Por JULIO DA SILVEIRA MOREIRA
A obra de James Petras resiste como antídoto à efemeridade intelectual, desafiando a lógica do descartável que consome teoria sem memória das lutas
1.
Pouco a pouco se vão aqueles que serviram de base para todo um corpo teórico e reflexivo sobre a crítica social, o imperialismo, os rumos das lutas globais, a análise social em escalas mundiais que permitem comparar diferentes processos e geografias.
James Petras, sociólogo greco-americano nascido em 1937 em Lynn, Massachusetts, numa família operária imigrante, faleceu em 17 de janeiro de 2026, em Seattle, cercado pela família, exatamente no dia em que completaria 89 anos. Ao longo de sua trajetória, construiu uma das obras mais prolíficas do pensamento crítico contemporâneo: mais de 60 livros traduzidos para 29 idiomas, mais de 600 artigos em periódicos acadêmicos como American Sociological Review e Journal of Peasant Studies, e mais de dois mil ensaios publicados em veículos como New York Times, Le Monde Diplomatique, La Jornada e Monthly Review.
Os escritos ficam, e esta é a imortalidade daqueles que escrevem, como dizia Sartre, porque escrever é deixar uma possibilidade de falar na cabeça de alguém que pegue aquilo para ler em qualquer época. James Petras dedicou-se a examinar como o neoliberalismo, o capital transnacional e as políticas externas imperialistas impactam sociedades e movimentos de resistência.
Suas conexões com a América Latina foram marcadas por décadas de trabalho junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil e com o Movimento de Trabalhadores Desempregados na Argentina, cuja análise documentou em diversos artigos acadêmicos. Foi assessor de Salvador Allende no Chile (1970-73), do primeiro-ministro grego Andreas Papandreou (1981-84) e conselheiro próximo do governo de Hugo Chávez na Venezuela. Entre 1973 e 1976, integrou o Tribunal Bertrand Russell sobre as ditaduras militares na América Latina.
Mas será que o mundo atual, e sobretudo os mundos acadêmico, intelectual e editorial, são capazes de conservar a escritura e os ensinamentos daqueles que foram fundamentais há algumas décadas? Ou será que o pensamento crítico está ameaçado com o desaparecimento de quem construiu as suas bases?
Na época atual, as teorias críticas rolam por alguns segundos nas telas do celular. Os mercados editoriais se integram a essas tendências para poderem “viralizar”: toda semana lançam um autor novo e um debate, polêmica ou conceito novo. James Petras construiu uma obra que desafia essa lógica do descartável, mas quem, hoje, garante que continuarão sendo lidos para além dos ciclos de moda intelectual?
2.
Por exemplo. Não é tendência divulgar Os condenados da terra, de Frantz Fanon, mas sim um novo autor que acaba de publicar algo sobre Frantz Fanon, e na semana seguinte outro autor criticando o que este escreveu. James Petras formou gerações de estudantes, muitos dos quais se tornaram acadêmicos, ativistas e lideranças comunitárias. Mas o trabalho de base, a imersão junto aos movimentos sociais, o compromisso com a ideia de que o conhecimento deve servir às lutas por justiça: tudo isso desaparece na velocidade das timelines e nas escolhas nada neutras do algoritmo.
É nesse contexto que os intelectuais do momento consomem Antonio Bispo dos Santos, mas raramente se ligam às pessoas do povo que referem nas suas teorias; que Vladimir Safatle escreve uma crítica ao pensamento decolonial e um monte de gente, com razão, escreve para criticar seu movimento reflexivo, mas nenhum dos lados toca a profundeza da experiência histórica e real das lutas dos povos. São batalhas de conceitos, a “revolução teórica” que Marx e Engels atribuíram aos jovens hegelianos em A ideologia alemã.
Isso não é novidade, pois faço parte da geração que viu os escritos sobre as experiências socialistas (especialmente da Rússia soviética e da China maoísta) serem apagados sob rótulos facilmente aceitos de “stalinismo”, “doutrinas cristalizadas” etc. A academia há muito tempo se rende a isso.
Assim mostrou Enzo Traverso, que a história é um campo de batalha, e que a crítica às experiências socialistas sucumbiu a elaborações conceituais binárias como democracia versus totalitarismo.
James Petras dedicou-se justamente a escapar desses binários: analisou o imperialismo do século XXI, as dinâmicas da mudança social na América Latina, a relação entre movimentos sociais e poder estatal, sempre atento às contradições concretas, à materialidade das lutas.
Ninguém poderia negar a atualidade de uma frase como esta, que inicia um ensaio publicado em 2018: “estamos diante de um mundo de múltiplas guerras, algumas levando a conflagrações diretas de poder global e outras que começam como conflitos regionais, mas rapidamente se espalham para confrontos entre grandes potências”. Seus prêmios e reconhecimento não o impediram de continuar escrevendo contra a corrente, publicando em seu próprio site ou em veículos e rádios alternativas.
