Gratidão e memória

Jackson Pollock, Untitled, c. 1950

Por ALFREDO BOSI*

Discurso proferido por ocasião da entrega do título de Professor Emérito da FFLCH-USP

“Muita coisa tem que ser esquecida quando se deve conservar o essencial” (Curtius).

Esta é uma hora por excelência de gratidão e de memória.[1] Retomando a palavra das Escrituras: há tempo de agradecer e tempo de lembrar. Às vezes, como acontece neste momento, ambos os tempos se fundem em um só. Agradecer e lembrar passam a ser um só movimento do nosso espírito.

Lembro e agradeço com saudades a meus pais, Alfredo e Teresa Bosi, que já partiram. Agradeço com amor a Ecléa, minha mulher, dimidiam animae mexe. Agradeço com ternura a meus filhos, Viviana e José Alfredo, com ternura redobrada a meus netos, Tiago e Daniel, com afeto os amigos, com respeito os mestres, com admiração os autores diletos. Pois nós, que passamos tantas e tantas horas debruçados sobre seus livros, também é justo que lhes agradeçamos.

E me vêm à mente as palavras ditas por Montesquieu, ao compor o seu autorretrato: L’étude a été pour moi le souverain remède contre les dégoûts, n’ayant jamais eu de chagrin qu’une heure de lecture ne m’ait ôté. [O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos, não tendo jamais sofrido tristeza de que uma hora de leitura não me houvesse livrado].

As tristezas podem chegar a qualquer hora, e quando menos se espera, mas a leitura depende de nosso desejo, e felizmente, como para tantos de nós, esse desejo veio cedo. Meu pai, que estudara italiano em uma escola primária do Brás chamada Regina Margherita, conhecia de cor passagens da Divina Comédia, sua Bíblia. Minha mãe deliciava-se com os romances de folhetim, romanzi d’appendice, que ocupavam os rodapés do jornal italiano Fanfulla, que sobreviveu até a Segunda Guerra. E eu, o que lia? Confesso que lia poesia. Conservo em meus guardados um caderno em que copiava poemas que me encantavam e comoviam. Espero que aquelas folhas não sirvam jamais de amostra para algum pós-graduando sem assunto, que resolva pesquisar o gosto literário dos ginasianos paulistanos dos anos 50.

Mas já que é tempo de lembrar, adianto que esse gosto era bem eclético. Não faltavam nem sonetos de Camões (bordão da memória indelével, “Sete anos de pastor…”, “Alma minha gentil…”, “Amor é fogo que arde sem se ver”)…, nem o grave “Formoso Tejo meu”, de Sá de Miranda (que tantas ressonâncias deixou nos versos de Manuel Bandeira), tudo alternado com os tupis de Gonçalves Dias, os escravos de Castro Alves, as estrelas eloquentes de Bilac, a lua silente de Raimundo Correia, as litanias plangentes de Alphonsus de Guimaraens, o mar rebentando em vagas de Vicente de Carvalho, que comparecia também com o pungente “Pequenino Morto”, cuja leitura em voz alta me levava às lágrimas.

Começou assim pela poesia minha educação sentimental e provavelmente também a intuição de que o professor de Letras precisa amar a palavra poética, e que só conseguirá transmitir esse amor lendo em voz alta para os seus alunos. Não fazê-lo seria como querer ensinar música sem ouvir e produzir a magia do som. As ideias virão depois, os conceitos não devem preceder as imagens (o que eu iria aprender nos cursos de Literatura Italiana dados por Ítalo Bettarello, leitor de Vico e de Croce). Os conceitos estéticos terão carne e sangue, som e cor, numa galava, receberão forma viva quando a sensibilidade já tiver sido alimentada pela poesia e pela arte.

E ao mencionar o nome de mestre Bettarello, a memória já deu um salto e transpôs tempos e espaços. O ginasiano fez o curso clássico e já subiu os degraus da Faculdade da rua Maria Antonia onde escolheu o Curso de Letras Neolatinas. Gostaria de ter talento de narrador para evocar a atmosfera que se vivia naquele prédio, hoje mítico, tal como o conheci no fim dos anos 50. É consenso reconhecer o convívio estimulante entre professores e alunos dos vários cursos, que iam das Ciências Sociais à Matemática, das Letras à Física, da Geografia à Filosofia. É verdade, estávamos juntos e o espaço comum nos enriquecia.

