Meia noite no século

Kazimir Severinovich Malevich, Suprematismo Dinâmico.

Por MÁRIO MAESTRI*

Posfácio do romance recém-lançado de Victor Serge

Victor Serge: uma vida pelo trabalho e pela Revolução

O assalto ao poder de operários, soldados e camponeses dirigido pelos bolcheviques deu-se com escasso derramamento de sangue. Os socialistas-revolucionários de esquerda participaram do primeiro governo, apoiado nos sovietes. O Império Russo fora fortemente desorganizado pela guerra inter-imperialista de 1914-1918 para a qual não estava preparado. Dos seus mais de cem milhões de habitantes, dois milhões morreram e cinco milhões foram feridos e inutilizados no conflito. Em 1918, com o fim da guerra, o Estado operário sofreu terrível ofensiva imperialista – Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália, China, Alemanha, Império Otomano, Polônia, Romênia, Áustria, Tcheco-Eslováquia, Finlândia, Grécia – que financiaram as forças contra-revolucionárias internas. Esperava-se esmagar a revolução que ameaçava se espraiar pelo mundo. Sob a direção de León Trotsky, foi construído o Exército Vermelho.

Com as sucessivas vitórias soviéticas e a ameaça da revolução na Alemanha, Áustria, Itália, Hungria, etc., os estados imperialistas aceitaram a derrota e impuseram o bloqueio à URSS, a “Cortina de Ferro” de Winston Churchill. O que escapara da destruição, em 1914-1918, foi arrasado, à fundo, pela Guerra Civil (1918-1921). Lênin lembrava a honra e desgraça da primeira revolução socialista ter ocorrido na mais atrasada sociedade europeia. A luta pela sobrevivência ensejara o “Comunismo de Guerra”, quando o Estado soviético se defendeu da contra-revolução vampirizando um país profundamente anêmico. Os bolcheviques requisitavam alimentos sem ter como pagá-los. Focos insurrecionais camponeses eclodiam no mundo rural e a miséria dominava cidades e campos. De sete a doze milhões de civis e combatentes teriam morrido nessa Guerra.

Ao encerrar-se a Guerra Civil, a produção industrial era 30% mais baixa em relação à 1913. Trabalhadores urbanos partiam para o campo para sobreviver. Parte do proletariado que fizera e defendera 1917 morrera combatendo ou integrava agora as forças armadas e a administração. Os camponeses retornavam à economia de subsistência. Revolucionários e contra-revolucionários recorriam ao mercado negro para não morrerem de fome. No inverno extremo, à falta de alimento se associava a de combustível. Seitas religiosas anunciavam a chegada do fim dos tempos. No campo, ocorriam casos de antropofagia.

1.

Victor Serge – Viktor Lvovitch Kibaltchith – nasceu na Bélgica, em 30 de dezembro de 1890, filho de oficial inferior russo anti-tzarista expatriado, próximo ao partido Vontade do Povo (Narodnaya Volya). Vera Poderewski, sua mãe, era professora de origem polonesa. Serge teve escassa educação formal, devido às idéias pedagógicas do pai e as dificuldades econômicas familiares. Seu irmão Raoul-Albert foi ceifado pela tuberculose e pela fome aos nove anos. Muito jovem, Victor, para viver, trabalhou como aprendiz de fotógrafo, tipógrafo, desenhista. Militou na Jovem Guarda Socialista de Bruxelas (Ixelles), convivendo com os anarquistas belgas. Em 1909, aos dezenove anos, mudou-se para Lille, na França, e a seguir, para Paris, onde militou e aproximou-se dos anarco-individualistas, vivendo em semi-penúria. Preso em janeiro de 1912, foi condenado, em fevereiro de 1913, a cinco anos de prisão e a outros tantos de proibição de residência na França por alojar e não denunciar dirigentes da chamada Banda à Bonnot, de anarco-assaltantes.

Em liberdade, expulso da França, trabalhou em Barcelona, na Espanha, em 1917, como tipógrafo. Escreveu para publicações revolucionárias anarquistas e participou, em julho de 1917, de sublevação operária e libertária catalã. De retorno a Paris, foi preso e enviado a campo de concentração. Junto a prisioneiros russos, formou núcleo revolucionário que aderiu à Revolução Bolchevique e integrou a troca franco-soviética de prisioneiros.

