No sereno do mundo

Glauco Rodrigues, Sem título [Mergulho na cidade do Rio de Janeiro], serigrafia, 1987.

Por AMADOR RIBEIRO NETO*

Comentário sobre o romance de Júlio Ambrozio

Um velho de 60 anos, fissurado em cinema, donjuanesco, marcado por uma profunda solidão que se espraia por ruas, bares e madrugadas de uma cidade interiorana. Isso dá romance? Nas mãos ágeis do cineasta e geógrafo Júlio Ambrozio, sim. E dos bons. Prova está em No sereno do mundo, seu romance de estreia.

Em seu romance, a vida é colhida aos pedaços, em imagens desconcertantes. Quase nada é nítido. O contorno das personagens, seus sentimentos, sonhos e ações são envoltos por uma névoa densa que atrapalha a visibilidade do leitor. A chuva que cai constantemente emoldura a angústia de João, Beth, Leda, Acácio etc. A noite (o título do romance indica) é a mãe mais fiel nesta estância do desamparo.

O espaço do romance restringe-se a ruas que levam aos mesmos bares, à casa de João José (o velho) e à cinemateca. O tempo contorce-se entre oito dias, indo de uma à outra sexta-feira, quase ciclicamente. Raras vezes um trocadilho, uma noite de amor bem-sucedida, um sonho agradável impingem um pouco de luz e leveza neste cenário noir (comida e bebida, arte e mulher, as melhores coisas da vida para João, aparecem mais como desejo que, propriamente, realização).

Com algumas falhas estruturais facilmente sanáveis em obras futuras (aguardamos tais obras), como a irregularidade na construção dos capítulos, algumas vezes com sobrecarga de detalhes, mas com evidente fluência narrativa na maior parte do romance, Júlio Ambrozio constrói um livro em primeira pessoa, assumindo a personalidade “macunaímico-depressiva” de um velho-moleque-libertário apaixonante. E doído. “A errância da vida é dolorosa. E fascinante”, diz o velho.

Com todos os sentidos da paixão e atento olhar, Ambrozio monta um vigoroso painel das dificuldades de todo criador, de toda pessoa inteligente e sensível, no Brasil de hoje e, por extensão, no Terceiro Mundo. Aqueles que se levantam contra a mesmice cotidiana, mas veem a burrice platinada consolidar-se, têm, em No sereno do mundo, novo trampolim.

Entre citações de Bressane, Fellini, Glauber, Wim Wenders, Macalé, Itamar Assumpção, Gil – entre outros –, Júlio Ambrozio projeta seu romance como um filme em palavras. Desolador como Paris, Texas. Enigmático como BlowUp. Gingado como Benedito João dos Santos Silva Beleléu.

Um livro de um velho solteirão, sem filhos, dando “uma banana inteira para a morte”. Um machadiano Brás Cubas dos anos 1980. Mais amargo. Não menos atual.

*Amador Ribeiro Neto é professor, crítico literário e poeta.

Publicado originalmente no extinto Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, em 24 de setembro de 1988.

Referência


Júlio Ambrozio. No sereno do mundo. Petrópolis, Editora Pirilampo, 1988.