Mas, como aluno de Letras, teria de acrescentar que havia hierarquias nem sempre muito sutis. Inegável era o prestígio crescente de uma ciência que então brilhava e já aspirava a reger o conhecimento de todas as coisas que se passam entre o céu e a terra. Chamava-se Sociologia, aliás um termo híbrido criado por Auguste Comte: sócio é latim, logia é grego: uma formação verbal um tanto irregular, como nos ensinava o nosso mentor de Filologia Românica, o saudoso mestre Isaac Nicolau Salum. Creio que a hegemonia de uma ciência é fenômeno cultural e sazonal que merece estudo. O fato é que já vimos a Linguística suceder a Sociologia e ser, por sua vez, sucedida pela História que ainda prevalece, mas não sabemos por quanto tempo. Quanto à Filosofia, sempre pode esperar como a coruja de Hegel que só vê a sua hora quando cai a noite.

Mas vejam, não se tratava apenas de uma aura acadêmica emanada de eminentes gurus franceses que tinham concorrido para formar os sociólogos paulistas, os dois Bastides e Lévi-Strauss. Havia mais: a passagem do decênio de 50 para o de 60 foi um tempo forte de esperança na superação do nosso subdesenvolvimento, momento de maturação de uma Esquerda universitária em que pulsava o desejo de mudança. Radical ou reformista, essa esperança juntava comunistas, socialistas e católicos progressistas e nutria uma contra ideologia (os céticos dirão, uma utopia) que almejava nada menos que enfrentar vitoriosamente a ideologia do capital. Fora da USP, era o tempo da Cepal, dos primeiros ensaios de Celso Furtado, do ISEB nacional-desenvolvimentista crescido à sombra dos projetos da Era JK. E era o nascente Movimento de Educação de Base ancorado em um método novo de alfabetização inventado por um grande brasileiro chamado Paulo Freire.

Em torno e perto da USP, a presença indeclinável de Caio Prado, nume da historiografia marxista. Dentro da USP, para citar o nome-eixo, avultava a figura aguerrida de Florestan Fernandes, que criava escola e se dedicava a conhecer e superar o que considerava formas de resistência à mudança. Creio que a sua campanha pela escola fundamental pública foi o primeiro toque de reunir dos estudantes desta Faculdade.

Não multiplico nomes para evitar a dispersão do discurso. O importante é caracterizar a condição complexa e um tanto desconfortável do aluno de Letras, apaixonado por poesia, romance e ensaio, estudioso dos clássicos do mundo românico, e que se via, ao mesmo tempo, colhido em uma rede de estímulos extraliterários vitais para a sua formação de cidadão participante. A situação era mal resolvida na medida em que o modo de tratar o texto poético praticado nos cursos de Letras não rimava com as doutrinas que conduziam à militância política. Não existia ainda uma corrente programadamente marxista de interpretação literária naqueles anos de aprendizado. Diria hoje, esperando ser entendido: essa corrente ainda não vigorava, para bem e para mal.

Para bem: o aluno era convidado a acercar-se do poema, sem apriorismos dogmáticos, analisando as suas imagens, os seus recursos sonoros, ou expressivos de modo geral, os processos de composição, a estrutura semântica dos seus motivos e temas; e, caso o professor tivesse também tendências historicistas, o estudante deveria reconhecer a presença dos movimentos literários que haviam deixado marcas pertinentes no significado e na construção estética. Sondagem imanente, ao rés do texto, era a estilística espanhola, de cunho intuicionista, que se regia, em última instância, pela definição lapidar que dera Croce da poesia, “um complexo de imagens e um sentimento que o anima”.

Fruto de outra cultura, era a explication de texte, intelectualista e didática na sua exposição das ideias fundamentais do texto; enfim, o new criticism anglo-americano, mais sofisticado e moderno, pois aliava o estudo analítico das imagens, símbolos e mitos a hipóteses psicológicas ou até psicanalíticas. Quanto ao historicismo, àquela altura uma derivação difusa do culturalismo, concentrava-se no reconhecimento das características dos grandes estilos histórico-culturais, classicismo, barroco, arcadismo, romantismo, etc. No saldo favorável, eu assinalaria ainda uma relativa isenção ideológica inicial do intérprete, que não se sentia obrigado a patrulhar os narradores e os poetas na ânsia de neles descobrir secretas camadas reacionárias, vezo que compele atualmente alguns leitores universitários à profissão inesperada de detetives ou de juízes de primeira e última instância.

