Marc Ferro: a história como modo de vida

Por JORGE NÓVOA*

Uma abordagem sobre vida e obra do historiador francês

À Johildo Athayde, in memória, professor e amigo que me apresentou o universo do Annales,
à Sylvie Dallet e à Kristian Feigelson, amigos da primeira hora,
à Nadja Vuckovic, secretária e amiga de Marc até o fim,
à Marcos Silva e a José d’Assuncção pela colaboração profícua,
à Cris, in memoriam.

Aproximar-se da vida e da obra de alguém tão impressionantemente multifacetado como a de Marc Ferro não é tarefa das mais fáceis. A dificuldade só faz crescer quando este alguém é um amigo recentemente falecido com quem pude dialogar diretamente, por correspondência ou por telefone, nos últimos 26 anos. O que se segue mistura assim, minha memória desse período, ao que ele me contou e ao que li sobre sua vida e obra. É uma abordagem rápida para um tempo record, em atenção à demanda do site A Terra é Redonda.[i]

Procurei enfatizar aqui muito mais a experiência de vida e o lado humano de Marc, naquilo que é, sobretudo, de sua trajetória antes de ser o Ferro, homem público, conhecido mundialmente, no qual se tornou de forma mais efetiva a partir dos anos 1980. Ensaio, assim, uma homenagem a todos que comigo – ou em outras redes, comungaram da inspiração de Marc Ferro e laboraram adotando integralmente, ou mesmo parcialmente, suas teorias. Certa vez, em conversa perguntei-lhe se acreditava que existia uma “Escola Ferro”. A resposta foi sim que existia, mais ou menos, mas não que tivesse buscado. E com relação ao cinema e as imagens – que destacaram com mais impacto a originalidade de seu aporte -, dizia, que a partir dos anos 2000, queria tratar de outras questões, mesmo porque seus ex-alunos e colaboradores, já trabalhavam melhor que ele sobre a relação cinema e história. Acreditava que já havia dito o que queria sobre a inter-relação das linguagens.

A vida e a obra deste pensador se confundem a tal ponto, que não encontrei subtítulo mais apropriado para este ensaio: A História Como Modo de Vida. Marc se tornou o Ferro historiador porque, como dizia de si, não poderia ter sido outra coisa. Teve oportunidade de trabalhar em jornais e em determinado momento até acreditou que poderia ser jornalista, mas logo em seguida viu que sua estrada era outra. Trabalhou na televisão por 12 anos ou mais, mas para veicular sua leitura e a de outros sobre a história do século XX. E foi como pensador e produtor de conhecimento dos processos históricos de seu século maior que viveu por mais de 80 anos de vida conscientemente crítica, até sua recente morte. Bem antes disso, a história processo já lhe havia capturado definitivamente.

Eu conheci Ferro antes de conhecer Marc. Foi nos anos 1980, quando fazia doutorado na França e pude assistir alguns de seus programas na televisão. Depois, em 1987 elaborei um projeto que viria se tornar, na Universidade Federal da Bahia, na Oficina Cinema-História e na revista O Olho da História[ii] (as duas fundadas com a participação de Cristiane Carvalho da Nova), muito inspiradas no que ele pensava. Quando em 1996 decidimos realizar o Colóquio Internacional sobre A Guerra da Espanha e suas Representações no Cinema em 1936, Ferro já havia se tornado Marc para nós. Aceitou fazer a abertura e duas conferências no evento, do qual participaram também José Carlos Bom Meihy (USP), Bernard Berleyne (Universidade de Cologne), Pierre Broué (Universidade de Grenoble), Enric Mompó e Rafael de España (Universidade de Barcelona), e trouxe algumas películas que ajudou a compor, como a série de filmes de 1 minuto nos quais mostra, sem palavras, o desenrolar da história do século XX e aquela mais voltada para a Guerra e a Revolução Espanhola.

Constituiu-se assim um ambiente vibrante com estudantes e colegas de diversas instituições e novas amizades se formaram também. Marc encantou a todos e dos muitos frutos que o Colóquio rendeu, além do intercâmbio entre Marc e Pierre Broué (que foi convidado a participar de um episódio especial do Programa dirigido por 12 anos por Marc Ferro, o Histórias Paralelas do prestigioso Canal Arte)[iii], rendeu para mim um pós-doutorado com a sua interlocução. Possibilitou ainda o doutorado de Cristiane Nova que elaborou uma tese de doutorado brilhante (e infelizmente ainda inédita) sobre O tempo e a história em Glauber Rocha.[iv] Bem antes disto, nossa convicção era tão grande sobre a legitimidade epistemológica das relações entre o cinema e a história que fundamos a Oficina Cinema-História com um traço de união entre as últimas palavras. Dentre outras questões considerávamos que a linguagem cinematográfica era tão legítima como as dos discursos e narrativas escritas para abordar os fenômenos históricos e os processos sociais.

Eis porque é difícil agora saber por onde começar esta homenagem a Marc Ferro. A memória se confunde o tempo todo com a análise perturbada pelo impacto do desaparecimento de alguém por quem desenvolvemos grande admiração, o autor de uma vida de combate pela história, pelo conhecimento historiográfico, pela teoria da história, pela história do presente, pela utilização de todas os documentos e do cinema em particular, não apenas como fonte e representação, mas como “instrumento” e linguagem especial para a abordagem dos problemas históricos. Para Marc e em sua perspectiva, por mais distante que estivesse seu objeto (Primeira Guerra Mundial, Revolução de 1917, Descolonização etc.), sempre os abordou a partir de problemáticas atuais, engajado no presente e sempre muito mais que interessado pelo futuro da humanidade. Não por acaso, provavelmente o último texto que Marc escreveu em meados de 2020, “Um mundo sem horizontes: as sociedades já se esgotavam sem a Covid-19”, foi para nosso livro Soou o Alarme. A Crise do Capitalismo para além da Pandemia. O título do artigo já diz quase tudo e logo na abertura do livro, sentencia:

“É preciso constatar que hoje a humanidade vive com o medo do contágio da Covid-19. A velocidade com a qual seu vírus se espalhou pelo mundo e o número de mortes que produziu em curto espaço de tempo impactou profundamente nas populações de todos os quadrantes do planeta. Quem seria capaz de prever uma tal mudança em nosso comportamento? Como se poderia imaginar, que no início do século XXI, mais da metade da população do planeta pudesse se aplicar ‘voluntariamente’ num ‘confinamento social’? Diante da pandemia do novo coronavírus, ficou claro que, inevitavelmente, a crise do sistema mundial que a humanidade constituiu ao longo de, pelo menos, os últimos cinco séculos, se aprofundou enormemente”.[v]

O seu engajamento se renovou imediatamente ao finalizar este artigo, porque decidiu escrever aquele que seria seu último livro, que poderia ter tido o título de Catástrofe, ou Apocalipse, segundo Kristian Feigelson[vi], amigo e colaborador comum. Sim, sem dúvida, seu engajamento não era partidário, mas ético e humanista. Marc Ferro era um democrata republicano, não à moda americana atual, mas na herança do melhor do iluminismo e da tradição aberta por 1789, que se reproduziu ao longo do século XIX de várias formas através do ideal de uma república laica e social. Nunca foi comunista, nem marxista, mas sem ser anticomunista, considerava o legado de Marx para a história[vii], sem confundi-lo com a teleologia determinista, nem a dicotomia vulgarizada na dualidade base/superestrutura do marxismo tradicional, particularmente aquele que vigorou na primeira metade do século XX. Via de forma crítica tais características, inerentes aos trabalhos da maior parte dos historiadores soviéticos, e daqueles da maior parte dos historiadores e cientistas sociais ocidentais ligados aos PCs. Colaborou com Eric Hobsbawm[viii] dentre outros historiadores marxistas estrangeiros e franceses. Mas seu olhar crítico não poupava nem mesmo uma figura como Fernand Braudel, que teve uma importância decisiva para sua entrada na École des Hautes Études en Sciences Sociales, a mais prestigiosa no domínio das ciências humanas na França. Braudel, era para todos “o grande patrão dos Annales e sabia fazer a todos ver isto”. Qual não foi a surpresa de sua escolha para secretariar os Annales, quando existiam outros que Marc considerava mais “brilhantes” que ele (Jacques Le Goff dentre outros, queria o posto), que sequer tinha o famoso título da “agrégation”. Possivelmente, esse pode ter sido exatamente um dos motivos que impuseram a escolha de Marc Ferro. Homem experiente, Braudel sabia distinguir a capacidade de trabalho e a capacidade de agregar parcerias, uma das características de Marc Ferro, muito embora o ciúme despertado pelo secretariado terminou impedindo que amizades se desenvolvessem por mais de uma década. Talvez por outros motivos, uma figura como François Furet passava pelos corredores da EHESS e simplesmente não cumprimentava Ferro.

Por dever e prática de ofício – muito mais que um “dever de memória”, Marc Ferro estava absolutamente consciente de que a produção do conhecimento histórico não obedece ao mesmo processo que aquele da política. Embora reconhecesse a dimensão política das demais ciências todas, sabia das particularidades originais entre elas e a política. Uma das coisas que atraia fortemente na personalidade de Marc Ferro – e imediatamente impressionava seus mais novos interlocutores, era sua paixão pela história e por sua segunda grande paixão, as imagens. Marc Ferro era um homem apaixonado, como acentuamos no número 31 da Revista Théorème[ix] todo dedicado à sua obra audiovisual. Logo na abertura do artigo destacamos um trecho de uma série de entrevistas que nos concedeu ao longo de 1997 na qual ele se auto define:

Tenho várias identidades. Sou essencialmente um historiador, mas mudei de campo várias vezes, porque acho que a ultra especialização, esteriliza. Não devemos ser um generalista simples porque nos tornamos superficiais. É preciso ser um especialista generalista, mas várias vezes um especialista. Fui primeiro um especialista sobre a Revolução Russa. Sou também um especialista na Argélia, porque vivi na Argélia como professor, embora nunca quisesse escrever sobre este país, pois não queria escrever sobre o que tinha experimentado lá. (…). No entanto, escrevi uma história da colonização, porque me permitiu comparar a história da Argélia com a de outros países. Para ser um historiador, você precisa de uma distância. Eis porque me dediquei mais à Rússia, já que não era comunista. (…) Eu era um simples cidadão. Acontece que foi através da Rússia que me interessei pelo cinema, pela imagem, pelas notícias, já que era a época da Grande Guerra. Pediram-me para colaborar em um filme sobre a Grande Guerra, o que fiz em 1964. Encontramos minha segunda paixão: a imagem. Ela nasceu por causa das imagens das notícias de guerra, que eu vi que eram diferentes na natureza do que eu li nos livros. Constatei que as imagens tinham um discurso sobre a sociedade, diferente do discurso de líderes oficiais, militares, diplomatas, políticos e me deu a ideia de que cada grupo social representa a sua história. As imagens me revelaram fatos que não foram ditas nos livros e que, portanto, escrevem, uma contra história da história oficial. O cinema se tornou minha segunda “esposa” depois da Rússia. Quis confrontar as diferentes formas de escrever história (a imagem sendo uma diferente da história oficial) de diferentes sociedades. Percebi que os árabes não contavam a história da Argélia como os franceses, os índios não contaram a história do Peru como os espanhóis. (…)[x]

