No jantar do Natal

image_pdf

Por LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA*

O desenvolvimento é uma construção que exige mais que generosidade: demanda investimento soberano e a coragem de desafiar as amarras do imperialismo

Como há tantos anos, nossa família está aqui alegremente reunida. Vivemos em um maravilhoso país tropical, quente e acolhedor, e nossa família é privilegiada. Vivemos sempre em busca de algo mais, mas temos tudo do que precisamos.

Não é essa, porém, a sorte da imensa maioria dos brasileiros, que vivem na pobreza; faltam-lhes alimentos, bens e serviços que são necessários para que alguém tenha uma vida digna. Para se enfrentar este problema, há duas maneiras: ou distribuir ou crescer a produção nacional.

É claro que o melhor é combinar os dois métodos – mas gostaria aqui de lhes dizer como é que esse problema tem sido considerado no Brasil pela esquerda democrática, a direita neoliberal, e a extrema direita. Felizmente, não temos extrema esquerda.

Esquerda democrática

Pensemos no nosso presidente, Lula. Ele é generoso e acredita que “o crescimento vem com a distribuição. Quando os mais pobres têm mais renda disponível, cria-se o círculo virtuoso”. Mas as coisas não são assim; é preciso poupar para crescer.

O dinheiro novo precisa estar nas mãos dos que realmente investem e aumentam a produção – os empresários e as empresas do Estado – para em seguida chegar às mãos do povo. E para isso é preciso concentrar todos os esforços na promoção dos investimentos.

Direita liberal

Pensemos nos rentistas e financistas da Faria Lima. Eles são egoístas, pouco sabem sobre o interesse público e acreditam mesmo nos seus juros, nos seus dividendos, nos seus aluguéis. Não acreditam que o Brasil cresça e diminua a distância dos países ricos, estão aliados/subordinados ao Império Americano que não deseja o desenvolvimento do nosso país. Eles querem apenas ficar mais ricos e mais seguros.

Extrema direita

Pensemos em Donald Trump. Ele apenas acredita no seu próprio poder e na discriminação dos que não são nacionais. Aposta no crescimento, não, porém, para as pessoas, mas para o poder nacional (ou para a chamada “segurança nacional” que justifica o imperialismo.

E como fica este que aqui lhes fala? Vocês sabem que me identifico com a esquerda democrática, mas não acredito que basta distribuir para crescer. Nem acredito que se possa crescer ignorando a hostilidade do Império. É preciso ser nacionalista anti-imperialista. Mas isto, poucos pensam.

Não há, portanto, muita esperança para o povo brasileiro. O melhor que podemos fazer é sermos cidadãos e nos unirmos em torno da esquerda democrática não apenas para votar em 2026 em Lula, mas para defender a distribuição e o crescimento a cada dia.

Precisamos, por exemplo, defender o SUS, que foi a grande conquista da democracia brasileira. Precisamos também defender o investimento com desenvolvimento tecnológico. E precisamos não ter medo de criticar o Império que nos impinge o liberalismo econômico para que não venhamos a competir com ele.

*Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Autor, entre outros livros, de Em busca do desenvolvimento perdido: um projeto novo-desenvolvimentista para o Brasil (Editora FGV) [https://amzn.to/4c1Nadj]

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
3
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
4
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
5
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
6
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
7
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
8
O ditador (preferido) da rede Globo
08 Jan 2026 Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL: Na TV, a palavra "ditador" é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas
9
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
10
A colônia petrolífera de Donald Trump
10 Jan 2026 Por CLAUDIO KATZ: Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial
11
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
12
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
13
Perspectivas econômicas para 2026
10 Jan 2026 Por LUIZ GONZAGA BELLUZZO, ANDRÉ LUIZ PASSOS SANTOS, NATHAN CAIXETA & MURILO TAMBASCO: Em 2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e desaceleração, enquanto o mundo enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco nos EUA
14
As bravatas de Donald Trump
08 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
15
Nova ordem mundial?
10 Jan 2026 Por CÉSAR MORTARI BARREIRA: A nova ordem mundial é a anarquia brutal dos que comandam sem precisar de justificativas
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES