Marilena Chaui, 80 anos

Por HOMERO SANTIAGO*

Considerações sobre o sentido da vida intelectual e política da filósofa.

Tão logo os colegas do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília me comunicaram o honroso convite para tomar parte nesta cerimônia de outorga a Marilena Chaui do título de doutora honoris causa pela UnB de Brasília, fui tomado de júbilo pela incumbência de exprimir a estima e a admiração que todos nós nutrimos por Marilena Chaui, seus livros, sua docência, sua pessoa. Não obstante, é preciso admitir que, no correr dos dias, a alegria, de pouco em pouco, cedeu lugar às reticências que brotavam a cada tentativa de preencher o papel. As dúvidas sobrevieram de modo implacável. Por onde começar? Que palavras escolher? De uma obra multifacetada e enorme, que aspecto tomar para compreender e, sobretudo, para exprimir o significado deste evento, já que não se homenageia uma figura pública como Marilena gratuitamente? Rogo-lhes benevolência com o orador. A tarefa que me foi confiada é particularmente espinhosa.

Os trabalhos que Marilena dedicou ao fenômeno ideológico, sua essência e sua crítica, produziram contribuições decisivas e de grande originalidade, como os conceitos de ideologia da competência e contradiscurso, que vieram associadas à análise da constituição e reprodução da “sociedade autoritária” brasileira, especialmente no que se refere a suas representações ideológicas. Marilena conseguiu como poucos lançar luzes sobre a nossa vida social marcada pelo recurso à violência e à exclusão, curiosamente contrabalançadas, no plano do imaginário, pelo mito de nossa cordialidade.

Ao longo de décadas, Marilena concretizou, em contraponto às nossas mazelas autoritárias (ocasionalmente rejuvenescidas, jamais extirpadas) uma vigorosa meditação sobre o caráter da democracia, alcançando a crucial compreensão de que esta, a democracia, em vez de mera forma de governo, é uma formação social. A sociedade democrática é aquela que, lidando com os conflitos inevitáveis decorrentes de sua constituição histórica, cria e institui direitos.

Essa reflexão sobre a democracia, Marilena a fez acompanhar, desde sempre, da participação militante, tomando posição firme nos vários âmbitos da vida social em que atuou: em órgãos da grande imprensa, no Partido dos Trabalhadores, na Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, que merece particular menção por tê-la levado, junto de colegas e amigos, mas sem a guia de um Virgílio benfazejo, a descer aos círculos infernais de nossa sociedade; experiência cujas impressões ainda se guardam em textos de grande força que emblemam a sua indignação, como aquele em que narra as condições das mulheres internadas no hospital psiquiátrico do Juquery e conclui com palavras que poderiam ser profiláticas aos adeptos da moda de se aviltarem os direitos basilares: “Céus de misericórdia! Como podem seres humanos fazer isso com seus semelhantes? Ou permitirem que seja feito? Até onde vai nossa crueldade e covardia para aceitarmos tamanha infâmia? Com que direito usamos nossa razão para excluir do mundo os que consideramos sem razão? Quem nos deu o direito a tanta violência?”.

Os textos de Marilena sobre a condição feminina, as potencialidades políticas do feminismo, os problemas envolvidos na proibição do aborto, e de modo mais geral as questões ligadas à vivência da sexualidade, sem importar o gênero, embora provenientes de contextos que já não são exatamente os nossos, guardam, tanto no plano teórico quanto no político, perspectivas que muito têm a contribuir para os debates atuais.

Os seus estudos dedicados ao tema da cultura popular nos ensinaram a perceber toda a dimensão política, isto é, de poder, ali presente, e nos permitem entender como a conformação (e portanto a reprodução do autoritarismo) às vezes anda de par com a resistência (e portanto o anseio por mudanças que nasce da consciência trágica de que o mundo poderia ser diferente do que é). São estudos que encontram extensão natural e brilhante no trabalho teórico e prático concernente à política cultural, desenvolvido a partir da Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo e capaz de elaborar um conceito de suma importância como o de “cidadania cultural”.

Ao longo de décadas de docência, a Marilena “professora de filosofia” (é assim que ela mais de uma vez declarou gostar de ser chamada) exerceu uma empenhada prática docente que, considerando seu próprio afazer, suas possibilidades e vicissitudes, deu forma a uma alentada meditação sobre a educação pública e democrática que, ainda, sobeja de atualidade e tem tudo a nos inspirar.