Na verdade, a originalidade maior de seu ingresso efetivo como historiador e teórico da história no pelotão de elite do movimento dos Annales se deu através das imagens e do cinema. Ferro encarnou, por assim dizer, a transição entre a segunda geração daquele movimento historiográfico que teve em Fernand Braudel e Ernest Labrousse suas expressões mais conhecidas, e sua continuidade na chamada “terceira geração dos Annales”, que constituiu a denominada Nova História. Escolhido por Braudel para secretariar a Revista dos Annales se tornará codiretor. Conscientemente dizia ter sido por acaso chegar às imagens, acaso proporcionado pelas imagens da I Guerra Mundial e, posteriormente, pela Revolução de 1917, passando antes pela participação na produção de uma série televisa sobre a história da medicina com Jean-Paul Aron.[xi] Às vezes atribuía sua primeira atração pelas imagens como o fruto de uma conjunção de vários fatores. Mas se observarmos bem – e a memória de conversas com ele nos ajuda a perceber isto, seu raciocínio se compunha sempre com imagens, mesmo quando falava de assuntos que não tinham nenhuma relação direta com o cinema, a pintura, a fotografia etc. Talvez, inconscientemente fosse a forma que encontrou para homenagear sua mãe, estilista de alta costura da Worth, a primeira do gênero na França, de quem falava sempre admirado, ele que perdeu o pai com cinco anos de idade.

Da mesma forma, a paixão poderia descrever uma de suas antinomias. Sim, as tinha. Quem não as tem? Mesmo sendo um homem fundamentado e experiente, mesmo como historiador crítico e disciplinado, também tinha as suas antinomias. Mesmo tendo sido um dos protagonistas do movimento mais importante de renovação da concepção, dos métodos e da forma como se poderia e se deveria escrever a história, também usava um dos maiores fetiches dos pesquisadores em ciências sociais da França – que existe também na formação dos historiadores de diversos países. Em suas locuções volta e meia aparece a fórmula do “recuo”. Todo aquele que quer explicar eventos históricos e processos sociais deve saber se distanciar de seu objeto de estudo e pesquisá-lo sem paixão. Muito bem! Mas o que significa tal comportamento? Em jornalismo se fala às vezes, ser necessário em questões impactantes, “deixar a poeira assentar”. Alguns historiadores das gerações anteriores diziam que para alcançar imparcialidade, o objeto de estudo do historiador deveria ser circunscrito num domínio de espaço e tempo situado a, pelo menos, 50 anos antes. Como seria isto possível, se tudo ou quase tudo se acha inter-relacionado no contexto dos processos sociais de uma história mundializada? O mais curioso é que todos nós até hoje não saibamos exatamente como produzir o tal distanciamento, ou “prendre du récule” como dizem os franceses. A impressão que sobra é que se trata de uma figura de estilo que não resiste à potência da crítica e não apenas a documental. Criar tal distanciamento com o dito recuo – seguramente uma herança pretenciosa do positivismo, seria algo como conseguir ser “neutro”, “imparcial”, na expectativa de ser, tanto quanto possível, “objetivo”. Mas Marc não acreditava ser possível uma tal neutralidade axiológica.

Todo cientista social eticamente comprometido com a “busca da verdade histórica”, procura fazer tudo (tanto o quanto pode) para não mesclar, por exemplo, sua posição política em relação a determinada questão e o estudo que se produz dela, de sorte a que o resultado não seja uma justaposição da política sobre a pesquisa realizada. Em seu livro L’histoire sous surveillance (A história vigiada)[xii] dá inúmeros exemplos, particularmente quando analisa as relações entre a assim denominada Escola dos Anais e a historiografia dos historiadores do Partido Comunista ou dos que nos EUA inventaram uma história pós-moderna, que também criticava. No capítulo intitulado Os marxistas e os Annales, expõe o que se segue:

Originalmente na França, durante os anos 1890-1920, se existia uma vulgata que exprimia uma visão revolucionária da história, ela era muito mais socialista que marxista; posteriormente as posições dos historiadores se definiram muito mais em função da Revolução de Outubro, que em relação a um conhecimento explícito das concepções de Marx sobre a história, ou seus métodos. Jean Bruhat, Vilar e Labrousse estimam que não existia nem história marxista, nem teoria marxista da história na França antes dos anos 1930, quando Jean Baby definiu os princípios. Nessas condições os fundadores dos Annales não teriam como se situar em relação ao marxismo, porque o ignoram: de Mathiez eles rejeitam “a ausência de conhecimentos positivos” – geográficos, econômicos etc.-, mais que suas simpatias por Robespierre e Lenin; Lucien Febvre criticava a Mathiez, sobretudo o fato de não ser aberto sequer ao materialismo.

Os historiadores de esquerda dos anos 1930 – Bruhat, Vilar, Labrousse, G. Lefebvre – não manifestaram menos simpatia pelos Annales, onde Friedmann incarna o calção marxista da Revista, “porque ela estava mais próxima de sua concepção, por mais distanciada que fosse”. Eram favoráveis à nova história vez que ela privilegiava a economia e escolhia um modo de classificação de fenômenos aparentemente de mesmo tipo que a distinção operada entre infra e superestrutura.

Mas esta boa disposição muda depois da Guerra, a partir do momento que o projeto histórico dos Annales utiliza procedimentos estrangeiros a prática e ao projeto dos marxistas. Começa então a era da excomunhão e da suspeita. Ela coincide com a época na qual jovens historiadores do PC afirmavam incarnar, a sobra de Stalin, o saber absoluto e o futuro da sociedade. Segundo estes, os que colaboravam com os Annales eram ou agentes do imperialismo americano, ou velhos sobreviventes de um modo de conhecimento ultrapassado. De fato, a pesquisa das estruturas, a prerrogativa atribuída à longa duração, ao estudo das mentalidades, a análise dos acontecimentos observados não mais como os fatos, mas como “sintomas”, excluíam, de fato, todo pressuposto teórico, tal como o determinismo; a vocação experimental dos Annales excluía também o isolamento a priori, como uma sorte de variável independente, como o modo de produção.[xiii]

Marc Ferro destaca a herança positivista da historiografia de Albert Mathiez (estudioso da Revolução Francesa) e de outros estudiosos dito marxistas que é superada pelos Annales. Este movimento historiográfico permanece herdeiro, entretanto de uma concepção totalizante da história abrindo caminho para sair da problemática amarrada exclusivamente na política e/ou na economia e da elaboração do paradigma transdisciplinar.[xiv] Portanto, trata-se de alguém que estava absolutamente atento às deformações que as ideologias políticas produziam, em todas as latitudes e longitudes quando o historiador se subordina fielmente a elas ou produz a historiografia com a finalidade de servir à política. A compreensão de que se tratava de um fenômeno mundial reaparece sempre em sua reflexão, como por exemplo, no livro Comment on raconte l’histoire aux enfants à travers le monde entier (Como contamos a história às crianças no mundo inteiro)[xv]. Logo no Prefácio escreve isto:

Não nos enganemos: a imagem que temos dos outros povos, ou de nós mesmos, se associa à História que nos contaram quando éramos ainda crianças. Ela nos marca a existência inteira. Sobre esta representação, que é também para cada um, uma descoberta do mundo, do passado das sociedades, se mescla em seguida a opiniões, ideias fugidias ou duráveis, como um amor…, permanecendo indeléveis, as traças de nossas primeiras curiosidades, de nossas primeiras emoções.

São essas primeiras traças que é preciso conhecer, que é preciso reencontrar, as nossas e aquelas dos outros, em Trinidade como em Moscou ou em Yokohama. (…) Não apenas o passado não é o mesmo para todos, mais para cada um, sua lembrança se modifica com o tempo: essas imagens mudam à medida que se transformam os saberes, as ideologias, à medida que muda, nas sociedades a função da história.

Urge, portanto, confrontar todas essas representações, vez que com o alargamento do mundo, com a sua unificação econômica, mas também com crise política profunda, o passado das sociedades é mais que nunca o objeto das disputas entre os Estados, entre as nações, entre as culturas e as etnias. Controlar o passado ajuda a dominar o presente, a legitimar a dominação e a questioná-las. Ora, são as potências dominantes – Estados, igrejas, partidos políticos ou interesses privados – que possuem e financiam as mídias ou seus aparelhos de reprodução, de livros escolares ou revistas em quadrinhos, filmes ou programas televisivos. Cada vez mais é um passado uniforme que é livrado a todos. Também, a revolta surda para aqueles aos quais a História é “proibida”.[xvi]

Portanto, se a neutralidade axiológica não é possível ao cientista social, a experiência não me impede, muito pelo contrário, de questionar a exequibilidade de uma separação cirúrgica entre a paixão e a razão. São dois momentos distintos, sobre os quais a teoria da história ou a epistemologia das ciências humanas precisa destacar como uma problemática trazida à tona, já nas reflexões dos pré-socráticos e em Aristóteles, mais próximo ainda, por Spinoza, que veio acompanhando a história do pensamento ocidental até os dias atuais. Da filosofia à psicanálise e à neurociência[xvii], hoje temos todas as provas de que razão e emoção se alimentam indissoluvelmente, o tempo todo de uma existência. É uma “contradição” insuperável em relação à qual os cientistas são obrigados a se equilibrar, do mesmo modo que são “impotentes” para controlá-la, por mais racionalistas que sejam, e constitui condição sine qua non da sobrevida humana.

Marc: Uma trajetória na história

Uma das facetas mais cativantes da figura de Marc era a sua capacidade de contar histórias vividas. Histórias de sua infância, de sua adolescência, de sua juventude e de todas as fases de sua vida. Ele adorava contar histórias sobre seu relacionamento com os colegas e com seus estudantes também. Desde o início dos anos 1990, além de suas vindas ao Brasil, sempre que íamos à França, era imperativo lhe visitar, quer seja na École, ou em sua casa em Saint-Germain-en-Laye, sempre conseguimos revê-lo. Para alguém que sempre gostou, desde pequeno, ouvir histórias contadas e para alguém que nasceu para a história, isso era, como se diz no nordeste brasileiro, juntar “a fome, com a vontade de comer”. Dificilmente a conversação não acabava com Marc perguntando, “vocês têm tempo para que eu lhes conte mais uma história?”. Quando perguntávamos, se nunca lhe passou à cabeça tornar-se um romancista, respondia que não, que não se via como artista, embora conhecesse uma pouco de música. Deixa claro que tratava o cinema como linguagem de representação, ou de discurso, ou documento da história. Entretanto, sua capacidade de contar histórias oralmente, por escrito ou através do cinema, não estava longe da arte.

