O absurdo como “projeto de país”

Marina Gusmão, Cobra doce.

Por RICARDO REZER*

“Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego”
(Abraham Masslow).

A palavra “absurdo”, de acordo com vários dicionários de língua portuguesa, se refere a algo destituído de sentido, de mínima racionalidade, contrário a razão e ao bom senso, que se manifesta à revelia de convenções e referências lógicas pré-estabelecidas. Partindo disso, se torna cada vez mais evidente que a conjuntura brasileira passa por uma situação inimaginável, constituída por absurdos dos mais diversos e grotescos, em especial, nos últimos quase quatro anos. O pior é que, ao que parece, ainda há mais para descer – o chão não é o limite… O “elogio ao absurdo”, que vivenciamos em tempo real, vem elevando a perplexidade à um estágio difícil de suportar.

Sem rubor, oportunistas de plantão, setores de extrema direita, do governo federal, bem como, o próprio presidente da República do Brasil (?!), vão tentando assumir (presunçosamente) a condição de “arautos” da liberdade, da pátria, da família e de Deus (aliás, Deus deve ficar ruborizado com alguns discursos em seu nome), em um caminho sem direção, em uma desesperada e absurda “fuga para a frente”.[i]

Considerando este cenário, este texto tem por objetivo refletir acerca de alguns discursos presentes no cotidiano brasileiro, que desafiam a lógica e o bom senso, com a pretensão de bradar em nome de Deus, da liberdade, da pátria e da família. Discursos perigosos, que manobram ingredientes inflamáveis, tendo o absurdo como método e como objetivo – talvez, em direção a um golpe de Estado, algo que parece já em curso. As consequências do que vemos não vem sendo nada boas para quem ainda aposta no Brasil como Estado republicano, laico e democrático.

A reaproximação capciosa entre Estado e religião (algo muito próprio do medievo); palavras de ordem em nome da pátria (que nos remetem a um clima alienado e xenófobo, aos moldes do “Brasil, ame-o ou deixe-o”); a precarização incisiva das instituições públicas (um método para justificar sua privatização); uma visão deturpada de liberdade (ver, por exemplo, as “fake news” e a pretensa “liberdade de expressão”); entre outros elementos perniciosos, vem preenchendo o vazio derivado da ausência de um projeto de país republicano, laico e democrático.

Vejamos a questão do “clamor” pela liberdade. Ora, liberdade representa um direito conquistado a duras penas, algo nunca dado em definitivo, ideal sempre em luta, em movimento (liberdade de pensamento, por exemplo, é uma luta diária). Porém, a noção de liberdade que parece povoar o imaginário social de alguns “arautos”, se funda em um individualismo incompatível com a ideia de sociedade organizada e de mundo comum. Liberdade é um ideal, fruto das lutas contra formas de dominação (individuais e coletivas) que se instituíram ao longo da história da humanidade, bem como, uma questão política de alta complexidade que não pode compactuar com violência, agressividade, mentira e desinformação.

Neste “jogo”, uma absurda liberdade irrestrita representaria a morte da própria liberdade, bem como, das possibilidades de produção de mundo comum. Se cada um tem sua verdade, não há mais verdade socialmente compartilhada, por consequência, não há mais mundo comum e tudo e nada se equivalem. Nosso desafio enquanto humanidade, é aprender a produzir referências e consensos mínimos, os mais qualificados possíveis, que nos orientem no complexo mundo globalizado em que vivemos.

Considerando isso, a qual sentido de liberdade estes “arautos” se referem? Liberdade para, em nome de Deus, adquirir armas? Armas, certamente, para aqueles que podem adquiri-las, pois a maior parte do povo brasileiro está preocupada em sobreviver, mesmo que o atual presidente (o maior erro político da história do Brasil) e seus seguidores gastem mais tempo clamando armas, fazendo motociatas e arrumando confusões, do que trabalhando na busca de soluções e alternativas a curto, médio e longo prazo para os desafios do Brasil contemporâneo. A fome voltou nos últimos anos e não é com armas que vamos combatê-la.

Liberdade para promulgar notícias falsas na internet, as ditas “fake news”? Para alguns setores, temos o direito de dizer/partilhar o que quisermos, em nome de uma deturpada e doentia noção de “liberdade de expressão” (a responsabilidade para com as consequências de nossos atos e discursos é uma necessidade precípua para a produção da vida em sociedade, especialmente em um mundo cada vez mais digitalizado). Por exemplo, mensagens negacionistas sobre a pandemia contribuíram decisivamente para a morte de milhares de brasileiros. Mas, “e daí?”, não é mesmo?