Em janeiro de 1919, quando ele e seus companheiros pisaram no país dos sovietes, um soldado vermelho lhes saudou vivamente e perguntou-lhes se tinham pão! Serge registra soldados revolucionários portando fuzis às costas atados por cordas, por falta de correias de couro. Victor Serge se estabelece em Petrogrado (Leningrado, 1924), que se despovoava, assediada pela contrarrevolução, com fome, tifo, piolhos. Adere ao Partido Comunista e à Terceira Internacional, participando do esforço da Guerra Civil como jornalista, tradutor, professor, instrutor, etc. Empunha o fuzil quando de ataque iminente a Petrogrado, quando a sorte da revolução mantinha-se por um fio. Colabora na montagem da infraestrutura do I Congresso da Internacional Comunista (Comintern), integrando sua direção, comandada por G. Zinoviev (1883-1936).

Organiza contrabando de armas desde o exterior, pago com moeda tzarista falsificada e procura nos arquivos da polícia política tzarista ex-infiltrados no movimento revolucionário. Dessa experiência e de sua vida, nasceu seu livro O que todo revolucionário deve saber sobre a repressão, de 1925. Colabora na fundação do Museu da Revolução, em Moscou, e escreve para a imprensa soviética e revolucionária internacional. Traduz do russo para o francês obras de V. Lênin, L. Trotsky, G. Zinoviev, etc.

Ao concluir-se a Guerra Civil, Victor Serge inteira-se, em 28-29 de fevereiro de 1921, da sublevação da guarnição da base naval da ilha de Kronstadt, no golfo da Finlândia, dirigida por anarquistas, concomitante a pequenos focos grevistas nos subúrbios de Petrogrado, açoitada como o resto do país pela miséria. A ilha-fortaleza e os navios imobilizados pelo gelo foram reconquistados pelas armas, antes que ocorresse o degelo, e marinheiros sublevados morreram fuzilados gritando “viva a revolução mundial” e “viva a Internacional Comunista”!

Victor Serge jamais abandonou sua visão libertária que integrou e elevou com a percepção marxista revolucionária da luta de classes. Revoltados com o tratamento autoritário do levante, ele e companheiros comunistas de esquerda rejeitam a proposta da “Terceira Revolução” anarquista, mantendo-se fiéis ao Partido Bolchevique, por razões objetivas. A vitória de Kronstadt teria aberto as portas à contra-revolução. Escreve, já nos anos 1940, em Memórias de um revolucionário (1901-1941): “(…) o país estava completamente exausto, a produção quase interrompida, não havia mais reservas de nenhuma espécie, sequer reservas morais no ânimo das massas.”

2.

Algumas das grandes reivindicações econômicas dos marinheiros de Kronstadt foram logo satisfeitas, à exceção do alívio da repressão política e do afastamento do Partido Comunista do poder – lembrou Serge. Em março de 1921, após acirrado debate, o X Congresso do Partido Bolchevique aprovou a “Nova Economia Política” – N. E. P. Segundo Lênin, um retrocesso transitório para retomar o fôlego e poder avançar. Tratava-se da liberação mercantil da pequena propriedade privada do campo e da cidade e da abertura para financiamentos estrangeiros, que jamais chegaram. Os camponeses pagariam os impostos em produtos e poderiam vender como quisessem os excedentes. A pequena e a média indústria privadas seriam liberadas.

A reforma agrária bolchevique criara multidões de proprietários parcelares que retomaram a produção, vendendo seus excedentes nos mercados. Nas cidades, pequenas empresas voltaram a funcionar e novas foram fundadas. Capitais entesourados retornaram à luz do dia. Os serviços tenderam a normalizar-se e desapareceu a fome absoluta. As grandes empresas industriais e infra-estruturais seguiram nas mãos do Estado, com escassos recursos para investimento. A economia pequeno-capitalista urbana e rural avançou à rédeas soltas enquanto a estatal-socialista seguia à passos de cágado cansado. Delinearam-se cenários lembrando o passado, com uma nova e crescente classe de camponeses ricos, servindo-se de trabalhadores assalariados, – kulaks – e de empresários urbanos – nepmen –, os primeiros e os segundos gozando os prazeres burgueses anteriores a 1917.

Nas principais cidades, restaurantes, lojas, hotéis, sorveterias, boates de luxo etc., feericamente iluminados, eram frequentados pelos novos burgueses, pelos diplomatas, pelos altos burocratas, que viajavam nos antigos e novos meios de transporte privados. Entrementes, os salários e as alocações destinadas ao desemprego eram miseráveis. Era enorme o desabastecimento das cooperativas e armazéns estatais e altos os preços dos alimentos e produtos manufaturados. Os trabalhadores viviam pior que antes da Revolução em um mundo que conhecia novamente as distinções de classe.

Consolidava-se igualmente uma vasta casta burocrática nascida durante o “Comunismo de Guerra” – quando do esforço de estruturação e de defesa dos aparatos estatais, partidários, militares, etc. – necessária para a organização e para a sobrevivência da revolução. Realidade radicalizada pela N. E. P., no contexto da crescente anomia de proletariado que desaparecera na Guerra Civil, ceifado pela desindustrialização, expropriado de seus melhores quadros pela cooptação a cargos administrativos e outros. Reinava o refrão popular do “quem parte, reparte, e fica com a maior parte”.

