Mentes de colmeia

Imagem_Marcio Costa

Por ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE*

O descaso com as 100 mil mortes, tratando essa tragédia como algo que não lhe diz respeito, dizendo que é preciso se “safar” dela, é mais uma tática imoral da guerra híbrida desmoralizadora do Brasil

O pandecinismo do governo federal, do assim chamado presidente Bolsonaro, teve em sua “live” pessoal do dia 06 de agosto mais uma expressão pensada e pronunciada da essência de sua filosofia política: “tocar a vida e se safar desse problema”. O problema a se “safar”, outrora denominado por Bolsonaro de “gripezinha”, que, segundo ele, atingiria fatalmente no máximo umas 800 pessoas, vitimou até sábado passado 100.477 (cem mil, quatrocentos e setenta e sete) brasileiros. Esses óbitos corridos a partir de março representam até então mais do que a população inteira da cidade de Mogi Mirim – SP. Do dicionário do filólogo Antônio Houaiss encontra-se que “Safar” é sinônimo de escapar, driblar, fugir. É o vocábulo de onde se origina a palavra Safado, sinônimo de trapaceiro, descarado e cínico.

Com o governo Bolsonaro, o Brasil encontra-se em plena colheita dos frutos do Golpe plantado em 2016 pela guerra híbrida, iniciada com as manifestações de rua em 2013, perpetrada pelos EUA por meio dos golpistas locais sociais, políticos, econômicos, jurídicos, midiáticos e militares. Como atesta o general estrategista chinês Sun Tzu (496 a.C.), em A arte da guerra, o mérito supremo consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar. Para ele, a guerra indireta é uma das formas mais eficazes de combate ao economizar recursos que seriam despendidos em um confronto direto, além de manter a boa imagem do país agressor que permanece ocultado pelas estratégias e táticas híbridas.

Se no passado a guerra convencional foi marcada por bombardeios e tanques de guerra, no presente os EUA vêm aplicando, como na Síria e na Ucrânia, um modelo de guerra marcada pela ação de “manifestantes de rua e digitais” e “insurgentes”, protagonistas que se apresentam como desvinculados do Estado e dos Partidos Políticos, comportando-se publicamente como agentes da sociedade civil. As mídias sociais e tecnológicas, como Facebook e Twitter, substituem as armas convencionais, atuando com precisão cirúrgica na manipulação e orientação do covil dos novos “militantes”.

Em seu livro Guerras híbridas, publicado no Brasil em 2018 pela editora Expressão Popular, o jornalista Andrew Korybko demonstra que esse modelo inicia-se com a implantação de “revoluções coloridas”, como tentativas de golpes brandos; no contexto de guerra híbrida essas massas se insurgem contra os centros simbólicos e administrativos do poder, a fim de provocar a troca de regime, como ocorreu o Brasil nos ataques ao governo Dilma Rousseff (centro administrativo) e ao ex-presidente Lula e ao PT (centros simbólicos).

Korybko apresenta o conceito de Mente de Colmeia, objetivo central da inteligência estrangeira ao infiltrar-se e operar nas redes sociais (MBL, Vem pra Rua, Nas Ruas, Revoltados On-Line etc.), por meio de princípios de guerra em rede. Essa mente de colmeia faz então que seus membros formem um Enxame contra os alvos de maneira aparentemente caótica para leva-los ao colapso. A finalidade é reunir o máximo possível de pessoas que vieram indiretamente a compartilhar daquelas convicções contra o governo, como ocorreu com muitos de nossos amigos e amigas que hoje estão arrependidos, mas imobilizados e passivos, pelo fato de o litro da gasolina custar R$4,50 e o dólar R$5,45: quando reclamaram e foram para as ruas contra Dilma Rousseff, esses preços eram 50% mais baratos.

A inteligência estrangeira trabalha com a missão de “programar essas mentes” por meio de táticas de ataque para que desejem ativamente provocar mudanças quando a decisão de iniciar as agitações civis for tomada. Essa programação permite que partes díspares tornem-se “uma só mente, um só coração”, para mobilizarem-se como uma unidade, como uma consciência coletiva. A mídia hegemônica joga um papel fundamental uma vez que cabe a ela a função primordial mais ampla que consiste em interpretar > reificar as informações > transportar > transmitir as mensagens de um lugar a outro, para reforçar a geração artificial da discordância contra um determinado governo. Toda essa desestabilização deve sua gênese ao papel insubstituível das mídias. Os enxames são uma forma deliberadamente estruturada, coordenada e estratégica para atacar de todos os lados, por meio de uma pulsação sustentável de força e fogo, tanto de perto quanto de longe, como bandos organizados em aglomerados.

Portanto, boa parte do que é publicado e veiculado pelas mídias sociais, como Twitter e Facebook, por parte dos operadores oficiais governamentais, compõe a estratégia de guerra. Esses ativistas não só reproduzem em alta escala tudo o que é tornado público, como também editam em favor dos seus interesses os conteúdos de forma a alimentar as mentes de sua colmeia. O descaso com as 100 mil mortes, tratando essa tragédia como algo que não lhe diz respeito, dizendo que é preciso se “safar” dela, é mais uma tática imoral da guerra híbrida desmoralizadora do Brasil.

*Alexandre Aragão de Albuquerque é mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)