Céu, inferno

Willem de Kooning, Untitled (Torsos), c. 1954.

Por DAVI ARRIGUCCI JR.*

Comentário sobre o livro de Alfredo Bosi

Nesse livro se apresenta o fruto de mais de vinte anos de trabalho. São artigos, prefácios, estudos e ensaios que podem dar a medida exata de quem os concebeu com lucidez e sensibilidade. Alfredo Bosi está inteiro nesses escritos – verdadeiro percurso do espírito crítico de um homem de letras, no seu confronto ininterrupto com os textos e os múltiplos problemas do mundo que eles de algum modo encerram.

Dos anos iniciais, dedicados à cultura italiana, ficaram traços ainda vívidos em sua personalidade literária. Certo gosto, apurado na estética da expressão de Croce; um jeito de sondar na linguagem a intuição de um universo, descarnando no poema um núcleo de imagens e o sentimento que as anima. Ao mesmo tempo, a visão abrangente, a busca do sentido humanista das artes; no mais fundo, uma persistente inquietação – filosófica e político-social – despertada dentro da própria trama dos textos.

Vários trabalhos remontam a esse tempo mais distante: assim os que esboçam uma história interna do realismo na prosa da Itália, enlaçando numa linhagem comum Verga, Svevo, Pirandello, Moravia. E também as análises da poesia moderna de Montale e Ungaretti, da paixão de Pasolini, do pensamento de Gramsci. Foi profunda e fértil a stagione italiana de Bosi.

Mas é no espaço da literatura brasileira e em algumas incursões no terreno teórico que o livro mostra sua garra. Bosi é o autor da História concisa, manual indispensável a todo estudioso de nossas letras. Agora volta mudado; mais detido, penetrando fundo em figuras centrais de nossa literatura – Raul Pompeia, Graciliano, Guimarães Rosa, Drummond… O ensaísta amadureceu e intensificou sua visada analítica, refletindo sobre a própria arte da interpretação, sem, no entanto, abandonar a perspectiva histórica, como um ponto de vista fundamental nos estudos literários. Não descuida, por isso, da análise formal nem se afasta do presente. Ao contrário, se esforça por integrar todo detalhe significativo no movimento geral da sociedade e no curso das ideias, sem perder de vista seu próprio tempo.

A crítica se faz então um ato de compreensão e julgamento, movido por um olhar de duplo foco: voltado para o passado, mas sensível à novidade do presente; preso ao dado, mas sabedor do subentendido; fixado na estrutura estética, mas atento à ideologia. Ato que se rege por um senso ético pertinaz, por uma busca do valor e uma larga confiança na pessoa humana, correspondendo a uma aguda consciência da negatividade necessária e da resistência a todo custo em tempos em que viver ficou mais difícil.

Daí certa tensão dramática do crítico, contido com sobriedade, mas às vezes ferino na ironia sutil e sempre fervoroso diante das brechas de esperança. Alimentado ainda por uma curiosidade verdadeiramente enciclopédica pela cultura, lembra, por vários desses traços que compõem seu modo de ser, a figura exemplar e inesquecível de Otto Maria Carpeaux. Como no caso deste, interpretação e juízo não se desgarram da pessoa de que partem, e uma densa onda de humanidade imprime seu ritmo caloroso à prosa da crítica. É que ela é aqui a medida viva de um homem que olha com clareza e paixão o mundo.

*Davi Arrigucci Jr. é professor titular aposentado do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. Autor, entre outros livros, de O escorpião encalacrado (Companhia das Letras).

Referência


Alfredo Bosi. Céu, inferno: Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo. Editora 34, 496 págs.