans do Vodu, tem o dom sagrado de pronunciar as palavras encantadas que desencadeiam raios…

De acordo com recortes de imprensa e testemunhos, a conferência no Hotel Savoy foi uma espécie de encontro mágico entre Breton, por um lado, e os poetas e a juventude haitianos, por outro. A intervenção do convidado suscitou reações entusiastas e fervorosas que, mesmo meio século depois, os participantes ainda mencionariam. Eis o testemunho do poeta Paul Laraque: “Já nas primeiras palavras do Mago, a atmosfera eletrizou-se e logo fariam explodir as minas lançadas pelos jovens revolucionários de La Ruche, cujo encontro com Breton no Savoy, no início de dezembro de 1945, fez de nosso banquete um cruza- mento entre a poesia e uma espécie de prova de fogo”.

Três temas dessa intervenção provavelmente encontraram um eco particularmente poderoso na plateia:

(1) A afirmação, por parte do Surrealismo, de uma “fé sem limites no gênio da juventude”. Após lembrar o exemplo de adolescentes ou indivíduos mais jovens que o Surrealismo reclamava para si – Saint-Just, Nova- lis, Rimbaud, Lautréamont –, o orador não hesitou em proclamar: “quando o Surrealismo fizer cem anos, ainda permanecerá a ideia de que é na juventude que reside a lucidez, bem como a verdadeira potência”. Mas, além desta homenagem, havia um apelo no discurso do Savoy, um imperativo: “é absolutamente necessário que a juventude se liberte do complexo de inferioridade, no mais elevado grau de paradoxo, no qual durante séculos fisemos o impossível para permanecer”. Somente se livrando desse fardo é que a juventude “conseguirá obter o direito a uma voz ativa preponderante e fará prevalecer sobre a rotina as soluções audaciosas que lhes pertencem”.

É evidente que tal apelo só poderia encorajar jovens – notadamente os autores de La Ruche, mas também outros além deles – que sonhavam, precisamente, em fazer prevalecer, no Haiti, suas soluções audaciosas: a Revolução social.

(2) A homenagem prestada ao passado revolucionário do Haiti, esta “boa palavra […] que evoca imediatamente, se não todos os episódios bastante precisos de vossa história, ao menos uma vontade de emancipação que jamais será desmentida”, esta “palavrinha dinâmica, do pequeno número daqueles que seguiram adiante”.

Aí também, para aqueles que consideravam ser necessário levar adiante a vontade de emancipação do povo haitiano, a mensagem era clara.

(3) Para concluir seu discurso, o orador escolheu citar uma passagem do romance poético Senhores do Orvalho, do escritor comunista Jacques Roumain (falecido em agosto de 1944): “Somos pobres e infelizes, é verdade, somos miseráveis; é verdade. Mas sabe por que, irmã? Por causa de nossa ignorância: ainda não sabemos que somos uma força, uma só força; todos os moradores, todos os negros das planícies e das colinas juntos. Um dia, quando tivermos entendido essa verdade, iremos de uma ponta à outra do país e faremos assembleias gerais dos senhores do orvalho, o grande coumbite de trabalhadores da terra para desmantelar a miséria e plantar a nova vida”.

Como jovens, ao mesmo tempo adeptos do Surrealismo e discípulos de Jacques Roumain, poderiam ser insensíveis à passagem citada por Breton, verdadeiro chamado à sublevação geral, “de uma ponta à outra do país”, dos pobres, miseráveis e condenados da terra? É interessante constatar que a simpatia, ou mesmo a adesão, dos jovens de La Ruche ao movimento comunista não impediu o acordo, a afinidade de que fala Breton em seu discurso, “que supera completamente a diferença de idade entre mim e vocês”, com o amigo de Leon Trotski e também fundador da FIARI (Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente), cujas críticas ao stalinismo são bem conhecidas. Isto seria impossível na França em 1945… É verdade que rendendo homenagem a Jacques Roumain, Breton havia demonstrado sua abertura de espírito e sua recusa a qualquer ideia de facção política.

