Depois das eleições

Imagem: Silvia Faustino Saes

Por MARCOS SILVA*

Inimigos no poder e outros poderes

Quarta-feira de cinzas, ela desatinou: toda a gente já está sofrendo normalmente e, no entanto, é preciso cantar.

Eleições são muito importantes, mas existem outras maneiras de luta social pela transformação do país. Ganhar eleições é ótimo e depois as lutas continuam de novas formas. Perdê-las é muito ruim embora isso não signifique o fim de mundo.

As eleições municipais brasileiras de 2020 tiveram um saldo geral péssimo para os setores políticos de esquerda: vitórias em larga escala de candidatos de direita – não de centro-direita, essa marca fantasia que se reduz a… marca fantasia (v. o centrão bolsonarista).Houve tristíssimas derrotas de candidatos de esquerda nessas eleições: São Paulo, Porto Alegre, Recife… Noutra importante cidade brasileira, não chegou a existir candidatura de esquerda em segundo turno: Rio de Janeiro. E tivemos casos melancólicos de cidades e mais cidades sem candidaturas de esquerda com votação expressiva sequer no primeiro turno – feios horizontes.

Balanço na mídia e nas redes sociais: o PT acabou, a fantasmagórica centro-direita (a mesma que derrubou Dilma Roussef e silenciou diante do elogio a Brilhante Ustra e ao conjunto da ditadura anterior) triunfou; esquerda, se houver, será somente Boulos e PSOL.

Boulos e PSOL não surgiram agora, foram, são e serão importantes, sim, mas não só eles. Por que a esquerda não consegue ser múltipla e aprender com suas diferenças? O antipetismo é anti-esquerdismo.

O PT perdeu.

A euforia com essa derrota é tão grande entre seus inimigos que eles chegam a festejar Boulos e PSOL como nova esquerda arejada, tolerável, talvez simpática.

Adeus às ilusões: quando Lula começou a se destacar como liderança sindical brasileira, nos anos 70 do século passado, o inimigo de esquerda mais visível para quem estava no poder era o PCB, os mesquinhos do estadita (dura) até teceram alguns elogios suaves ao novo nome – inteligente, ágil. O próprio Elio Gaspari registrou essa enganosa elegância liberal em seus livros sobre a ditadura de 1964! Maquiavel: o que serve para enfraquecer o inimigo deve ser elogiado para melhor neutralização das partes que se quer destruir, inclusive o alvo momentâneo dos elogios.

O PT pode acabar, claro: tudo que é sólido desmancha no ar.

Ele já acabou?

A ansiedade por alardear esse anúncio sugere que não: para que chutar cachorro morto?

O anúncio da derrota do PT e das demais esquerdas é tão forte que mereceu um editorial e uma coluna assinada na FSP de 1º de dezembro de 2020, mesma página 2. Eis a força da ansiedade.

É importante reconhecer derrotas, sacudir a poeira e dar a volta por cima pois a próxima batalha já começou.

Os outrora poderosos partidos comunistas e socialistas de Itália e França não ganham eleições nacionais há algum tempo. Silenciar seria a pior resposta. Repensar comunismo e socialismo diante do destrutivo capitalismo no mundo de hoje faz-se urgente.

A direita refortalecida no Brasil de 2020 é a mesma que pariu bolso e não cessa de ovular similares, à espera de inseminações compatíveis. O bolsonarismo é mais que o cidadão bolso. Existem disputas internas nesse universo que não se confundem com forças que mereçam nossa esperança. Quem caluniou nas eleições municipais não pode ser tratado como aliado para depois de amanhã, exceto se fizer dura autocrítica sem direito a turismo entre primeiro e segundo turno.

Alianças são muito necessárias, excluídas pré-condições e bolas de cristal. Disputar hegemonia antecipadamente, sem sequer saber quais as cartas disponíveis na mão, é perder o jogo antes do primeiro lance.

Como é fácil culpabilizar derrotados pela situação em que se encontram! Mais complicado é identificar a força dos inimigos – dinheiro, falta de escrúpulos e autoconfiança – e rebater com armas diferentes das deles.

Nas eleições presidenciais de 2018, alguns diziam que a esquerda precisaria aprender com a direita a se comunicar, a direita saberia falar com seus eleitores. Ora, a direita sabia e sabe falar seus conteúdos e suas ações para angariar eleitores que não pensam. Nossa diferença jamais se confundirá com cacoetes de ratinhos e outros roedores. Precisamos inventar outras falas, jamais repetir os horrores da linguagem de direita apenas com novas vestes. Outros projetos, outras palavras. Torna-se urgente inventar a consolidação do outro.

A barra está pesada e pode piorar, só mudará se tratarmos os inimigos como inimigos.

Partidos podem ser muito mais que gestores de cargos públicos na máquina administrativa conquistada. Querem sê-lo?

Movimentos sociais dependentes apenas de partidos e governos se aniquilam, quando muito se reduzem a seus apêndices.

Não existe Don Quixote sem Sancho Pança.

Projetos derrotados guardam memórias de lutas, são mais que derrotados.

À luta!

*Marcos Silva é professor do Departamento de História da FFLCH-USP.