Ao longo de sua carreira, Marc Ferro colocou seus muitos talentos profissionais a serviço da interpretação da história, de sua escrita e de sua divulgação. Mas também se tornou responsável pela adesão de muitos dos atuais pesquisadores espalhados pelo mundo. Eis a força de sua paixão, de seu carisma! Adorava um auditório cheio, as pessoas lhe ouvindo, adorava o burburinho antes das conferências e mais ainda, depois delas com tanta gente querendo falar com ele. Como poderia ser diferente para um homem que entrou para a vida pelas tragédias que ela mesma produziu, mas também lutando por um futuro melhor, mais humano e em relação à qual foi um grande vencedor? Nascido em 24 de dezembro de 1924, entrou conscientemente na história na Resistência antinazista, aos 17 anos. Contudo, seu sofrimento começa bem antes, quando perdeu seu pai que morreu prematuramente quando tinha 3 anos. Em fins de 1940, sua mãe foi sequestrada pelos nazistas e morreu em Auschwitz em 1943. Sua mãe era ucraniana de origem judia de nascimento, fato que nunca deram importância. Caíram na realidade quando foram convocados à prefeitura como todos os franceses de “confissão israelita”. Tiveram seus documentos tamponados como judeus. O diretor de um jornal de direita, pai de amigos da família, lhes disse que não deveriam ficar em zonas ocupadas. Pela profissão, a mãe de Marc não poderia deixar Paris. Marc é salvo por esses amigos, que o abriga em zona livre e conseguem uma nova carta de identidade para ele, sem a “marca de judeu”.

Há quem diga que todo acaso tem a sua necessidade. Teria sido um acaso Marc ter ficado maravilhado, na adolescência, ao seguir as aulas de filosofia de Merleau-Ponty? Outro acaso registra que teve como colega de Claude Lefort. Merleau-Ponty desenvolve sua filosofia como uma fenomenologia da percepção, criticando o paradigma cartesiano. Já nos anos 1940, defende a tese de que as ideias não surgem separadas do sensível, da sensitividade.[xviii] Nascem e brotam juntas. E será justamente Ponty que irá recomendar a seus colegas, para se refugiarem em zona livre. Marc preferiu ouvir mais um conselho nessa direção. Cruzou a linha de demarcação do perigo três ou quatro vezes, como muita gente, sem saber exatamente para onde ir e o que fazer. Quando se dirigiu para o sul, uma última vez escolheu Grenoble como zona livre. Lá residia um geógrafo, por quem ele tinha muita admiração, chamado Raoul Blanchard, discípulo de Vidal de la Blanche. Foi em Grenoble, no início 1941, que soube da prisão e desaparecimento de sua mãe. No sul da França, as pessoas se sentiam mais seguras, até a chegada dos alemães em setembro de 1942. No Liceu frequentou as classes preparatórias para as grandes escolas e foi ali que teceu relações com uma das redes de resistentes. Ingressou assim, na Resistência antinazista aos 17 anos. Recusou uma ajuda financeira de Blanchard, porque pôde contar com um antigo patrão de sua mãe, durante 1941.

Depois da Guerra se desenvolveu em certos setores a ideia de que a maioria da população francesa fosse de colaboradores. Marc Ferro não considera verdadeira esta hipótese. É certo, que boa parte olhava os resistentes com desconfiança vez que foram estigmatizados como “terroristas”. Todavia, subjetivamente, mais ou menos 80% da população era contra a ocupação. Existiam ainda os partidários de Pétain, os colaboradores e os resistentes que eram uma mistura de várias correntes (nacionalistas, gaullistas, comunistas, socialistas, libertários sem partido). Na Universidade, o estado de espírito dominante era a favor da resistência e, participando dela, percebeu que ninguém se questionava sobre as posições políticas do outro. Talvez isto explique pensar que os comunistas eram poucos em Grenoble. Embora Marc não tivesse partido, mais tarde saberá que a primeira rede da qual participou, a civil, era dirigida por Annie Kriegel[xix] (dois anos mais jovem) que foi do Partido Comunista Francês, de 1942 a 1956. Ela se dedicará à história do movimento operário francês e foi editorialista do Fígaro, um jornal de centro-direita.

Entretanto, no início de 1943 Grenoble não é mais zona segura. Os alemães chegaram em 1942 no sul. Faziam batidas e execuções sumárias, terminando por desbaratar redes civis de resistentes. Marc, que havia sido seduzido pelo ideal resistente dos setores civis, pelo fato de saber alemão e como consequência da dissolução de vários núcleos de resistentes civis, é um dos indicados para seguir em direção ao Maquis do Vercors[xx]. Em julho de 1944, ele é designado para uma unidade militarizada deste espesso montanhoso dos Alpes ocidentais.

São muitas as aventuras até lá chegar. O Vercors será objeto da maior ofensiva alemã, como tentativa de manter uma posição estratégica. O Desembarque na Normandia de junho de 1944 já havia ocorrido, mas não parecia produzir consequências no Sul do país. Os alemães se reorganizam, inclusive em Grenoble. A unidade militar que ocupava o Vercors era dominada pelos veteranos do Armistício da Primeira Guerra Mundial que se engajaram na Resistência. Conseguiu-se reunir algo em torno de 4 mil resistentes. Sua mais importante liderança, que se tornou seu maior herói e mártir, se chamava Jean Moulin[xxi] que foi designado por De Gaulle para unificar todos os agrupamentos resistentes, tarefa nada fácil porque, além de tudo, existia uma polêmica em torno da pretensão dos ingleses que queriam deter o controle da direção da Resistência. Jean Moulin, procurado que estava pela Gestapo e pelos serviços de Vichi, será preso e torturado por Klaus Barbie possivelmente até a morte. O Vercors estava dentro da zona liberada. A bandeira da República Francesa tremulava em todas as aldeias e vilas. Muitos que fugiram para as zonas liberadas se reuniram no Vercors, que concentrou também muitos republicanos espanhóis, israelitas, judeus, poloneses e muitos jovens dos liceus das regiões ocupadas e de Paris.

Uma das coisas mais impressionantes, numa situação de guerra e de resistência a um invasor mais fortemente armado, reside no fato de que muitos critérios utilizados em tempo de normalidade são subvertidos. Pela idade e pelos conhecimentos em geografia (a primeira disciplina à qual se ligou por paixão), Marc, simples soldado raso, ficou encarregado, sobretudo, de auxiliar aos resistentes nas pesquisas sobre os teatros das operações e, para tal, foi instalado no pavilhão onde se alojava o Estado Maior. Cuidou também da comunicação telefônica. Espanta a que ponto sua responsabilidade cresceu com apenas 17 anos, no curto período que passou nas montanhas, entre julho e setembro de 1944:

Foi impressionante! Era o primeiro a saber todas as decisões tomadas. Pedia-me para ligar para Hervieux, o chefe militar, Chavant, o líder civil, ou Goderville, isto é, Jean Prévost, o grande escritor virou capitão no matagal.  Eu anotava tudo: um pedia armas, outro precisa de tantas granadas…  Todas as ordens partiam de lá. Eu também recebia todas as mensagens das companhias que agiam no terreno das lutas. O Comando Militar foi instalado em uma bela vila da década de 1930 onde os oficiais trabalhavam, Huet (Hervieux), Tanant (Laroche)… Havia muita gente. Instalaram-me no banheiro e eu dormia na banheira. Durante o dia, eu trabalhava nos mapas e no telefone, em uma tábua cobrindo a banheira. Fui o primeiro a saber sobre a chegada dos alemães em 20 de julho. A campainha não parava de tocar. Nos momentos de luta direta, era uma verdadeira colmeia[xxii]

Por seus conhecimentos na língua alemã, era também designado para operações de espionagem em locais como a Estação Ferroviária mais próxima para saber se os militares eram alemães, de qual região, o que faziam, ou se eram poloneses ou tchecos. Quando foi levado ao Vercors, “vestido de burguês”, passou por grupo de alemães carregando granadas em um saco. Ao chegar no Quartel Geral militar da Resistência do Vercors, acreditaram que poderia ser um espião colaboracionista e foi submetido a um interrogatório, sendo salvo pelo resistente que o levou até lá. Em outro momento, já sob ordens de dispersar, é salvo por camponeses, que perceberam que ele cruzaria com uma companhia de alemães. Acompanharam-no, não sem antes obrigar que mudasse as roupas, dando-lhe as suas. Serviu várias vezes de “batedor”, indo à frente de seu grupo em dispersão. Era feito um rodízio e Marc contava os minutos porque, como as cabras, estava sendo usado para desviar os resistentes das minas enterradas por eles mesmos em todos os lugares da montanha, mas sem que tivessem um mapa delas. Também era o preferido para tentar conseguir comida nos vilarejos vigiados. Sua estatura baixa e suas feições de “jovem adolescente” ajudavam nas referidas tarefas que dividia com alguns poucos. As experiências mais traumatizantes provocavam na intimidade alguns questionamentos que glosavam nos pequenos círculos de resistentes, todos curvados, entretanto, à disciplina hierárquica.

Não obstante, sempre que se referia à sua unidade geral do Vercors, Marc adjetivaria os militares, com os quais conviveu, de gente corajosa e determinada na luta pela expulsão do invasor. Existiam divergências importantes entre os resistentes militares e os civis, por exemplo. Os civis queriam ações violentas e espetaculares, enquanto os militares eram contra, porque temiam as represálias, que de fato aconteceram. Embora de memória, Marc repetisse que os alemães reuniram no Vercors, algo como 25 mil soldados, ao que parece foram entre 10 e 15 mil. Realizaram massacres, fuzilamentos etc.[xxiii] Os dados nem sempre coincidem, mas a ofensiva alemã de julho de 1944 foi a mais importante realizada contra a resistência.[xxiv] Como soldado raso, Marc não expressava suas opiniões. Talvez seja por isso que acreditava que sua verdadeira experiência política ocorrerá na Argélia. Todavia, a disciplina militar não o impediu de formar opiniões sobre questões polêmicas. Ele estava de acordo com sua unidade militar e contra os eventos espetaculares, que acabavam matando muitos reféns.

No 13 de julho, véspera do desembarque pelo Sul, recebeu uma mensagem codificada e correu para a transmitir ao Chefe do Estado Maior. Gritos de protestos vindos do local xingam De Gaulle de traidor. O general Hervieux – comandante em Chefe das tropas militares no Vercors, ficou furioso, com o suposto adiamento do Desembarque do Sul. Na verdade, se saberá depois, que houve desencontro de informações, porque cedo, na manhã do 14 de julho, milhares de paraquedistas descem nos Alpes do Vercors. O Desembarque sim, foi adiado, mas o da costa marítima. Os alemães viram os paraquedistas que se espalharam em muitos quilômetros e a iminência do ataque à unidade do Vercors, obrigou ao alto comando a dar ordem de se dispersarem, em grupos de 30 pela floresta. Difícil experiência em um cenário de terreno todo minado por eles mesmos. As unidades tinham pouca comida, bebida e não podiam acender fogo. Existe um momento chave que foi quando Marc viu os planadores alemães. No seu íntimo, entendeu que o Maqui do Vercors havia chegado ao fim. Sem falar na população da região, só dos resistentes foram mais ou menos 700 que conseguiram sobreviver. Considerando as diversas situações de grande perigo que viveu, Marc estima que seu grupo de 30 combatentes, ao evadir-se, teve muita sorte. Considerava o mesmo para si, que também chegou a fazer papel de “batedor de minas”, indo na frente de seu pelotão, revezando com outros poucos à cada duas horas.