Podemos então levantar a hipótese de que o discurso do Savoy criou entre o poeta francês e a vanguarda da juventude haitiana uma espécie de campo magnético, imantado pela poesia. Suas palavras, e em particular sua conclusão, poderiam facilmente ser interpretadas como um chamado aos jovens e aos pobres a se revoltarem, a reencontrarem o caminho da emancipação, a plantarem as sementes de um novo futuro. Publicando o discurso em sua revista, os jovens davam legitimidade à sua abordagem contestatória e preparavam o terreno para suas ações subversivas. A repressão do regime acelerou as coisas…

A primeira da série de conferências previstas sobre “O Surrealismo”, que teve lugar no Teatro Rex em 20 de dezembro de 1945, talvez tivesse contribuído e também preparado o furacão tropical que, algumas semanas depois, varreu Lescot e seus palotins e bougrelas. Eis o que relata René Depestre, que estava presente e conserva uma ardente memória do ocorrido: a mensagem de André Breton “propiciou uma festa na imaginação dos jovens que lotavam o teatro. Aplaudimos com muito entusiasmo… Galgamos no lirismo contagioso de Breton como pássaros descobrindo que a árvore de seu pouso era um prodígio de música e liberdade. […] Já na primeira palavra de André Breton, soubemos que estávamos prontos para desencadear no Haiti, de forma pioneira, mutatis mutandi, um ‘maio de 68’ nos trópicos”.

Diante de um público bem maior do que o do Hotel Savoy, Breton evocou um tema caro aos jovens marxistas, que apenas havia esboçado em sua intervenção anterior: a miséria do povo haitiano, a condição “não somente precária, mas patética”, do homem haitiano. Ele também retomou, de forma mais explícita que a de 5 de dezembro, a tradição revolucionária da ilha: “o que inicialmente lhe deu força para suportar e, em seguida, reconquistar sua liberdade, aquilo que foi a alma de sua resistência, foi o patrimônio africano que conseguiu transplantar aqui, fazendo-o frutificar apesar das correntes que o prendiam”. Não era apenas um chamado histórico, mas um dado permanente, graças ao “impulso imprescritível de liberdade e a sólida afirmação de dignidade de vosso país”. Independentemente das intenções do orador, estas palavras poderiam ser recebidas, também, como uma injunção a não mais se submeter ao jugo de um poder autoritário e opressor.

A conferência esboçou, em alguns parágrafos densos, a história das origens e a evolução do Surrealismo, a partir de uma “pequena frase” de 1919, que revelou a Breton um universo completamente desconhecido, servindo-lhe de “lanterna surda” para explorar as profundezas do espírito humano: “há um homem cortado em dois por uma janela”. Uma virada importante para o movimento nascido em 1924 será, um pouco depois, a guerra colonialista contra Marrocos, que vai suscitar a necessidade de uma manifestação pública, mas será sobretudo a ocasião de descobrir “o materialismo dialético como única força de oposição fortemente organizada, única barragem contra os egoísmos nacionais e única promessa de conciliação e harmonia universais”. Este materialismo, reinterpretado pelos surrealistas, recusa abordagens reducionistas: ao lado da economia, “que tomamos muito cuidado em não reduzir sua importância”, há outro elemento que também condiciona a vida psíquica e moral das sociedades humanas, que o orador designa como lírica: “Basta tocar o Haiti para convencer-se de que este elemento lírico, longe de ser como em outros lugares um assunto só para especialistas, manifesta-se nas aspirações de toda a população”.

É a partir dessas premissas que se coloca, para o Surrealismo, a questão da “ação social, ação que, a nosso ver, possui seu método próprio no materialismo dialético e que menos ainda podemos deixar de ver interesse já que consideramos a libertação do homem como condição sine gua non para libertação do espírito”. Breton menciona, neste contexto, as diversas tomadas de posições políticas do Surrealismo, principalmente contra o fascismo, já em 10 de fevereiro de 1934, na França – Convocação à greve geral – e em seguida durante a guerra da Espanha – posições baseadas “na fidelidade aos princípios, no rigor e na recusa obstinada a qualquer compromisso” – e como conclusão cita Maurice Blanchot, que escreveria, a propósito do Surrealismo: “Como a poesia poderia se desinteressar da revolução social?”.