Conforme ele próprio denunciou, o imperialismo não age apenas com bombas e sanções: age também deformando conceitos, esvaziando seu conteúdo emancipatório e preenchendo-os com seu oposto. Recorre à deturpação da linguagem política para culpar as vítimas e justificar os agressores imperiais.
3.
Um exemplo disso foi a ressignificação das palavras populismo e nacionalismo ao longo das décadas. Em seu significado original, o populismo designava movimentos de trabalhadores e camponeses que lutavam contra oligarquias e monopólios, como os fazendeiros nos EUA que combatiam as ferrovias, ou os processos políticos latino-americanos de transformação burocrática do Estado, como Perón, Vargas e Cárdenas, que refletiram a conquista de direitos trabalhistas e da propriedade nacional do petróleo na América Latina.
Já o nacionalismo nomeava a luta contra a dominação colonial e a defesa da soberania. Hoje, ambos os termos foram esvaziados e invertidos: populismo passou a ser associado a anti-democrático, e nacionalismo foi associado a xenofobia e autoritarismo, uma operação que serve para desqualificar justamente quem resiste às guerras imperiais e à pilhagem econômica.
Nacionalistas que resistem a guerras imperiais são atacados como autoritários, inimigos da segurança ocidental, da globalização e dos valores democráticos.
Quando um intelectual assim se vai, que garantias teremos de que seus ensinamentos vão permanecer? O que saberão as novas gerações sobre isso? Seguirão elas criando seus conceitos como novidades, sem a memória dos acertos do passado? E qual a responsabilidade das gerações intermediárias?
Talvez a resposta esteja numa imagem que James Petras criou há mais de vinte anos, num texto sobre o Argentinazo, a revolta popular de dezembro de 2001 na Argentina, com o que chamou de “a Grande Cama”. Debaixo dela estariam os dirigentes da esquerda argentina, além dos líderes das três confederações sindicais.
Enquanto o povo lutava nas ruas, enfrentando a polícia com gás lacrimogêneo e balas de guerra, os dirigentes passavam dias e noites discutindo entre si, publicando manifestos revolucionários de seus locais fixos debaixo da cama, distribuídos em quatro esquinas: a eleitoral, a intelectual, a revolucionária e a voyeurista. Os intelectuais de esquerda, quando muito, observavam das suas sacadas ou escreviam sobre o “fim do neoliberalismo” baseados nas notícias.
A questão que nos deixou, talvez, seja esta: como fazer para que as novas gerações não fiquem debaixo da cama, produzindo teoria enquanto o mundo queima?
A resposta está no trabalho paciente de tradução (não apenas linguística, mas política), na recusa da especialização que isola, no compromisso com a ideia de que o conhecimento só se realiza quando volta às lutas de onde emergiu. Enquanto houver quem entenda que a memória é guia de ação, que o passado é alavanca, haverá quem mantenha viva a conversa que James Petras iniciou, sobre o capital, o império, as resistências, a dignidade dos povos.
Mais que escritos, James Petras deixou um modo de fazer teoria social. Cabe às gerações intermediárias, aquelas que ainda podem testemunhar, que ainda podem narrar, a tarefa de transmitir não apenas o conteúdo, mas o gesto. Para que quando um novo estudante encontrar os seus livros e textos, não veja ali uma “leitura ultrapassada”, mas uma inspiração, ferramenta viva, memória do futuro. James Petras, presente.
*Julio da Silveira Moreira é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
Referências
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução: Lígia Fonseca. Arte de capa: Oga Mendonça. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã I. 2. ed. Porto: Editorial Presença/Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1980.
MOREIRA, Júlio da Silveira. Direito internacional: para uma crítica marxista. Toledo, PR: Instituto Quero Saber, 2022.
PETRAS, James. La Gran Cama y la insurrección popular (La revolución debajo de la cama). La Haine, 20 dez. 2023. Publicado originalmente em 4 jan. 2002. Disponível aqui.
PETRAS, James. Cultural Imperialism: Linguistic Perversion and Obfuscation of Empire Building. The Official James Petras Website, 11 dez. 2018. Disponível aqui.
PETRAS, James. A World of Multiple Detonators of Global Wars. The Official James Petras Website, 12 dez. 2018. Disponível aqui.
PETRAS, James; VELTMEYER, Henry. Hegemonia dos Estados Unidos no novo milênio. Petrópolis: Vozes, 2000.
SAFATLE, Vladimir. O grande FMI universitário: como o colonialismo domina os estudos decoloniais. Revista Piauí, Rio de Janeiro, n. 232, jan. 2026. Disponível aqui.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
SARTRE, Jean-Paul. Sartre par lui-même. Direção: Alexandre Astruc, Michel Contat, Guy Seligmann. França: [s.n.], 1976. 1 documentário (190 min).
TRAVERSO, Enzo. La historia como campo de batalla: interpretar las violencias del siglo XX. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2023.






