Mas para mal: aquela ausência de uma robusta cultura dialética, hegeliano-marxista, deixava o aluno-leitor à mercê de modas ultra formalistas (herdeiras menores dos grandes formalistas russos), como sucedeu durante o interregno estruturalista dos anos 60-70, ou, no outro extremo, o entregava inerme a um impressionismo saturado de veleidades irracionalistas e adivinhas trocadilhescas. Nessa crítica de vale-tudo, a irresponsabilidade epistemológica corria às soltas quando o sujeito tomava a liberdade de desligar-se do objeto e de seu contexto.

Creio que a estada na Itália no ano acadêmico 61-62 tenha contribuído para abrir um caminho de encontro entre minha formação crociana e os novos ventos do marxismo que, impulsionados pela descoberta de Gramsci, sopravam em todos os círculos universitários do país. Gramsci, cujos cadernos de cárcere mantinham viva polêmica com o idealismo de Croce, não deixara de receber do grande adversário a hipótese fecunda da “dialética dos distintos”, pela qual conhecimento e ação se moviam em esferas próprias, atribuindo-se o trabalho cognitivo à arte e à ciência, e o trabalho da vontade à práxis política e à ética. Essa diferença subjaz à afirmação de Gramsci: “Cabe à arte representar o mundo, e à política transformá-lo”. Desde que se ressalvem os laços entre ambas as instâncias, parece-me válida, ainda hoje, a distinção. Mesmo porque uma dialética dos distintos não é uma dialética de opostos absolutos e inconciliáveis.

Voltando ao Brasil, dei-me conta de que tudo convidava antes à ação do que à contemplação estética. Os dois anos que precederam o golpe de 1964 foram agitados por turbulências que se desencadearam em torno da política de centro-esquerda de João Goulart. Cerrando fileiras na defesa das “reformas de base” propostas pelo governo, aliavam-se taticamente socialistas, comunistas, nacionalistas, trabalhistas e cristãos progressistas. O clima era de expectativa, e recordo com saudade o quanto me estimulava aquela convergência de ideais, que se exprimia, por exemplo, no jornal de luta Brasil Urgente, fundado por Fr. Carlos Josaphat, para o qual colaborei acolhendo com entusiasmo as propostas reformistas do movimento Economia e Humanismo criado pelo incansável Padre Lebret. Os seus Princípios para a Ação eram livro de cabeceira de muitos militantes que estavam passando da democracia-cristã para o socialismo.

Veio o golpe, veio a ditadura com seus atos institucionais, vieram as cassações de alguns de nossos colegas mais ilustres e ativos. Os que ficaram resistiram como puderam na semiclandestinidade das salas de aula, dos renovados estudos sobre a sociedade brasileira, das primeiras comunidades de base formadas no fim dos anos 60, e cuja lembrança me transporta para reuniões em Vila Yolanda, Osasco, com a presença de um padre-operário, Domingos Barbé, figura luminosa que desejo agora evocar com veneração. Lendo Vidas Secas com jovens daquela comunidade, percebi que estava conversando com os filhos de Fabiano e Sinhá Vitória…

E falando de quase clandestinidade, não é possível esquecer os encontros da Comissão Justiça e Paz criada por D. Paulo Evaristo em 72, no auge da repressão; ou o risco das passeatas de protesto, ou, muito mais temerariamente, para usar da expressão forte de Jacob Gorender, o combate nas trevas daqueles que optaram pela resistência armada. Mas esta já é uma rememoração coletiva, que transcende a cada um de nós, e se chama História. E não há negacionismo obtuso ou truculento que consiga apagá-la. Estamos ainda vivos para dar nosso testemunho.[2]

A rotina universitária prosseguia com suas exigências e trabalhos. Ministrando cursos de Literatura Italiana, elegi para tema de teses autores que representavam antes o “pessimismo da inteligência” do que “o otimismo da vontade”, antinomia cara ao pensamento de Gramsci. Mas o que significava como escolhas existenciais estudar Pirandello e Leopardi?