Por essa adesão explícita ao marxismo – que ainda não era evidente na conferência de 5 de dezembro – e o imperativo da revolução social emancipadora, Breton situava-se diretamente sobre o mesmo terreno que os núcleos mais radicais dos jovens haitianos. Por outro lado, é difícil saber quantos dentre os jovens poderiam compartilhar da ideia, cara ao Surrealismo, de que a revolução social não é um objetivo em si, mas um meio para a libertação do espírito humano…

É interessante notar que essa conferência também foi publicada, em 1º de janeiro de 1946, na revista Conjonction – sem que, por isso, ela fosse apreendida pelas autoridades –, então sendo lida por um público mais amplo do que o presente no Teatro Rex. Assim, tal como ocorreu no Savoy, ela espalhou as sementes – ou melhor, faíscas: as sementes levam mais tempo para germinar – de revolução social sobre um terreno eminentemente explosivo.

Após a queda de Lescot, Breton evocaria os “Cinco Gloriosos” – nos dias 7, 8, 9, 10 e 11 de janeiro de 1946 em sua segunda conferência, que foi lida no dia 11 de janeiro, exatamente no fim da revolta. Começa explicando por que conserva um certo dever de reserva: “A despeito de qualquer tentação que eu possa ter, os senhores certamente compreenderão que as condições de minha estadia no Haiti impedem-me de formular uma apreciação sobre os acontecimentos que se desenrolaram na última semana neste país”. Provavelmente, essa cautela foi imposta pela vontade de evitar problemas para seu anfitrião, Pierre Mabille.

No entanto, sente-se bastante livre para avançar com alguns comentários “de âmbito geral”, mas que são muito claros e específicos: “Vem sendo demonstrado aqui mesmo, com uma sobriedade de meios, uma economia de vidas humanas, com uma rapidez, um rigor e uma evidência sem precedentes, que os jovens tudo podem, ou ao menos tudo podem conquistar”. A juventude, acrescenta ainda, “não deve ser apenas impetuosa, deve ser direta e comprometida com a vida no sentido desse direito. Os jovens do Haiti acabam de se destacar nessa via como bravos guerreiros”.

Breton parece perceber nestes “acontecimentos” a confirmação de sua aposta na capacidade da juventude de “fazer prevalecer as soluções audaciosas que lhes pertencem”. Porém, estes jovens, que acabavam de derrubar o regime, não correriam o risco de ver a vitória deles confiscada, principalmente pelos militares que se apressariam em ocupar o vazio do poder? Com lucidez, o conferencista acrescenta: “É bastante, mas não é tudo: além do mais, ainda é preciso que os jovens saibam se proteger e, para isso, somente os mais conscientes e inspirados dentre todos podem fazê-lo, tomando o cuidado de não serem depostos ou traídos”. É evidente que Breton manifesta assim sua confiança nos “mais conscientes” dentre os jovens, além de seu apoio – uma fórmula que inclui sem dúvida os animadores de La Ruche –, receando que eles fossem “depostos” – o que efetivamente aconteceu muito rapidamente. Seu apelo ao cuidado é também um apelo à recusa de compromissos e egoísmos oportunistas: “A juventude não provará do inestimável fruto de suas conquistas senão com a condição de assinalar uma fidelidade inabalável aos ideais e princípios que lhe permitiram vencer e que, em primeiro lugar, comandam a subordinação do interesse de um ao interesse de todos. É necessário, antes de mais nada, que ela se impregne da convicção que a filosofia existencialista tende a retomar atualmente, de que a renúncia equivale a um verdadeiro suicídio espiritual”.

