Por VALERIO ARCARY*
Entre a necessidade histórica e a vontade política, o marxismo só se realiza quando recusa tanto o fatalismo econômico quanto o voluntarismo cego
“Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje. A ação é filha do pensamento” (Provérbio popular português).
1.
A economia governa a política? A querela sobre o perigo dos excessos economicistas, na história, não é nova. A polêmica teórica sobre a alternância das forças de pressão das causalidades, constituiu um divisor de águas metodológico nas discussões entre marxistas.
Não parece razoável duvidar que a análise dos antagonismos dos interesses econômicos é essencial para a explicação das turbulências da vida política; mas, paradoxalmente, já foi demonstrado que as classes sociais não agem sempre de acordo com aquilo que se poderia presumir como sendo os seus interesses econômicos imediatos. Um determinismo esquemático poderia, portanto, mais ocultar do que explicar.
Outros cálculos incidem sobre os movimentos das classes em luta e suas representações políticas, e regulam as relações de forças. Quando perspectivas políticas estratégicas estiveram ameaçadas, sacrifícios táticos foram compensatórios. As classes dominantes revelaram, em inúmeros processos, uma lucidez preventiva e estiveram dispostas a realizar concessões transitórias para diminuir a intensidade de conflitos que poderiam deixar o poder vulnerável.
Mas também não foi excepcional que a esquerda tenha sido obrigada a fazer negociações para ganhar tempo, sacrificar posições para acumular forças, evitar combates prematuros ou sem qualquer possibilidade de vitória para preservar posições. A política pode governar a economia? Se há algo que devemos aprender da história é que não há beco sem saída econômico para o capitalismo. Tudo depende do desenlace na luta de classes.
Toda discussão tem uma história, e esta querela tem uma longa história. Polêmicas teóricas marxistas nunca são, politicamente, inocentes. Nem sempre, porém, as controvérsias no campo da teoria traduzem uma correspondência simples, no terreno político. Duas posições “extremas” com inclinações simétricas se opuseram, desde sempre, na disputa teórica sobre o economicismo.
A tensão entre necessidade e vontade, ou entre determinismo e livre arbítrio, resume uma questão metodológica crucial, que poderíamos, talvez, enunciar como uma dualidade epistemológica em Marx, decisiva para esclarecer os critérios-chaves do materialismo histórico. O reconhecimento da primazia dos fatores objetivos na longa duração, que, na história, corresponde à centralidade das causalidades econômicas, não é casual.
Antes do marxismo, a necessidade do socialismo estava fundamentada em uma ruptura moral e ética com a desigualdade social. O esforço científico de Marx foi tentar demonstrar que a crise do capitalismo estava, objetivamente, inscrita dentro das contradições incontornáveis do sistema. Crises econômicas podem, porém, ter as mais variadas soluções, e a saída anticapitalista seria somente uma delas.
2.
O projeto socialista repousava em uma aposta estratégica na mobilização revolucionária de massas. O marxismo sempre foi sinônimo de máximo ativismo. Todos os que reivindicam o método do materialismo concordariam que os homens fazem a história, mas não nas condições que desejariam. A vontade já moveu montanhas, mas não pode tudo. A história estabelece limites para as escolhas humanas. Onde se esgota a vontade?
Quais são os limites impostos pelas circunstâncias históricas? No século passado, grande parte dos socialistas desiludiu-se com a revolução, mas, também, muitos revolucionários não foram marxistas. Classificações são sempre reducionistas e eliminam, perigosamente, inúmeras posições intermediárias, mas os participantes destes debates se chamaram, mutuamente, de objetivistas e subjetivistas, ou, com mais amargura, fatalistas e voluntaristas.
A maioria dos primeiros se inclinou por posições moderadas, enquanto muitos, entre os segundos, abraçaram perspectivas revolucionárias. Mas há, também, uma forma de objetivismo radical: o catastrofismo. Essa perspectiva repousa na aposta de um grande colapso da ordem capitalista que precipita uma situação caótica.
O contexto histórico-político foi sempre um fator decisivo. Nos anos cinquenta, uma corrente intelectual do marxismo ocidental, em especial do francês e italiano, moderadamente crítica aos horrores da era estalinista, mas ainda na área de influência dos dois maiores PC’s da Europa, procurava uma requalificação dos livros do jovem Marx, por resistência ao que considerava os perigos dos excessos economicistas.