Pertencer à administração e ao Partido permitia a conquista de privilégios de todos os tipos, alguns mínimos, mas valorizados pela miséria geral. Na carência de quadros capacitados, multidões de funcionários, técnicos, etc. dos tempos tzaristas invadiram a administração. Ao ser preso, Serge interagiu com carcereiro que fechara a porta da prisão a L. Trotsky, em 1905! Eles eram valorizados pela fidelidade às autoridades, que institucionalizaram a promoção dos quadros por cooptação, e não mais por eleição. Em 1936, em A revolução traída, L. Trotsky calculava que 12% da população soviética gozava de algum privilégio burocrático.

3.

Victor Serge participou da dilaceração política conhecida pelos comunistas internacionalistas devido às contradições da consolidação da N. E. P., que ensejou que o país respirasse, por um lado, e que os trabalhadores se desesperassem, por outro, devido às situações diferenciadas de miséria que viviam e ao renascimento da burguesia. Em uma espécie de fuga da realidade, decidiu fundar, com alguns companheiros, uma “comuna agrícola em plena campanha russa”, velho sonho libertário, que vivera marginalmente na França, quando jovem. O projeto utópico fracassou rapidamente devido à total falta de viabilidade econômica e a um meio social agressivo aos comunistas e aos “sem deus”.

Victor Serge interveio amiúde em defesa não apenas de ex-camaradas anarquistas ameaçados de morte pela polícia política bolchevique (Tcheka), transformada em “senhor de baraço e cutelo” sobre a sorte dos dissidentes, recorrendo a Maximo Gorki (1868-1936) nos casos mais graves. Enquanto muito de seus camaradas abandonavam a política desesperançados, Serge retornou à Europa Central, esperando contribuir ao avanço da revolução mundial, que relançaria a revolução na URSS, ao pôr fim ao seu isolamento e impulsionar a combatividade do proletariado internacional.

Enviado pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista, o revolucionário belgo-russo instalou-se, com a família, clandestinamente, em Berlim, para contribuir com a esperada insurreição comunista na adiantada Alemanha. Integrou o comitê de redação da Inprecor, publicação do Executivo da Internacional Comunista, de circulação mundial, escrevendo em inúmeras publicações sobre a revolução alemã e outros temas. Em fins de 1923, viu, em Berlin, a Alemanha mergulhar em profunda crise e, em outubro, a insurreição ser suspensa, à exceção de Hamburgo, por falha de comunicação, em um fracasso de consequências históricas mundiais.

Perdida a grande partida, a revolução retrocederia por décadas. A derrota abriria o caminho para o fascismo, na Europa, e consolidaria a burocracia, na URSS. Para L. Trotsky, a derrota devera-se à “crise de direção revolucionária”, à qual Serge agrega a crise da consciência popular e da Internacional Comunista. Relata o espraiar do carreirismo e do oportunismo entre os quadros dirigentes da I. C., sob o controle errático de G. Zinoviev, em um momento em que ele, L. Kamenev (1883-1936) e J. Stalin (1878-1953) opunham-se a L. Trotsky na disputa sobre a orientação da URSS, com Lênin imobilizado pela enfermidade.

Sob a repressão crescente, Serge e sua família partem de Berlim para a Áustria, pátria de poderoso movimento operário socialista. Durante a viagem, é informado da gravidade da saúde de Lênin e, logo, de sua morte, em 21 de janeiro de 1924. Em Viena, centro dirigente exterior da Internacional Comunista, toma maior conhecimento das aventuras burocráticas daquela organização, sempre sob o comando de G. Zinoviev. Conviveu ali com Andrés Nin, George Lukacs, Antonio Gramsci entre outras figuras de destaque do marxismo internacional, ligadas à Internacional Comunista.

Victor Serge posicionou-se a favor da Oposição de Esquerda, organizada em 1923, dirigida por León Trotsky e Eugenio Preobrazensky (1886-1937), já sob duro ataque geral na URSS.

Em dezembro daquele ano, no contexto da enfermidade e morte de Lênin, L. Trotsky escrevera artigos para o Pravda, propondo um “Novo curso” ao Partido, reunidos em opúsculo homônimo. Tratava-se da primeira denúncia articulada do burocratismo e da expropriação do poder proletário. Os opositores de 1923 assinalavam o “perigo da fragilidade da indústria, incapaz de satisfazer as necessidades do campo e a sufocante ditadura” dos funcionários, lembrava Serge em suas Memórias. Em A Nova Economia, de 1926, Preobrazensky propôs o financiamento da indústria socialista sobretudo pela economia camponesa, em forma planejada, através de medidas fiscais, mercantis, etc. Foi definido como “ultra-industrialista” por N. Bukharin (1888-1938), que defendia a construção do socialismo a “passos de lesma”, através da N. E. P. Serge confessa que, então, não se imaginava a dimensão do confronto que estava se abrindo.

