Guarde o coração na palma da mão e caminhe

Frame de Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, filme dirigido por Sepideh Farsi
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Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre o documentário de Sepideh Farsi, em exibição nos cinemas

1.

Guarde o coração na palma da mão e caminhe, dirigido pela iraniana Sepideh Farsi, insiste numa imagem arrebatadora, o rosto de Fatima Hassouna, palestina de 24 anos, residente em Gaza. Durante quase um ano Sepideh Farsi ligou para Fatima, chamadas com vídeo, a despeito das dificuldades de conexão – e dos bombardeios e tiros.

Idas e vindas da conexão funcionam como pontuação cinematográfica, connexion cortada (em francês: o celular da diretora é de Paris, onde mora) e retomada. O sorriso de Fatima Hassouna preenche a tela, ilumina a tela. O rosto humano, dizem os cabalistas, é um mapa, reflexo físico da alma e local de revelação espiritual.

A linguagem é simples, direta, são dois eixos que se oferecem ao espectador: as ligações em primeiro plano, e imagens da devastação de Gaza, captadas com um olhar atento e expressivo, breves interpolações que contextualizam a cena. A fotógrafa é a própria Fatima Hassouna: suas fotos, postadas no Instagram, conseguem a proeza de se diferenciar da massa de informação visual que (quase) banalizou a tragédia diária que se passa na Faixa de Gaza.

Claro, Fatima Hassouna não é a única testemunha que corre por fora do mercado de imagens efêmeras dessa guerra brutal, outras vozes também vieram (e vêm) à tona. Seu sorriso acolhedor, sem embargo, é único, desarma e prende a atenção do espectador.

A linha do tempo de Guarde o coração na palma da mão e caminhe começa em 24 de abril de 2024, e termina 15 de abril de 2025. Sepideh Farsi, impedida de entrar em Gaza, conhece no Cairo um palestino refugiado, Ahmad, que passa o contato de Fatima.

No mundo hiperconectado dos nossos dias, tomado por feeds e algoritmos, a imagem da Fatima Hassouna rompe com a sucessão de fragmentos que concorrem para a impressão de realidade gerada por notificações e estatísticas, reportagens e breaking news, todos capazes de levar a ondas fugazes de indignação, mas desumanos.

A comunicação entre sujeito e objeto do documentário – na falta de uma palavra que melhor defina o formato do filme – cria uma sensação de proximidade pelo uso familiar do dispositivo, humanizando o sofrimento da guerra.

2.

Mas, hélas, Fatima Hassouna é uma imagem, pura representação digital, formada por uma grade de pequenos quadrados chamados pixels – e a união desses pixels com informações das cores cria a imagem completa. À familiaridade dos gestos e falas, sobrepõe-se a impotência e, no limite, o entorpecimento. A rotina de Fatima Hassouna é implacável – falta água, comida, a destruição aproxima-se de sua casa cada dia que passa, mas ela não desanima.

Falar com Sepideh Farsi é uma intermitente evasão – seus olhos brilham quando fala sobre seu desejo de visitar Teerã, Roma, Vaticano. São picos de alegria que suspendem o cruel distanciamento entre os pontos de fala. Ao saber que o filme foi selecionado para exibição no festival de Cannes – o áudio oscilou nesse momento – ela exulta: “Sim, sim, eu conheço!” À pergunta se gostaria de comparecer, não hesita: “Claro!”.

Guerras, como sabemos, funcionam como vitrines de novas tecnologias – e a comunicação entre Fatima Hassouna e Sepideh Farsi faz parte desse conjunto. Outras tecnologias, porém, são absurdamente letais: em 2021, Israel anunciou que as big techs Amazon e Google haviam vencido licitação de 1,2 bilhão de dólares para implantar centros para “nuvens” no território israelense, com o objetivo de alavancar a tecnologia local.

Em princípio destinada a dados da administração, a finalidade da “nuvem”, ao que parece, favoreceu também a implantação de um meticuloso sistema de reconhecimento biométrico, com a finalidade de destruir e aniquilar alvos selecionados. A execução de Yahya Sinwar, em 16 de outubro de 2024, líder do Hamas tido como mentor do ataque de 7 de outubro de 2023, foi o ápice espetacularizado – e macabro – dessa tecnologia.

Fatima Hassouna, sempre enaltecendo a capacidade de luta do povo palestino, não esconde um certo desapreço por Yahya Sinwar – “muita gente aqui não gosta disso, não gostaram desta eleição. Por isso estão rejeitando Sinwar”. É o único comentário político que faz. De resto, o diálogo flui, mesmo nos momentos de depressão – o sorriso, logo em seguida, volta a iluminar a imagem. E as bombas não param de cair.

Guarde o coração na palma da mão e caminhe, por fim, esgota racionalizações abstratas induzidas rumo a uma conclusão, ou mais uma conexão. O mundo de Fatima Hassouna não é simbólico, é à flor da pele.

*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo) [https://amzn.to/45rHa9F]

Referência


Guarde o coração na palma da mão e caminhe
França, Irã, Palestina, Documentário, 2025, 110 minutos.
Direção e Fotografia: Sepideh Farsi.
Montagem: Sepideh Farsi, Farahnaz Sharifi.
Elenco: Fatima Hassouna, Sepideh Farsi.


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