As controvérsias sobre a experiência do Vercors até hoje são muitas. Cada grupo tende a construir sua própria versão. Para Marc, os alemães já haviam penetrando no front do Maqui de Vercors quando os planadores chegaram. Mas uma história oficial não quer aceitar esta versão, atribuindo a derrota com a chegada dos planadores alemães. Tem a polêmica do reforço que deveria chegar vindo da capital argelina. Algum tempo depois de chegar a Grenoble, reencontra sua unidade e é designado como secretário, mas ele recusa. Preferiu ir com sua unidade, ajudar a liberar Lyon. Chegando lá, dão-se conta que os alemães foram embora.

A partir de então, começam seus questionamentos. Vive sua primeira decepção quando os “Oficiais Naftalina” (que haviam deixado seus uniformes guardados, esperando a Liberação) assumem os postos de comando, apoiados pelo General De Gaulle, em detrimento dos militares do Vercors, que foram valentes combatentes. A Guerra parecia não acabar nunca e havia se tornado numa guerra civil de disputas e acusações. Cada um dos grupos, partidos, categorias, queria deter os melhores reconhecimentos com contrapartidas materiais. Marc Ferro entendeu então o porquê de De Gaulle ter sido injusto com os militares da Resistência: queria o controle na unidade das tropas e tinha medo de uma revolta cívico-militar no pós-guerra. Ainda hoje uma parte da memória histórica parece reforçar a ideia de que De Gaulle foi contra a Resistência. Outros tratam-no de forma ambígua, quando dizem que 80% do armamento enviado para a Resistência paravam na mão dos alemães.

A entrada na vida: 5 anos na França e 10 anos na Argélia

Curiosamente, no Vercors Marc não tinha o sentimento do perigo. Vai dizer mais tarde que sua experiência política começou propriamente na Argélia. É difícil aceitar essa conclusão, vez que a política aparece em várias situações, tanto em Grenoble, como no Vercors.  De volta a Paris, o problema é como se sustentar. Já havia encontrado sua companheira de toda a vida, que finalizava seus cursos no sul. Ele fica indo e voltando no circuito Paris-Grenoble. Para se manter consegue ensinar história e inglês em um colégio católico. A história passa a ser sua grande paixão e a geografia fica subsumida. Com Vonnie vai percorrer a Alemanha. Por qual razão logo a Alemanha? Irá esclarecer em seu último livro. Queria poder afrontar a vida. Os dois jovens recém-casados, ao atravessarem a fronteira em um daqueles minicarros que os franceses chamavam de “Quatrelle”, o pneu fura. Dirigem-se a uma borracharia e vem um adolescente de seus 12/14 anos. Marc pergunta:

– “Cadê seu pai?”.
E o garoto responde:
– “morreu, ele e minha mãe”.

Então Marc diz:

– “deixe eu falar com algum adulto que ficou com a borracharia”.
E o rapaz responde:
– “não ficou com ninguém. Só eu mesmo”.

Reproduzo este diálogo inteiramente de memória. Oralmente disse ter sido como um choque. Um turbilhão de ideias lhe vem à cabeça e pensa o quão difícil estava sendo “a entrada na vida daquele garoto”, possivelmente bem mais difícil que a sua. Dá-se conta de que as guerras não servem a nenhum povo, nem a ninguém. É como se ficasse claro que não pudesse existir vencedores.[xxv] Isto o levou – à semelhança do que ocorreu a outros historiadores, como foi o caso de Edward Palmer Thompson (este em função das políticas do Partido Trabalhista Inglês)[xxvi], a se engajar na luta pela paz entre os povos. Na verdade, nem as rivalidades nacionais, nem as políticas, serenaram com o fim da II Guerra.

Ser professor de Liceu amenizará uma das maiores frustrações de Marc Ferro, vez que nunca conseguiu passar no concurso para a “agrégation”. É o concurso mais prestigioso da França, para o recrutamento de professores para o ensino médio e superior. Extremamente difícil, exige o diploma de “maîtrise”.[xxvii] O número de vagas estabelecido anualmente por decreto e os aprovados podem ser “agregados” ao ensino universitário. Luís XV, ao acabar com a Companhia de Jesus, instituiu esse concurso para constituir um corpo docente qualificado, visando substituir o ensino jesuítico. Quem passa no “vestibular” da agregação consegue um emprego vitalício, que perderá se deixar o ensino.

Vonnie, como Marc, também não conseguiu a maîtrise por razões de saúde. Entre 1946-47 eles se veem regularmente e ambos se tornam professores do liceu. Até o fim dos anos 1940, existia ainda um grande charme em ser professor, uma tradição na França. Mas a partir dos anos 1960, a situação já não é mais a mesma vez que o “métier” passa a ser vigiado pelo Ministério da Educação Nacional e pelas famílias. O caso do posicionamento de De Gaulle, em relação aos militares resistentes, já lhe havia colocado sob suas reservas em relação aos novos tempos, problemática que se sentirá à vontade para tratar pela primeira vez apenas no final dos anos 1980 – quando já havia se tornado uma personalidade conhecida mundialmente -, em seu livro sobre Pétain, que será dedicado à memória de Fernand Braudel.[xxviii] O filme, mas antes o livro mesmo, está interessado não em produzir um julgamento sumário, mas explicar, compreender, como personagens humanos puderam secretar um regime inumano, abjeto.  O leitmotiv do livro não querer reduzi-lo à análise política do discurso político e dos atos dos homens do poder de Estado, mas confrontar tudo isto com as reações da “petit-peuple”, do “João-Todo Mundo”. A história é abordada assim, como Marc o fez na época da Resistência e em seguida, nos seus primeiros anos como professor de liceu, vivendo-a cotidianamente como simples cidadão, mas também por aquele Ferro historiador maduro.

De qualquer forma, no final da Guerra lhe desagradava ver alguns antigos integrantes da Resistência querendo obter privilégios, títulos, postos, ele que entendeu seu engajamento como um dever cívico. Antes da Ocupação alemã, nunca havia se preocupado com sua origem judia, depois do fim da Guerra, passou a ter cuidado e reserva também em relação ao fato de que os resistentes passaram a ser maltratados pela imprensa de direita. Como aparece nas filmagens da “retomada” de Lyon, muitos dos antigos colegas queriam saber como ele sobreviveu durante a ocupação. Entretanto, – ele que havia vivido no Maqui de Vercors do início do final de junho ao início de setembro, sentia que a “curiosidade malsã” deixava-o sem chão e ajudava a minar suas possibilidades de emprego. Mesmo alguns familiares não viam com bons olhos a “Resistência”. Como as nomeações separavam o casal, aceitaram ir para Oran, na Argélia.

Vonnie, Marc e um bebê de nome Éric – primeiro filho do casal, rumaram para a Argélia e lá viveram uma experiência rica e marcante em vários campos, para além do humano. Salvo alguns poucos clichês, a Argélia era um país completamente desconhecido para Marc, que sentiu a tensão reinante no arriar das malas na Oran de 1948. Para além do anticolonialíssimo, da questão dos “pieds-noirs” (franceses nascidos na Argélia ou na África francesa, descendentes de europeus), da questão dos berberes, da espanhola e da judia, a possibilidade de uma guerra contra a metrópole tornava o ambiente carregado, tendendo a explodir. Como era uma cidade que serviu de refúgio aos espanhóis republicanos, tinha muitos espanhóis que iam para viver nela e as discussões sobre a história e a política fluíam inevitavelmente.

Colegas os ajudaram a se instalar. Tornaram-se amigos da família do jornalista Pierre Kalfon, que escreveu uma das melhores biografias de Che Guevara.[xxix] Mas tiveram muita ajuda, também, dos pais de seus alunos, como era de costume nesses países e não só com os professores. Ao choque da divisão dos liceus masculinos e femininos, se juntou a indignação de ver que os muçulmanos não deixavam suas filhas frequentarem o liceu. Eram poucos os árabes que chegavam a tornar-se professores. Mas como a maioria dos professores de origem europeia, demonstravam que eram a favor que os estudantes árabes tivessem uma educação, a melhor. Isto era malvisto por parte dos europeus da Argélia, que não queriam que os árabes tivessem educação formal e fossem cultivados. Nas aulas, como na França, Marc procurava não evocar a política, particularmente a partidária. De alguma forma na Argélia, eles viveram em um campo minado, como durante a Resistência. Mesmo assim, utilizava expressões condenadas pelos europeus, como por exemplo, civilização árabe, a qual realçava suas grandezas, ao tempo que chamava a atenção de que nenhum império durou para sempre na história. Como a história é uma ciência “explosiva”, mesmo sem ser comunista, Marc era tratado como tal, exatamente por imprimir à sua leitura das diversas leituras outras da história, uma visão agudamente crítica, que o irá acompanhar por toda a vida.

Da mesma forma que a visão governamental metropolitana não considerava a existência dessa realidade que discriminava os árabes e os oprimia, além de explorar suas riquezas, uma boa parte dos europeus argelinos simplesmente negavam que tais problemas existissem. Em várias entrevistas, Marc Ferro recorda, que na Argélia, começou a estudar a história para poder ensinar aos seus estudantes. Ainda não era propriamente seu momento de reflexão mais original e independente, atitude que a vida lhe imporá e ele aceitará de bom grado seguir. Lá, foi levado a tomar novamente partido. As suas recordações, o levam a procurar entender as disputas étnicas, culturais (berberes, judeus, metropolitanos, etc.) e políticas, que incluíam a relação entre os nacionalistas muçulmanos (que se dividem em várias organizações), a Frente Nacional de Libertação (partido que será dominante ao longo da luta pela independência), os comunistas (que perderam muitos efetivos para o FLN) e aqueles que procuravam uma alternativa democrática, para além daqueles que já se encontravam no poder.