Em 1924, L. Trotsky publicou, As Lições de Outubro, apresentação a um volume com seus escritos de 1917, onde recordava a oposição de G. Zinoviev e L. Kamenev à insurreição de Outubro. Em resposta, seus detratores lançaram violenta campanha lembrando as diatribes que Lênin e Trotsky trocaram antes de 1917, seu passado “menchevique” e sua adesão tardia ao bolchevismo. N. Bukharin, G. Zinoviev, L. Kamenev partejaram, então, a teoria dita teoria “trotskista”, antítese da versão de “leninismo” dogmático, como os dois últimos reconheceram, em 1926-27. Serge exigiu retornar de Viena à URSS, onde compreendia que, com o refluxo da revolução na Europa, se definiria a sorte da Revolução de 1917 e mundial.

Lembra, ao recordar esses tempos, em Memórias de um revolucionário, que a burocracia soviética, já procurando acomodar-se às grandes nações burguesas, na esperança de obter recursos para a consolidação da URSS, iniciava a domesticação do comunismo internacional e grande parte dos quadros da Internacional Comunista arranjavam-se para sobreviver no novo contexto e progredir funcionalmente. A direção da Internacional Comunista reprimia os militantes de esquerda e independentes das secções nacionais, impulsionando a obediência mundial irrefletida, através da campanha de “bolchevização” (“russificação”) dos partidos comunistas estrangeiros. Serge relata em suas Memórias uma entrevista com George Lukacs, em Viena, que lhe aconselha a adesão, à espera de tempos melhores.

Em 1924, Serge reencontra a Rússia Soviética em situação dramática. O desemprego galopava e os subsídios aos sem-trabalho eram miseráveis. Nas cidades pululavam crianças abandonadas, prostitutas, o alcoolismo, a violência. A N.E.P. recuara a penúria absoluta dos anos da Guerra Civil, mas radicalizara o poder da burocracia, o renascimento da produção capitalista, os desníveis sociais, a desmoralização dos comunistas. Os membros do partido, do governo, das forças armadas, etc. recebiam como trabalhadores especializados e se abasteciam em cooperativas onde nada faltava do que havia. A corrupção imperava, dentro e fora do governo e do partido. O comércio privado oferecia do melhor, para quem pagasse. Os trabalhadores sobreviviam semi-famintos, mal-vestidos e mal-calçados, enregelados no inverno.

Veteranos de 1917 e da Guerra Civil desfiliavam-se do Partido, que escancarou as portas a centenas de milhares de novos militantes adventícios, com a “Promoção Lênin”, apôs a morte do fundador do bolchevismo, em janeiro de 1924. O suicídio de militantes de esquerda expulsos do Partido tornara-se uma semi-epidemia: os homens disparavam-se na cabeça; as mulheres preferiam o veneno. Serge é convidado a integrar a direção do já semi-clandestino “centro dirigente da oposição de esquerda” de Leningrado — no qual se encontravam estudantes, velhos operários bolcheviques, dois historiadores marxistas, artista plástico, estudioso da agricultura, a primeira companheira de Trotsky e suas duas filhas, entre outros. Eles seriam ceifados pela repressão estalinista, com destaque para 1936-7 – os anos “dos fuzilados”. A seguir, integra a direção central da Oposição em Moscou, coordenada por L. Trotsky, ainda membro (formal) da direção bolchevique. Nesse momento, a oposição encontrava-se organizada através da URSS, nas grandes e médias cidades, comumente em expansão.

Serge se refere com admiração ao estilo do trabalho do construtor do Exército Vermelho e de seus secretários, funcionando, todos, como um relógio suíço, sem tempo para as confraternizações, com destaque para as beberranças, motivo de antipatias. Na primavera de 1925, G. Zinoviev e L. Kamenev, assustados com a eventualidade da restauração capitalista, se opõem ao “socialismo em um só pais”, agressão rasteira ao marxismo revolucionário, aproximando-se de L. Trotsky. As novas alianças no cume do Comitê Central motivam reposicionamento de centenas de milhares de militantes do PCUS. As multidões de funcionários queriam a paz, que tudo seguisse como antes. Em dezembro de 1925, o XV Congresso do PCUS, de cartas marcadas, entroniza a nova troika: M. Bukharin, A. Rikov (1881-1938), J. Stalin. Os dois primeiros representavam a direita no Partido, os koulaks e os nepmen; o último, o aparato burocrático.