As narrativas de Pirandello me atraíam pelo impasse que ressaltavam entre a forma e a vida, a identidade pública e o fluxo da subjetividade, conflito romântico e moderno por excelência que o existencialismo formularia em termos de destino e liberdade. O teatro pirandelliano, que nasceu dessa narrativa, entraria pelo beco da impossibilidade mesma de viver em sociedade uma existência autêntica, autodeterminada, pois o constrangimento dos papéis sociais, da “fôrma externa”, supera de muito nossas veleidades de sustentar um eu livremente assumido. A arte de Pirandello, com exceção da fuga para a atmosfera surreal dos últimos contos, detém-se na figuração do impasse. Somos ora um, ora cem mil, ora nenhum.

Anarquismo de fundo e determinismo final são partes desse drama psicossocial verdadeiramente desafiador. Croce, em sua severa crítica a Pirandello, dizia que essa móvel indefinição é própria da adolescência, e que a maturidade a supera pela opção de um eu coeso e operoso. Pode ser, oxalá seja, cosi è se vi pare, mas olhando em mim e em torno de mim, suspeito que se trate de uma condição que sobrevive muito aos anos da adolescência… Para Luigi Pirandello, ela só termina com a morte, fim de nosso “involontario soggiorno sulla Terra“.

“Mito e poesia em Leopardi”, ensaio apresentado para livre-docência em 1970, percorre o longo túnel do poeta considerado afim ao pessimismo de Schopenhauer. Como se sabe, foi o filósofo que leu o poeta declarando com a sua notória modéstia: “Em 1818 estavam na Itália os três maiores pessimistas da Europa: Leopardi, Byron e eu, mas não nos encontramos”. Dito de passagem, também o nosso Machado de Assis foi leitor e admirador do poeta, tendo-se inspirado em um de seus diálogos quando escreveu o capitulo do delírio de Brás Cubas.

Concentrei-me no exame dos mitos da idade de ouro e da queda presentes na lírica de Leopardi, mas pude vislumbrar uma luz no mito prometeico ou titânico da resistência individual que emerge dos últimos poemas. Dentre esses, certamente o mais belo é La ginestra o il flore del deserto. O poeta fala da sobrevivência de uma flor silvestre, a giesta, que não fenece mesmo depois de soterrada pelas lavas do Vesúvio, em cujas encostas cresce e rebrota há séculos. Leopardi viveu seus últimos anos em Nápoles, ao pé do monte fumegante sempre na iminência de entrar em erupção, e foi essa paisagem arcana e ameaçadora que lhe inspirou o sentimento de uma Natureza antes madrasta que mãe, semeadora ao mesmo tempo de violência letal e flexível delicadeza. A giesta ainda alegrava com suas pétalas de amarelo ouro os flancos do vulcão, que eram areia, lama e pedra.

A imagem acabou sendo o motivo condutor de alguns ensaios que fui escrevendo a partir dos anos 1970. O texto “Poesia Resistência”, que serve de fecho ao livro O Ser e o Tempo da Poesia, exigiu uma sondagem das várias modalidades de tons poéticos nos quais se arma uma tensão entre o sujeito e as ideologias dominantes em seu tempo. A resistência pode dar-se tanto no verso satírico como na lírica de mais alto grau de interiorização. A História dos homens pulsa no coração da palavra lírica, mas o faz em um regime próprio, o regime da expressão, uma “lógica poética” (Vico) que não se confunde com o da persuasão retórica, que usa da palavra como um dispositivo instrumental. Foi o que aprendi lendo a Estética de Croce composta meio século antes de Adorno ter escrito o seu estimável ensaio sobre as relações entre lírica e sociedade.

Em outros trabalhos, voltados para a história literária brasileira, procurei tematizar as expressões de conformismo e rebeldia quê coexistiram em mais de um período de nossa cultura. Foi essa co-presença de sentido ideológico e contra ideológico que me interessou captar, e que tentei mostrar em uma obra didática redigida a convite do poeta e amigo José Paulo Paes, a História Concisa da Literatura Brasileira. Meu livro de consulta obrigatória, a História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux, me ensinara a ver os contrastes que se dão em cada movimento cultural ao detectar um antibarroco no coração do barroco, e um antirromantismo na ampla gama de expressões românticas. Pude testar a hipótese de Carpeaux.