No início dos anos 1950, a situação irá se agravar, particularmente com a Guerra Fria, sem esquecer que a questão colonial termina se misturando com aquelas das revoluções do século XX (a russa, a espanhola, e, a mais recente, a chinesa). Se a Resistência marca a entrada de Marc na história, sua trajetória enquanto professor na Argélia marca o aguçamento de sua consciência política. Irá colaborar com o Jornal Oran Republicano e termina se engajando nas questões políticas. Existiam reuniões sindicais da categoria nas quais começou a participar. Os colegas, não apenas os de origem europeia, demandavam sua intervenção. Como não concordasse com as políticas do FLN, do PC argelino, nem aquelas dos muçulmanos nacionalistas – apesar de procurar realizar atividades com todas elas, decide com colegas e companheiros de maior afinidade política, criar o movimento Fraternidade Argelina, uma espécie de terceira via. Existe certa afinidade com os movimentos do socialismo alternativo metropolitano, críticos ao mesmo tempo, ao Partido Socialista e ao Partido Comunista. Através desta organização política, vive, possivelmente, seu momento de maior militância e chega a ser escolhido como candidato às eleições. Depois de consultar todas as organizações argelinas será o principal redator de uma série de artigos publicados naquele jornal republicano, sobre qual deveria ser o projeto para a Argélia escritos.

Entre 1952 e 1954, o movimento nacionalista em vários países (Irã, Egito, Tunísia, Marrocos) promove um elã extraordinário ao movimento argelino. A derrota francesa em Dien Bien Phu reforça o desejo de luta. O ano de 1954 termina se constituindo em um verdadeiro divisor de águas e, à bem verdade, existia ainda a vigência dos valores de integração dos europeus, em um grande número dos adeptos ao islamo-nacionalismo. Contudo, já haviam começado, também, ações violentas contrárias a essa perspectiva, atingindo a própria população muçulmana. Malgrado essa contradição persistente, todas as tendências confundidas aderem à união na luta pela independência, que termina abraçando largas camadas da população em um elã sem fim. Entretanto, cisões ocorrem formando o que será, a partir de então, a liderança da Frente de Libertação Nacional. Uma espécie de culto xenofóbico passou a promover massacres exemplares, que se seguirão a assassinatos de líderes e militantes nacionalistas e aqueles que não aderiram publicamente ao movimento, que se constitui impulsionado particularmente pela FLN. Ferro relembra que,

FLN que se institui em qualquer sorte, no embrião do Estado argelino que virá com as prerrogativas e o funcionamento de um governo, sem nome: exigência de obediência, pelo terror se for preciso: monopólio das decisões, terrorismo como meio de consolidação de seu próprio poder e, por fim, internacionalização do problema graças ao apoio de Nasser e do bloco islamo-árabe.

Nesse contexto, o PCA teria conseguido se unir ao princípio da República Democrática Argelina, vez que ele estava completamente ultrapassado; ademais a fidelidade do FLN ao bloco islamo-árabe, o mantinha prisioneiro de suas antigas reticências; sem falar da resistência que seus partidários podiam opor a um aparelho que sentia a terra desaparecer sob seus pés, uma vez que sua tropa se constituía essencialmente por europeus e que simultaneamente o FLN lhe demandava, assim como aos outros partidos de se dissolver.

Portanto, seria ilusório imaginar, a posteriori, que a “revolução” do 02 de novembro de 1954 foi ressentida e vivida como tal em todo o país. Certo, esta data tornou-se histórica, legitimamente: mas foi o aparelho do FLN que a instituiu. Para a população de então, europeia e árabe, que na sua massa, não conhecia verdadeiramente ainda o FLN, o 2 de novembro passa despercebido, uma vez conhecidos os atentados, que dão início à luta armada.[xxx]

Ainda hoje, muitas visões da população estrangeira e árabe é, quase sempre, comprimida em um compartimento estanque ideológico que não corresponde à realidade. Muitos estrangeiros se integraram positivamente ao país, respeitavam e assimilavam a cultura e a história de sua população em sua heterogeneidade. Haviam casado, constituído uma prole de descendentes. E isso foi verdade até para vários militares que se recusam voltar à metrópole. Um filme documentário realizado por Jean-Pierre Bertain-Maghit, baseado em seu livro Lettres filmées d’Algerie (1955-1962), nos deixa entrever o drama dessa população dos soldados, que foram servir à metrópole no processo da dominação colonial.[xxxi] O contraste é abissal com a tragédia vivida pela população do país (árabe e berbere) representado no filme de Gillo Pentecorvo, A batalha de Argel[xxxii], também muito real. A brutalidade das tropas francesas com seu laboratório de torturas descritos por Frantz Fanon no seu Os condenados da terra[xxxiii], torna difícil qualquer boa vontade em relação às tropas da ocupação colonial. Jean-Paul Sartre que prefaciará o livro será talvez ainda mais incisivo demolindo o sistema colonial com todas as suas justificativas ideológicas. Tanto o livro como o filme, plenos de revolta legítima, não apagam a realidade do drama e da tragédia da existência de muitos de origem europeia que adotaram aquelas terras como suas. Ferro narrará isso em um capítulo de seu livro sobre as colonizações e em um de seus filmes, Argélia 1954, a revolta de um colonizado[xxxiv]. Este libelo anticolonialista, apresenta a narrativa de um árabe argelino contando como foi sua infância e sua adolescência e sua insurgência e luta contra o colonialismo. Ao que parece, o processo da luta pela independência argelina, comparado com aquele vietnamita, é muito mais trágico no que se refere às lutas internas entre as tendências concorrentes, assim como também no trato com o estrangeiro e o europeu, tal como Wilfred Burchett descreveu em seu livro célebre sobre a Guerra do Vietnam.[xxxv] A descrição feita por Ferro foi precedida de uma náusea que durou anos, para que ele se decidisse falar sobre ela.

Na Argélia, o recrudescimento das lutas pela independência leva a uma guerra fratricida sem precedentes na história do país. Inclusive porque as organizações muçulmanas se mantinham discretas sobre seus reais objetivos, a população europeia achava-se muito longe de perceber o que estava sendo gestado. O movimento Fraternidade Argelina consegue algumas ações que alimentam a possibilidade de se evitar as tragédias. Consegue reunir boa parte dos comunistas e nacionalistas, dois terços dos europeus e um terço dos muçulmanos de Oran em torno de um Manifesto, assinado com entusiasmo na noite de 17 de dezembro de 1955, que na sua essência, provavelmente, foi escrito por Marc Ferro, no sentido de colocar o ponto final na guerra, que já havia começado com o desembarque de 8 mil paraquedistas das tropas francesas. No embalo das esperanças acumuladas, no início de fevereiro de 1956, Fraternidade Argelina consegue um front de todas as forças políticas, para uma reunião que seus integrantes propuseram ao Governo de Alger com o representante metropolitano, o socialista Guy Mollet. Das cinco formações, embora tivesse dado seu acordo de enviar um representante, o FLN não concretiza o compromisso sem dar nenhuma explicação. Ferro historiador reproduz bem mais tarde a conclusão que tirou na época. A solução do Governo da metrópole pela voz absurda de Mollet é “assegurar eleições livres”, o que revelava “um total desconhecimento da realidade do problema argelino. Com o recuo do governo, no 6 de fevereiro de 1956, toda a ideia de negociação entre europeus da Argélia e árabes foi enterrado”[xxxvi]. Mas a própria “guerra interna”, divide os próprios argelinos com uma violência nunca vista antes. Na França, entre os militantes do FLN e do MNA registraram-se 12 mil agressões e 4 mil mortos. Na Argélia “as cifras ultrapassam de longe esse balanço”.[xxxvii]

Como consequência, as disputas, as manobras, a falta de perspectiva e as manipulações das diversas organizações fazem com que Marc Ferro se canse. Além do mais os assassinatos políticos colocam toda a família com medo do pior. Vonnie falava dos estudantes descendentes de europeus que, aterrorizados, sonhavam sendo degolados. Um de seus colegas soube, que ele fazia parte de uma lista de personalidades a serem liquidadas, porque havia considerado a co-soberania. Com a família, Ferro vive a colonização francesa do outro lado do Mediterrâneo, o que lhe motivará a escrever obras de fôlego como O livro negro da colonização.[xxxviii] É um momento no qual começa a refletir sobre a história oficial e aquelas que alimentarão as “contra histórias” envolvendo as memórias do cidadão comum. O seu “Livro Negro” não deixa de ser um contraponto crítico ao Livro negro do comunismo, de seu amigo Nicolas Werth[xxxix], vez que podia dizer: “compreendo companheiro, mas não esqueça que ‘nossos pecados’ duraram pelo menos cinco séculos…!”.  

Nesse momento, Ferro já está do outro lado do Mediterrâneo. Na Argélia, acumulou material histórico vivido que irá lhe acompanhar por toda a vida. Pôde ver a gentileza do povo árabe comum e, ao mesmo tempo, sua violência. A mesma coisa em relação aos “pieds-noirs”. Enxergava dois povos que reciprocamente se amavam e se odiavam, a ponto de se matar por pouca coisa. Não esqueceu as visões da esquerda, nem as ideologias da direita, nem, muito menos, aquela do povo comum, do colonizado. Lá voltará duas outras vezes e guardou alguns amigos alguns dos quais da Fraternidade Argelina como Jean Cohen que em 1966 publica Estrutura da linguagem poética,[xl] o que Ferro, na dedicatória que lhe oferece no seu Histoires des colonisations, considera ser um chef-d’œuvre.

De professora a um historiador maior

O retorno à França em 1958, passados 10 anos, lhe coloca novos desafios. O que fazer para ganhar a vida, fazendo o que se gosta e acredita? A história, nada mais que a história…!!! Ainda na Argélia, eles são comunicados de suas novas nomeações. Ferro será professor do Liceu Montaigne e depois no Liceu Rodin, dos mais prestigiosos, mais irá procurar Pierre Renouvin, a quem explica querer realizar seu doutorado, sobre como a Revolução Russa era interpretada no ocidente. Acreditava que, como no caso da Argélia na França, que o processo russo havia chegado ao ocidente pleno de ideias falsas. Convenceu Renouvin, que em 1960 facilitou sua entrada no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), mesmo sem o diploma da “agrégation”. Depois de publicar dois importantes artigos na revista Cahiers du Monde Russe et Soviètique, Ferro é convidado para ser seu secretário.

Nada mal para tão pouco tempo. Ao assistir um debate importante sobre a questão nacional, na École des Hautes Études em Sciences Sociales, na qual se tornará professor e diretor de tese, Ferro sentiu-se obrigado a retirar de seu “baú argelino”, as reflexões que a vida na Argélia o fez aprender sobre a questão nacional. Ruth Fisher, que dirigia o debate e foi dirigente da III Internacional (alinhada à posição de Rosa Luxemburgo), tece enormes elogios, pela reflexão original que Ferro fez sobre a questão nacional. Sua ligação com o Leste Europeu e com a URSS estava se construindo. Um enorme canteiro de pesquisa e reflexões se abria assim em plena Guerra Fria, no qual se percebia as contorções dos homens políticos para gerenciar as crises do capitalismo e os processos do “comunismo realmente existente”.

