Cavaleiros do Apocalipse

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Os Cavaleiros do Armagedom tropical prometeram o fim dos tempos, mas entregaram apenas um enredo de comédia pastelão. Trump ameaçou, Bolsonaro tropeçou e Tarcísio hesitou

1.

Cabe uma sátira ao modo trapalhão de como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas fizeram campanha para reeleição de Lula quando a intenção era salvar os golpistas das grades.

Quem diria, meus críticos leitores, no Brasil de 2025 a reeleição de Lula começaria a ser pavimentada por uma aliança inusitada formada por três cavaleiros do Apocalipse nos Trópicos (só faltou o evangélico comando do Malafé): o Imperador Donald, o Capachonaro e o governador Dionísio Direitas. Formaram uma Tríplice Aliança, unida pelo ódio ao Brasil soberano e pelo amor à tarifa imperial.

O tarifaço de Donald Trump caiu como um golpe de sorte na bolsa de valores dos cotados para o Planalto na eleição de 2026. Um ataque frontal aos produtos brasileiros – café, carne, laranja, açúcar – com gosto de revanchismo tarifário contra o superávit comercial norte-americano [?!], quebra de aliança geopolítica e liberação da rede de ódio nas Big Techs. Tudo porque o STF ousou moderar o ódio nas redes e o Brasil a liderar o BRICS sem pedir permissão à Estátua da Liberdade.

Como efeito colateral do Imperador Donald desrespeitar a soberania brasileira, sob pedido do filho do Capachonaro, a esquerda se reorganizou. O pato grasnou com o seu morde-e-assopra e – vejam só! – Lula tomou café com o STF, reequilibrou o TSE e alinhou a Esplanada.

Nomeou uma defensora dos direitos digitais para no TSE dar nó tático nos algoritmos e manter a inelegibilidade do Capachonaro-pai. Reconduziu o ministro indicado de Alexandre de Moraes para mais um mandato no TSE. Pacote completo: STF feliz, Flávio Dino sorrindo e Alexandre de Moraes aguardando o troco contra as ameaças pessoais e os memes ofensivos da extrema direita.

2.

Enquanto isso, o Congresso, ainda sob o controle da aliança da direita com a extrema direita, começou a temer. Gilmar Mendes autorizou o acesso aos celulares do deputado federal cujas emendas são a ponta mais visível de uma investigação sobre a lavagem de dinheiro, via Congresso, do crime organizado.

A escolha da procuradora para o MP de Alagoas pacificou a política daquele Estado ao abrir o caminho do deputado federal Arthur Lira chegar ao Senado. Seu apadrinhado Hugo Não se Importa percebeu: herdar o cargo sem as benesses dos cargos não dá voto nem tampouco aliança.

E Lula? Sentou-se à mesa com todas as cartas e agora joga até de olho fechado. Se não for aprovada a MP do setor elétrico, Lula poderá depositar o aumento da conta de energia no colo do Congresso sem ser contestado. Se aprovar, Lula continua a ser visto como o regente da proteção social.

As Big Techs queriam energia barata das eólicas “offshore” para refrigerar seus datacenters tropicais de processamento de dados da Inteligência artificial. Viram a MP de Lula colocar teto nos subsídios e mostrar: “jabuti não sobe em árvore – e nem nada contra o vento”.

As Big Techs – fingem defender liberdade de expressão, mas vendem seus algoritmos ao Pentágono – entraram em modo pânico. A regulamentação da Inteligência Artificial estava sob pressão dos lobbies, agora a direita percebeu a virada no jogo com as sátiras governistas feitas por Inteligência artificial. Elas viralizaram não só no X (ex-Twitter, agora Império Muskiano), como também nos vídeos do YouTube.

De repente, a maioria direitista do Congresso se dá conta de talvez… só talvez… regular o uso político da tecnologia da Inteligência artificial seja necessário… Afinal, ela começa a decidir eleição antes dos eleitores chegarem depositar votos nas urnas eletrônicas. O que era uma arma só da direita virou um cabo eleitoral da esquerda.

3.

No meio desse vendaval político, quem se saiu também bem foi Geraldo Alckmin: o vice como líder do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC transformou-se em paladino do agronegócio tarifado por Donald Trump. Demonstrou ser útil para agradar o agro magoado com o Capachonaro e manter viva a Frente Ampla Antifascista.

O PT acha uma boa ideia ele, como candidato competitivo dessa Frente, disputar novamente o governo de São Paulo. Mas Lula talvez prefira mantê-lo na chapa: o ex-tucano vale mais para atrair votos moderados, diante a campanha dos pastores, sob comando central do Malafé, para eleger a maioria do Congresso Nacional e mudar a Constituição para atender sua pauta conservadora e dar anistia aos golpistas.

Moral da História: nesta última semana, a tentativa de golpe tarifário do Imperador Donald (apesar do TACO – Trump Always Chickens Out) virou o maior ato de campanha para a reeleição de Lula, desde quando Jair Bolsonaro foi condenado à inelegibilidade e, brevemente, irá parar atrás das grades.

A estúpida direita brasileira sonhava com o retorno triunfal do Império via a chantagem anistia ampla, geral e irrestrita ou tarifaço. Na realidade, só conseguiu acordar os apoiadores lulistas com uma dose inesperada de pragmatismo, institucionalidade e apoio de Inteligência Artificial.

Daí, o povo eleitor observa e pensa ironicamente: – “Se até Donald Trump ajuda Lula, por que eu não ajudaria também?”

E assim segue a campanha da reeleição: patrocinada involuntariamente por Donald Trump, com a execução do jogo da corte de Brasília, embalada por Inteligência artificial – e com picanha e suco de laranja mais baratos aqui devido ao encarecimento tarifário lá.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]


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