No mesmo período romântico brasileiro, o conservadorismo de Gonçalves de Magalhães alterna com o indigenismo rebelde de Gonçalves Dias, e a aceitação do sacrifício da mãe negra, dramatizado por José de Alencar, é coetâneo da épica abolicionista de Castro Alves. O sentimentalismo extremado de Casimiro de Abreu e o idealismo vaporoso do mesmo Alencar dão seus frutos junto com o realismo desenvolto das Memórias de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida. Pouco depois, nos mesmos anos de parnasianismo ufanista, Bilac diria com eloquência a grandeza de um Brasil heroico enquanto Cruz e Sousa chorava a angústia do negro murado pelas pedras do preconceito e da pseudociência racista. Chegada a belle époque, Afrânio Peixoto atribui à literatura o papel de “sorriso da sociedade” ao passo que Lima Barreto nos dá a narrativa autobiográfica do mestiço humilhado e ofendido no Rio que se civilizava sob as reformas do prefeito Pereira Passos. E Euclides da Cunha compunha a epopeia trágica do sertanejo massacrado em Carnudos.

Mais perto de nós: o Brasil culto em plena fase da corrida modernizante dos “50 anos em 5” conheceu a escrita que faria emergir na prosa de Guimarães Rosa o fundo arcaico da cultura sertaneja e mineira. 1956 é o ano de publicação de Grande Sertão: Veredas e é também a data do manifesto do movimento concretista em São Paulo. Tradição popular e modernidade tecnológica. Mera coincidência, ou contradição estrutural? Prefiro citar a palavra hegeliana de Antonio Candido, já então (e ainda hoje e sempre) nosso mestre comum: a contradição é o nervo mesmo da vida.

Mas também existe para cada rota pessoal a força do acaso. No mesmo ano de 70, em que eu via publicada uma obra sobre as letras brasileiras, aconteceu a reforma da USP, que me facultou a passagem para o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas onde passei a lecionar Literatura Brasileira, a convite de José Aderaldo Castello, meu professor desde os anos de graduação. Não posso avaliar o que terá ficado de meus cursos na memória de alguns milhares de alunos de Letras que tiveram de assistir às minhas aulas. Mas sei bem o que devo a esses anos a fio de docência. Naquele tempo, o curso obedecia a uma seriação cronológica. Começava do passado para chegar ao presente. O antes vinha antes do depois. Sempre achei razoável essa ordem, embora admita que outros possam pensar de modo diferente.

O fato é que muito me beneficiei encetando minha colaboração junto à disciplina pelo estudo das letras no período colonial. Para dizer a verdade, colônia era o patinho feio do programa e os colegas muito me agradeceram por encarregar-me de seu ensino. Ano após ano, analisando autos e líricas de Anchieta, sátiras de Gregório de Matos, sermões de Vieira, textos de economia de Antonil, poemas neoclássicos como O Uraguai, sonetos de Cláudio Manuel da Costa e liras de Gonzaga, pude amadurecer hipóteses gerais sobre a colonização, o vasto processo que, afinal, presidira a todas essas manifestações simbólicas.

A certa altura, graças a uma bolsa recebida da Fundação Guggenheim, foi-me dado pesquisar em Lisboa e em Roma textos de e sobre Vieira e Antonil. Quando voltei, julguei que teria condições de pôr no papel o fruto daqueles anos de ensino e pesquisa. A colonização já não me aparecia como um todo homogêneo no qual os processos simbólicos apenas espelhariam a infraestrutura econômica. Além do espelho, que era evidente e preponderante, havia o seu avesso, sempre a hipótese de uma eventual resistência, no plano da consciência e da palavra, ao estilo ideológico dominante.

Não me esqueci então que eu fora aluno, em Florença, de um extraordinário filólogo indo-europeu, Giacomo Devoto, que me ensinara a importância da história das palavras. A palavra colônia tem família que merece ser visitada. O verbo latino colo, que significa cultivar a terra dominada, a colônia, tem como passado a forma cultus, que se reporta à tradição, à memória religiosa de um passado de crenças e valores ainda presente, e por futuro o particípio culturus, forma que remete ao projeto de cultivar o habitat e o habitante não só física mas culturalmente, um programa leigo de civilização elaborado pelas Luzes a partir do século XVIII. Esses componentes do processo às vezes se superpunham, às vezes se dissociavam.

