Carta aberta aos políticos de todo o mundo

Imagem: Samu Vigano
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Por DISSIDENTES RUSSOS PRESOS

Pedimos aos políticos dos países democráticos que apoiem a luta dos russos e adotem resoluções em nome dos parlamentos, associações políticas e partidos

1.

Nós, prisioneiros políticos russos, apelamos a todos os líderes internacionais que se preocupam com o sofrimento dos povos por causa de suas convicções.

Somos pelo menos 10 mil — prisioneiros políticos russos e reféns civis ucranianos. Todos nós somos punidos por uma única coisa: ter adotado uma posição cívica.

Os conceitos de justiça e equidade estão ausentes na Rússia atual; quem ousa pensar criticamente pode acabar atrás das grades.

A legislação repressiva destinada a eliminar qualquer dissidência tem sido constantemente reforçada desde 2012. De 2018 a 2022, pelo menos 50 leis repressivas foram aprovadas e, desde 24 de fevereiro de 2022, mais de 60 outras.

Na Rússia, não há absolvição em casos com motivação política. A crueldade das penas está aumentando; penas de 10, 15 e 20 anos de prisão não surpreendem ninguém. A Duma (Parlamento) exige regularmente o restabelecimento da pena de morte.

As chances de um julgamento justo desses casos pelos tribunais russos já eram baixas, mas acabaram desaparecendo depois que a Rússia se recusou a cumprir as decisões do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em 2022.

Na Rússia moderna, as instituições de defesa dos direitos humanos foram completamente substituídas por órgãos que se contentam em imitar as atividades de defesa dos direitos humanos. Consequentemente, a saúde e a vida dos prisioneiros e prisioneiras estão ameaçadas, e a tortura e as pressões exercidas contra eles geralmente não são investigadas nem punidas.

Os presos políticos são, mais frequentemente do que os outros, detidos em condições mais duras e privados da possibilidade de liberdade condicional e de flexibilização legal do regime de detenção.

A prática de instaurar processos penais adicionais com base em denúncias de outros condenados tornou-se comum.

2.

Apesar de tudo isso, não perdemos nossa voz, não caímos no esquecimento. Mantivemos a nossa posição cidadã, baseada na qual nos parece importante afirmar:

Apelamos às duas partes nas negociações entre a Rússia e a Ucrânia para que procedam imediatamente à troca de prisioneiros e prisioneiras, prisioneiros de guerra e civis, segundo a fórmula “todos contra todos”, incluindo os reféns civis ucranianos.

Apelamos à libertação imediata e incondicional dos prisioneiros políticos doentes que estão morrendo nas prisões russas.

Contamos com os líderes políticos de diferentes países para criar as condições para a libertação daqueles que são perseguidos na Rússia por motivos políticos.

Exortamos os meios de comunicação de diferentes países a não permanecerem em silêncio e a cobrirem as atividades dos cidadãos russos que continuam a arriscar suas vidas na luta pela liberdade e pela democracia.

Pedimos aos políticos dos países democráticos que apoiem a luta dos russos e adotem resoluções em nome dos parlamentos, associações políticas e partidos.

Só juntos poderemos aproximar o tempo da liberdade e da paz.

Ilya Shakursky

Darya Kozyreva

Andrei Trofimov

Alexander Shestun

Azat Miftakhov

Boris Kagarlitsky

Alexei Gorinov

Vladimir Domnin

Anna Arkhipova

Artem Kamardin

Dmitry Pchelintsev

Publicado, entre outros veículos, pelo jornal Le Monde

Tradução: Daniel Aarão Reis Filho.


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