Ao longo dos anos 1960 conseguirá afirmar ainda mais sua carreira e sua formação como historiador. Poderá ir à URSS pesquisar para sua tese e participará de várias experiências de cinematografia documental que lhe marcarão definitivamente.[xli] Em 1964, Marc Ferro se tornou coautor do filme sobre a Primeira Grande Guerra. A película seria de Frédéric Rossif, mas por razões de incompatibilidade deste com o produtor, foi instituída a codireção. Ferro opera nesse processo, selecionando imagens de arquivo e analisando-as, uma constatação definitiva: quase sempre as imagens e os filmes de arquivo contavam uma história bem distinta daquela encontrada nos livros de história, sobretudo aqueles que reproduziam a história oficial ou oficiosa. Foi o que ele viu na elaboração do filme sobre a I Grande Guerra. As imagens não correspondiam à ideia que tinha da Guerra. A contradição entre os documentos visuais e as narrativas históricas exigem, pois, a elaboração de uma crítica externa e interna, mas, mais ainda, a própria releitura e reinterpretação dos processos históricos. Essas experiências constituirão a pedra de toque de sua teoria sobre o cinema e as imagens como contra análise da história.

Em relação à sua tese de doutorado, essa descoberta vai dar uma consistência extraordinária e uma originalidade ainda maior à sua leitura da Revolução Russa de 1917. Tradicionalmente, as narrativas escritas colocavam os operários como a vanguarda e as lideranças das manifestações, protagonistas em toda linha. Mas as películas que Ferro descobriu mostravam, sobretudo mulheres, homens, especialmente soldados, o Bund (Partido Socialista Judeu). Os trabalhadores nunca apareciam. Ferro precisou montar um quebra-cabeça para poder descobrir que eles preferiram ocupar as fábricas no processo da autogestão. Descobriu ainda, que as imagens revelavam que as manipulações ocorriam de fato. Os personagens eram retirados das fotos históricas. Elas revelavam, portanto, a prática das censuras tal e qual no ocidente. Nem tudo descobriu sozinho. O arquivista que lhe servia nos depósitos de filmes (chamava-se Axerold), lhe ajudou a preencher os “buracos vazios”. Quando sua tese foi publicada um escândalo se instalou.[xlii] Foi “excomungado” pelos dirigentes da burocracia, tornado persona non grata na URSS e proibido de lá voltar durante 10 anos. Só conseguiu retornar já na perestroika.

Não obstante, mesmo os críticos menos simpáticos de Marc Ferro, são obrigados a reconhecer que a massa documental que ele utilizou era inédita e confiável. Os mais simpáticos reconhecem que ela é fabulosa e que Ferro nunca negou a ação importante dos operários, embora sua análise adquira originalidade, exatamente porque contrapõe a leitura dos documentos escritos, imagéticos e outros, à vulgarização dos manuais que colocavam os operários como principais protagonistas junto ao Partido Bolchevique. No capítulo IV, trata exatamente da classe operária, camponesa e dos soldados. O capítulo XV, intitulado O trabalho contra o capital, é dedicado à classe operária, à autogestão que eles construíram, à relação dos sindicatos e dos comitês de usina, à derrota dos comitês de fábrica e de sua autogestão. O capítulo XVI, intitulado O Estado: dos sovietes à burocracia, coincide muito com a apreciação do estudo de Oskar Anweiller, provavelmente o mais importante sobre a questão, continuando completamente desconhecido no Brasil.[xliii] Como Alexander Rabinowitch[xliv], muitos historiadores terminaram confirmando as avaliações de Ferro, mais de cinco décadas passadas.

Não dá para esquecer que Ferro detectou com clareza que as “nações civilizadas” se juntaram contra o direito à autodeterminação de um povo, de seus conselhos (os sovietes que se esvaziaram em pouco tempo, é certo), uma revolução de homens e mulheres, de soldados, camponeses e trabalhadores que não suportavam mais uma guerra absurda, planejada pela potência mais industrializada de então e aceita pela estupidez e a arrogância de uma monarquia decadente. Com sua tese de doutorado sobre 1917, Ferro coloca abaixo o mito estalinista da locomotiva da história, que estaria levando os povos do mundo para o paraíso na terra, escatologia teleológica que já havia sido demolida por Walter Benjamin, dentre outros, com seu manifesto-alarme Sobre o conceito da história, verdadeiro libelo pela dialética anti-evolucionista e contra a barbárie, que já desfilava sob olhares fascinados, também na Europa ocidental.[xlv] Para Ferro, quando um partido que se quer emancipador subordina os organismos políticos mais democráticos, que haviam sido inventados pela população, este mesmo partido, primeiro substitui a transformação popular e depois decompõe-na numa ditadura contra o povo. Sua narrativa reconstrói um processo que coloca a grande massa da população, com todas suas camadas populares, como agentes transformadores – mais ou menos conscientes, de suas próprias condições históricas. Dos campos às cidades, todas as camadas sociais são analisadas. Os principais personagens, mas também o povo comum, compõem seu afresco de mais de mil páginas dedica do à sua eterna Vonnie.

Alguns leitores desta obra, originários da extrema esquerda francesa, acreditam que Ferro não considera “a pressão estrangeira para minimizar e relativizar sua crítica aos bolcheviques”. É de se perguntar se diante de agressão estrangeira não se deveria buscar a união de todas as forças políticas progressistas contra ela? O historiador deve perguntar ainda o que provoca e qual a lógica da luta encarniçada pelo poder ocorrida nessa experiência?[xlvi] A esquerda no mundo continua preferindo olhar para outubro como um mito e renegando a experiência ainda mais legítima, da democracia de Fevereiro. Que as condições específicas de Outubro expliquem o autoritarismo legitimado como uma ditadura do proletariado substituindo a auto-organização de mulheres e homens, dos trabalhadores, camponeses, professores, estudantes, não consegue satisfazer a muitos historiadores. Se a Revolução Mexicana oferece uma analogia, a Guerra e a Revolução Espanhola tem no seu centro uma luta entre auto gestionários, emancipacionistas e libertários internacionalistas, contra a atuação de um aparelho que encontra suas raízes no autoritarismo da ditadura do partido único sob alegação da pressão dos países ocidentais e do Exército dos Brancos. O olhar historiográfico a demolir mitos, não precisa tudo destruir. Só precisa que o historiador queira a integridade livre e crítica de seu olhar.

Algo semelhante Marc Ferro já havia vivido na Argélia daí suas críticas aos ataques aos sovietes, à Constituinte de janeiro de 1918, à Kronstadt e ao processo violento de burocratização policial da vida que se avolumará com a “industrialização acelerada” e a “coletivização forçada das terras”. Alguns outros consideram-no anarquista ou auto gestionário e outros ainda, um liberal. Ferro como historiador recusava as etiquetas, os preconceitos, mas também criticava as ideologias. Considerava que o métier do historiador precisava ser exercido com independência e crítica. Será também por isto que se juntará ao movimento encabeçado pelo historiador e amigo Pierre Vidal-Naquet[xlvii] lançado em dezembro de 2005 intitulado Liberté pour l’histoire conseguindo a adesão de 600 pessoas que repudiam processos judiciais contra pensadores e historiadores. A petição diz que “a história não é uma religião. O historiador não aceita nenhum dogma, não respeita nenhuma interdição e não reconhece tabus. (…) Em um Estado livre, não cabe ao Parlamento, nem ao judiciário estabelecer a verdade histórica”. Considerava que esses princípios foram violados por artigos de leis sucessivas que, para além do reconhecimento legítimo de alguns processos históricos como o tráfico de escravos, o genocídio arménio, queriam instituir o que se deveria, ou não, ser pesquisado e divulgado, os métodos que deveriam ser utilizados e o que o historiador deveria encontrar os ameaçando com punições. O movimento obtém ganho de causa tendo mobilizado boa parte da opinião pública francesa.

Uma usina e um laboratório em permanente ebulição

Os anos 1970 assinalam a afirmação do movimento da Nova História. Das mentalidades à ideologia, ao corpo, à psicanálise e ao inconsciente, da demografia à arqueologia e à antropologia, das festas aos mitos e as religiões, da história social à história dos povos e à aculturação, da quantificação com o computador ao retorno ao fato e à história conceitual, etc., etc., seus historiadores não aceitam domínios privados às suas pesquisas. Jacques Le Goff e Pierre Nora reúnem em 1974, uma amostra numa coleção de artigos que viraram três livros demonstrativos com o título geral Faire de l’histoire e logo publicado no Brasil.[xlviii] Ferro irá contribuir para a referida coletânea com o texto que havia escrito em 1971, ao qual lhe dará como título O filme. Uma contra análise da sociedade. Este estudo figurará como um capítulo inicial de seu livro Cinéma et Histoire[xlix]. Na elaboração da teoria dessa relação, cunhará uma de suas sínteses mais repetidas : “o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é história”. A fórmula rodou o mundo e se tornou uma espécie de “bandeira” contra o tradicionalismo, no seio dos historiadores e hoje, mesmo existindo recalcitrantes, sabemos que definitivamente o cinema – e a imagem em geral, entrou definitivamente para o arsenal do ofício.

A utilização do cinema como documento, representação, discurso, narrativa, possibilitou ainda a constituição de um laboratório epistemológico, que denomino na nossa prática, de razão poética ou sensitiva. Dentre as muitas janelas que Ferro abriu, algumas das quais sem se dar conta, penso que esta é uma das mais férteis e importantes da relação entre o cinema e a história, que procuro desenvolver dando continuidade também às teorias de Ferro. Ela faz face à crise de paradigmas nas ciências em geral e nas humanas em particular, buscando superar o racionalismo cartesiano, sem cair no relativismo pós-moderno. É o que procurei demonstrar em estudos como Cinematógrafo. Laboratório da razão poética e do “novo” pensamento.[l] A partir deste pensamento, não somente é impossível separar razão de emoção, como é necessário assumir na démarche científica, para o bem e para o mal, esta impossibilidade com todas as suas consequências.