De Berlim, em 1953, e Budapeste em 1956, sopravam ventos antiburocráticos. Depois tornou-se público o relatório Kruschev e a “Primavera de Praga” em 1968, despertou a esperança em um socialismo com “face humana”. Na tendência oposta, o estruturalismo de Althusser – muito influente nos anos 1960 e 1970 – procurou identificar nos textos do Marx maduro um corte epistemológico científico com os textos da juventude, argumentando que, necessariamente, era uma obra em construção, em que elementos eram continuamente retificados.
Insistia na reivindicação da força teórica do Marx de O capital como a inspiração mais sólida para compreender as determinações objetivas dos obstáculos do processo de transição ao socialismo. O próprio Engels tinha considerado necessária uma intervenção no debate sobre o determinismo, no início dos anos noventa do século XIX, quando já se vislumbrava uma recuperação econômica da grande depressão iniciada em 1870, preocupado com ênfases economicistas excessivas, ou até mecanicistas, que eram feitas em nome de Marx.
3.
Fenômenos complexos têm muitas causas, e os processos históricos estão entre os mais complexos. Reconhecer a existência de muitas determinações não parece, no entanto, suficiente para a metodologia científica, que precisa estudar as relações entre as causalidades – suas hierarquias de força de pressão – para não ser vítima de um indeterminismo obscurantista. Fatores que condicionam em uma direção são contrabalançados por outros, mas ainda assim uma dinâmica se afirma e abre caminho.
Na conhecida “Carta a Kugelmann”, Engels apresenta a fórmula do paralelograma de forças, um esforço de reequilibrar ou reordenar a articulação das causalidades, sugerindo que Marx não se rendia ao economicismo, e utilizava diferentes níveis de abstração, quando buscava o estudo de cortes de temporalidades mais curtas ou mais longas, ou esferas distintas de análise, considerando-se a natureza do tema em pesquisa.
A conclusão fundamental do Prefácio à crítica da economia política já indicava uma reflexão crítica sobre a transição pós-capitalista. A perspectiva socialista era contextualizada nos marcos de uma longa época histórica, em que a necessidade do desenvolvimento econômico-social colocava a possibilidade da revolução anticapitalista. Necessidade e possibilidade se definiam, portanto, em uma unidade dialética, que não se confunde com fatalismo.
A transição ao socialismo era condicionada, porque muito mais complexa e consciente do que qualquer das transições pré-capitalistas. Marx dedicou o melhor de suas forças, depois das derrotas de 1848, ao desenvolvimento de um programa de investigação sobre a anatomia do modo de produção capitalista. O fundamento metodológico do materialismo histórico estabelecia como premissa que a determinação, em última instância, das leis mais gerais que governam a transformação da sociedade encontrava a sua raiz na produção econômica.
Essa convicção inabalável atravessou a sua obra e a de Engels, mas ambos não concluíram que esta causalidade era única. Nem reduziram a importância da interação de múltiplos fatores sociais, políticos, ideológicos, culturais e outros, que são as contradições vitais que definem a substância da qual a história é feita e a chave da sua compreensão.
Friedrich Engels insiste nas articulações contraditórias entre o movimento econômico, as lutas de classes e o conjunto das expressões superestruturais. Podemos deduzir que o reconhecimento das alternâncias de primazia entre as causalidades, em cada corte temporal histórico/concreto, remete a uma metodologia muito mais complexa que um modelo economicista. O que se pode entender por alternâncias de primazia?
A dialética das causas que se tornam consequências elimina toda simplificação de análise. Ao admitir que as determinações operam em simultaneidade e em interação – ação e reação em permanência – e reciprocidade, Friedrich Engels alertou que o econômico governa o político, tanto como o político governa o econômico. As lutas de classe e as forças superestruturais incidem, também, e muitas vezes decidem o curso do processo econômico.
Por outro lado, Friedrich Engels é mais explícito ainda quando afirma que somente em última análise, ou seja, em um nível mais elevado de abstração, e no curso do processo – portanto, na longa duração – é que as forças motrizes econômicas se afirmam e se hierarquizam sobre uma multidão de acasos, aleatórios ou acidentais, definidos como imprevisíveis, mas não inexplicáveis.
Ocorre que a substância da história consiste em desvendar o que se esconde nessa dialética de necessidades e acasos. O que abre o caminho para a mudança é a luta de classes. O que permanece decisivo na luta de classes é o papel e a qualidade, ou lucidez e ousadia, das direções políticas na luta pelo poder.
*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].






