Afora algumas exceções, a maioria dos jovens atores de janeiro de 1946 estiveram à altura desta exigência, dentre eles Jacques-Stéphen Alexis, pagando com o preço de sua vida…

Ante aqueles que se ergueram contra o radicalismo intransigente dos jovens, Breton cita com satisfação aquele a quem designa como “um dos raros homens de ação ao qual honro sem quaisquer reservas”, “O amigo do povo” Marat, que, primeiro, havia denunciado a prostituição do vocabulário político pelos poderosos: “Os príncipes, seus ministros, agentes, bajuladores e criados denominam […] política a arte de enganar os homens; de governo, a dominação covarde e tirânica… de submissão, a servidão… de rebelião, a fidelidade às leis; de revolta, a resistência à opressão; de discurso insubordinado, a reivindicação dos direitos do homem”.

O conteúdo dessa segunda conferência e das que se seguiram foge essencialmente ao assunto dessa nota, que diz respeito ao papel de Breton na gestação das condições atmosféricas para a revolta de janeiro de 1946. Trata-se de documentos notáveis, os quais merecem um estudo à parte. Em poucas palavras: trata-se de uma genealogia do Surrealismo, afirmando sua condição de herdeiro do Romantismo revolucionário do século XIX. Para Breton, o Romantismo não é, como afirmam equivocadamente os manuais, um movimento estritamente artístico, mas também e inseparavelmente “um movimento filosófico e social”. E seus momentos essenciais não consistem, contrariamente aos ensinamentos escolares, nos poemas de Lamartine, Musset ou Vigny, mas antes nos romances góticos ingleses – Walpole, Lewis, Maturin – nas obras de Novalis e Achim von Arnim, na poesia de Hugo etc. O Romantismo é uma espécie de fio condutor durante toda a passagem de Breton pelo Haiti, inclusive em sua homenagem ao “primitivismo” haitiano, sua referência à obra de Jacques Roumain e, finalmente, suas conferências sobre as fontes do Surrealismo.

Uma última e vibrante homenagem aos eventos ocorridos em janeiro de 1946 encontra-se na oitava e última conferência de Breton no Haiti (provavelmente a de 12 de fevereiro): “Senhoras e senhores, em um dos últimos períodos mais sombrios da história, jamais esquecerei que coube aos haitianos preferir concretamente, a meu ver, o que poderíamos considerar como sendo o salto do reino da necessidade para o reino da liberdade. Para que isso pudesse ocorrer, foi necessário nada menos do que a ajuda dos poderes que continuam acesos em vosso passado, entre todos, dramático e glorioso. Para além disso, independente do que lhes devo, bastaria a mim vincular-me apaixonadamente a vossos destinos”.

A fórmula “poderes que continuam acesos em vosso passado” é sem dúvida uma referência à Revolução dos “jacobinos negros”, liderada por Toussaint Louverture; Breton apresenta-se antes como testemunha (“a meu ver”) do que um ator social, mas atribui manifestamente um enorme significado humano e histórico a esta surpreendente revolta haitiana.

Voltemos então à questão que é objeto de algumas dessas linhas: a eventual influência de Breton no levante de janeiro de 1946. Qual é o poder da palavra de um homem? Em que medida ela pode efetivamente inspirar uma ação social? Diz a lenda que, no curso da revolução de 1848, Bakunin atravessava o norte da Alemanha em uma carruagem; intrigado com uma multidão de camponeses que cercavam um castelo senhorial sem no entanto saber o que fazer, ele desce do coche e dirige-lhes a palavra; partindo alguns minutos depois, teve o prazer de ver, na curva do caminho, o castelo em chamas…

Vários historiadores da Revolução Russa estão de acordo em reconhecer nos discursos de Leon Trotski, orador carismático, principalmente na época dos meetings de massa do Circo Moderno de Petrogrado, um fator importante na preparação do clima revolucionário de Outubro de 1917. Mas esses exemplos, relacionados a líderes revolucionários animados pelo objetivo de suscitar a revolta social e a subversão da ordem, dificilmente são comparáveis ao nosso caso, em que observamos um poeta dirigir-se a um grupo de jovens, explicando-lhes as aspirações emancipadoras do Surrealismo.