O cinema, mais que qualquer outra linguagem, demonstrou isso. Ao procurar representar, interpretar ou traduzir a complexidade do real, as imagens de um filme podem capturar um fenômeno como nenhuma outra extensão do cérebro humano. Mas elas também “mentem”, “traem”, por mais que o olhar do pesquisador, do documentarista ou do cineasta ficcional busque o contrário. Já é lugar comum tantas vezes foi dito – e a própria etimologia da palavra nos instrui, traduzir é, em alguma medida, “trair”. Entretanto, o que pode significar a “traição” de um documento qualquer? Seria concebível ao historiador, na atualidade, a existência de documento puro, neutro? Poderia o cientista social pretender que sua reconstrução do processo de um fenômeno seja exata como acreditavam e pretendiam os positivistas? Deveria ser esta a pretensão de um historiador? De outro lado, não existiria utilidade mesmo aos documentos comprovadamente “mentirosos”, enganadores, manipuladores ou no que concerne às suas origens, simplesmente falsos? Uma das coisas que Ferro nos ensinou diz respeito a isto: a manipulação não era uma prática exclusiva do ocidente e foi reinventada em várias experiências na história mundial. O mesmo fenômeno foi observado no processo da ascensão dos nazistas ao poder. Os dirigentes ricos da socialdemocracia ou aqueles destacados do PC alemão, assim como os ricos do país, não se sentavam jamais às mesas com os pobres e os miseráveis. Os nazis organizaram as cozinhas de sopa populares e fizeram o contrário dos ricos, por puro populismo, é claro. Foram os primeiros a tomar medidas diretas de contato direto com o “populacho” e as imagens mostram isso claramente. Esse constituiu-se num paradigma do comportamento político do populista. Eis que, na pior das hipóteses, se não tiver o que nos ensinar sobre o objeto de sua “mentira” ou falsificação, as imagens dos documentos fílmicos produzidas pelos nazistas terão o que nos ensinar sobre o porquê das intenções e da ação do “mentiroso” que as produziu. Ferro ajudou, pois, a revolucionar completamente a concepção positivista do documento tradicional, escrito. E como ele mesmo afirma, “o conteúdo de um documento ultrapassa sempre as intenções daquele que procurou registrá-lo[li], seja esse um documento imagético, sonoro, escrito ou oral. Na verdade, toda e qualquer produção científica ou artística carrega em si, mais que seu autor quis intencionalmente revelar. A dialética entre o visível e o invisível, entre o aparente e o latente, entre o consciente e o inconsciente quer na sociedade, quer na representação fílmica precisa ser analisado pelo pesquisador. Em muitas de suas obras aparecem essas questões que havia avançado no livro organizado por Nora e Le Goff.

No ponto de partida, como dizia Marc Bloch, outro grande teórico da história, fundador da Revista dos Annales, “o historiador é filho de seu tempo”.[lii] Podemos estender este pressuposto metodológico para toda e qualquer ciência. Não existe pesquisa que não seja presentista, que não se ache de alguma forma, de várias formas, condicionadas pela densidade do presente no qual ela foi elaborada.[liii] Quantos cientistas e pensadores na história pagaram com suas vidas, o preço de seus ofícios?  Como é possível ser apaixonado e ter uma distância disciplinar de seu objeto de estudo se, para o bem e para o mal, a paixão é o móvel mais poderoso na definição das escolhas da vida e, sem dúvida, da ciência? Como estudar temas tão polêmicos, com, ao mesmo tempo, paixão e distância? De qualquer forma, é isso que nos é dado ver como possível em Marc Ferro! A deusa Clio forjou sua personalidade, mas também seus sentimentos. Foi realmente um homem apaixonado, mas, pretendeu nos haver dito, como conseguiu dominar suas paixões enquanto refletia sobre as questões de sua pesquisa sobre história, sobre cinema, sobre a Rússia, sobre o ensino da história, sobre a história da medicina, do colonialismo, das guerras, etc.

Na verdade, foi sempre a paixão que exalava pela história que o tornou um homem de grande carisma! Seu bom humor no trabalho, mas também sua ironia às vezes ácida, rapidamente fazia a conquista de quem o ouvia, seja um indivíduo, uma grande audiência de anfiteatro, ou um congresso internacional! Se era mais difícil identificar pessoas chorando, emocionadas quando Ferro contava uma passagem que testemunhou, sempre foi facílimo observar auditórios inteiros gargalhar de suas anedotas. Alguns testemunhos nos contaram que conseguiu rir e fazer rir nos seus últimos dias, apesar de todas as dificuldades. Já enxergava pouco, fazia três hemodiálises por semana, perdeu a mulher dois meses antes de morrer, e por último, a contaminação com o novo-coronavírus. Não se sabe exatamente se foi a Covid-19 que o levou, porque os médicos o haviam dado como vitorioso sobre ela aos 96 anos. Talvez sequelas tenham acelerado sua partida.

Ferro não conseguiu acabar o livro que nos disse estar escrevendo. Disse-nos que não saberia se conseguiria. Diretor que foi da mais prestigiosa revista científica de teoria, ciências sociais e história da França Les Annales (Économies, Sociétés, Civilisations), não pensou em honrarias – ele que teve uma trajetória bastante atípica para a academia francesa. Trabalhou até seus últimos dias, por uma razão muito simples: não poderia fazer diferente. Nasceu e “entrou na vida” como filho de Clio e de Khronos. Sua generosidade e a ética que construiu o colocou a favor de um futuro melhor para a vida no Planeta. Os últimos livros que escreveu, estavam mergulhados na certeza de que seriam seus últimos e mostram o quanto se achava absolutamente preocupado com o futuro da humanidade. Pela simples leitura dos títulos de suas últimas obras[liv]  é possível perceber sua preocupação com o futuro. Não foi uma mise-en-scène com a finalidade de vender livros, ou contabilizar pontos acadêmicos o que lhe levou a escrever tanto e sim a vontade do historiador de chamar a atenção, de ajudar a seu modo, a procurar os melhores caminhos possíveis para a saída da crise geral.

O livro que deixou escrito pela metade deveria se intitular « a catástrofe » ou algo parecido, trataria da aceleração da crise em um mundo sem horizontes. Não o conseguiu, mas o que escreveu no seu último texto serve para se ter uma ideia do enquadramento que iria lhe dar:

 

“(…). A mundialização é contínua, de crise em crise. Os líderes estavam à beira de abandonar o credo liberal, enquanto seus aliados europeus, particularmente a Alemanha e a França, estavam aplicando-o. (…). A esquerda e a direita, é claro, esperavam uma retomada inevitável do crescimento, por acreditar na permanência dos ciclos econômicos. Mas, ambas se esquecem de observar que agem em um mundo de contornos mutantes. A crise do subprime, que desencadeou a crise financeira que permanece, surpreendeu a todos, quando na verdade é uma continuação de uma série de crises, como a bolha da Internet, a bolha asiática e outras.

(…). O destino da Grécia, em 2015, traduziu as restrições que a União Europeia pode impor a seus membros. Em função do nível alcançado por sua dívida, foi dado a Atenas e a este pequeno país, um ultimato para que aceitassem o controle político e financeiro imposto pela “troika”, quer dizer, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Comissão Europeia. Uma questão se impõe: não haveria a troika se apoderado da soberania europeia? Isso ficou bem claro a partir da crise da Grécia. A troika fala em dar ordem para todos e em nome de todos. A seu turno, cada Estado-nacional que renuncia a sua soberania para assegurar o bem comum, passa a viver a experiência das regiões que foram colonizadas, supostamente como diziam os colonizadores, para o “bem delas” mesmas. A diferença vem do fato de que hoje são os próprios Estados nacionais que agem na direção deste “auto colonialismo”. O ressentimento que esses fatos produzem nos povos submetidos a esse tipo de humilhação, exige que se pense nas revoltas que podem fermentar. É preciso lembrar, que o processo de ascensão dos EUA foi acompanhado da mundialização de ressentimentos contra seu Estado. (…)

(…) Desgraçadamente, há um negacionismo que persiste diante do aquecimento global. Esse fenômeno é, em grande parte, devido às emissões de gases de efeito estufa. Sua progressão deve ser interrompida para que a temperatura global da Terra não suba mais do que 1,5 graus. (…). A promoção da energia solar e eólica e a interrupção do desmatamento das florestas que ainda restam no planeta, especialmente a da Amazônia, tornariam possível reduzir ainda mais a quantidade de gases de efeito estufa.

(…). Essas preocupações com o meio ambiente, no entanto, não devem nos fazer esquecer o sofrimento humano. Em pleno século XXI, dois bilhões de pessoas ainda sofrem de desnutrição. (…). Não há um ano em que não ocorra algum drama: (…) tsunamis na Ásia e terremotos inesperados, o agravamento dos desastres climáticos no sul dos Estados Unidos, no Caribe e na América Latina, as queimadas na Amazônia, etc. Além disso tudo e da crise do sistema capitalista mundial, hoje, o mundo inteiro se vê confrontado com a ação inesperada do novo coronavírus. Esses desastres estão ligados, tanto à ação das sociedades humanas e ao progresso técnico, como às reações da natureza a certas inovações. (…). A desordem e o medo que causam, interagem com os causados por outros aspectos da crise”.[lv]

 

Eis o historiador engajado com o futuro. Marc gostava de lembrar o que a mãe dizia, quando via uma cliente em crise sem conseguir escolher um vestido: « procure levar o vestido que lhe cai bem, não o aparentemente mais bonito!». E Marc traduziu para si que “é preciso fazer o melhor com o que os nossos talentos nos permitem!” Escrever livros, fazer filmes, interpretar a história, pensar a história, foi o bom combate que ele pode levar a cabo. E o fez muito bem!

Jorge Nóvoa é professor titular do Departamento de Sociologia da UFBA. Autor, entre outros livros, de Carlos Marighella: O homem por trás do mito (Unesp).

Notas


[i] As partes deste texto escritas na primeira pessoa do singular procurarão destacar que o pensamento expresso é meu. Quando utilizo a primeira do plural, busco assinalar que o que escrevo envolve colaboradores, ou Marc Ferro. Agradeço a Soleni Biscouto Fressato a leitura atenta que por razões circunstanciais não pôde também participar da sua redação, ela que teve uma importância fundamental na edição da Revista O OLHO DA HISTÓRIA na sua fase on line e na estruturação dos Grupos de Trabalhos Cinema-História da ANPUH e do SNHC, amplamente fundados nas teorias de Marc Ferro, particularmente aquelas voltadas para as relações entre o cinema e a história. Lembramos com prazer e grata satisfação que dividimos a coordenação desses Grupos com o Professor Marcos Silva do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), por mais de 10 anos.

[ii] A Oficina Cinema-História e a Revista O OLHO DA HISTÓRIA foram fundadas na Universidade Federal da Bahia, no seu antigo Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Tanto a Oficina, como a Revista tiveram uma vida institucional até a minha aposentadoria, mas não sem produzir 27 números que podem ser consultados no endereço www.oolhodahistoria.ufba.br.

[iii] Marc Ferro ajudou a produzir e apresentou mais de 630 episódios do programa Histoire Parallèle que, por si só, é uma fonte inesgotável para o estudo do século XX. Sem dúvida, este programa foi um agente pedagógico na e da história, nos termos da teoria desenvolvida por Ferro. A originalidade do programa ajudou a desenvolver o gosto do francês pela história, tendo alcançado entre 10 e 13% de audiência aos sábados à 19 h. Procurava mostrar fontes e arquivos de nações diferentes obrigando aos cidadãos a refletirem, sem que procurasse conduzir esse processo através de sua prévia seleção. Filmes nazistas se misturavam aos “liberais” chauvinistas com discurso de justificação de bombardeios. Ele fazia isto em total independência e convidava historiadores de opiniões divergentes para debaterem ao final.

[iv] NOVA, Cristiane Carvalho.  L’Histoire en Transe. Le temps et l’histoire dans l’œuvre de Glauber Rocha. Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle. (Orientada por Michèle Lagny), 23 de junho de 2003. Michèle Lagny foi outra importante estudiosa das relações entre o cinema e a história que também se tornou nossa colaboradora.

