Da arte de não enxergar corpos no espaço público

Imagem: Cátia Matos

Por LEONARDO AVRITZER*

Considerações finais sobre a discussão com Vladimir Safatle

Finalizo minha contribuição à discussão sobre o episódio do fogo na estátua do Borba Gato, em São Paulo, que levou a uma polêmica com Vladimir Safatle – travada no site A Terra é Redonda –, respondendo a uma questão fundamental de sua tréplica: o problema da violência no espaço público.[1]

Retomo o meu argumento. Baseei-me em Hannah Arendt, na sua crítica à violência e nas suas discussões sobre espaço público, para argumentar que há perigo real de que as formas de violência para a destruição do velho contaminem o novo. Mobilizei também, para o meu argumento, Judith Butler e sua ideia de corpos no espaço público, abordada em seu livro Corpos aliados e luta política (Buenos Aires, Paidós, 2015). Meu argumento é que as formas de ação dos movimentos sociais e dos atores políticos no espaço público devem privilegiar a construção de novas formas do político e que há uma relação negativa entre o exercício da violência e as formas políticas que se formam depois do seu uso.

Estabeleci também uma dinâmica positiva entre a ideia de espaço público em Arendt e em Butler, através da ocupação do espaço público. Afirma Butler “Para Arendt, a ação política tem lugar, porque o corpo está presente. Apareço frente a outros e eles aparecem frente a mim, o que significa que algum espaço permite nossa aparição”. Não existe política sem corpos e o que Butler acrescenta a Arendt é a ampliação da pluralidade dos corpos que irão permitir a reapropriação e a “reconfiguração dos espaços materiais” (vide capítulo 2 corpos em aliança e política da rua).

Nesse veio, utilizei algumas interpretações do texto de Walter Benjamin sobre a violência que Safatle considerou socialdemocrata light. Existem de fato outras interpretações que o soreliano da USP talvez goste mais. Vale lembrar que o próprio Carl Schmitt mandou uma cartinha elogiosa ao texto, talvez por ter a mesma interpretação de Safatle (vide Jaques Derrida. A força da lei, p. 71). Sabemos onde esta via conduz.

Contrastei a análise feita por Safatle com as seguidas manifestações feitas no Chile em torno da estátua do general Baquerano durante o ano de 2019. Utilizando as ocupações da estátua e a colocação da bandeira Mapuche no seu topo, identifiquei a política com a instituição de uma nova forma de relação entre ressignificação do espaço público e direito. Conectei essas manifestações com a eleição de uma indígena Mapuche para a presidência da Assembleia Constituinte no Chile que esteve ligada a esse movimento de ressignificação. Não sem uma certa dose de jubilo, Safatle me respondeu mostrando que a estátua do general Baquerano foi incendiada no dia 05 de março deste ano, fato que eu desconhecia, e que, segundo ele, foi decisivo para a sua retirada pelo governo chileno. Ou seja, os quase dois anos depois dos primeiros atos de ocupação da estátua, as bandeiras e os corpos que a ressignificaram de nada serviram.

Só tem um problema com o argumento de Safatle: ainda que a estátua tenha sido incendiada, é difícil estabelecer qualquer conexão lógica entre esse fato e a eleição da indígena para a presidência da Assembleia Constituinte. Ou talvez o novo para Safatle seja apenas o monumento sem estátua e isso o satisfaça. Não é claro no argumento de Safatle o que se pode instituir de nova relação política com esse argumento. Na verdade, parece que ele abandonou esse argumento do seu primeiro artigo sem conseguir explicar para o leitor como se conecta ação coletiva, corpos no espaço público e a instituição de um novo direito.

Encerro minha participação nessa polêmica colocando para o leitor abaixo as duas fotos, a da estátua com os corpos que a ocuparam em praça pública e colocaram a bandeira Mapuche no seu topo e a da estátua pegando fogo. Peço ao leitor para que decida onde está a política: se ela está nos corpos que protestam e utilizam símbolos que apontam para o futuro, ou no entendimento de que o fogo é a continuação da política por outros meios.

*Leonardo Avritzer é professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG. Autor, entre outros livros, de Impasses da democracia no Brasil (Civilização Brasileira).

Nota


[1] Eis a lista dos artigos, em ordem cronológica:

Vladimir Safatle, “A liberação do passado”: https://aterraeredonda.com.br/a-liberacao-do-passado/]

Leonardo Avritzer, “Bastilha e Borba Gato”: https://aterraeredonda.com.br/bastilha-e-borba-gato/

Vladimir Safatle, “Por favor, da próxima vez façam uma nota de repúdio”: https://aterraeredonda.com.br/por-favor-da-proxima-vez-facam-uma-nota-de-repudio/

Leonardo Avritzer, “Entre o fogo na estátua e soltar uma nota: a ressignificação do espaço público”: https://aterraeredonda.com.br/entre-o-fogo-na-estatua-e-soltar-uma-nota-a-ressignificacao-do-espaco-publico/

Vladimir Safatle, “Da arte de não enxergar o fogo”. https://aterraeredonda.com.br/da-arte-de-nao-enxergar-o-fogo/?doing_wp_cron=1628180853.4686450958251953125000