Externalidades da Inteligência Artificial

Imagem: Ylanite Koppens
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Por TARCÍSIO PERES*

O abuso no uso da tecnologia leva a uma percepção de que a música está se tornando excessivamente sintética e desumanizada

1.

A Inteligência Artificial e, em especial, o aprendizado de máquina com sua filhotinha mais recente – a Inteligência Artificial generativa – têm sido amplamente promovidos como uma inovação revolucionária, capaz de transformar diversas indústrias, incluindo a produção de textos, arte, música e outras formas de criação de conteúdo. É notável a semelhança entre a divulgação hiperbólica das pirotecnias com a Inteligência Artificial generativa e as histórias do Barão de Münchhausen, popularizadas por Rudolf Erich em 1785.

Fato concreto é que, a despeito dos entusiastas de plantão, tal tecnologia é superestimada. Embora possa processar vastas quantidades de dados e identificar padrões complexos, ela não possui uma compreensão profunda do contexto, das emoções e das nuances culturais que expressam a criação humana. Por exemplo, um texto gerado por Inteligência Artificial pode ser tecnicamente correto e informativo, mas carece de estrutura emocional, originalidade e voz única que caracterizam a escrita.

As produções computacionais se materializam em conteúdos superficiais e genéricos, incapazes de capturar a riqueza e a complexidade das experiências humanas. Convém lembrar que a criatividade humana é impulsionada por experiências pessoais, emoções e uma compreensão intuitiva do mundo, elementos que são intrinsecamente difíceis de codificar em algoritmos.

Discutir os detalhes técnicos que estão no cerne dessa questão pode ser um tanto enfadonho. Por esse motivo prosseguiremos, sugestivamente, experimentando uma aproximação, à luz do tempo, com a estética musical.

2.

Na Antiguidade, o canto era uma parte essencial das práticas religiosas e culturais. Os gregos, por exemplo, tinham uma rica tradição de música coral e investigaram as propriedades matemáticas do som, estabelecendo intervalos musicais que formaram a base para as escalas musicais. Pitágoras, um filósofo e músico grego, identificou a relação entre as frequências dos sons e desenvolveu a teoria dos intervalos consonantes, como a oitava, a quinta e a quarta.

Durante a Idade Média, o canto gregoriano se destacou como a forma principal de música sacra na Europa Ocidental. Este estilo monofônico, caracterizado por linhas melódicas simples e sem acompanhamento instrumental, enfatizava a clareza do texto litúrgico. Os cantores desenvolviam técnicas de respiração e projeção para manter a pureza e a continuidade do som em espaços reverberantes como catedrais. Os neumas, símbolos usados nos manuscritos de canto gregoriano, forneciam apenas uma indicação aproximada da melodia.

Foi no final do século IX e início do século X que a música ocidental começou a utilizar a escala diatônica, uma série de sete notas que se tornou a base para a teoria musical ocidental. Guido d’Arezzo, um monge beneditino do século XI, é frequentemente creditado com a invenção de uma forma de notação que evoluiu para a partitura moderna. Ele introduziu o tetragrama, um conjunto de quatro linhas que facilitava a leitura das notas musicais, e criou um sistema mnemônico para ensinar intervalos musicais (que posteriormente evoluíram para o “Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si”).

Durante o Renascimento, a polifonia, com múltiplas linhas melódicas interligadas, tornou-se predominante. Os compositores, como Palestrina e Josquindes Prez, exploraram a harmonia e a contraposição, exigindo dos cantores um controle vocal sofisticado e a habilidade de manter linhas melódicas independentes. A notação musical evoluiu com o pentagrama de cinco linhas, tornando-se padrão e permitindo uma maior precisão na representação das alturas das notas.

No período Barroco, a ópera emergiu como um novo gênero musical, com ela novas técnicas de canto foram desenvolvidas. Os cantores precisavam de grande flexibilidade vocal para executar ornamentos complexos e expressar uma ampla gama de emoções. Técnicas como o bel canto, que enfatizava a beleza da linha melódica e o controle da respiração, começaram a se formar. Cantores como Farinelli, um dos mais famosos castrati, exemplificavam a virtuosidade técnica e expressiva desse período. A notação musical tornou-se mais sofisticada com a introdução de clave de sol, clave de fá e outras claves para indicar diferentes registros vocais e instrumentais.

O Neoclassicismo e o Romantismo trouxeram mudanças estilísticas adicionais. A ópera e a música de concerto exigiam vozes capazes de se projetar sobre grandes orquestras. O desenvolvimento da técnica de canto lírico, que enfatiza a potência vocal e a clareza do timbre, tornou-se central. Cantores como Maria Malibran e Enrico Caruso exemplificavam a habilidade de combinar técnica refinada com expressão dramática.

No século XX, a técnica vocal continuou a evoluir com a introdução de novos gêneros musicais, como o jazz, o musical de teatro e, eventualmente, o pop e o rock. Técnicas como o uso do microfone permitiram uma abordagem mais íntima e natural ao canto, enquanto o treinamento clássico ainda fornecia a base para muitos cantores de diferentes estilos. A pedagogia vocal também avançou significativamente, com uma maior compreensão da anatomia e fisiologia da voz.

Finalizando nossa retrospectiva histórica, nos últimos anos, a tecnologia de auto-tune foi introduzida na produção musical, proporcionando uma ferramenta para ajustar e corrigir a afinação vocal. Ela funciona ajustando automaticamente as notas cantadas para as mais próximas da afinação correta, o que permite que cantores mantenham uma afinação perfeita, mesmo que suas performances não sejam tecnicamente impecáveis.