[v] FERRO, Marc. Um mundo sem horizontes: as sociedades já se esgotavam sem a Covid-19. In: FRESSATO, Soleni Biscouto e NÓVOA, Jorge (org.). SOOU O ALARME. A CRISE DO CAPITALISMO PARA ALÉM DA PANDEMIA. São Paulo, Perspectiva, 2020, pp-25-44.

[vi] Kristian Feigelson, acompanhou o seminário de Marc Ferro na École des Hautes Études em Sciences Sociales e tornou-se um de seus ex-alunos mais querido e assíduo, inclusive nos seus dois últimos meses de vida. Feigelson é professor do Departamento de Cinema et Audiovisual da Universidade de Paris -Sorbonne, autor de vários livros nos quais utiliza amplamente as teorias de Ferro

[viii] SCHVARZMAN, Sheila. L’image en question: Jean-Luc Godard et Eric Hobsbawm sur le plateau L’Histoire parallèle. In: Théorème n. 31, op. Cit.  pp.251-258.

[ix] NÓVOA, Jorge e FRESSATO, Soleni Biscouto. Les formes filmiques de l’histoire. De la passion de l’histoire à celle des images. In: Théorème n. 31. Paris, IRCAV, Sorbonne, 2020, pp. 61-70.

[x] Depoimento de Marc Ferro a Jorge Nóvoa e a Cristiane Carvalho da Nova, na École des Hautes Études em Sciences Sociales em 05 de fevereiro de 1977.

[xi] FERRO, Marc. Une histoire de la médecine (com J-P Aron), 52 min., 1980

[xii] FERRO, Marc. L’histoire sous surveillance. Science et conscience de l’histoire. Paris, Calmann-Lévy, 1985.

[xiii] Idem, pp. 172-173

[xiv] DOSSE, François. L’Empire des sens. L’humanisation des sciences humaines. Paris, La Découverte, 1997.

[xv] _________. Comment on raconte l’histoire aux enfants à travers le monde entier. Paris, Payot, 1986.

[xvi] Idem, p.7.

[xvii] DAMÁSIO, Antônio. O erro de Descartes. Emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

[xviii] MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris, Gallimard, 1945.

[xix]https://www.lemonde.fr/disparitions/article/2021/04/22/l-historien-francais-marc-ferro-est-mort_6077641_3382.html

[xx] Maquis é um termo que designa os grupos da Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial que se escondia em zonas montanhosas com vegetação de bosques (ou maquis) para atacar de surpresa os nazis assim como os locais onde se escondiam os da Resistência. Maquisards era o nome genérico que designava esses resistentes. Pelo trabalho de sapa os maquisards tiveram um papel importante na desmoralização da tropa de ocupação, um grande papel na informação junto ao governo francês no exílio, e de destruição da via férrea nos transportes nazis. Devido à centralidade geográfica no território francês e também a proximidade da cidade de Grenoble, o primeiro e aquele que viria a ser o mais importante dos 30 movimentos da França foi o maquis du Vercors.

Ver https://fr.wikipedia.org/wiki/Maquis_du_Vercors

[xxi] Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Moulin

[xxii] VERCORS, Nounours du. Dans les pas du maquisard Ferro. https://blogs.mediapart.fr/nounours-du-vercors. 23 de abril de 2021.

[xxiii] https://www.vercors-resistance.fr/le-vercors-resistant/

[xxiv] https://fr.wikipedia.org/wiki/Maquis_du_Vercors

[xxv] FERRO, Mar. L’Entrée dans la vie. Amour, travail, famille, révolte. Ce qui change un destin. Paris, Tallandier, 2020.

[xxvi] PALMER, Brian D. Edward Palmer Thompson: objeções e oposições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996, p. 176

[xxvii] Depois do terceiro ano de uma licenciatura pode-se realizar mais um ano com defesa de uma monografia o que dá direito ao título. Pertence à carreira de professor diferentemente do Master que é um título na grade universitária. A Lincence constitui o primeiro ciclo e a Maîtrise um diploma nacional de segundo ciclo do ensino superior, mais alto pois, que a Lincence.

[xxviii] FERRO, Marc. Petain. Paris, Fayard, 1987. Este livro serviu de roteiro para o filme do mesmo título, graças a perseverança de Jacques Kirsner. Foram cinco tentativas passando por Alain Corneau, Jean-Pierre Marchand, para acabar por ser realizado por Alain Riou e Jean Marboeuf. O historiador Marc Ferro realizará vários filmes com motivação histórica e objetivo historiográfico, como foi o caso do filme sobre A I Guerra Mundial e o História da Medicina.

[xxix] KALFON, Pierre. Ernesto Guevara, una leyenda de nuestro siglo. Barcelona, Plaza & Janés Editores, 1997.

[xxx] FERRO, Marc. Histoire des colonisations. Des conquêtes aux indépendences XIII ê – XX è siècle. Paris, Seuil, 1994, p. 371.

[xxxi] BERTAIN-MAGHIT, Jean-Pierre. Lettres filmées d’Algérie (1954-1962). Des soldats à la caméra, Paris, Nouveau monde éditions/ministère des armées, 2015. Do mesmo autor, ver o documentário Des Soldats à la Caméra – Algérie 1954-1962, (France, 2018) 52 min.

[xxxii] PENTECORVO, Gillo. A batalha de Argel. (Itália, 1966), 2h1’. Dentre outros recebeu o prêmio das Nações Unidas em 1972.

[xxxiii] FANON, Frantz. Les damnés de la terre. Paris, Maspero, 1961.

http://classiques.uqac.ca/classiques/fanon_franz/damnes_de_la_terre/damnes_de_la_terre_preface_cherki.html

[xxxiv] DERRIEN, Marie-Louise e FERRO, Marc. Algérie 1954, la revolte d’un colonisé. Paris, 1970/1973.

[xxxv] BURCHETT, Wilfred G. La Guerra de Vietnam. Madrid, Editorial Era, 1967.

[xxxvi] FERRO, op. Cit., pp 371-373.

[xxxvii] Idem, p. 376

[xxxviii] _____Le livre noir du colonialisme. XVI è – XXI è siècle: de l’extermination à la repetence. Paris, Robert Laffont, 2003. Recentemente, publicou La colonization expliquée à tous. Paris, Seuil, 2016.

[xxxix] COURTOIS, Stéphane, WERTH, Nicolas et alii. Le livre noir du communisme : crimes, terreur, répression. Paris, Robert Laffont, 1998.

[xl] COHEN, Jean. Structure du langage poétique. Paris, Flammarion, 1968.

[xli] La Grande Guerre 1914-1918 (em 1964), Indochine 45-46. Un combat, une résistence inconnue (1965), Chronique d’une paix manquée : la remilitarisation de la Rhénanie (1966), L’année 1917 (1967), L’année 1918 (1968).

[xlii] FERRO, Marc. La révolution de 1917. Paris, Albin Michel, 1997. Constitui a mais extensa e a mais importante que escreveu sobre o tema. Esta obra foi precedida de artigos, filmes e livros menos extensos. No Brasil a Editora Perspectiva, editou por primeiro em 1974, um pequeno estudo intitulado A Revolução Russa de 1917. Existe também um pequeno livro dele que foi trazido pela Editora Brasiliense intitulado O Ocidente diante da Revolução Soviética. A História e seus mitos. São Paulo, Brasiliense,1984.

[xliii] ANWEILER, Oskar. Les soviets en Russie (1905-1921). Marseille, Agone, 2019.

[xliv] RABINOWITCH, Alexander. La révolution de 1917 à Petrograd. Paris, La Fabrique, 2016.

[xlv] Benjamin, Walter. Teses sobre o conceito de história. In: Obras Escolhidas, v. 1, Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Brasiliense, 1994.

[xlvi] DARDOT, Pierre, LAVAL, Christian. A sombra de outubro: a Revolução Russa e os espectros dos sovietes. São Paulo, Perspectiva, 2018.

[xlvii] Naquet especializou-se na Grécia antiga e teve um papel ativo vários domi1nios da poli1tica e da cultura da França. Durante a Guerra da Argélia e lutou contra a tortura, contra a ditadura dos coronéis gregos, pelo fim do conflito árabe israelense, defendendo desde 1967 a necessidade de um Estado palestino ao lado de Israel. Seu último período de vida foi consagrado à luta contra o negacionismo.

[xlviii] LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre. História: novos problemas, novas abordagens, novos objetos. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976.

[xlix] FERRO, MARC. Cinéma et Histoire. Paris, Gallimard, 1993. Na edição brasileira o artigo aparece como XI capítulo. Cinema e História. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.

[l] NÓVOA, Jorge. Cinematógrafo. Laboratório da razão poética e do “novo” pensamento. In: Jorge Nóvoa, Soleni Biscouto Fressato, Kristian Feigelson. Cinematógrafo. Um olhar sobre a história. Salvador, EDUFBA, São Paulo, Ed. Da UNESP, 2009. Este livro resultado de ampla cooperação internacional e brasileira recebeu o Prêmio Ano da França no Brasil. A nível internacional nossa colaboração se verificou mais assídua com Sylvie Dallet e com Kristian Feigelson. No Brasil, desenvolvemos com Marcos Silva (Dept. de História da USP) e com José D’Assunção (História da UFRJ e UFRRJ). Com Assunção publicamos o livro Cinema-História. Teoria e representações sociais no cinema. Rio de Janeiro, Apicuri, 2012. Com Marcos Silva participamos de vários livros que ele organizou e vice-versa, além de havermos concebido um Grupo de Trabalho que se reunia nos Congressos da ANPUH e do SNHC que se manteve em funcionamento por mais de 10 anos. Publicamos ainda com Soleni Biscouto Fressato Olhares sensíveis. As belezas das cidades e suas barbáries. Curitiba, Prismas, 2018.

[li]FERRO, Marc. E PLANCHAIS, Jean. Les médias et l´histoire : le poids du passé dans le chaos de l’actualité. Paris, CFPJ Éditions, 1997, p.28

[lii] BLOCH, Marc. Apologie pour l’histoire ou métier d’historien. Paris, Armand Collin, 2018.

[liii] SCHAFF, Adam. História e verdade. São Paulo, Martins Fontes, 1986

[liv] ___. Le ressentiment dans l’histoire. Comprendre notre temps. Paris, 2008 ; Le retournement de l’histoire. Paris, Robert Laffont, 2010; L’aveuglement. Une autre histoire de notre monde. Paris, Tallandier, 2015; Les russes de l’histoire. Le passé de notre actualité. Paris, Tallandier, 2018.

[lv] FERRO, Marc. Um mundo sem horizontes. Op. Cit, In: FRESSATO, Soleni Biscouto e NÓVOA, Jorge (org.). SOOU O ALARME. A CRISE DO CAPITALISMO PARA ALÉM DA PANDEMIA. São Paulo, Perspectiva, 2020, pp-29-36