L. Kamenev e G. Zinoviev reconhecem a correção das propostas da Oposição de 1923 sobre o regime do partido, dando origem, em 1926, a natimorta Oposição Unificada, quando a repressão política e administrativa já era geral. Agentes provocadores infiltravam-se nas filas oposicionistas. Em sentido contrário, não poucos agentes da GPU que espiavam L. Trotsky, eram seus partidários, por terem lutado sob suas ordens na Guerra Civil. A primeira grande purga sangrenta estalinista será realizada nas filas da polícia política. Nas reuniões das células de base, o controle era total. Oradores oficialistas defendiam demoradamente a “construção do socialismo em um só país” e a falta de “fé” da oposição, sem abordar as questões em discussão. Os isolados oradores oposicionistas tomavam a palavra por cinco minutos sob as vaias e agressões dos agentes da burocracia — “Traidores”, “Mencheviques”, “Pró-burgueses”! A maioria dos militantes permanecia em silêncio, temendo retorsões e o desemprego, mesmo quando apoiavam as posições oposicionistas. O CC permitiu que militantes dissolvessem pela força “reuniões ilegais” — lembra Serge em suas Memórias. Iniciaram-se as primeiras prisões. Em 3 de novembro de 1929, Yakov Blumkin vai ser o primeiro bolchevique oposicionista executado sem julgamento. Recebeu 15 dias para escrever suas aventuras e feitos a serviço da Revolução.

Em 1927, a sorte da Revolução Chinesa empolgava a Oposição Unificada e vastos setores do partido. Sua vitória impulsionaria a revolução na URSS e no mundo. A Internacional Comunista, sob a direção de fato de Stalin, ordenou que os comunistas chineses se aliassem à “burguesia democrática e nacionalista”, enquanto ela empreendia o massacre de Xangai, fazendo a revolução retroceder por décadas. Serge escreveu panfleto sobre os sucessos chineses. A Oposição Unificada redigiu sua Plataforma, discutida pelas bases, propondo: reformar a N. E. P., avançar a industrialização e a coletivização do campo, em forma planejada e gradual; o retorno do poder soviético e da democracia interna ao partido; aumento dos salários dos trabalhadores e camponeses pobres. Entre outras questões, discutia a revolução mundial.

4.

Em 7 de novembro 1927, a Oposição Unificada participou da manifestação oficial do décimo aniversário da revolução com sua consignas e faixas, sendo reprimida pelas tropas policiais que golpearam, em alguns casos, destacados comandantes do assalto ao poder e da Guerra Civil. Em 16 de novembro, L. Trotsky e G. Zinoviev foram excluídos do Comitê Central, acusados de fomentar uma insurreição. Adolfo Abramovič Ioffe (1883-1927), veterano e destacado dirigente bolchevique, gravemente doente e proibido de tratar-se no exterior, suicidou-se como ato de protesto político anti-burocrático, aos 47 anos. A ameaça de escândalo internacional obrigou que o seu testamento fosse entregue a L. Trotsky, a quem estava destinado.

Logo, L. Kamenev e G. Zinoviev abjuraram a Oposição, vergando-se à ditadura burocrática, propondo não haver vida fora de um partido já sem vida. Trotsky foi deportado para Alma-Ata, na fronteira do Turquistão. Em derradeiro colóquio, propôs que Victor Serge partisse para a França para organizar a oposição internacional. As deportações de oposicionistas prosseguiram. O XV Congresso do PCUS legalizara a repressão à oposição. “Por revoltante que fosse, a repressão começava em modo brando” — assinalou Victor Serge, excluído do Partido em 1928, em suas Memórias de um revolucionário.

5.

Em 1928, Victor Serge é preso e encarcerado em Lêningrado, dividindo a cela com um especulador, um mendigo ensandecido, um humilde contador, entre outros desesperados… Nesse momento, na prisão em que estava, se fuzilava a rodo, sem julgamento, suspeitos de contra-revolução, de mercado negro, de sabotagem. Na prisão, releu Recordações da casa dos mortos, de F. Dostoiévski (1821-1881), mestre da literatura mundial, aprisionado e desterrado pelo tzarismo, sob condições terríveis. Os protestos contra sua prisão no exterior permitiram-lhe voltar para casa, algumas semanas mais tarde. Internado por enfermidade, temendo morrer sem deixar traços de sua resistência, decidiu retornar à literatura, que propusera como “coisa bem secundária em uma época” revolucionária, na qual militara infatigavelmente por dez anos. Priorizaria a literatura ficcional em prosa pois a historiografia exigiria calma e tempo que sabia não ter. A literatura, ao contrário, propôs em suas Memórias, permitia apreender “os homens vivos”, perscrutar “seus mecanismos internos”, “penetrar suas almas!” “Uma certa luz sobre a historia não pode ser lançada, estou persuadido, a não ser pela criação literária livre e desinteressada (…).” Nessa época, escreveu O ano I da revolução russa, trabalho historiográfico clássico e terminou o romance Homens na prisão. Nascimento da nossa força, produção ficcional, foi dedicado ao idealismo revolucionário europeu de 1917-18. Escreveu sobre a Cidade Conquistada: Petrogrado 1919, publicou em Paris, Literatura e revolução, opondo-se à “literatura proletária”.

