Cinquentenário de um arquivo

Imagem: Ester Partegàs
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Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*

Cinco décadas depois, o Arquivo Edgar Leuenroth é mais que um depósito de documentos: é um monumento à astúcia dos que desafiaram o autoritarismo para salvar a história dos vencidos. Seus papéis, outrora escondidos como contrabando, hoje falam alto

1.

O Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp, completa 50 anos e está mais próspero que nunca. Criado em meio à pior fase da ditadura, o resgate e salvamento foram uma proeza.

Trabalhador gráfico anarquista, Edgar Leuenroth foi um dos líderes da grande greve geral na São Paulo de 1917. Até morrer em 1968, ele colecionou todo tipo de documentação do movimento operário, nos anos cruciais de formação do proletariado paulista. Foram jornaizinhos, panfletos, palavras-de-ordem e convocações, cartazes, resumos de cursos, programas de teatro operário tão vivaz naqueles anos, correspondência – e não só de timbre anarquista. Era um homem de convicções tão inabaláveis quanto sua afabilidade e cortesia, conforme testemunham entre outros Antonio Candido.

Quando morreu em tempos de AI-5, seus papeis estavam depositados num galpão no Braz, tendo ´por guardião o filho Germinal Leuenroth. Este, ao pôr o arquivo à venda, avisou o sociólogo Azis Simão, um socialista grande amigo do anarquista. A coleção era cobiçada pelos americanos, que iam comprando os arquivos de militantes políticos acossados pela ditadura. Assim, muitos arquivos foram felizmente salvos, mas infelizmente expatriados.

Desenvolveu-se então, dada a conjuntura de terror de Estado, uma operação rocambolesca. Uma verdadeira conspiração do bem. Ao receber a notícia de Germinal, Azis Simão procurou Antonio Candido, também do Partido Socialista e colega, sendo ambos assistentes de Fernando Azevedo na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Estavam já trabalhando no arquivo Michael Hall e Paulo Sergio Pinheiro, ambos da Unicamp. Os dois atraíram mais pessoas à conspiração, como o diretor do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), Manoel Berlinck. Chegaram a aliciar até o nada esquerdista reitor Zeferino Vaz, da Unicamp, que autorizou as verbas e avalizou os documentos necessários, inclusive o pleito à Fapesp.

Pediu-se um parecer a Antonio Candido e Azis Simão, que o fizeram a quatro mãos, encaminhando-o ao reitor. Uma comissão constituída por professores da Unicamp e mais alguns simpatizantes da USP como Fernando Novais, sacramentou a transferência. E assim o acervo chegou a Campinas, driblando os americanos e os esbirros do regime.

Uma providência urgente, feita em segredo: microfilmar tudo, depositando uma cópia em cofre alugado no City Bank de Campinas por Michael Hall, sendo outra cópia levada por Paulo Sergio Pinheiro para o Instituto Internacional de História Social em Amsterdam, o mais importante arquivo do movimento operário do mundo.

2.

Desde então, o Arquivo prosperou. Começando com apenas um acervo, o de seu heroi epônimo, uma contagem mostrou já se ter responsabilizado por mais de 100 outros arquivos. Estes vão desde os estritamente políticos, como os da comissão que preparou o relatório sobre a tortura intitulado Brasil: Nunca Mais, sob a égide do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, destacado ativista dos direitos humanos à época, que não só salvou arquivos. mas vidas.

E, ampliando seu escopo, viria a incluir os papeis dos movimentos sociais que se avolumaram – feministas, gays, negros – mas também os de outros, como os do Teatro Oficina, ou então os do Ibope, com cinquenta anos de pesquisas de opinião.

Não podia faltar aqui menção a Marco Aurélio Garcia, recentemente falecido, que completou o trio e foi o primeiro diretor do Arquivo Edgar Leuenroth, encarregando-se com dedicação única à organização do arquivo, idealizando e realizando vários projetos de pesquisa, inclusive para os alunos. De lá saíram inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, que os historiadores da casa orientaram, e continuam orientando.

O resultado mais visível foi a legitimação dos estudos universitários sobre o mundo do trabalho, até então restritos a poucos sociólogos e memorialistas. A Fapesp foi inabalável em sua confiança e apoio a todos eles, alunos e professores.

Por volta de uma década atrás o Arquivo ganhou prédio próprio e independente, no campus da Universidade, tendo finalmente instalações modernizadas e atualizadas, adequadas a seu estatuto de um dos maiores centros de estudos e de documentação do movimento operário no mundo. Um grande feito.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc\Ouro sobre Azul). [amzn.to/3ZboOZj]


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