Gutiérrez Alea

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Por AFRÂNIO CATANI

Tomás Gutiérrez Alea (“Titón”) é um cineasta fundamental cuja obra, profundamente engajada com a Revolução Cubana, nunca deixou de ser criticamente dialógica

“Habana a tus pies / No sabría como amarte de otra forma / Habana a tus pies / Pasa el tiempo y tu recuerdo no se borra / Habana” (Fito Paez).

1.

Conheci Cuba em 1989. Fui para lá quatro vezes, ficando a maior parte do tempo em Havana, pois nunca fiz turismo no país, sempre trabalhando na área de cinema. Jamais ignorei as dificuldades e as limitações materiais que a ilha enfrenta, o que percebi já no Aeroporto José Martí. Eu não era leigo acerca da cultura cubana, em especial nos domínios da música, literatura e cinema. Em outras viagens enriqueci meu conhecimento através de pesquisas e de trocas de informações com colegas cubanos.

Indicado por Maria Rita Galvão e Silvia Oroz, participei no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana em um dos seminários, com o trabalho La chanchada en el cine brasileño, escrito em coautoria com José Inácio de Melo Souza (1990). Conheci diretores, roteiristas, atrizes/atores e historiadora(e)s que participaram de produções cinematográficas argentinas, cubanas e mexicanas dos anos 30/40/50.

No momento, Silvia realizava entrevistas para o seu livro sobre o cinema de lágrimas da América Latina (Oroz, 1992). Posteriormente, escrevi artigos sobre Cuba e o cinema da América Latina – Catani (1993a, 1993b, 2006); Oroz e Catani (1994) – e sobre o músico cubano de Guanabacoa, Bola de Nieve (1911-1971).

Assisti a dezenas as comédias e melodramas e ouvi Beny Moré, Celia Cruz, La Sonora Matancera, Rita Montaner, Juan Arrondo, Ernesto Lecuona, Omara Portuondo, Arsenio Rodríguez, Machito, Pérez Prado, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubén González, Cachao, Eliade Ochoa, Chucho Valdés, Irakere, Arturo Sandoval, Paquito D’Rivera, Gonzalo Rubalcaba, Gloria Estefan, Pablo Milanés, Silvio Rodríguez.

Na literatura, li Cabrera Infante, Guillén, Lezama Lima, Virgilio Piñera, Sarduy, Reinaldo Arenas, Zoé Valdés, Pedro Juan Gutiérrez, Padura.Participei outras vezes como jurado no Festival e constatei a importância, em Cuba e fora dela, de Tomás Gutiérrez Alea García [Titón].

2.

Tomás Gutiérrez Alea García [Titón] (1928-1996) cursou direito na Universidade de Havana, mas desde logo seus interesses estavam nas atividades audiovisuais e militantes.

Engajou-se em organizações de esquerda, fez curtas em 8 mm e escreveu artigos para revistas estudantis (García Borrero, 2011, p. 581-583). Em 1949 publicou um livrinho de poesias (Reflejos), ao qual nunca fez menção. Paulo Martinez (1998, p. 51) o comprou num sebo de Havana e escreveu que ele consiste em “uma série de poemas lírico-metafísicos, com alguns disparos místicos” – cf. Catani, 1998.

Concluído direito, estudou direção de cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia de Roma (1951-1953). Voltando à Cuba, colaborou na seção de cinema da Sociedade Cultural Nuestro Tiempo e, em 1955, rodou El mégano, com Julio García-Espinosa (1926-2017), descrevendo as condições de vida dos carvoeiros da Ciénaga de Zapata.

O filme foi exibido e logo apreendido pela ditadura de Batista. Em 1956 trabalhou em uma empresa de publicidade, fazendo pequenos filmes e adquirindo grande traquejo, que lhe permitiu manejar as situações humorísticas em suas fitas futuras.

Com o triunfo de Fidel Castro organizou, com García-Espinosa, a seção de cinema da Divisão de Cultura do Exército Rebelde e integrou o grupo de fundadores do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC). Ambos realizaram o documentário Esta tierra nuestra (1959), sobre as condições de vida do campesinato cubano e, a partir daí, Titón foi em frente: Historias de la revolución (1960-Espinosa), Asamblea general (1960) e Muerte al invasor (1961-Santiago Álvarez). Em 1962, a comédia Las doce sillas; em 1964, Cumbite, espécie de “Romeu e Julieta” no Haiti.

Em 1966 a corrosiva comédia La muerte de un burócrata e, em 1968, talvez seu melhor filme, Memórias do subdesenvolvimento, a partir de novela de Edmundo Desnoes. Nele, Sérgio, jovem burguês, decide permanecer em Cuba após a vitória de Castro, mas sem integrar-se ao processo de mudança. O filme lhe rendeu reconhecimento internacional e vários prêmios.