6.

Em 1923, L. Trotsky ressaltara o perigo posto pela N. E. P., pois o avanço da agricultura privada e a fragilidade da indústria estatal ensejariam a depreciação dos preços agrícolas abundantes e a valorização dos produtos industriais escassos — “Crise da Tesoura”. Fortalecidos, no verão de 1928, os camponeses pararam de enviar sua produção ao mercado. Com os nepmen, exigiam ampliação da liberação mercantil, em direção da restauração capitalista. A ameaça da fome pairou novamente sobre as cidades da URSS, obrigando à retomada das requisições forçadas. Como nos terríveis tempos do “Comunismo de Guerra”, os camponeses escondiam os produtos, restringiam as plantações, ensaiavam pequenas manifestações e levantes. Funcionários comunistas eram novamente encontrados degolados nas estradas rurais.

Em fins de 1928, sob direção de J. Stalin, a burocracia compreendeu que o fortalecimento da N. E. P. e a restauração capitalista, que motivariam possível guerra civil, liquidariam a estrutura político-social em que ela apoiava seus privilégios e suas vidas. Enfraquecia-se igualmente a base social de sustentação da Revolução. Em 1929, após se desfazer da facção Bukharin, a direção burocrática lançou a industrialização e coletivização do campo aceleradas, apoiadas em medidas voluntaristas, anárquicas e na repressão. A Oposição propusera taxar os koulaks – a burocracia os liquidou, desterrando milhões deles para zonas desérticas. Revoltas rurais eclodiram através de URSS. Populações fronteiriças mudaram-se para a Turquia, a Polônia, a China. A Oposição defendeu restringir e modificar a N. E. P., em direção à sua futura extinção. A N. E. P. foi simplesmente mandada para o espaço. O agravamento das condições de existência dos operários urbanos obrigou a instituição de passaportes internos, para interromper a hemorragia de trabalhadores especializados que se retiraram para o campo.

Os camponeses abatiam seus animais para comê-los, faziam botas e roupas com os couros, vendiam-nos a qualquer preço, etc., em vez de entregá-los aos kolkoses. A hecatombe animal comprometeu por décadas os ainda principais meios de tração e locomoção na URSS. A sabotagem tornou-se virulenta, nos campos e na cidade. A partir de 1930, a URSS precipitou em crise que parecia sem fim, respondida com vagas repressivas. Em 1932, a jovem esposa de J. Stalin, vivendo no ápice da redoma dos burocratas privilegiados, suicidou-se. Temendo ser preso e desaparecer, Serge escreve testamento político.

7.

A industrialização acelerada e a coletivização forçada impactaram fortemente a Oposição de Esquerda. Enorme parte dos talvez mais de cinco a oito mil prisioneiros e deportados trotskistas abjuraram suas posições. Defendiam que o Partido devia ser apoiado, já que aplicava, do modo que fosse, o programa oposicionista, contra a direita restauracionista. Em 1928, o próprio L. Trotsky propusera apoio emergencial à J. Stalin e à burocracia, contra N. Bukharin e a restauração capitalista. Em leitura positivista dos sucessos, propunha que a industrialização originaria por si só um forte proletariado que naturalmente regeneraria o partido e a sociedade. Alguns lembravam que Trotsky no exílio se ocuparia da revolução mundial. Há de se destacar que, apesar dos terríveis desmandos da burocracia, cresciam as forças produtivas da URSS, sob a impulsão da revolução, da nacionalização da economia, do esforço dos trabalhadores das cidades e dos campos, do planejamento mesmo desastrado.

