Desembaçando a Venezuela

Imagem: Jr Korpa
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Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS*

O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força

“Todo mundo tem um plano até levar um murro na cara” (Mike Tyson).

1.

Foi a primeira vez que os Estados Unidos atacaram um país da América do Sul. É possível debater os motivos da agressão. Mas estão claras as condições que a tornaram possível.

A principal delas é a diluição do liberalismo, que se confunde cada vez mais com a direita.

Quando Israel bombardeou o Irã, séculos de islamofobia pesaram mais do que o direito internacional. O “mundo livre” que endossava o genocídio em Gaza, aquiesceu. Nessa hora, de pouco serviram a Rússia e a China. Os iranianos ficaram à própria sorte.

A satanização da Venezuela foi política. Construiu-se desde que Hugo Chávez pendeu para a esquerda em resposta ao golpe de 2002. E se prolongou como ideologia quando a bonança petroleira se esgotou, e com ela, o impulso social. O ponto de virada foi a eleição de 2015, em que a oposição conquistou o congresso. Antecipando um parlamento determinado a lhe destituir, o chavismo torceu a institucionalidade democrática que havia erigido e se perpetuou no poder.

O impasse culminou na autodeclaração de Juan Guaidó como presidente em 2019. Seu reconhecimento pelos Estados Unidos e a maioria da União Europeia desafiaram a legalidade e o bom senso, aguçando a polarização. Para Maduro, o custo de deixar o poder passou a ser maior do que o custo de ficar. Representante de uma direita golpista que nunca teve apoio popular, Guaidó exortou os Estados Unidos a invadirem o país. Mas naquele momento, Trump não embarcou.

2.

O que mudou de lá para cá?

Após sete anos em queda livre, o PIB venezuelano apresentou ligeira melhora em 2021. A caída foi vertiginosa, mas cessou. As sanções agravaram uma situação que não criaram, mas também alimentaram a retórica anti-imperialista com a qual Maduro quis compensar a perda de legitimidade, além da repressão. O consenso cedeu à coerção. A repressão não se comparou à Nicarágua de Ortega, mas isso não consola suas vítimas. Então, as eleições de 2024 foram fraudadas. E a repressão aumentou.  

Como se vê, não é fácil defender Maduro, mas a questão não é essa. Discutir se Maduro foi traído, a índole da vice-presidenta ou o julgamento em Nova Iorque é a maneira do jornalismo encobrir o crime estadunidense. A questão é o uso feito por Trump da situação venezuelana e o que este uso revela. Porque a mudança fundamental de Guaidó para cá, não aconteceu no Caribe.

Há exatos cinco anos, trumpistas assaltaram o Capitólio incitados por seu líder. O ato foi mal visto e Trump parecia condenado ao ostracismo ou à cadeia. Mas não foi assim. Se o primeiro voto em Trump se confundiu com um rechaço ao establishment, a volta à presidência revelou adesão. Neste deslizamento entre o protesto e o engajamento, a aventura se consolidou como projeto.

Entretanto, o tapete vermelho para a volta de Trump foi estendido sobre Gaza. Com apoio de Biden e do mundo livre, Israel consagrou a obsolescência do direito internacional e dos direitos humanos. Se vale a lei do mais forte, de que serve a fé liberal? O liberalismo se torna obsoleto e as constituições, peças de museu. Talvez por isso Israel nunca teve uma.

No caso da Venezuela, a senha para a cumplicidade internacional foi o prêmio Nobel da Paz para Maria Corina Machado em 2025, que ela dedicou à Trump. Premiar uma golpista frustrada foi o anúncio de que o mundo livre lavaria suas mãos em relação à Venezuela. Se isso é o que chamam de paz, parece lógico que Trump reivindique o prêmio.

3.

Ainda assim, poucos esperavam um ataque. Porque a dissolução do liberalismo na extrema-direita provoca um embaçamento: ainda olhamos o mundo com olhos de que não vai acontecer. Há muitos regimes antidemocráticos no mundo, a maioria aliados a Trump. Outros não. Complementar ao abraço liberal à direita, é a esquerda que emula a China e a Rússia, países que não reconheceram Guaidó. Assim como a Turquia, onde se diz que Maduro se exilaria. No poder há quase tanto tempo quanto Chávez e Maduro somados, Erdogan tem telhado de vidro.

Mas o ditador turco pode descansar, porque o embaçamento produziu outro argumento. Acusou-se Maduro de chefiar um cartel de drogas que não existe (embora outros existam), quando se sabe que a Venezuela não é relevante como rota de tráfico. A verdade por trás da mentira foi esclarecida semanas antes, quando Trump indultou o narcoditador hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão pela justiça estadunidense. A verdade, é que a verdade não importa.

Já vimos mentira para invadir o Iraque em 2003. Também vimos 26 mil soldados invadirem o Panamá para capturar Manuel Noriega, um agente da CIA convertido em traficante e ditador em 1989. Os Estados Unidos têm uma longa folha corrida de crimes e mentiras. O que há de novo sob Trump?

A novidade está sendo escrita, mas se veemos contornos. A própria estratégia do ataque, executada como uma captura sem invasão, sugere experimentação. Queriam testar a resposta militar venezuelana? Sentir a reação popular? Neste segundo caso, a resposta foi tímida se comparada ao golpe de 2002, quando a população acudiu massivamente às ruas. Já a oposição celebrou na diáspora. No país, os venezuelanos pareciam assistir atônitos ao desenrolar da sua própria história. A principal reação foi estocar comida. Nas filas, o silêncio. Por baixo do silêncio, o medo da repressão.