A esse movimento de sim e de não, de espelho e avesso, pareceu-me adequado atribuir um nome que ainda guarda para mim toda a força da verdade: dialética. Dialética da colonização é um livro modesto de nome ambicioso. Mas corresponde fielmente ao que julgo perceber como movimento das ideias e dos valores em face de uma realidade de exploração e opressão. O poder de dizer não tornou possível gerar a sátira virulenta de Gregório (na qual é preciso separar o trigo da crítica aos mercantes da Bahia do joio dos preconceitos da época), as homilias veementes de Vieira (nas quais se deve separar o trigo da defesa dos indígenas do joio da aceitação da escravidão africana, apesar da sua capacidade de descrever como ninguém os seus efeitos perversos no corpo do cativo). Antonil, secretário de Vieira, e seu delator junto às autoridades jesuíticas romanas, não soube compadecer-se das dores do escravo, mas deplorou o martírio da cana triturada nos engenhos. Teve pena das lágrimas da mercadoria, foi o nosso primeiro economista.

Diferenças ideológicas recobrem também a história do Brasil imperial, que, sob alguns aspectos, preservou estruturas dos tempos coloniais. O abolicionismo de Luís Gama, Joaquim Nabuco, André Rebouças, Rui Barbosa e José do Patrocínio reflete um liberalismo democrático que se opõe ao liberalismo oligárquico e excludente dos políticos dominantes nas primeiras décadas do Segundo Império: e cada modalidade de liberalismo teve o seu lugar em nossa história política, cada um representando os interesses de uma classe ou os ideais de um grupo. As ideologias e as contra ideologias nunca são gratuitas e postiças pelo fato de suas origens intelectuais estarem na Europa: os fenômenos de difusão e enxerto cultural são fundamentais quando se trata de formações ex-coloniais. As reações aos transplantes das matrizes culturais são o que mais importa, pois sem elas a história das nações ditas periféricas tenderia a reproduzir-se tal e qual para todo sempre.

Mais perto de nós, o positivismo republicano da Ordem e Progresso encaminhou-se para regimes centralizadores como o inaugurado após a revolução de 30 por Getúlio Vargas e os seus colaboradores gaúchos, todos formados na escola antiliberal do seu mentor supremo, Júlio de Castilhos. Mas sem a força dessa doutrinação comteana, que aceitava o papel disciplinador do Estado, dificilmente a revolução vitoriosa teria posto, entre suas prioridades, a urgência de uma legislação social que começava a difundir-se em todo o Ocidente.

Só a cultura, como conjunto de valores não intrinsecamente econômicos de cada sociedade, é que pode dar sentido e finalidade à ação política – foi o que aprendi lendo os escritos de um economista heterodoxo, Celso Furtado, que pedia a seus colegas de profissão um suplemento de imaginação política. A ele, a Jacob Gorender, militante comunista, e a D. Pedro Casaldáliga, militante cristão, dediquei meu livro, porque neles reconheci a passagem do pensamento à ação, que resolvia, enfim, a tensão sempre renascente que rege a dialética dos distintos.

Chego ao fim destas memórias agradecendo a oportunidade de, nestes meus últimos anos de carreira universitária, trabalhar junto ao Instituto de Estudos Avançados criado em 1986 por inspiração de um grupo de professores da ADUSP. A ideia matriz era compensar a fragmentação da universidade, que a reforma tinha provocado, pela prática de uma instituição que congregasse pesquisadores vindos das ciências humanas, biológicas e físico-matemáticas.

Não é preciso ser muito atilado para perceber que se tratava de recuperar, ao menos nas intenções, o que a nossa alma mater, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras tinha representado desde a sua fundação. Foi nesse espírito que aceitei cooperar na administração do IEA e, principalmente, assumir a edição da revista Estudos Avançados, empreita que já conta 22 anos de existência e 64 números. Muito tenho aprendido na consecução dessa tarefa. A ciência, que jamais consegui entender em razão de minha formação literária, hoje me aparece como um instrumento excepcional de transformação humana no sentido de valorizar a existência cotidiana. Arredio inicialmente às conquistas da informática e da comunicação eletrônica, sei hoje o quanto a sua eficácia pode transmitir os mais altos valores éticos e cognitivos da nossa civilização. Querer os fins sem os meios é veleidade ou capricho. Estudos Avançados está hoje inteiramente à disposição de todos os usuários da internet.

