Governo alemão deporta refugiados

Imagem: Filippo Faccendini
image_pdf

Por FLÁVIO AGUIAR*

Há na Alemanha mais de 50 mil ordens de deportação contra refugiados que tiveram negados seus pedidos de asilo

O governo alemão decidiu endurecer sua política em relação a refugiados considerados como em situação ilegal no país. Na semana passada já houve a deportação de um primeiro grupo para seu país de origem, o Afeganistão.

A decisão aconteceu na sequência de um atentado a facadas na cidade de Solingen, perto de Colônia e Bonn, a antiga capital da Alemanha Ocidental. O atentado deixou um saldo trágico de três mortos e vários feridos, alguns com gravidade. A polícia deteve um suspeito, um cidadão sírio que pedira asilo no país e o tivera negado. O acusado desapareceu, só reaparecendo no trágico incidente em Solingen.

Ele fora admitido na Bulgária, e deste país passou para a Alemanha. O governo alemão aprovara sua deportação para aquele país, de onde viera. A Bulgária concordou com a deportação, mas ela acabou não acontecendo devido a desaparição de acusado.

A organização Estado Islâmico divulgou um vídeo em que reivindicava a autoria de atentado como uma “vingança” pelo que estava acontecendo com os palestinos na Faixa de Gaza.

Seguiu-se um tumulto político, em que o líder do principal partido de oposição, Friedrich Merz, da União Democrata Cristã, acusou o governo do chanceler Olaf Scholz, do SPD, Partido Social Democrata, de negligência, e propôs uma ação conjunta para solucionar o problema.

Surpreendentemente o chanceler aceitou a proposta, o que levantou receios de que sua coalizão de governo, formada também pelo Partido Verde e o liberal FDP, rachasse. Isto não aconteceu, pois os líderes deste partido apoiaram a decisão de Olaf Scholz.

Há na Alemanha mais de 50 mil ordens de deportação contra refugiados que tiveram negados seus pedidos de asilo. Entretanto destas, até o momento, somente pouco mais de 20 mil foram efetivadas. A esmagadora maioria delas atinge originários de países africanos ou do Oriente Médio, muitos dos quais entraram na União Europeia através de outros países, dirigindo-se depois para a Alemanha. Olaf Scholz comprometeu-se a restringir essa possibilidade de acesso, além de agilizar as deportações já aprovadas e o julgamento dos casos pendentes.

O debate e as medidas restritivas ocorrem num momento em que aconteceram eleições regionais em estados do antigo Leste alemão, a Turíngia e a Saxônia, e o governo federal se vê acossado pelo crescimento das  votações da oposição tradicional – a União Democrata Cristã – e da extrema direita, no partido Alternative für Deutschland, Alternativa para a Alemanha. Este, radicalmente voltado contra imigrantes e refugiados, vem ditando a pauta sobre esta questão na Alemanha, assim como acontece em outros países do continente.

Para complicar o cenário, a economia alemã vem se retraindo nos últimos tempos, num processo de desindustrialização, apesar dos esforços por parte do governo de revitalizar a indústria bélica alemã.

Neste quadro, à beira do abismo de uma recessão prolongada, a busca de bodes expiatórios prospera, e os candidatos mais cotados para esta função são os emigrados provenientes do chamado Terceiro Mundo, em particular os muçulmanos, sobre os quais sempre paira a suspeita, no mais das vezes indevida, de adesão a grupos terroristas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Caritas, vêm manifestando preocupação de que esta circunstância possa desandar num quadro de discriminação generalizada.

Estes últimos desenvolvimentos na Alemanha se dão num contexto continental de crescimento das discriminações contra estrangeiros não europeus, como aconteceu recentemente no Reino Unido, onde um ataque fatal contra crianças, também a facadas, deflagrou uma série de vandalismos contra mesquitas e centros de acolhimento de imigrantes, insuflados por mensagens mentirosas, de extrema direita, sobre a identidade do assaltante, divulgadas na internet.

Durante a década e meia do governo da chanceler Angela Merkel, da União Democrata Cristã, a Alemanha destacou-se por uma política generosa de acolhimento de imigrantes e refugiados de todas as partes do mundo. Agora esta abertura vem se fechando gradativamente, em parte por pressões de seu próprio partido, que, em disputa com o Alternative für Deutschland, arrisca voltar-se, também como a coalizão governamental, para políticas que revigoram o fantasma da xenofobia e da discriminação.

Da Rádio França Internacional especialmente para a Agência Rádio Web, Flávio Aguiar, direto de Berlim.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Hannah Arendt e Antonio Gramsci
04 Feb 2026 Por DYLAN RILEY: Arendt erra ao diagnosticar a atomização como causa do totalitarismo; a análise ganha rigor com Gramsci, para quem a crise é disputa de hegemonia na sociedade civil organizada
2
“Em política, o que parece, é”
30 Jan 2026 Por JEAN MARC VON DER WEID: A esquerda, paralisada pelo seu telhado de vidro, defende instituições suspeitas e perde a chance histórica de desmascarar a corrupção que consagra o poder do dinheiro
3
Em que mundo mora Byung-Chul Han?
06 Feb 2026 Por EDUARDO HENRIQUE BARBOSA DE VASCONCELOS: O caráter elitista e eurocêntrico da filosofia de Han, cuja "casa" idealizada ignora a precariedade material e a exploração do trabalho no Sul global
4
Capitalismo superindustrial
06 Feb 2026 Por FERNANDO HADDAD: Apresentação do autor ao livro recém-lançado
5
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
6
A produção social do atraso
02 Feb 2026 Por FRANCISCO TEIXEIRA: Caio Prado desmonta o etapismo da esquerda ao mostrar que o atraso não é resíduo feudal, mas peça funcional do capitalismo dependente
7
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
8
O sacrifício de Fernando Haddad
02 Feb 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Sua trajetória é o retrato de um talento ofuscado pela conjuntura: o político preparado que a era da simplificação brutal condenou ao papel de mártir tático
9
A Paris de Rubem Braga
31 Jan 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Através de um olhar estrangeiro e singular, Rubem Braga capturou em suas crônicas a alma vibrante da Paris intelectual dos anos 1950, transformando encontros em literatura
10
Sobre o discurso da esquerda pós-moderna
07 Feb 2026 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: Ao abraçar o relativismo pós-moderno, a esquerda desarmou-se intelectualmente e preparou o terreno para o obscurantismo da nova direita
11
“Parditude” ou negação?
07 Feb 2026 Por NIRSAN DAMBRÓS: Como o caso de uma “influencer” revela o persistente projeto de branqueamento no Brasil
12
A ilusão dissuasória brasileira
05 Feb 2026 Por RENATO DAGNINO: Motiva este texto a reabertura do excelente programa Diálogo AMSUR, liderado por Antônio Granado, em 2 de fevereiro, intitulada  “O Brasil e a Nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA”
13
Transformar para redistribuir o amanhã
04 Feb 2026 Por MARCIO POCHMANN: O capitalismo global e digital esvazia a soberania nacional, bloqueia o futuro como horizonte coletivo e exige uma transformação estrutural para redistribuir o tempo e os recursos
14
Tropa de elite
04 Feb 2026 Por MARIAROSARIA FABRIS: O artigo de Fabris desnuda o abismo social brasileiro através da polêmica Huck-Ferréz e de Tropa de Elite, revelando como a violência policial e a desigualdade são naturalizadas
15
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES