Inês de Castro

Khalil Rabah, Filisteu, 1997
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Por RAQUEL NAVEIRA

Reverberações na literatura e nas artes plásticas brasileiras

1.

O drama de Inês de Castro é um dos mais belos episódios da história portuguesa e do amor na literatura universal. Inês de Castro era uma nobre castelhana, prima e amante do Infante Pedro, depois Pedro I, rei de Portugal. Morreu em Coimbra, nos antigos paços de Isabel de Aragão, às margens do rio Mondego, em 1355.

Inês, como dama de honor, acompanhou a Portugal, a Princesa Constança, esposa do Príncipe Pedro, que logo se sentiu atraído por sua beleza. Para pôr termo a essa situação, o Rei Afonso IV, pai de Pedro, resolveu expulsá-la do reino, recolhendo-a a um castelo na fronteira da Espanha, onde ela continuou a receber notícias do seu amante.

Morta Constança, o príncipe mandou chamar Inês imediatamente, contra as ordens expressas de seu pai, instalando-a em sua casa, onde passaram a viver maritalmente e tiveram quatro filhos: Afonso, que morreu em tenra idade; João, Dinis e Beatriz.

Afonso IV, que conhecia a ambição dos parentes de Inês, começou a alarmar-se com o crescente poderio dos Castro, entre os quais, Álvaro Pires de Castro, que foi elevado a primeiro condestável de Portugal. Chegou a temer pela sorte da legítima sucessão ao trono. Esses fatos, agravados pelas intrigas, provocaram a trágica decisão do rei: assassinar Inês de Castro e seus filhos.

A decisão foi discutida e resolvida pelo rei e seus conselheiros, entre os quais Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco. Para dar cumprimento ao plano, partiram para Coimbra, degolaram Inês e passaram a fio de espada as crianças.

Ao ter notícia do horrendo crime, o príncipe reuniu seus homens e começou a devastar o país atrás dos assassinos, mas foi aplacado por sua mãe, a Rainha Beatriz, em Canaveses, onde consentiu em assinar um tratado de aliança com o pai. Afonso IV, não confiando na palavra do filho, ordenou aos seus cúmplices que se refugiassem na Espanha.

Morto o rei, subiu ao trono Pedro I, em 1357. Seu primeiro ato de governo foi assinar com o rei de Castela um tratado, por força do qual ambos os monarcas reconheciam o direito de extradição de refugiados políticos. Em Santarém, Pedro I assistiu ao suplício dos conselheiros de seu pai, levado a efeito com requintes de crueldade.

A reabilitação de Inês de Castro revestiu-se de uma imponência nunca vista em Portugal. Seu cadáver foi trasladado de Coimbra para o Mosteiro de Alcobaça, entre alas de servos empunhando grandes círios acesos, para ocupar um dos túmulos que, com o de Pedro I, constituem duas obras-primas da escultura sepulcral da Idade Média em Portugal.

2.

As lendas referentes à morte e coroação post-mortem de Inês de Castro são de origem literária e foram veiculadas principalmente pelas célebres oitavas de Camões (c. 1524-1579 ou 1580) e por António Ferreira (1528-1569) em Os Lusíadas e na tragédia A Castro, respectivamente. Graças a Camões, tornaram-se célebres no mundo inteiro, as expressões “a que depois de morta foi rainha” e “a do colo de garça”, com que se costuma designar a desventurada Inês. Sua vida serviu de tema para inúmeros estudos, tragédias, romances e poesias, em português, espanhol, francês, inglês e holandês.

É no Canto III dos Lusíadas, que encontramos, das estrofes 118 a 135, o comovente episódio de Inês de Castro. Transcrevemos uma estância com a súplica de Inês de Castro:

Põe-me onde se use toda feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.

Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sostinha
As obras com que amor matou os amores
Aquele que depois a fez rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Assim como a bonina que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada;
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, côa doce vida.

3.

O escritor e humanista António Ferreira (1528-1569) escreveu a tragédia A Castro, que foi editada em 1587, que constitui a expressão máxima do teatro clássico em Portugal e uma das obras mais bem acabadas da dramaturgia portuguesa de todos os tempos.

Divide-se em cinco atos. Baseando-se na interpretação de Garcia de Resende e na tradição oral, o poeta convoca para a cena Inês de Castro, D. Pedro e Afonso IV, na qualidade de protagonistas centrais, cercados de personagens secundárias, como os conselheiros do Rei, a Ama e o Coro, que comenta a ação e aconselha ou desaconselha o procedimento das personagens.

A peça começa próxima do epílogo da desgraça que se abateu sobre Inês de Castro e D. Pedro, principiando com os receios da heroína, logo confirmados pelo Coro. Reunidos, os conselheiros persuadem o Rei a permitir que executem a desditosa amante do Príncipe: é o ponto alto da peça, a catarse ou catástrofe, no dizer dos gregos e latinos. Morta Inês, D. Pedro, então longe dela, jura vingança e a peça termina. Um trecho:

CORO
Eis a morteVem.
Vai-te entregar a ela: vai depressa,
Terás que chorar menos.

CASTRO
Vou, amigas;
Acompanhai-me vós, amigas minhas,
Ajudai-me a pedir misericórdia,
Chorai o desamparo destes filhos
Tão tenros e inocentes. Filhos tristes,
Vedes aqui o pai de vosso pai,
Eis aqui vosso avô, nosso senhor;
Beijai-lhe a mão, pedi-lhe piedade
De vós, desta mãe vossa, cuja vida
Vos vem, filhos, roubar.

Na literatura brasileira o episódio da morte de Inês de Castro, cheio da beleza poética da morte por amor, vai inspirar duas passagens épicas nas obras indianistas mais famosas do neoclacissismo brasileiro: a morte de Lindóia, em O Uraguai, de José Basílio da Gama (1741-1795) e a morte de Moema, em Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão (1722-1784).

O Uraguai, escrito em 1769, obra de extraordinárias qualidades plásticas, trata da guerra movida pelos portugueses e espanhóis contra os índios e jesuítas dos Sete Povos das Missões. Lindóia, sabendo morto o amado Cacambo, “aborrecida de viver procura a morte”, qual nova Cleópatra: pelo veneno de uma serpente. Um trecho do Canto IV:

Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços e lhe lambe o seio.

4.

José Santa Rita Durão, frade agostiniano brasileiro, canta a descoberta e a colonização da Bahia pelo náufrago português, Diogo Álvares Correia (1475-15570, alcunhado Caramuru pelos Tupinambás , que significa “moreia” ou “homem branco molhado”. Caramuru, obra publicada pela primeira vez em Lisboa, em 1781, tem caráter quase informativo, onde o índio idealizado é a encarnação do “bom selvagem” de Rousseau.

Nesse poema aparecem temas fortes como a antropofagia e o maravilhoso cristão em oposição às mitologias grega e pagã. A índia Paraguaçu era a esposa favorita do patriarca Caramuru e a índia Moema, rejeitada por Caramuru, acompanha a nado a caravela que conduz o casal à França, onde Paraguaçu se tornará a cristã Catarina.

Moema, na sua fúria de ciúme, de mulher que ama e não é amada, atira-se para a morte, único alívio para sua dor. O ódio feroz de Moema lembra também o episódio da morte da infeliz e despeitada rainha fenícia, Dido, que se apaixonara pelo herói Enéias, do épico latino de Virgílio, a Eneida. Um trecho da morte de Moema:

Uma que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela, do que irada;
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
– Bárbaro (a bela diz) tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor, que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio e asco…
Ah! Que corisco és tu… raio… penhasco!

No Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand -MASP, encontramos Moema, uma pintura a óleo, de 1866, do pintor brasileiro Victor Meirelles (1832-1903). A obra não reproduz uma cena da produção literária, trata-se de uma interpretação da personagem imergindo nas águas após ser rejeitada por seu amado Caramuru.

Já a escultura de Moema, de autoria do escultor e professor mexicano-brasileiro, Rodolfo Bernardelli (1852-1931) foi adquirida pela Pinacoteca do Estado em 1998, através da doação que envolveu um protocolo de intenções entre a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu Nacional de Belas Artes, o Banco Safra e Sandra Brecheret Pellegrini.

Uma mulher deitada de lado, num mar revolto de bronze. Moema está de bruços, os braços estendidos como os de um nadador. A cabeça voltada para o mar no esforço de alcançar o navio. Expostas de forma monumental uma das pernas e nádegas. O corpo em pleno mar, levado pelas ondas. Tocante.

5.

Escrevi dois poemas para essa história de amor e morte. O primeiro é este apelo/monólogo pela boca de Inês de Castro:

Casa comigo,
Meu infante,
Sou tua dama de honor,
Tua amante
Neste tálamo cortinado.

Casa comigo,
Meu Príncipe,
Sou jovem
De formosura tão estranha
Que as flores se enervam
Quando passo.

Casa comigo,
Meu amigo,
Suspiro
Trancafiada num palácio
Às margens do Mondego.

Antes que se voltem contra mim
Como feras,
Aves de rapina;
Antes que me exilem
Na Cítia ou na Líbia,
Que me degolem
A fio de espada,
Casa comigo,
Não esperes minha morte,
De nada adiantará levar meu cadáver ao mosteiro,
Entre alas de servos
Empunhando círios acesos
Para o túmulo sepulcral,
Casa comigo.

Dá-me um vestido de noiva,
Branco,
Cheio de vapores,
Semelhante à fonte de meus amores.

Pedro,
Faze-me rainha.

O segundo é esta visita ao Mosteiro de Alcobaça na voz de uma noiva apaixonada:

Vem, noivo amado,
Segue-me ao mosteiro de Alcobaça,
As torres se erguem
Em meio à fumaça,
Monges brancos
Caminham pela nave
Levantando nuvens
De dourada taça.

Vem, noivo amado,
Entremos nos claustros:
O do Silêncio,
Onde a solidão nos enlaça;
O da Leitura,
Onde os livros se abrem
Como rolos de mel
E a lua entra
Pela vidraça.

Vem, noivo amado,
Pelo caminho em cruz
Pela capela,
Pela sala dos reis;
Junto ao moinho
E ao jardim de rosas
Há um muro que nos separa do mundo,
Recoberto de tempo e argamassa.

Vem, noivo amado,
Cheguemos aos túmulos
De Pedro e Inês de Castro,
Os infelizes amantes
Que caíram em desgraça,
A que foi rainha
Depois de morta,
Vem, é aqui, perto da porta,
Façamos juras de amor eterno
Que nada nos ameaça.

Fiquemos como eles:
Frente a frente
Em seus sarcófagos,
Vem, me abraça.

*Raquel Naveira é escritora, professora universitária e crítica literária. Autora, entre outros livros, de Ponto de fuga & outros poemas (Inmensa Editorial).


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