É claro que se pode atirar neles

Foto de Christiana Carvalho

Por FELIPE CASTILHO DE LACERDA*

Apresentação de um artigo inédito da revolucionária alemã Ulrike Meinhof

O artigo que ora se apresenta sob o título “É Claro que se Pode Atirar Neles” foi publicado pela revista alemã Der Spiegel na edição 25, de 15 de junho de 1970, às páginas 74 e 75[i]. Como se informa na cabeça da reportagem (grafada em itálico), o texto consiste na transcrição de passagens de uma entrevista tomada em gravador com a jornalista Ulrike Marie Meinhof (1934–1976), que, ao tomar parte no resgate do prisioneiro político Andreas Baader (1943-1977), acabara de entrar na clandestinidade. Por isso mesmo, percebem-se traços de oralidade, ao mesmo tempo em que o discurso da ativista é captado apenas de maneira indireta. Esse fator também marca a escolha do título, que condiz, certamente, com o desejo da redação de colocar em relevo apenas um aspecto constante das palavras da emissora da mensagem. Malgrado o caráter indireto do registro, pode-se dizer que a entrevista integra um corpus de textos seminais, que expressaram as intenções e opiniões da Rote Armee Fraktion (Fração[ii] do Exército Vermelho), nome escolhido pelo agrupamento do qual Ulrike Meinhof tornou-se a principal liderança, já no curso de sua história sob clandestinidade. Junto ao presente texto, integrando o mesmo corpus, poderiam estar “Die Rote Armee aufbauen” [Construir o Exército Vermelho], publicado pelo jornal militante oeste-berlinense, Agit 883, em 22 de maio de 1970; com título idêntico, a carta enviada à redação de Agit 883, “Die Rote Armee aufbauen”, publicada na edição 62, de 5 de junho de 1970 e assinada por Gudrun Ensslin (1940-1977); bem como os panfletos Stadtguerilla & Klassenkampf [Guerrilha Urbana e Luta de Classes] (com sessenta páginas), Das Konzept Stadtguerilla [A Concepção da Guerrilha Urbana], datado de abril de 1971, Über den bewaffneten Kampf in Westeuropa [Sobre a Luta Armada na Europa Ocidental] (maio de 1971), entre outros[iii]. Todos eles ainda aguardam uma tradução ao português.

Mas cumpre notar que a entrevista foi posteriormente criticada por Ulrike Meinhof. Na obra publicada clandestinamente dez meses mais tarde, Das Konzept Stadtguerilla, cujo texto é assinado pela RAF, mas, muito provavelmente escrito por Meinhof – como quase todos os textos do agrupamento político –, a (co)autora abordaria a entrevista aqui traduzida:

A fita que Michele Ray possuía, da qual apareceram alguns extratos na Spiegel, não era de forma alguma autêntica; e provinha de um contexto de discussões privadas. Ray queria usar a gravação como apoio à sua memória, para um artigo próprio. Ela nos enganou, ou então nós a subestimamos. Se nossa praxis fosse tão precipitada, como em algumas formulações que aparecem ali, eles já nos teriam pegado. A Spiegel pagou a Ray um honorário de mil dólares pela entrevista[iv].

O fato curioso é que, conforme a reportagem da Spiegel que precede o texto ora traduzido, a entrevistadora foi convidada pelos próprios membros da RAF para participar de suas discussões. Michèle Ray (1939) já era conhecida de Ulrike Meinhof através de conexões estabelecidas durante o trabalho desta última na revista de esquerda sediada em Hamburgo, konkret[v]. A jornalista francesa era também suficientemente conhecida na esfera pública. Após sua carreira de modelo profissional, tendo trabalhado para grandes marcas francesas, ela ganhou fama ao integrar um grupo de modelos que fez uma curiosa campanha para a marca de automóveis Renault, realizando trajetos de rally ao largo do continente americano. Mais tarde, ao realizar campanha publicitária para o mesmo automóvel, Michèle Ray encetaria uma carreira de jornalista de guerra, tendo correspondido no Vietnã, o que lhe deve ter rendido pontos na opinião de esquerda. Já atuando nesse nicho político-jornalístico, Michèle Ray seria correspondente na Bolívia, enviada para cobrir o caso do assassinato de Ernesto Che Guevera (1928-1967), ocorrido em 9 de outubro de 1967. O trabalho rendeu uma importante reportagem na revista militante dos Estados Unidos da América, ligada à esquerda cristã, Ramparts[vi]. Junto à reportagem, a revista apresentou um convincente résumé da jornalista:

Michèle Ray, ex-modelo da Chanel e corredora amadora de carro de corrida (como garota-propaganda da Renault, ela e mais três garotas pilotaram, certa vez, da Tierra del Fuego [esp. no orig.] até o Alasca) viajou ao Vietnã em 1966 como repórter do Le Nouvel Observateur e de outras publicações francesas. Ela estava ali havia sete meses quando foi capturada pelo Vietcong e detida por 21 dias. Após sua liberação, escreveu diversos artigos, provavelmente o esforço mais significativo atualmente de interpretação do Vietcong e de sua revolução para os europeus. Enquanto estava no Vietnã, ganhou tal respeito dos soldados americanos por sua disposição para entrar em zonas de combate que uma operação ofensiva americana foi por ela nomeada – Operação Michèle.

