O agente secreto

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Por EUGÊNIO BUCCI*

A genialidade do filme está em sua forma desalinhada, que espelha o arbítrio de uma época onde crime e Estado se confundiam numa realidade fantasmagórica e irracional

1.

A viatura da polícia sai da estrada perrengue e passa a rodar no chão sem calçamento, para contornar o posto de gasolina que é uma biboca, um desterro. Estamos no meio do nada, sob o sol esturricante. Na bomba de gasolina, um Fusca amarelo acaba de ser abastecido. O motorista, camisa branca de manga curta, bem abotoada, tinha ordenado ao frentista barrigudo e suarento: “pode completar”.

Metros adiante, sobre a areia empedrada, um cadáver de pernas abertas, coberto por um papelão, atrai moscas sem rumo e cães sem dono. Fora isso, fede, empesteia o agreste. O ano é 1977. O lugar é Pernambuco.

A radiopatrulha estaciona. Descem dois agentes da lei. Óculos escuros. Nenhum deles dá a mínima para o defunto. O objetivo é outro. O sargento vai até o Fusca, pede a habilitação do moço e começa a implicar. Pergunta do extintor. Avisa que terá de entrar no carro para inspecionar alguma coisa lá dentro. Vai achacar. O tempo se arrasta, morno e seco.

A fedentina avança. Quando o sargento fica de costas para a câmera, podemos observar que o cinto de couro escuro foi afivelado às pressas, estirado por cima de um ou dois dos passadores da calça cáqui.

Assim começa O agente secreto, o novo filme de Kleber Mendonça Filho, que estreou faz uma semana. Como o cinturão do sargento, o roteiro nem sempre se acomoda bonitinho sob todos os passadores: não cumpre o itinerário protocolar e não obedece às fórmulas narrativas do cinemão comercial. Aqui e ali, passa por fora, deriva, desvia, suprime escalas.

Nem tudo é explicado didaticamente, mas tudo flui magistralmente. Você não vai desgrudar o olho da tela. Sua respiração vai ficar presa numa passagem. Seu espírito vai se enternecer na outra. Vá ao cinema. Você será recompensado com uma das maiores proezas do cinema brasileiro, ganhadora dos prêmios de Melhor diretor e Melhor ator no Festival de Cannes de 2025.

Os passadores da calça que são deixados por debaixo do cinto, tanto no figurino quanto na trama, não atrapalham, até ajudam. Mais ainda: são necessários. As explicações que ficam para depois acentuam o fio do sentido. A aventura (ou a desventura) é tão bem montada que chega a hipnotizar.

2.

O filme narra a luta de um sujeito (ele mesmo, o motorista do Fusca amarelo) para escapar de uma sentença de morte e fugir do Brasil com o seu filho ainda criança. A mãe do menino está morta. Como foi exatamente que ela morreu, disso a plateia não fica sabendo. Não importa. O protagonista será apoiado por uma senhora rica que pretende salvar-lhe a pele. De onde surgiu a benfeitora? Também não importa.

A vida era irrazoável naqueles tempos de arbítrio. Era uma vida de sombras e omissões. O que menos importava era a congruência. Os esquadrões da morte se misturavam com os destacamentos policiais. Uns e outros faziam “passeios” noturnos em camburões opacos para espancar ou apagar prisioneiros indefesos.

O crime e as forças de segurança pública se mesclavam, enquanto a repressão política apadrinhava a corrupção empresarial. Economia estatizada, Estado privatizado. O meganha aparecia na sua frente e tudo que você queria era chamar um ladrão, mas o ladrão era parte do regime. Os fatos não tinham explicações públicas nem justificativas compreensíveis.

Um acontecimento fatal podia muito bem brotar de uma parede e sumir pela outra, numa noite sem brisa e sem salvação. Era um mundo assombrado, fantasmagórico e endemoniado como um inferno – ou como uma câmara de tortura.

Não surpreende, portanto, que o filme de Kleber Mendonça Filho alcance seu apuro plástico justamente ao jogar com vazios, com elipses são tão gritantes quanto as imagens esmeradas e chocantes. Alegorias fantásticas evoluem uma ambiência de realismo mágico. Tiradas surrealistas – como as notícias jornalísticas da “perna cabeluda” açoitando os homossexuais que se beijam na praça durante a madrugada – dialogam com cenas de uma carga erótica espantosa.

Como bem anotou José Geraldo Couto no portal do IMS, O Agente Secreto tem um andamento de thriller político com elementos de gêneros díspares que vão “da comédia de erros ao terror gore (sangue e vísceras), passando pela crônica social e pelo drama familiar”. Tudo isso sem saltos de estilo, sem ranhuras, sem emendas perceptíveis. O efeito final é de uma integridade artística de rara coesão.

Entre outros acertos, o longa-metragem de quase três horas de duração tem a virtude estética e ética de não ter feito concessões de formato. Os tipos humanos são únicos: não se parecem com nada além de si mesmos e não reproduzem padrões industriais de beleza. O que se vê na tela não presta reverência a nenhuma gramática, a não ser aquela que já estava nos filmes anteriores do diretor (muito bons). O modo de encadear o enredo (a voz fílmica que conta a história) tem uma personalidade que não hesita um segundo.

Repito: vá ao cinema. Você vai ver um Pernambuco como não imaginava ser possível, durante um horror difícil de conceber, numa obra sem paralelos, que desconcerta, desnorteia, encanta e sintetiza o que fomos e ainda somos.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


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