Donald Trump, bacharel em ciência econômica

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

A apropriação distorcida e anacrônica de teorias econômicas por Trump, que transforma uma crítica sobre dependência periférica em um manual protecionista para reviver um império industrial que não mais existe, ignorando por completo os limites estruturais da globalização

1.

Donald Trump graduou-se, em maio de 1968 (?!), com bacharelado em ciência econômica na Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

O imperador Donald adora encenar o chamado de “grande virada industrial americana”. Atua como tivesse feito a leitura, de maneira distorcida e caricata, do analisado pela professora Maria da Conceição Tavares na famosa crítica à trajetória da industrialização brasileira em seu ensaio “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil”, divulgado no início de 1963.

Ao erguer seu estandarte “Make America Great Again”, o imperador americano parece acreditar em o tempo ser reversível: basta puxar de volta os anos dourados da indústria automobilística de Detroit, as siderúrgicas fumegantes da Pensilvânia e as fábricas têxteis do Meio-Oeste. É como se o relógio da história pudesse ser ajustado pelo mesmo dedo com o qual ele clica e publica seus posts em rede social.

No delírio donaldiano, o ensaio “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil” virou manual de cabeceira. Conceição Tavares virou “guru (ou melhor uma musa) improvável”. O pato Donald, claro, leu “ao seu modo”.

Conceição Tavares explicou como a industrialização brasileira dos anos 1950-70 se apoiou no Estado, em tarifas protecionistas e em uma reorganização produtiva. Donald Trump entendeu só bastar tarifaços, xingar os chineses de “ladrões” e descriminar o Brasil, para recriar os empregos industriais americanos.

Onde Conceição Tavares enxergou limites estruturais e dependência externa, Donald Trump viu um receituário mágico de soberania produtiva. Daí adotou o protecionismo imperial invertido.

O detalhe cômico é, no Brasil, a substituição de importações ter sido uma estratégia para defender-se da hegemonia industrial do Norte. Já o imperador Donald quer aplicar a mesma lógica… contra o Sul Global! Ele ergue muros alfandegários não para fugir da dependência, mas para manter o resto do mundo dependente do dólar e da demanda de produtos americanos.

Assim, Donald Trump transforma a crítica estruturalista em arma imperial: onde Conceição Tavares descreveu desindustrialização periférica, ele sonha com reindustrialização imperial; onde ela denunciou dependência financeira, ele impõe tarifaços unilaterais; onde ela viu necessidade de planejamento, ele oferece slogans de campanha eleitoral.

2.

Na farsa da “reindustrialização” – depois da tragédia da desindustrialização ocidental – o resultado será tragicômico. Nenhum trabalhador de Detroit voltará à linha de montagem porque a GM está produzindo na China e no México e os ex-operários já se aposentaram ou viraram prestadores de serviços urbanos.

Nenhuma siderúrgica da Pensilvânia ressuscitará, porque a demanda global migrou para materiais mais leves e avançados. O crescimento, de fato, será do déficit fiscal americano pelo excesso de gastos bélicos, além despesas do governo, especialmente com programas de assistência médica, como Medicare e Medicaid.

Os pagamentos de juros da dívida pública, no seu primeiro ano após reeleito, superaram os do período anterior. Com o aumento dessa despesa, o autocrata voltou a pressionar o Federal Reserve (Banco Central americano) para reduzir as taxas de juro, porque a medida poderia aliviar os encargos financeiros do governo.

Ele não consegue inverter a seta do tempo: apenas pinta de vermelho, branco e azul uma caricatura de política industrial. Ela já se mostrou insuficiente até em países periféricos submetido à imposição da globalização com transnacionais produzindo com economia de escala chinesa de maneira muito mais barata diante o ocidente. E com bens industriais exportados com taxa de câmbio favorável ao ganho de competitividade global, pois o yuan é mantido desvalorizado propositalmente.

Os EUA querem ganhar dinheiro produzindo pouco com alta margem de lucro para a elite. China ganha com a economia de escala: dilui os custos fixos ao produzir muito e vende mais barato com uma desvalorização de sua moeda para a exportação ser competitiva…

A revolução comunista é uma revolução consumista! Barateou os antes considerados “bens de consumo capitalista”…

3.

Daí o jornal Financial Times Tropical descreveu o Donald como “um aluno aplicado e analfabeto de Conceição Tavares”! O editorial paródico intitulou-se “O discípulo improvável de Conceição Tavares”.

Reproduzo-o fielmente. “Quem diria: o Imperador Donald Trump, com sua cabeleira alaranjada e slogans de campanha reciclados como mantras religiosos, tornou-se um leitor atento de Maria da Conceição Tavares. Ou melhor: um leitor criativo, daqueles capazes de encontrar em um texto estruturalista latino-americano um manual de autoajuda para a decadência industrial dos EUA.

Segundo relatos de ‘especialistas’ em bastidores, Trump teria devorado o ensaio clássico “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil”, acreditando ter encontrado a chave mágica para a reindustrialização da América via desglobalização. O problema? Ele confundiu crítica estrutural com receita protecionista, análise histórica com plano de governo.

Conceição Tavares descreveu, com rigor, como o Brasil ergueu sua indústria a partir de tarifas, subsídios e investimentos estatais — e também como esse modelo entrou em crise, vítima da dependência tecnológica e financeira. Trump, em sua versão MAGA, só leu a primeira parte: “tarifa, tarifa, tarifa”.

Assim nasceram os tarifaços trumpistas contra a China, contra a União Europeia e até contra o Brasil — um país, na mente do Imperador, ainda ameaçador de Detroit industrial com suco de laranja, café e carne bovina. A segunda parte do ensaio, ao citar os limites estruturais, ficou esquecida embaixo do seu balde de frango frito (com carne importada do Brasil).

O resultado é uma comédia global: onde a professora viu dependência externa, Donald Trump enxerga soberania imperial. Onde ela explicou o declínio da indústria periférica, ele imagina o renascimento da manufatura americana. Onde ela alertou para os riscos da financeirização, ele corre para imprimir Treasuries e expandir déficits fiscais e comerciais financiados pelo resto do mundo pouco importante.

A reindustrialização trumpista não passa, portanto, de um slogan de campanha eleitoral. É uma versão caricata da velha substituição de importações, agora aplicada no centro hegemônico e contra suas próprias periferias exportadoras.

Na prática, Detroit não ressuscita, a Pensilvânia não ferve aço, e os trabalhadores americanos continuam substituídos por robôs ou concorrentes asiáticos. Mas Trump insiste: se Conceição Tavares mostrou como o Brasil tentou (e fracassou em) virar potência industrial autônoma, por qual razão não seria bem-sucedido os poderosos EUA?

Ironia da história: um estruturalismo latino-americano reciclado virou o novo manual de combate de um Imperador anacrônico. Só falta agora o Donald Institute lançar a versão adaptada: “Do Subdesenvolvimento ao MAGA: como usar tarifas para enganar eleitores e desafiar a seta do tempo”.

Assim concluiu o editorial do Financial Times.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]


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