EUA – “a força faz o direito”

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Por BERNHARD HORSTMANN*

A “Cidade na Colina” apagou sua própria luz: ao abandonar até a justificação hipócrita, os EUA trocaram seu mito civilizatório por uma ganância sem freios, interna e externamente

1.

Jaqcues Baud, que foi recentemente sancionado pela União Europeia, lamenta no Dialog Works que: O mundo está entrando numa era sem lei (vídeo).

Ele está certo, é claro, mas atrasado. O direito internacional, desenvolvido ao longo de séculos, tem sido violado pelos EUA e outras forças imperiais desde que foi estabelecido.

Mas, após a Segunda Guerra Mundial, essas violações, mesmo quando óbvias, foram revestidas de propaganda que alegava que cada uma delas era para a imposição de valores superiores. Vilões tinham que ser combatidos, ditadores contestados, comunistas malvados tinham que ser impedidos de roubar seu povo. Antigos e novos neoconservadores eram mestres nisso. Os ataques imperiais flagrantes ao Iraque e ao Afeganistão foram vendidos como missões de homens bons para levar a democracia aos povos oprimidos e suprimidos desses países. Nós tínhamos que libertar suas mulheres.

Essa propaganda que encobriu as guerras brutais de conquista sob o manto da promoção da democracia durou algum tempo. Ela serviu a dois propósitos: Permitiu que os vassalos dos EUA justificassem sua cooperação com os imperialistas. Também permitiu que parte significativa das populações “ocidentais” continuasse a sentir-se bem em relação a seus países. Quando as guerras se agravaram e as perdas aumentaram, eles reconheceram que travar essas guerras era ruim. Mas o sentimento consolador era que, pelo menos, “Tínhamos boas intenções”, como um dos imperialistas que saquearam o Iraque intitulou suas memórias.

Funcionou por algum tempo para algumas pessoas. A guerra do Iraque foi alvo de protestos na Europa. A Alemanha e a França rejeitaram a guerra e o Congresso renomeou as batatas fritas francesas para batatas fritas da liberdade. Mas até mesmo sua superioridade moral deteriorou-se ainda mais desde então.

A guerra suja contra a Síria, que durou uma década, foi apoiada por todos os países da OTAN. O golpe nazista de 2014 em Kiev e a guerra subsequente contra o povo do Donbas foram abafados. A propaganda ocidental abafou todos os protestos. Mas as dúvidas sobre essas guerras permaneceram. A propaganda estava tornando-se muito óbvia.

A guerra genocida em curso em Gaza marcou um ponto de viragem. A propaganda sionista usada para justificá-la já não era eficaz. Quando isso aconteceu, os poderosos recorreram à supressão. Os protestos contra o assassinato em massa de palestinos por Israel foram criminalizados.

2.

A análise correta de Jacques Baud sobre a guerra na Ucrânia, baseada exclusivamente em fontes ocidentais, levou à medida absurda da União Europeia de censurá-lo. Joe Biden explodiu os gasodutos NordStream. Alemanha e União Europeia nem sequer protestaram contra o ataque flagrante às suas economias. A questão foi encoberta pelo governo alemão com histórias implausíveis sobre seis ucranianos numa jangada. Ninguém acreditou nessas histórias.

Donald Trump deu o último passo para libertar os imperialistas de todas as leis. Ele nem sequer tenta justificar seu ataque ilegal à Venezuela com qualquer propaganda. Não se fala em impor a democracia ou qualquer outra justificação moral. É pura apropriação de petróleo – ao estilo da máfia – sem se importar com as consequências ou com a imagem que isso transmite. A acusação contra Maduro é simplesmente ridícula. Não é um caso legal que qualquer jurista sensato levaria ao tribunal.

Os europeus fracotes não condenaram isto. E isso será corretamente interpretado como fraqueza, o que, em consequência, os colocará em segundo lugar no menu. Eles poderiam enviar tropas para proteger a Groenlândia de uma invasão dos EUA. Mas não o farão. Donald Trump aproveitará a oportunidade sem hesitar.

A total falta de justificação moral e propaganda para esconder violações flagrantes do direito internacional tem duas consequências perigosas.

A falta de legalidade e clareza moral deslizará das relações internacionais para as questões domésticas.

Como Thomas Fazi adverte no The Telegraph: Lamentaremos o alvorecer de um mundo onde “a força faz o direito” “À medida que as elites ocidentais descartam restrições legais e morais no exterior, elas se sentirão cada vez mais justificadas em fazer o mesmo em casa, acelerando a erosão das salvaguardas constitucionais e das liberdades civis”.

Este processo já está bem encaminhado. A questão já não é se a chamada ordem baseada em regras entrou em colapso, mas quanta destruição será causada, no exterior e em casa, antes que as sociedades ocidentais sejam forçadas a lidar com as consequências da ilegalidade desencadeada por suas elites”.

Arnaud Bertrand alerta para uma segunda consequência negativa: a perda de coerência interna.

O que restará da Cidade Brilhante na Colina – o ideal que o povo americano, em toda sua hipocrisia, ainda tem de si mesmo – quando seus líderes desconsideram abertamente toda a moral e as leis?

3.

Arnaud Bertrand pergunta como seria isso, um total desprezo por todos os seus ideais, caso ocorresse dentro de si mesmo: “Você provavelmente deixa a desejar – todos nós deixamos –, mas os ideais ainda estruturam seu comportamento. Eles lhe dão algo a que aspirar, fornecem os termos nos quais você pode ser criticado – inclusive por seu próprio diálogo interno. Eles permitem que você faça melhor amanhã”.

A hipocrisia – o espaço entre o ideal e a realidade – não é o problema. É a prova de que o ideal ainda tem influência sobre você, que você ainda pode ser chamado de volta a ele. Como diz o ditado, a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude.

Agora imagine que você renuncia a tudo isso. Imagine que você deixa de ser hipócrita no sentido de abandonar completamente seus ideais, que você começa a assumir o seu pior eu e se sente confortável com seus vícios. Trai seu cônjuge e deixa de fingir que isso o incomoda. Negligencia seus filhos e faz as pazes com isso.

Você tornou-se assim ‘agradavelmente honesto’? Talvez. Mas você também morreu por dentro. Você tornou-se algo profundamente destroçado – para além da vergonha, para além do apelo. Você perdeu a arquitetura interna que torna a vida moral possível. A pequena luz que dizia ‘não é isso que eu quero ser’ se apagou.

Foi isso que os Estados Unidos acabaram de fazer [a si mesmos].

As consequências disso são, francamente, assustadoras. O que acontece quando uma nação deixa de dizer a si mesma que deve ser boa?”

Quando as sociedades perdem seu próprio enquadramento moral, dissolvem-se na anarquia. Quando os políticos deixam de sentir a necessidade de justificar seus atos, governam com brutalidade. As sociedades ocidentais, com os EUA à frente, estão agora bem encaminhadas para esse futuro.

O que pode ser feito para impedir que isso aconteça?

Há uma necessidade urgente de denunciá-los, de insistir na clareza moral. Rejeitar qualquer impulso interno de seguir o mesmo caminho. Viver de acordo com a regra de ouro, tratar os outros como gostaria de ser tratado por eles. Se não nos mantivermos fiéis a isso, não nos sairemos bem.

*Bernhard Horstmann é editor da mídia independente norte-americana Moon of Alabama.

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Postado originalmente no site Moon of Alabama.

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