Por fim, como esquecer os notáveis trabalhos de história da filosofia, que inovaram em tudo sobre que a filósofa se debruçou? Inúmeros temas e autores; Merleau-Ponty, Voltaire, La Boétie e, em primeiríssimo lugar, Bento de Espinosa. Textos que formaram e continuam formando gerações de estudantes e professores e conquistaram, para Marilena, o reconhecimento da academia brasileira e estrangeira.

Meus colegas e amigos, caríssima Marilena, esbocei esse brevíssimo passeio unicamente na esperança de que compreendam a angústia que em mim se assomou ao constatar que nenhuma face desse verdadeiro maciço de aptidão ao múltiplo simultâneo me permitia escalá-lo até o topo; com efeito, a eleição de um ponto sempre perigava manter numa injusta obscuridade outros que integram, de direito e de fato, a mesma vida pensante. Foi aí, entretanto, no momento em que, para falar a língua de todo dia, estava prestes a jogar a toalha, que me dei conta de meu equívoco; ato contínuo, tomei a firme decisão de não falar muito de nada disso, para poder falar um pouco de tudo isso.

Entre as várias coisas que li, reli, tresli, a fim de preparar-me para o dia de hoje, a certa altura ocorreu-me voltara algumas páginas que, até onde vai meu julgamento, constituem uma das mais belas homenagens que se pode prestar a um mestre. Trata-se do ensaio de Merleau-Ponty intitulado “O filósofo e sua sombra”. Foi-me de revelação e alívio. Minha completa incapacidade e o decorrente desespero em face da maciça obra de Marilena porventura exprimissem um aspecto positivo. É que a obra de pensamento, justamente, não se pode reduzir a um inventário. “Quem acreditar nisso”, alerta-nos Merleau-Ponty, “engana-se sobre a obra e sobre o pensar”.

Nenhum perfil, nem mesmo a reunião simultânea do maior número de perfis, muito menos a reprodução pretensiosamente completa de todos os tópicos, nunca nos daria a contemplar o geometral da obra. O desejo de plena apreensão e perfeita coincidência, além de vanidade dos maus leitores, é uma loucura que, se levada a cabo, culminaria em algo próximo àquele monstrengo cartográfico imaginado por Borges: um “Mapa do Império que linha a imensidão do próprio Império”. Nada disso. É só o sentido que nos permite compreender a obra, na medida em que nos faz experimentar precisamente a sua essencial inesgotabilidade.

Longe de mim sugerir que inexistam, na obra de Marilena, prioridades, motivos inspiradores, intenções polêmicas dadas pelo tempo (quiçá para desgosto de nietzschianos e deleuzianos, Marilena definitivamente não é uma filósofa extemporânea); apenas afirmo que, em meu entender e como espero que todos aqui concordem, estamos diante do feliz resultado do trabalho do pensamento e de uma vida pensante, ou seja, estamos diante de uma obra de pensamento.

Estou convencido que não nos congregamos hoje para honrar um inventário de títulos e temas, tampouco os muitos anos de docência de Marilena Chaui. Não nos enganemos. Viemos reconhecer e prestigiar o que, constituído por tudo aquilo a que há pouco acenei, é maior que cada uma de suas partes; o pensar que se expressa na capacidade de trabalho e na dignidade; o pensar que se manifesta por inteiro e em profundidade quando dá forma a um modo de vida pensante generoso e combatente; no caso, a vida capaz de reunir os desejos mais altos de felicidade e de liberdade num firme compromisso selado pelo pensamento.

Eis, parece-me, o alcance desta cerimônia. Numa instituição ideada por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira como universidade pública, inovadora e democrática; invenção acadêmica que deveria desempenhar papel fundamental, não na construção do país, pois que este já existia, mas na construção de um país decente, como não existia e não existe ainda. Eis o que celebramos: a presença de Marilena Chaui. Não apenas a física, a voz altissonante e os gestos ágeis que nos encantam, como também a presença da obra de pensamento. No sentido rigoroso que a própria tantas vezes nos ensinou: porque na esteira de outros aprendemos a pensar, nossas tentativas só podem ter início quando o discurso de outrem nomeia o que é objeto de nossas interrogações. O que honramos é, acima de tudo, a obra de pensamento de Marilena; a presença do pensamento, do ensino, do exemplo.Estejamos todos certos que, na frequência de sua obra, ainda temos muito a aprender;descobrir palavras que serão de grande valia para nomear os objetos de nossas interrogações e inspirar os enfrentamentos e as tentativas que o tempo nos cobra.