Como a situação evoluirá, não se sabe. Para os Estados Unidos, a equação é submeter a Venezuela ao menor custo. E o menor custo significa operar com a estrutura vigente. Ao contrário do Panamá ou do Haiti em 1994, em que a invasão derrubou um regime e empossou alguém eleito, pouco mudou dessa vez. A não ser quem “toca” o país, como disse Trump. O plano é roubar o petróleo e gerenciar a Venezuela com uma arma na cabeça. Como na vizinha Guiana, anuncia-se mais uma rodada de combustíveis fósseis em um planeta que arde. 

4.

Por trás das divergências ideológicas, revelam-se convergências. Aos Estados Unidos não interessa a democracia, mas a estabilidade. Também ao chavismo, cujo principal ativo é o controle social. E assim, o trumpismo pretende operar pelas engrenagens do chavismo. O ataque serviu para fortalecer sua posição, exigindo petróleo e ruptura com inimigos geopolíticos. O exército de ocupação, é o que já está lá. Nele, Maria Corina não manda e por isso foi descartada. No mais, o império cruza os dedos para que todos se comportem e a operação se venda como um êxito político a baixo custo. Esse é o plano.

Para o povo venezuelano, nada mudou. Nem na economia nem na política. Descobrem que o chavismo sem Maduro pode ser o chavismo com Marco Rúbio. As estruturas repressivas seguem operando. Os presos políticos seguem presos. O descontentamento se acumulará. E o medo também.

Ninguém sabe onde isso vai dar. Mas o norte é indicado pelos presidentes que celebraram o sequestro: Noboa (Equador), Paz (Bolívia), Milei (Argentina), Chaves (Costa Rica), Bukele (El Salvador). Vários apoiaram Trump alegando que Maduro fraudou as eleições. Só que o processo contra Maduro não é político, mas criminal. O embaçamento é ilegal e imoral, mas funciona. Talvez a novidade de Trump seja mais visível no embaçamento do que no contorno.

Trump disfarçou a natureza política da agressão como guerra ao crime. Em El Salvador, que inspira os demais, a guerra ao crime é a própria política. Trump quer submeter a América Latina com base na violência espetacular, como Nayib Bukele submeteu El Salvador. E vice-versa. No imperialismo do século XXI, eles se complementam.

Enquanto espetáculo, o sequestro de Maduro foi uma assustadora propaganda para consumo doméstico e internacional. A arbitrariedade do pretexto e a surpresa da violência anunciam a modalidade trumpista do “choque e pavor”. Assim como no Panamá, que antecipou o Iraque, Maduro poderia sair por outros caminhos. Também poderia ficar, pois ofereceu aos Estados Unidos concessões de petróleo e ouro, além de rescindir contratos com China e Rússia para dissipar hostilidades. 

Mas o império quis atacar. Porque assim, a imprevisibilidade de Trump será politicamente instrumentalizada. Suas bravatas podem ser bravatas, mas podem não ser. “Não façam joguinhos com este presidente”, disse Rubio. A brecha entre o blefe e o ato se embaçou. Nesta brecha, acontecia a política. Mas a política de Trump é embaçar a brecha. Daqui por diante, quem pagará para ver se é blefe?

O sequestro de Maduro terá um poderoso efeito dissuasivo na Venezuela e no mundo. O que espera Cuba, que perdeu 32 soldados no ataque? O que espera o Irã? Podemos antecipar populações desiludidas neste país ou na Nicarágua clamando por intervenção imperial? O lobby dos trumpistas sem trono deve estar fervendo em Washington.

5.

Na América do Sul, uma região sem armas nucleares e relativamente pacífica, a ansiedade é palpável. Há incerteza sobre os desdobramentos da crise venezuelana nos países vizinhos e na Amazônia. Mas sobretudo, há temor das diferentes formas da intervenção estadunidense.      

Em 2023, os militares brasileiros não embarcaram no golpe bolsonarista antes por cálculo do que por princípio. Fundamental neste cálculo foi a posição de Biden, que reconheceu Lula. Em 2025, Trump elevou tarifas em defesa de Bolsonaro, preso por incitar um golpe, como fez Trump. As eleições de 2026 no Brasil serão apertadas e desta vez, os golpistas não estarão sós. A situação de Gustavo Petro na Colômbia, país que tem uma longa história de desinformação e violência, é ainda mais delicada.

Feitas as contas, a possibilidade de uma América do Sul governada pela extrema direita eleita pelo voto popular ou quase isso em 2027, é real. O Uruguai sobraria como relíquia. A possibilidade de Trump manejar o resultado eleitoral com apoio de governadores fiéis no seu próprio país, também é real.

Não sabemos o limite da manipulação mentirosa, nem da violência em nosso tempo. Em Gaza, aprendemos que não é o genocídio. Em breve, arriscamos parafrasear o pastor Niemöller, dizendo que primeiro foram os muçulmanos; depois, os esquerdistas; e quando chegou a vez dos liberais, não havia quem os defendesse. Então, o embaço se dissipará e o mundo livre não sobreviverá sequer como ideologia.

*Fabio Luis Barbosa dos Santos é professor do Departamento de Relações Internacionais da Unifesp.

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