As mulheres na Comuna de Paris

Josef Albers, Study for Homage to the Square: Night Shades, 1956

Por ANNABELLE BONNET & VICTOR NEVES*

Apresentação do livro recém reeditado “Les pétroleuses”

Les pétroleuses, primeira obra inteiramente dedicada à história das mulheres na Comuna de Paris e, até hoje, um dos estudos mais completos sobre o tema, foi recentemente reeditada – cerca de sessenta anos após sua primeira publicação (1963).

Tal leitura constitui uma bela oportunidade, na ocasião dos 150 anos desse evento histórico, de relembrar a presença massiva e os diferentes – e destacados – papéis das mulheres na Comuna de Paris. Isso, por sua vez, aponta para o pertencimento da própria Comuna à narrativa da história dos feminismos, assim como, por outro lado, para a interpenetração histórica entre luta feminista e luta socialista.

Sua autora, Édith Thomas (1909-1970), cujo nome caiu no esquecimento, foi pioneira na elaboração da assim chamada “história das mulheres” que se consolidou mais tarde, nos anos 1980, em várias partes do mundo. Escritora, arquivista, militante comunista, Édith Thomas apontou, desde os anos 1940, para a necessidade de um trabalho histórico sobre o papel fundamental das mulheres na história social e política. Seu interesse no tema nasceu da sua experiência na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, na qual desenvolveu um papel importante na organização de mulheres antifascistas. Após o fim da guerra, procurou retraçar a vida e as ações dessas mulheres numa perspectiva de dever de memória.

Usando sua formação de arquivista, desenvolveu, depois desse trabalho, uma história das mulheres revolucionárias, escrevendo, por exemplo, sobre as mulheres na revolução de 1848, o destino de Louise Michel e as mulheres da Comuna de Paris. Em relação a esse tema, é preciso lembrar que o desafio era, e de certa forma continua sendo, de grande envergadura.

Se o papel das mulheres foi bastante relatado nas diversas histórias dos atores da Comuna de Paris, a dura repressão a esse evento foi acompanhada de um longo trabalho de destruição da sua memória, dificultando sua reconstrução. De fato, cabe lembrar que o tratamento político, social e midiático dominante à época considerou os Communards e as Communardes como verdadeiros párias da sociedade francesa, alimentando um silenciamento que durou por décadas. Até hoje, muitos arquivos sobre esse período não foram encontrados e as pesquisas para a identificação dos desaparecidos e desaparecidas continuam em aberto.

Além disso, a maioria das mulheres que se juntaram à Comuna de Paris conheceram um destino tão cruel quanto o dos homens, mas com um fator agravante: tinham desrespeitado o modelo da trabalhadora mãe-esposa da sociedade burguesa, que atribuía suas tarefas sociais ao setor privado, seja na fábrica, seja em casa.

Cabe lembrar ainda que, ao tomar parte ativa na Comuna de Paris, essas mulheres se tornaram sujeitos políticos, num período durante o qual seu estatuto civil, perante a lei em vigor, era equivalente ao estatuto de uma criança. Foi dessa tomada do espaço público pelas mulheres trabalhadoras que nasceu, por parte da repressão e dos conservadores, a figura da mulher revolucionária incendiária, destruidora da sociedade e da moral (a pétroleuse do título do livro, que, em tradução livre, significa incendiária).

A autora destaca, entre outros elementos, o fato de que as medidas tomadas em poucas semanas pela Comuna contribuíram para a realização do princípio de igualdade entre os sexos. Pode-se adicionar que muitas dessas conquistas foram enterradas por muito tempo, e só se concretizaram de novo na sociedade francesa após os anos 1970. Outras não se concretizaram até hoje…

Tanto umas quanto outras ainda são pesadamente silenciadas pela imprensa dominante e por grande parte da intelectualidade francesa, inclusive daquela parcela assumidamente mais progressista e envolvida em lutas pela ampliação de direitos. É o caso, dentre outras, de medidas como: o direito ao divórcio por consentimento mútuo, o reconhecimento da união fora do casamento cristão, o reconhecimento imediato de qualquer criança nascida fora do casamento, a constituição de creches públicas, da fusão entre educação para meninos e para meninas – que na França só se concretizará plenamente nos anos 1970 –,  a afirmação das mulheres como seres livres e autônomos, assim como da perene reivindicação de igualdade salarial entre homens e mulheres.

O trabalho de Édith Thomas apresenta, nesse sentido, muitos nomes, percursos de vida, tendências políticas diferentes entre essas mulheres, que se encontram em torno de iniciativas coletivas. Tal restituição por parte da autora coloca em evidência a dedicação da Comuna de Paris para trabalhar em vista da realização da igualdade, o que inclui (e isto deveria ser óbvio…) aquela entre os sexos.

A autora aponta, do mesmo modo, a presença de grupos compostos só por mulheres, mas também de grupos mistos dirigidos por mulheres. Identifica ainda mudanças de comportamento da parte dos homens envolvidos na Comuna e até então influenciados pela figura de Pierre-Joseph Proudhon, cuja notória misoginia contaminou sua prática revolucionária – o que contribuiu para a perda de sua influência junto ao movimento operário francês. Relata também momentos de tensão entre homens e mulheres, sobretudo no que diz respeito à presença dessas últimas nas forças militares, mas mostra como a maioria das questões de sexismo foram abertamente discutidas e problematizadas em praça pública ou através da imprensa organizada pela Comuna.

Para terminar, Édith Thomas problematiza um ponto, talvez o mais atual para as gerações de hoje. Pode se dizer que houve um movimento feminista durante a Comuna de Paris?

De fato, por não recorrerem ao termo de feminismo, as mulheres da Comuna de Paris foram e continuam sendo consideradas com frequência como se encontrando fora da história dos feminismos. Sua história é interpretada, em muitas oportunidades, como pertencendo à história do movimento operário mais do que à história dos feminismos, já que elas não se apropriaram desse termo. O não uso do termo feminismo foi visto como uma falta, uma limitação, e apontado como comprovação de uma suposta misoginia e da despreocupação, por parte dessa revolução, com a condição específica das mulheres na sociedade.

Édith Thomas invalida para sempre essa hipótese com seu estudo – que, lembramos, foi publicado originalmente em 1963! Ela busca resgatar as iniciativas e os cuidados em relação à condição específica das mulheres no modo de produção capitalista, e lembra que é preciso sempre historicizar e contextualizar o uso da palavra feminismo, que, até a Comuna de Paris na França, definia ainda só um combate para a ampliação dos direitos dos indivíduos nos marcos da sociedade liberal.

A Comuna de Paris e suas mulheres trabalharam para outro projeto de vida, tornando essa revolução um dos primeiros grandes movimentos internacionalistas de mulheres organizado em torno da luta de classes, da emancipação humana e feminina.

Diante do exposto, saudamos entusiasticamente a republicação do Les Pétroleuses em 2021, mas não temos como deixar de finalizar este texto com uma questão. Por que, quase sessenta anos após a primeira publicação desse importante trabalho, ainda é tão comum a afirmação, contra a Comuna, de banalidades como aquelas que a autora já havia refutado antes mesmo de que elas chegassem a ser afirmadas?

*Annabelle Bonnet, doutora em sociologia pela EHESS/Paris, é pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

*Victor Neves é professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFES.

Referência


Édith Thomas. Les pétroleuses. Paris, Gallimard, 2021.