Una pelea cubana contra los demonios (1972), foi rodada a partir de investigações do etnólogo Fernando Ortiz, enquanto La última cena (1976) vale-se de anedota contada pelo historiador Manuel Fernando Fraginals, onde um rico proprietário de engenho de açúcar convida 12 de seus escravizados para jantar na Quinta-Feira Santa, e as consequências acabam sendo terríveis.

Há, ainda, Los sobrevivientes (1979), baseado em conto de Antonio Benítez Rojo; Hasta cierto punto (1983), sobre o amor entre Oscar, roteirista de cinema e Lina, trabalhadora do porto de Havana, onde se explora a temática do machismo, e Cartas del parque (1989).

Em 1994 lançou Morango e Chocolate, seu filme mais aclamado e fartamente premiado, a partir do conto “El lobo, el bosque y el hombre nuevo”, de Senel Paz. Foi co-dirigida por Juan Carlos Tabío, pois Gutiérrez Alea já estava doente. Sua última fita, também com Tabío, foi a comédia crítica, e meio desalentada, Guantanamera (1995), extraída do argumento de Eliseo Alberto, um ataque frontal à burocracia cubana.

Titón escreveu ensaios – ver Dialética do espectador –, ministrou talleres em vários países e recebeu numerosas homenagens e distinções internacionais. Nos últimos tempos, todavia, alguns jovens comentam que o cineasta é importante, mas já pertence à história, à tradição.

Eu entendo que ele é bem mais do que isso, é um realizador crítico que, como poucos, nunca se eximiu de conversar sobre seus acertos e erros. Quando ouço tais comentários me vem à mente a frase do pensador Antonio Gramsci (1891-1937), que em algum lugar de Concepção dialética da história, escreveu: “o passado é um conjunto vivo e morto”.

*Afrânio Catani é professor titular sênior na Faculdade de Educação da USP. Autor, entre outros livros, de Origem e destino: pensando a sociologia reflexiva de Bourdieu (Mercado de Letras).

Referências


CATANI, A. M. Resgatando o Cine Ibero-Americano: anos 30-40-50. Comunicação e Política na América Latina. São Paulo, n. 18-19, p. 5-6, 1993a.

_______. Cuba, uma ilha que ainda dá o que falar. Comunicação e Política na América Latina. São Paulo, n. 20, p. I-IV, 1993b.

_______. O documentário latin-americano em Havana: breve crônica. In: MACHADO JR., R.; SOARES, R. L. ; ARAÚJO, L. C. (Orgs.). Estudos de Cinema. São Paulo: Annablume/Socine, 2006, p. 69-75.

_______. Versos aleatórios. Revista Adusp. São Paulo, Adusp, n. 13, p. 52-53, abr. 1998.

_______. Bola de Nieve, expressão cultural de um Caribe sem fronteiras: pianista, cantor, chansonnier, compositor y otras cositas más – uma pesquisa se fazendo. In: PRUDENTE. C. L.; ALMEIDA, R. (Otgs.). Cinema Negro: d’África à diáspora – o pensamento antirracista de Kabengele Munanga. São Paulo: FEUSP, 2023, p. 33-66.

GARCÍA BORRERO, J. A. Gutiérrez Alea, Tomás. In: CASARES RODICIO, E. (Editor y Coord.). Diccionario del Cine Iberoamericano: Espaã, Portugal y América. Madrid: SGAE/Fundación Autor, 2011, p. 581-583.

GUTIÉRREZ ALEA, T. Reflejos. La Habana: Edición del autor, 1949, 63 págs (ilustr. y tapa: Cabrera Moreno).

______. Dialética do espectador. São Paulo: Summus, 1984 (trad.: Itoby A. Correa Jr.).

MARTINEZ, P. H. Reflexos Cuba-Brasil, uma crônica de realismo mágico. Revista Adusp. São Paulo, Adusp, n. 13, p. 51-52, abr. 1998.

OROZ, S. Gutiérrez Alea: os filmes que não filmei. Rio de Janeiro: Anima, 1985.

_____. Melodrama; o cinema de lágrimas da América Latina. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora, 1992.

_____. Guantanamera, o desencanto de Alea. In: TEIXEIRA, F. C. (Org.). História e imagem. Rio de Janeiro; Editora da UFRJ, 1998, p. 180-184.

_____. CATANI, A. M. Industria cinematográfica en América Latina: un paradigma de modernidad – años 30/40/50. Encuadre – Revista de Cine. Caracas,n. 51-52,p. 91-108,1994. 

SOUZA, J. I. M.; CATANI, A. M. La chanchada en el cine brasileño. In: OROZ, S. (Comp.). Cine Latinoamericano de los años 30-40-50. México, DF: UNAM, 1990, p. 151-159.


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