O próprio Breton tinha uma visão extremamente modesta sobre seu papel em 1946; alguns meses depois, durante uma entrevista, fizeram−lhe a seguinte pergunta: “Creio que o senhor teve alguma influência na Revolução do Haiti. Poderia nos dar detalhes do que ocorreu?” Eis sua resposta, na qual acentua a gravidade da situação social, as tradições revolucionárias do povo haitiano e o papel dos jovens rebeldes: “Não exageremos. No final de 1945, a miséria e, consequentemente, a paciência do povo haitiano chegaram ao seu limite. […] Esta situação é ainda mais dilacerante se pensarmos que o espírito haitiano, como nenhum outro, continua extraindo miraculosamente sua seiva da Revolução Francesa e que a história haitiana é a que, em um atalho surpreendente, nos apresenta o mais patético esforço de avanço do homem, da escravidão à liberdade. […] Em uma primeira conferência sobre “o Surrealismo e o Haiti”, eu tentei […] ajustar o caminho empreendido pelo Surrealismo com o passo secular dos camponeses haitianos. […] A revista La Ruche, órgão da geração mais jovem, cujo número do dia seguinte foi dedicado a mim, declarava que minhas palavras eram eletrizantes e decidia tomar um tom insurrecional. Sua apreensão e suspensão imediata logo impulsionou a greve dos estudantes seguida, em 48 horas, pela greve geral. Alguns dias depois, o governador estava preso”.

Em outra entrevista, publicada em junho de 1946, ele mantém sua opinião, reconhecendo completamente o caráter único e fascinante da experiência que havia vivido: “Seria absurdo dizer, até para mim mesmo, que eu provoquei a queda do governo […]. Ser colocado em um conjunto de circunstâncias como esse acontece apenas uma vez na vida”.

Mesmo aceitando essa avaliação mínima, a interrogação permanece: que influência Breton pôde exercer sobre os atores de janeiro de 1946? Talves seja necessário colocar a questão de outra maneira: Lucien Goldman explicava, em seus trabalhos sobre sociologia (marxista) da cultura, que “as influências” nada explicam. Ao contrário, o que se deve explicar é porque determinado autor ou pensador escolheu, em determinado momento histórico, ser “influenciado” por tal autor. Em outras palavras: o que chamamos influência é uma escolha ativa, uma seleção, interpretação ou, antes, mais uma utilização do que uma “recepção” passiva. Se aplicarmos este raciocínio metodológico ao nosso caso, podemos formular a seguinte hipótese: os jovens “abelhas” de La Ruche e o movimento mais ativo dos jovens estudantes necessitavam de uma palavra mais radical e eles a encontraram nas intervenções de Breton. Reconheceram-na como a expressão de seus sentimentos mais profundos de revolta e de esperança. Eles fiseram dela a bandeira de sua revista. Eles a empunharam como uma arma.

Semanas depois, em fevereiro de 1946, Breton teve que deixar o Haiti: segundo vários testemunhos, foi a junta militar que derrubou Lescot – e que logo seria obrigada a convocar novas eleições – que lhe pediu que partisse, incomodada com sua perigosa influência sobre os jovens… (Também Pierre Mabille, alguns meses depois, seria obrigado a deixar seu posto). Após uma breve estadia na Mar tinica e em Santo Domingo, Breton retornaria à França. Foi no navio em que embarcou em Puerto Plata (República Dominicana) fazendo a volta por São Tomás (nas Antilhas) – de onde partiria de avião para os Estados Unidos, seguindo depois para a Europa – que ele reencontraria, pela última vez, um dos jovens de La Ruche que esteve à frente dos “Cinco Gloriosos”: Gérald Bloncourt.

* Michael Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (França). Autor, entre outros livros, de A estrela da manhã: surrealismo e marxismo (Boitempo).

Referência


Michael Löwy. O cometa incandescente: Romantismo, Surrealismo, Subversão. Tradução: Elvio Fernandes e Diogo Cardoso, Edições 100/cabeças, 2021, 312 págs.