[Abrindo ao acaso números da revista, relembro com alegria as conferências que deram origem a tantos de seus artigos: lá estão as reflexões políticas de Raymundo Faoro, Celso Furtado, Mikhail Gorbachev, Edgar Morin, John Kenneth Galbraith, Michel Debrun e Aníbal Quijano, as especulações filosóficas de Habermas, Derrida e Granger, e Mário Schenberg, as intervenções ousadas de Berlinguer e Chomsky, as finas observações de história cultural de Vernant, Chartier, Michel Vovelle e Luciano Canfora, as lições de ecodesenvolvimento de Ignacy Sachs e André Gorz, as entrevistas de Hobsbawm e Bobbio e Karl-Otto Appel, um texto ainda inédito sobre o Barroco de Otto Maria Carpeaux. Cito os nomes dos que já nos deixaram para evitar omissões involuntárias de várias centenas de colaboradores brasileiros, cientistas e humanistas que representam o melhor que a pesquisa tem produzido entre nós e já alcançaram um nível de excelência que honra a nossa universidade].

A maioria dos dossiês de Estudos Avançados está voltada para problemas básicos do povo brasileiro, como saúde, nutrição, educação, habitação, energia, trabalho e segurança; e diria que também nesse cuidado constante com nossas maiores carências, o IEA se tem mostrado fiel aos propósitos de seus fundadores, a velha e sempre nova guarda da Universidade de São Paulo, como Alberto Carvalho da Silva, Rocha Barros e Erasmo Garcia Mendes, que acompanharam de perto os projetos da instituição. Menciono apenas os que já não estão fisicamente entre nós.

Ocupando parte do tempo na edição da revista, não desertei dos estudos que balizaram meu itinerário nesta Faculdade. As Letras continuam sendo companheiras fiéis que, porém, nem sempre consolam. Às vezes ainda mais nos pungem lançando em nosso espírito as sombras que pairam sobre a humana condição. É o que acontece quando se escolhe para leitura dileta a obra de Machado de Assis a quem venho dedicando alguns ensaios. À figura do satírico do Brasil Império, que a crítica recente tem ressaltado com zelo talvez um tantinho extrapolante, pareceu-me justo acrescentar que o humor do moralista desenganado nela cavou dimensões outras, que universalizaram a sua descrença nos homens e não se confinaram à observação de comportamentos locais. Machado de Assis pertence à alta linhagem do Eclesiastes, de Montaigne, Pascal, La Rochefoucauld, La Bruyère, Vauvenargues, Chamfort, Swift, Sterne, Leopardi, Stendhal, Schopenhauer.

Machado não encontrou, como Pascal, que ele tanto admirava, o caminho da esperança transcendente, nem, como Leopardi, a flor da giesta rebrotando no deserto. Quanto a mim, descendo verticalmente de tamanhas alturas, confesso que fiz a aposta na crença de Pascal, e também que pedi a Ecléa que plantasse um pé de giesta em nosso jardim. A giesta ainda está lá, florindo e, espero em Deus, que por muito muito tempo.

[12 de março de 2009]

*Alfredo Bosi (1936-2021) foi professor Emérito da FFLCH-USP e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Autor, entre outros livros, de Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica (Editora 34)

Notas


[1] Desejo agradecer de coração a meus colegas da disciplina de Literatura Brasileira, que tomaram a generosa iniciativa de propor a concessão deste título tão honroso. À nossa diretora, Profa. Sandra Nitrini, titular de Teoria Literária, ao chefe do Depto. de Letras Clássicas e Vernáculas, Prof. João Roberto Faria, colega da disciplina e amigo de todas as horas, e aos membros desta colenda Congregação que endossaram a proposta. E ao colega Prof. José Miguel Wisnik, que sabe compor belas canções e por isso suas palavras amigas soam como música para meus ouvidos.

[2] Permitam-me pedir um minuto de silêncio para honrar todos os estudantes e professores desta e de outras universidades brasileiras que foram torturados ou mortos pela ditadura militar e que merecem o respeito de nossa memória.