Milhares de arrependidos retornaram ao Partidos e à administração, enfraquecendo a Oposição, sem que houvesse modificação na orientação e no regime ditatorial burocrático que exacerbava a violência repressiva. Muito logo, eles voltariam às prisões, sob acusações inverossímeis, para, na continuação, conhecerem, na imensa maioria, a morte. Os oposicionistas que perseveraram exigindo a redemocratização das instituições soviéticas foram submetidos à condições crescentemente duras de detenção. Apesar das dificuldades de comunicação entre as prisões e delas com León Trotsky e a Oposição no exterior, eles seguiam discutindo e escrevendo sobre a situação do país e mundial. Ao menos parte dessa valiosa elaboração segue nos arquivos da Rússia, crescentemente cerrados aos investigadores por determinações de Vladimir Putin. Em 2018, ao trocarem o piso da cela 312 da prisão de Vekhneuralsk, operários encontraram documentos escondidos ali por prisioneiros trotskistas, em inícios dos anos 1930, ainda apenas parcialmente traduzidos do russo. Eram raros os oposicionistas, como Victor Serge, em liberdade.

Sem correções dos desmandos, a crise seguiu golpeando duramente a URSS, ensejando ensaios de oposição nas próprias fileiras da burocracia, como o complô da “esquerda estalinista jovem” e, em fins de 1932, do grupo Rjutin, próximo de Bukharin. Este último distribuiu detalhado balanço da situação, exigindo a regeneração do partido e a volta dos banidos e expatriados, mesmo de León Trotsky. Por ter lido e não denunciado o documento, que espinafrava J. Stalin, G. Zinoviev foi expulso outra vez do partido. Em 27 de março de 1934, com o assassinato, em Petrogrado, de Serguei Kirov (18861934), alto dirigente da burocracia, J. Stalin lançou vaga repressiva fluvial que exterminou oposicionistas reais, possíveis e imaginários, de direita, centro e esquerda. Impôs ditadura bonapartista sobre um partido imobilizado pelo medo, transformado em mero instrumento de governo. O Burô Político e o Comitê Central passaram a ser consultados rara e ritualmente pelo agora “Pai dos Povos”. Tratou-se de movimento de defesa da burocracia, em geral, e de J. Stalin e de seus próximos, em particular, que temiam golpe maturado no interior do próprio aparato partidário.

O Grande Terror (1934-38) golpeou à direita, ao centro, à esquerda, com condenações coletivas à morte, sem julgamento, de dezenas de milhares de acusados, em geral, de sabotagem e de conspiração, responsabilizados pelo desastre econômico: religiosos, mencheviques, sem-partidos, anarquistas, trotskistas; operários manuais e qualificados; camponeses pobres e ricos; professores, médicos, engenheiros, agrônomos, etc. A “velha guarda” que preparara 1917 e vencera a Guerra Civil foi aniquilada e, com ela, a memória revolucionária. Exterminou-se a militância da Oposição de Esquerda, com raríssimas exceções. Serge e Ante Ciliga (1898-1992) escaparam ao massacre devido às nacionalidades estrangeiras e às campanhas internacionais. MariaIoffe, jovem esposa de A. Ioffe, sobreviveu na prisão devido aos azares da sorte, sendo libertada apenas após a desestalinização relativa de 1956.

8.

Em 1933, novamente, Victor Serge é preso, em Petrogrado, quando buscava medicamentos para sua esposa, Liuba Russakova, sofrendo de distúrbios psiquiátricos. A seguir, é transferido para Moscou, onde é interrogado longamente, reafirmando sua dissidência e rechaçando a defecção. Na prisão, sob tensão, sofre de dores na cabeça e do coração; convive com desesperados de múltiplas origens que animam personagens do Caos, em Meia noite no século. Vive isolado, mal alimentado, sem direito a ler e escrever, enquanto condenados são executados, às dezenas. Seu inquisidor encerra seu processo com a leitura de deposição fantasiosa de sua cunhada e secretária, uma jovem apolítica e indefesa. Serge rejeita o depoimento, exige confronto e protesta incessantemente por escrito às autoridades superiores. Um processo mal feito podia virar o feitiço contra o feiticeiro. É condenado à deportação, por três anos, em Orenburg, onde chega em junho de 1933. Quase exulta com a condenação e com o destino, comedidos devido certamente à campanha internacional em seu favor. Lembra camaradas deportados para vilarejos de algumas cabanas rústicas no Círculo Polar.

A cidade de Orenburg, às margens do rio Ural, na fronteira entre a Europa e a Ásia, possuía uns 160 mil habitantes. Na região, haviam ocorrido batalhas heróicas dos trabalhadores contra a contra-revolução, quando da Guerra Civil. As igrejas ortodoxas e cristãs haviam sido destruídas ou serviam de depósito. As mesquitas foram respeitadas devido à importante e aguerrida população muçulmana. Orenburg possuía escolas superiores de agronomia, de veterinária, de pedagogia; fábrica, prisões, um “pequeno campo de concentração”. Haviam sido construídos quartéis e campos e escola de aviação. Militares bem fardados, bem nutridos, bem alojados, com suas famílias, constituíam uma elite em tudo estranha a uma numerosa população bordejando a miséria, vivendo de rações diminutas de pão, falta de combustível, salários de fome.