Liberdade para realizar esquemas de corrupção sem intromissão de organismos de controle? Afinal, as “rachadinhas” não deixam de ser uma forma de partilha, “táoquei”? Além disso, para quem, em discursos públicos, bradava de indignação frente a corrupção e ao “mensalão”, bem como, se elegeu afirmando que iria “mudar tudo isso que taí, táoquei?”, o “Bolsolão do MEC” e o “orçamento secreto”, entre outros, escancaram as “porteiras” para a corrupção a revelia dos organismos de controle – afinal, para que transparência na gestão pública, se temos o sigilo? A propósito, este governo já vem sendo chamado de Governo dos 100 anos …

Liberdade para negar a pandemia? Liberdade para não usar máscara? Para não se vacinar? O enfrentamento a uma pandemia (ou pior ainda, uma sindemia[ii]) não pode ser conduzido através de “desejos individuais”, em nome de uma pseudoliberdade, mas sim, como necessidade social, coletiva, em um mundo que habitamos juntos (não há “fora” do mundo). Não entender isso é viver em uma bolha na qual o centro é o próprio umbigo e o motor da vida é o egocentrismo opinativo, com interesses para muito além do bem comum. Além disso, cabe lembrar que a pandemia, infelizmente, ainda não acabou – as variantes mostram isso com muita clareza, embora, felizmente, seus desdobramentos vêm causando menor número de óbitos (em grande medida, por causa da vacinação, apesar de toda campanha de difamação a ela endereçado). Por outro lado, com a redução das medidas de prevenção em curso, o risco de surgir uma variante mais agressiva não parece tão improvável, considerando o amplo cardápio que já temos – Delta, Ômicron, XQ, entre outras.

Liberdade para potencializar a depredação (ainda maior) da Amazônia? Para tornar terras indígenas um território cada vez mais aberto ao agronegócio? Para tornar os povos originários “gente como a gente”? Para explorar o garimpo ilegalmente? Aliás, considerando os acontecimentos de junho, para quem ainda não sabia, ficou claro que desafiar o garimpo ilegal tem a morte como consequência, como comprovam as lamentáveis e brutais mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips.

Ou ainda, liberdade para desestruturar a já frágil educação brasileira? O que dizer da “política educacional” em curso? Sem uma política séria, a instabilidade assumiu as rédeas do Ministério da Educação, onde vários ministros já passaram pela pasta: Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Antônio Paulo Vogel (interino), Carlos Decotelli (anunciado, não chegou a ser empossado), Milton Ribeiro (preso pela Polícia Federal em 22 de junho de 2022) e, no momento, Victor Godoy. Qual o legado desta pasta depois de instáveis quase quatro anos? Confusão, conflitos, ataques à educação e à docentes, desinformação, cortes, precarização das universidades, enfim, uma série de absurdos que ocupam o lugar que deveria ser de uma política de governo séria, em um setor nevrálgico para o desenvolvimento de um país.

Neste cenário, em meio ao naufrágio da educação nacional, os “arautos” da verdade (“patriotas”, “cristãos”, “cidadãos de bem”, defensores das armas e da liberdade), valendo-se de bordões como, “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”, #fechadocombolsonaro, entre outros, vem produzindo solo fértil para fundamentalismos de toda ordem. Bem verdade, reafirmando no contemporâneo, algo que não é nada novo.

Na idade média, havia uma perigosa expressão chamada “Deus Vult”, grito de guerra da Igreja Católica associado às Cruzadas, movimentos militares que ocorreram entre os séculos XI e XIII, que utilizaram o nome de Deus como forma de justificar a barbárie em nome do bem. Séculos depois, representa uma noção bastante atual. A tradução literal da expressão, que tem origem no latim, significa “Deus Quer!”, algo que representa bem a justificação de muitas ações do atual governo. Do medievo ao contemporâneo, o fundamentalismo sempre foi um problema justificado pela “luta do bem contra o mal”, do “nós” contra “eles”. Noções deste nível não podem conduzir um país que precisa aprender/reaprender a viver e a conviver no mundo comum.