Um mês após a morte de Che Guevara, ela foi à Bolívia como correspondente do Paris Match e passou sete semanas investigando as circunstâncias em torno da morte do líder guerrilheiro.

O livro de Michèle Ray, The Two Shores of Hell [As Duas Margens do Inferno], será publicado em maio deste ano[vii].

A obra, que aborda a experiência vietnamita da francesa, aparecera em 1967, pela editora Robert Laffont, coleção Enquêtes Actualités; no ano seguinte, a tradução à língua inglesa seria publicada em Londres, por John Murray Publishers e em Nova York (provavelmente a futura edição mencionada por Ramparts) pela editora David McKay. A jornalista seria ainda um importante personagem da história editorial, pois entrou na intrincada disputa relacionada à tentativa de venda, por parte do exército boliviano, dos diários de campanha do militante argentino-cubano, vítima deste próprio exército[viii]. Ao que tudo indica, Ray participou do episódio sob a divisa de não permitir que os diários do revolucionário fossem vendidos a grandes companhias editoriais estadunidenses. Isto é, uma ação “militante”.

É com essa bagagem midiática, e no sexto mês de gravidez[ix], que Michèle Ray recebeu um telefonema da parte de indivíduos que se diziam membros da RAF. Apesar das reticências da jornalista, imaginando, de início, poder tratar-se de uma emboscada, ela acabou por aceitar o convite dos militantes, e voou de Paris a Berlim ocidental. Na “cidade-ilha”, Ray teria encontrado Horst Mahler (1936), Andreas Baader e Ulrike Meinhof, momento no qual a entrevista que agora traduzimos foi produzida.

Cumpre, por fim, notar que as reticências entre colchetes que aparecem nesta tradução são do original, ainda que neste, grafavam-se apenas as reticências; por convenção, elas vêm aqui entre colchetes. As reticências marcam, provavelmente, a omissão de passagens da gravação, à escolha da revista. De resto, optou-se por prescindir de notas explicativas, o que levaria ao imperativo de todo um estudo mais aprofundado. Dessa forma, apresenta-se este documento em sua crueza para que estudiosas e estudiosos possam porventura acessá-lo e analisá-lo em suas pesquisas. Em sua versão original, em língua alemã, o artigo pode ser acessado no banco de dados do website da revista Der Spiegel.

*Felipe Castilho de Lacerda é doutorando em História Econômica na USP.

Notas


[i]    O livro pode  ser encontrado aqui: https://mariaantoniagmarx.blogspot.com/

[ii] A palavra alemã Fraktion pode significar facção, termo normalmente utilizado para traduzir o nome da RAF ao português. Mas, no cotidiano, o termo alemão é mais comumente encontrado na designação da bancada de um partido ou de uma coalizão de partidos no parlamento. Dessa forma, os termos “bancada” ou “coalizão” também seriam adequados para a tradução de Fraktion. A palavra “facção” parece menos adequada, pois, em língua portuguesa, ela costuma designar uma associação criminosa, de modo que o termo acaba por compactuar com a criminalização de uma organização que possui eminente caráter político.

[iii] Todos os textos mencionados se encontram disponíveis online no endereço: https://socialhistoryportal.org/raf, à exceção de Über den bewaffneten Kampf in Westeuropa, cujo texto se encontra disponível em: http://www.rafinfo.de/archiv/raf/bewaffnetenkampf.php.

[iv] Rote Armee Fraktion, Das Konzept Stadtguerilla, s.l., s.n., abril 1971, p. 4. Distribuído em 1o de maio de 1971. Tradução própria. Disponível em: https://socialhistoryportal.org/raf/5314.

[v] Jutta Ditfurth, Ulrike Meinhof. Die Biografie, 4. ed., Berlim, Ullstein, 2015 [1. ed. 2009], p. 287.

[vi] Sobre a revista Ramparts, ver: Peter Richardson, A Bomb in Every Issue: How the Short, Unruly Life of Ramparts Magazine Changed America, New York [Nova York]; London [Londres], The New Press, 2009.

[vii] Michele Ray, “Special Report. In Cold Blood”, Ramparts Magazine, mar. 1968, p. 23. Disponível em: https://www.unz.com/print/Ramparts-1968mar-00021/.

[viii] Sobre o caso dos diários da campanha de Che Guevara na Bolívia, incluindo a participação de Michèle Ray, ver: Hernán Uribe, El Diario del Che Llega a Cuba (1968-2008), 5. ed., La Habana [Havana], 2008.

[ix] “Affären. Baader/Meinhof. Bis irgendwohin”, Der Spiegel, n. 25, 1970, p. 71.