Serge refere-se ao espraiar do alcoolismo, da prostituição e da sífilis; às crianças que trabalhavam nos restaurantes para lamber os pratos. Lembra de menino que estranha o gosto do açúcar que jamais conhecera. Registra a fome que ele e seus companheiros da Oposição conheceram em Orenburg – sopa com ossos de carneiro ou um ovo eram luxos extraordinários em alimentação quotidiana de pão seco e chá açucarado. Os deportados e a população, mal alimentados, adoeciam. Conviveu em Orenburg com um grupo “fraterno” de irredutíveis “trotskistas”, com “moral excelente”, que se propôs a registrar e homenagear em Meia noite no século. Sua esposa e filho reúnem-se a eles em Orenburg.

Desde a morte de Kirov, em 1934, a repressão assumira níveis terríveis. Nos isoladores e campos de concentração, membros irredutíveis da Oposição iniciam duras e desesperadas greves de fome, impiedosamente reprimidas. Já se esboça no círculo íntimo de J. Stalin a proposta de “solução final” para os “trotskistas” e outros opositores ou tidos como tal. Muito logo, ocorreriam os macabros Processos de Moscou. Sobretudo na França, o caso Victor Serge dificulta a ação do Partido Comunista Francês que defende a política de Frente Popular. Finalmente, é permitida sua partida para o exterior, quando já completara a condenação! Em Memórias de um revolucionário, recorda a dilaceração com que deixou seus camaradas de desterro de Orenburg, destinados à morte certa. Desprovido da nacionalidade soviética, parte para a Bélgica, que lhe concedera refúgio, com a família, meses antes do Primeiro Processo de Moscou (1936-1938). Em uma última retaliação, são confiscados manuscritos, entres eles, romances já concluídos, como Os homens perdidos e Tormenta, e o borrador O Ano II da Revolução Russa, cuja exportação a censura oficial não permitira. Esse escritos seguem enterrados nos arquivos da Rússia.

9.

Em 1936, na Bélgica e a seguir na França, trabalha como tipógrafo e revisor e escreve artigos defendendo a aproximação de anarquistas e marxistas, como caminho para a vitória da Revolução na Espanha, e intervém na denúncia dos Processos de Moscou. Mantém estreita colaboração com León Trotsky e com a Oposição de Esquerda Internacional. Em janeiro de 1937, em Amsterdã, na Holanda, participa da Conferência Internacional da IVª Internacional. Ingressa no POUM e não adere à IV Internacional, o que enseja atritos com L. Trotsky, com quem rompe em 1939, e sobre quem escreveria, em parceria com Natalia Sedov (1882-1962), Vida e morte de Trotsky, pungente e importante biografia, após seu assassinato, em 1940. Publicou De Lênine a Staline e Destino de uma Revolução, em 1937, e obras ficcionais sobre sua vida e luta na URSS, entre elas, Meia noite no século. Em 1940, com a França invadida por tropas alemãs, ele e seu filho, Vlady Kibálchich, refugiam-se em Marseille e, em 1941, empreendem viagem de cinco meses para o México, onde publicou O longo crepúsculo e O caso do camarada Tulayev, lançado na França apenas em 1948, que ele imputaria como seu melhor romance. Em 1945, aparece nos USA sua mais conhecida obra, Memórias de um revolucionário. Dois anos mais tarde, é a vez de Trinta anos depois da Revolução Russa, espécie de testamento político, onde explica a degeneração burocrática e socialista a partir sobretudo da derrota da revolução mundial e do assédio do imperialismo, registrando a entrega revolucionária de Lênin e da velha guarda bolchevique.

Sua produção historiográfica, política e ficccional é vastíssima, permanecendo ainda parte dela, sobretudo de artigos e ensaios, dispersa em jornais e revistas. Muito devido às condições de vida na prisão na França e na URSS, Victor Serge morre, no México, em 17 de novembro de 1947, de ataque cardíaco, aos 57 anos. Seu funeral foi financiado por camaradas, devido à falta de meios da família. Cumprira na sua relativamente breve e impressionantemente produtiva vida o compromisso que reafirmara ao relatar a despedida de seus companheiros em Orenburg, de um revolucionário que devia viver sobretudo para “trabalhar e combater”.

*Mário Maestri é historiador. Autor, entre outros livros, de Revolução e contra-revolução no Brasil: 1500-2019 (FCM Editora).

Referência


Victor Serge. Meia noite no século. Tradução: Florence Carboni. Porto Alegre, Clube de autores, 2021, 228 págs.