Deste “caldo”, os últimos anos vem apresentando seus “frutos”: mais armas, menos livros, menos potência para o diálogo, mais “cancelamentos”, em um clima cultural de agressividade, desconfiança e medo, onde a insegurança, a miséria e a desesperança, entre outros, vão constituindo a paisagem do cotidiano. Como consequências, vemos surgir um solo fértil para a manipulação de populismos eleitoreiros presentes nos absurdos que vem assumindo (equivocadamente) o lugar de um projeto de país – algo que deve se intensificar quanto mais se aproximam as eleições de 2022.

Se o descrédito com a política, especialmente devido à radicalização da corrupção em suas entranhas, se colocou como o motor da eleição do atual presidente, doravante chamado de Jair (os “Jaires” do mundo que me perdoem), quase quatro anos foram suficientes para mostrar a dimensão do erro cometido e a necessidade de correção dos rumos pelas mesmas vias democráticas que o produziu.

Ao longo destes anos, em meio a um governo confuso, repleto de polêmicas e simplificações, pautas progressistas, em pleno crescimento ao longo deste século, foram atacadas frontalmente, provocando retrocessos dos mais distintos. Afinal, para alguns setores, temos o direito de ser racistas, xenófobos, homofóbicos, entre outras “pérolas” de nossa condição humana.

Certamente, estes meses que antecedem as eleições de 2022 não devem ser nada tranquilos. Além dos discursos de suspeição sobre as eleições, promovidos em especial por Jair e seus seguidores, a politização das Forças Armadas vem se constituindo como algo, no mínimo capcioso – especialmente tendo em vista sua condição de instituições de Estado, e não, de governo. Desde 2002, as eleições presidenciáveis são informatizadas, sem nunca antes, terem sido colocadas em suspeição com tal vilania por um governante, tal como agora, como forma de potencializar a desconfiança e a confusão.

Bem verdade, para quem aposta no absurdo como “projeto de país”, desconfiança e confusão ajudam a “passar os dias” de quem teria a dura função de “ser-presidente” – do contrário, Jair teria de trabalhar. Ora, Jair vem sendo eleito a muitos anos, pelo mesmo sistema que ataca. Ou apenas desde 2018 este sistema não é mais confiável? Na verdade, Jair está se precavendo de uma eventual (e cada vez mais provável) derrota nas urnas – isso representa dizer que qualquer resultado que não for sua vitória será, na sua lógica absurda, “fraudado”, o que pode justificar eventual incursão aos moldes do que aconteceu no Capitólio, nas eleições para presidente nos Estados Unidos.

Como sair dessa enrascada? Como construir um projeto de país que privilegie a produção coletiva da vida, o diálogo e não a violência e a agressividade? Que potencialize a democracia, e não o fascismo? Que privilegie a solidariedade e a alteridade, e não a concorrência e a negação do outro? Que privilegie a racionalidade e não a loucura? Como mitigar os prejuízos que várias futuras gerações terão de um (des) governo negacionista, inepto e inapto? Como sair deste clima cultural que elogia a ignorância, a barbárie e a depredação da vida?

Como lidar com discursos que, em nome de Deus, atuam sem rubor, na busca de objetivos privados? Que defendem uma noção ortodoxa de família para negar o outro e promover a exclusão de qualquer quadro familiar que não se enquadre em sua “fôrma”? Que tomam para si o título de paladinos da pátria em uma cruzada que elogia a xenofobia? Que fazer, quando a agressividade e a violência se colocam como formas “legítimas” de comunicação? Os exemplos são inúmeros: “Cala boca!” “E daí?” “Não sou coveiro!”, “O erro da ditadura foi torturar, e não, matar”, entre tantos outros absurdos documentados em várias mídias.

Reconhecer que o Brasil vem se movendo rumo ao inferno (já uma realidade para muitos e muitas) exige ampliar a discussão e reconhecer que “o inimigo” a combater é a miséria (alimentar, cultural, política, econômica, entre tantas outras), todas imersas em uma complexidade de variáveis e desafios que exigem análises mais qualificadas e profundas da realidade (e isso não se enfrenta “na bala” nem com “motociatas”). O mais surreal ainda, são as contradições presentes em discursos com pretensões de verdade – por exemplo, entre outros, vemos discursos que condenam Cuba, exigindo democracia, ao mesmo tempo em que bradam por uma intervenção militar no Brasil (?!).