É por isso que, antes de terminar, vou me permitir uma pequena indiscrição. Há alguns meses, conversando com Marilena sobre as desditas do país, ela me disse mais ou menos o seguinte: “sabe, o que me entristece, me deixa melancólica, é que parece que tudo que fiz e pelo que lutei foi em vão”. Não saberia reproduzir com exatidão as palavras; as que se fixaram à minha memória foram essas e é a partir delas que interrogo: terá sido tudo em vão, realmente, Marilena? Tomo a liberdade de responder com um NÃO bastante sonoro; menos porque pretenda berrá-lo do que por acreditar que a negativa é compartilhada por cada um dos que estão aqui, na ocasião em que a Universidade de Brasília, a pedido do Departamento de Filosofia e com o beneplácito de seus dirigentes, lhe homenageia com um doutorado honoris causa.

Se me permite prosseguir a ousadia, Marilena, sugeriria que tomasse distância das vacilações, ainda que compreensíveis à luz das abominações diárias, abraçando para si o que há de profundo nestes versos de Fernando Pessoa: “da obra ousada, é minha a parte feita / o por-fazer é só com Deus”.

Não se preocupe. Entre leitores e admiradores de Espinosa, não se incorre no risco de ler sob esse “por-fazer” nem um apelo à providência divina nem a indolência de uma sabedoria solipsista que se achasse no direito de dizer: já fiz minha parte, fiquem vocês ao deus-dará. Pelo contrário, o por-fazer será entendido como convite à continuidade da obra. Uma verdadeira obra de pensamento não é um repertório de teses que adquirimos e papagaiamos por aí; ela é, se efetivamente obra de pensamento, um convite ao pensar, a pensar sem resignação e sabendo, da consciência do por-fazer, tirar novos afazeres.

É isso a tua obra, uma obra de pensamento, aquela em que podemos sentir e experimentar o vigor de nossa melhor parte, que é o intelecto capaz de exprimir fortaleza de ânimo perante a fortuna, poder benfazejo que arrosta o mal que – você nunca nos permitiu esquecer – não provém nem dos deuses nem de nós, mas do tecido que fiamos em nossas relações e que assume a cada vez formas as mais diversas, podendo inclusive exibir patente militar, como ontem e hoje. Não, Marilena, não terá sido em vão. Um ex-aluno, um atual colega, um eterno amigo e admirador, te roga compreender que nada foi em vão. Não há vicissitude que possa apagar o exemplo e trabalho da obra que afirmam a dignidade do pensamento e nos convida a prossegui-la.

E assim é porque a obra de pensamento de Marilena Chaui, a tua obra, Marilena, para lá de todas as suas ramificações e datas, é principalmente aquela na qual e pela qual a sábia dirige-se a nós como capazes de sabedoria. Capazes dessa sabedoria que você detém e cuja posse nos demonstra a cada momento, sem jamais ventilar exclusividade. A sabedoria é um bem comum. Não porque todos sejam dela dotados, como seria o caso do bom senso cartesiano, mas porque compartilhável; bem comunicável que todos podem ter sem mácula a ninguém. É algo a que todos aspiramos e a que, estamos convencidos, você acedeu; e sem esquecer por um só momento que, como ensina Espinosa, a sabedoria (e por conseguinte a liberdade e a felicidade) só é atingida em seu grau sumo quando alcançada junto de outros, com o maior número possível de outras pessoas.

No momento tenebroso em que o reprimido desejo de exclusivismo retorna com violência e dá margem a toda sorte de mesquinharias, preconceitos e ódios; quando os autodenominados “cidadãos de bem” imaginam que portar uma arma e gozar do direito de destruir o outro seja condição da felicidade; nestes tempos, Marilena, tua lição é um bálsamo: a certeza de que ou a felicidade e a liberdade são bens comuns ecompartilháveis, ou definitivamente não são verdadeiros bens.

Eis o que penso constituir o objeto e sobretudo o sentido de nossa reunião de hoje. Celebremos Marilena Chaui: autora de uma obra robusta e admirável, assim como mulher feliz e livre, uma sábia na precisa acepção espinosana.

Caríssima Marilena, mesmo sabendo que “tudo o que é magnífico é tão difícil quanto raro”, espero que nós, colegas, estudantes, amigos, estejamos à altura do convite que você nos faz mediante a sua obra de pensamento e a sua pessoa. Por ora, só posso, em meu nome e em nome de todos aqueles que me confiaram esta tão difícil quanto dignificante tarefa, mui afetuosamente te saudar e agradecer. Marilena, muito obrigado.

P. S. Este texto foi lido na cerimônia de outorga a Marilena Chaui do título de doutora honoris causa pela Universidade de Brasília, em 24 de setembro de 2018. Torná-lo público no momento em que a filósofa completa 80 anos é minha maneira de homenageá-la, reiterando as palavras de então.

*Homero Santiago é professor no Departamento de Filosofia da USP.