3.

Eis que surge uma questão interessante em nossa análise. Uma tecnologia usada para corrigir pequenas imperfeições na afinação de um cantor – a cerejinha do bolo na perspectiva milenar da música que acabamos de relatar – começa a ser usada para ajudar um cantor mediano a ser mais afinado. Com o tempo, o uso do auto-tune transcendeu sua função original de correção discreta e começou a ser usado de maneira mais evidente, criando um efeito vocal característico. Esse uso estilizado do auto-tune, popularizado por artistas como Cher no final dos anos 1990 e, mais tarde, por T-Pain, deu origem a uma nova estética sonora, marcada por uma qualidade artificial e robótica na voz, que se tornou um marco em muitos hits contemporâneos.

Essa prática gerou uma série de debates e críticas dentro da indústria musical e entre os ouvintes: o abuso no uso da tecnologia leva a uma percepção de que a música está se tornando excessivamente sintética e desumanizada. Os ouvintes se tornam menos tolerantes a imperfeições vocais, esperando performances sempre impecáveis, tanto em gravações quanto ao vivo, gerando maior pressão na produção musical, perpetuando o ciclo de artificialidade.

Ademais, quando usado de maneira intensiva, o auto-tune altera significativamente a qualidade original da voz, apagando nuances que são essenciais para a expressividade vocal. Um exemplo claro é o efeito sobre o vibrato, uma técnica vocal na qual o cantor oscila levemente a altura de uma nota para adicionar calor e emoção à performance. O vibrato é uma característica particularmente valorizada em cantores de ópera e outros estilos clássicos, como os tenores, cuja habilidade de controlar e variar o vibrato é um sinal de técnica vocal avançada.

O auto-tune, ao tentar corrigir a afinação de forma automática e precisa, irá inadvertidamente suavizar ou até eliminar o vibrato, resultando em uma voz que soa mecanicamente estável e monótona. Essa perda de nuances torna a performance menos natural e emocional, criando uma sensação de artificialidade. Em vez de realçar a atuação vocal, o auto-tune, nesse contexto, acaba uniformizando as características únicas de cada voz, anulando o trabalho técnico e expressivo dos cantores. Em outras palavras, após séculos de rica evolução, a música está sendo ostensivamente pasteurizada pela praticidade computacional.

Além do vibrato, o uso do auto-tune impacta negativamente vários aspectos da performance vocal e da qualidade da música. A expressividade emocional de um cantor pode ser reduzida, uma vez que variações sutis na afinação, dinâmica e timbre são essenciais para transmitir emoções. O timbre vocal, que é único para cada pessoa, também pode ser uniformizado, fazendo com que diferentes vozes soem mais semelhantes e menos distintivas. A dinâmica, que é a variação na intensidade e no volume da voz, é crucial para criar uma performance envolvente e emocionalmente rica. O auto-tune nivela essas variações, resultando em uma atuação mais plana e menos dinâmica.

A qualidade da ressonância e os harmônicos produzidos pela voz também podem ser alterados pelo auto-tune. Os harmônicos, que são frequências adicionais geradas junto com a nota principal, contribuem para a riqueza e a complexidade do som vocal. O processamento digital pode modificar esses harmônicos também. Técnicas avançadas de canto, como melismas, glissandos e portamentos, perdem sua naturalidade e fluidez quando ajustadas digitalmente.

Essas técnicas dependem de um controle vocal preciso e podem ser suavizadas ou tornadas artificiais pelo processamento digital. Além disso, a relação entre a voz e os instrumentos de acompanhamento pode ser afetada, já que o auto-tune ajusta a afinação da voz de forma independente, criando uma desconexão sutil entre a voz e os instrumentos, especialmente em gêneros musicais que valorizam a interação espontânea entre músicos.

A dependência do auto-tune também afetou o treinamento vocal e a educação musical. Um economista diligente chamaria esse efeito colateral de “externalidade negativa”: basicamente, se o primor técnico pode ser alcançado por meio de ajustes digitais, há menos incentivo para os cantores investirem tempo e esforço no desenvolvimento de suas habilidades vocais naturais. Adicionalmente, o auto-tune tem viciado os ouvintes em um novo padrão musical e estético, pressionando artistas naturais a imitar esse efeito para atingir o público, o que leva a uma homogeneização da música popular e a uma diminuição da valorização do talento vocal genuíno.

4.

Ao que tudo indica, nada disso foi mencionado pelo Barão de Münchhausen em suas aventuras quixotescas. De maneira semelhante ao auto-tune na música, um leitor experiente é plenamente capaz de detectar a falta de profundidade emocional e autenticidade nos textos gerados por Inteligência Artificial, ao passo que um leitor casual pode simplesmente sentir que algo está “faltando” ou que o texto soa “demasiadamente perfeito” e “impessoal”.

Se a pasteurização da música é um evento comemorativo, faz-se deveras justa a atual pirotecnia nababesca em torno da Inteligência Artificial.

*Tarcísio Peres é professor de ciências das Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo. Autor, entre outros livros, de Lucrando com os tubarões: as armadilhas da bolsa e como usá-las a seu favor.

Referências


BURKHOLDER, J. Peter; GROUT, Donald Jay; PALISCA, Claude V. Norton Anthology of Western Music. W.W. Norton & Company, 2019.

GROUT, Donald Jay; PALISCA, Claude V. A Historyof Western Music. W.W. Norton & Company, 2014.

RASPE, Rudolf Erich. The Surprising Adventures of Baron Munchausen. Penguin Classics, 1993.

RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Artificial Intelligence: A Modern Approach. Prentice Hall, 2021.


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