Mas, como falar em liberdade, em tempos de precarização radical do trabalho e desemprego profundo? Da falta de futuro? Ora, Jair e seu governo deveriam cuidar do povo e enfrentar estas questões com a disposição que fazem as tais “motociatas” (lembro que Benito Mussolini já fazia passeios de moto com apoiadores, na década de 1930, na Itália). No passeio de Orlando (EUA), Jair escancarou sua subserviência ao american way of life, afinal, para ele, lá temos “[…] um retrato da grande parte sadia do povo brasileiro” (!?).

Os absurdos mencionados neste texto, entre tantos outros, não podem continuar… Ou a loucura é a realidade sem volta e os argumentos ora apresentados não tem sentido? Jair é uma tentativa frustrada e fracassada de elevar um medíocre à condição de “Messias” (ele mesmo reconhece que “não leva jeito” para a presidência). Sem a ilusão de que teremos um “`Pai Salvador”, precisamos de um movimento que nos permita recuperar a lógica e o bom senso na ampla esfera pública da sociedade brasileira, mesmo em meio a paradoxos e contradições inerentes a um país complexo como o Brasil (nunca tivemos vida fácil).

E a reconstrução do Brasil não passa por Jair e seus seguidores. A “Pátria amada” não pode virar “Pátria armada”, nem ser governada por pessoas despreparadas, que arrastam para o caos e tratam com simplificações aquilo que não conseguem compreender. Se, para Francis Bacon (1561-1626), na aurora da modernidade, o saber-poder era um problema, hoje nos deparamos com o “poder sem saber”, um equívoco histórico que levaremos anos para recuperar.

Por isso, se torna cada vez mais evidente que, devido a incompetência generalizada de Jair e a ausência de planejamento e racionalidade em sua gestão, a confusão, o medo e o conflito foram as formas encontradas para continuar no cargo que ocupa (o absurdo assumiu o lugar de um projeto de país). Assim, não é de se estranhar a crescente rejeição que ele vem sofrendo na ampla esfera pública: depois de quase quatro anos, ficou evidente que apostar na confusão, na intimidação, na grosseria, no medo e na simplificação da realidade, em um contexto no qual Jair mais faz campanha do que trabalha (aliás, é claramente perceptível sua ojeriza ao trabalho), não tem o mínimo sentido.

Cada vez mais temeroso de não conseguir se manter no poder por vias democráticas, ele tentará o que sempre foi honesto ao demonstrar, ao longo de sua medíocre carreira política e militar: levar vantagem, custe o que custar, para si e os seus – inclusive, apostando com radicalidade no seu séquito de seguidores (que, quanto mais lunáticos e armados forem, para ele, melhor).

A lástima é que muitas pessoas honestas e trabalhadoras caíram nessa armadilha, de modo ingênuo e desastrado. Se nem todo sujeito que votou em Jair é um fascista (e isso é muito verdadeiro), cabe o arrependimento necessário para reconhecer o erro e desembarcar da canoa deste equívoco gigantesco, assumindo uma postura antagonista aos rumos (?!) que o país vai tomando. Porém, adeptos do #fechadoscombolsonaro ainda fazem barulho, constituindo grupos fundamentalistas que abriram mão da razão, em nome da defesa do indefensável. Em nome do que? De que projeto de país? Em defesa do ódio? Da luta armada? Do caos? Da gasolina a sete, oito reais?

Por vezes, ouço discursos que advogam em nome da liberdade “para pensar diferente”, afinal, temos de aprender a lidar com o “pensamento divergente”. Ora, isso é altamente necessário em uma sociedade democrática e poder “pensar diferente” é, sem dúvidas, um direito inalienável que temos de defender veementemente. Porém, “pensar diferente” não pode servir como justificativa para tudo. Por exemplo, não podemos compactuar com a produção de narrativas absurdas, que se instauram na ampla esfera pública com o intuito de acabar (democraticamente) com a democracia. Afinal, “democracia dá muito trabalho”, tal como dito pelo Reitor de uma universidade na qual trabalhei – certamente, para alguns, a democracia atrapalha. Por isso, entendo que não podemos tolerar discursos deste tipo. Lembrando Karl Popper (1902-1994) e seu “paradoxo da tolerância”, a tolerância ilimitada é a morte da tolerância.

Há questões complexas que merecem tratamento mais qualificado, e não podem ser tratadas como mera questão de “pensar diferente”, ou mesmo, “de gosto”. O arcabouço cultural produzido ao longo da história da humanidade apresenta referências importantes para nos orientarmos no mundo, de forma lógica e racional. Vejamos: a Terra é redonda, e não, plana; houve ditadura no Brasil; religião e política não podem se “misturar” (na gestão pública especialmente); “tráfico de influências” é sim, corrupção; um presidente não pode exercer um mandato de forma chula, obtusa e beligerante; armas matam; o Estado não pode fomentar uma cultura armamentista, sob risco de potencializar o caos na ampla esfera pública; segurança pública (isso sim) deve ser uma prioridade em qualquer governo; o fomento à educação é a fundação de qualquer país; o SUS é uma política de Estado que promove a saúde como direito inalienável de todo cidadão; fascismo e nazismo não podem ser “opções políticas” toleráveis; a pandemia (infelizmente) ainda não acabou; a Covid-19 não era somente uma “gripezinha”; os benefícios das vacinas superam seus riscos (aliás, vacinas não fazem “virar jacaré”); o Estado Brasileiro não pode ser governado por pessoas tão despreparadas como as que estão no alto escalão do governo; precisamos de um governo que nos dê tranquilidade para viver, conviver e produzir (função precípua de qualquer governo); entre outros tantos elementos que poderiam ser mencionados, que possuem lastro para se sustentar a revelia de narrativas capciosas que remetem a confusão e a barbárie.

Sob o argumento da “liberdade irrestrita”, narrativas descoladas do mundo vão enredando seus protagonistas em uma teia que tem, no absurdo, sua única possibilidade de existência. Neste caldo, por um lado, vemos pessoas que parecem não ter condições de perceber a teia de corrupção na qual elas próprias se enredaram. Por outro, vemos pessoas “surfando” uma onda que vem desestruturando o país, em um “elogio ao absurdo”. Porém, cabe lembrar que, após enredadas na teia, as presas são devoradas pela aranha – que o digam Abraham Weintraub, Sérgio Moro, Ernesto Araújo, entre outros expurgados do chamado “bolsonarismo” – pelas notícias, Milton Ribeiro parece ser o próximo.

Por razões como estas, entre tantas outras possíveis de elencar, o absurdo como “projeto de país” não pode perdurar. Em outubro, as eleições serão a pena e a espada que poderão, democraticamente, reparar este equívoco político histórico. Jair já demonstrou de muitas formas que não possui a mínima qualificação para ocupar a cadeira da qual não quer sair. Entre tantos absurdos, não é possível esquecer como ele “sentiu” junto com grande parte da população brasileira os dramas da pandemia.

Se tivéssemos tido um centro de referência lógico e racional, protagonizado pelo governo federal no combate a pandemia, pautado nas ciências e em suas recomendações, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Mesmo reconhecendo as disputas internas entre as ciências, a pandemia evidenciou muitas conexões entre distintas comunidades científicas, algo que não poderia ter sido desprezado por aquele que teria de saber da responsabilidade do cargo que ocupa.

Basta de uma gestão edificada para apoiadores e seguidores, irresponsável e insensível para com o bem comum, para com o sofrimento alheio, para com a vida, para com as coisas da República… A epígrafe de Abraham Masslow apresentada no início deste texto, não pode continuar representando o modus operandi do governo brasileiro.

O cenário leva a crer que, ao longo do tempo, a mancha do chamado “bolsonarismo” será apenas mais uma na história do Brasil, reconhecida como o rotundo erro que foi (assim como a escravidão, a ditadura e outras). Mas os tempos que teremos pela frente não serão fáceis… que tenhamos força e sabedoria para lidar com tudo que ainda teremos de suportar e com as sequelas que ficarão, erros que levaremos gerações para recuperar. Que as eleições de outubro nos permitam vislumbrar cenários de futuro mais promissores e democráticos do que aqueles que nos assolam nestes dias sombrios do inverno de 2022. Mas sem ilusões, pois o caminho da reconstrução será longo e penoso…

*Ricardo Rezer é professor da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Notas

[i] A expressão “fuga para a frente”, tradução direta de uma expressão de origem francesa, fuite en avant, significa criar a impressão de resolver problemas com soluções arrojadas, quando, na verdade, a intenção é fugir deles.

[ii] Uma sindemia se caracteriza pela interação entre problemas de saúde coletiva e problemas sociais, o que promove e radicaliza as consequências sociais, psicológicas e biológicas de uma pandemia.