O artesanato intelectual de Florestan Fernandes

Foto de Gabriella Clare Marino

Por DIOGO VALENÇA DE AZEVEDO COSTA*

Breve relato de uma pesquisa em sua biblioteca e arquivo pessoal.

Falar da Biblioteca e do Arquivo Pessoal de Florestan Fernandes se apresentou, para mim, como uma tarefa de grande responsabilidade. De início não sabia que caminhos seguir. Queria, na verdade, falar de tudo o que pude encontrar na minha convivência com a Biblioteca de Florestan. Utilizo mesmo a palavra convivência porque convivi com as pessoas que lá trabalham, trabalharam ou simplesmente a visitaram. Mas posso dizer que viver a Biblioteca foi minha forma de dialogar com Florestan.

A primeira visita foi em 2003, de um mês apenas; retornei em 2005, morando na cidade de São Carlos durante um ano; voltei depois de 12 anos, em 2018, e visitei mais duas vezes, em 2019, a Biblioteca de Florestan. Não sei dizer por qual motivo demorei tanto para voltar. Talvez porque a Biblioteca de Florestan tenha representado, na minha vida acadêmica, o momento de maior liberdade quase exclusivamente dedicado à leitura, sem a pressão para publicar e fazendo o que mais me dava alegria. É impossível falar da biblioteca sem evocar essa experiência pessoal. Foi com muita tristeza que, em agosto de 2006, se não me engano com a data, deixei o acervo de Florestan e voltei para o meu mundo real.

À época estava trabalhando na minha tese de doutorado, defendida em 2009 na UFPE, sob a orientação da Profa. Eliane Veras Soares, a quem agradeço, sobretudo, o respeito à minha autonomia intelectual e também as críticas sempre muito pertinentes para que eu pudesse aprofundar meus próprios argumentos, reconstruí-los e defender melhor minhas ideias. Para quem conhece Eliane, sabe que a história de vida que ela escreveu sobre Florestan Fernandes ainda hoje serve como uma referência para pensarmos a indissociabilidade entre o acadêmico e o político, o sociólogo e o socialista. Pelo menos é assim que interpreto seu livro Florestan Fernandes: o militante solitário (SOARES, 1997), para o qual Eliane realizou entrevistas com Florestan entre 1990 e 1991, entrevistas quase inéditas que estão em via de ser publicadas. As notas explicativas que irão acompanhar a publicação das entrevistas foram realizadas a partir de pesquisas na biblioteca e no Fundo Florestan Fernandes.[1]

Agradeço a Vera Lúcia Cóscia que, em fins de 2005, se não me engano na reconstituição da data, me convidou para trabalhar nos fichamentos manuscritos de Florestan Fernandes, que ele guardava num móvel de madeira especialmente construído para servir como seu arquivo intelectual e esse móvel lembra aqueles das bibliotecas, quando consultávamos os números de chamada dos títulos em folhas de cartolina. Aliás, construir um arquivo era a primeira recomendação de Wright Mills, o grande nome da sociologia crítica norte-americana que Florestan tanto respeitava, para que possamos liberar nossa “imaginação sociológica”. Até então eu só tinha lido nos trabalhos de Florestan Fernandes as menções a suas anotações, a seus fichamentos, aos materiais das colheitas de informações de suas pesquisas e, nos depoimentos de pessoas que lhe eram próximas, as lembranças de sua disciplina incansável de fazer anotações copiosamente. Só posso ter uma dívida de gratidão eterna a Vera Lúcia Cóscia, pelo convite que me fez de contar as fichas de pesquisa de Florestan Fernandes e dividi-las tematicamente. Minha maior alegria é saber que, graças em parte a esse meu trabalho, todo esse rico acervo se encontra digitalizado e pode ser hoje disponibilizado para outros pesquisadores.

Também gostaria de agradecer às colegas que hoje estão à frente da Biblioteca e do Fundo Florestan Fernandes, Izabel da Mota Franco e Siomara Mello de Almeida Prado, por terem preservado no local os pedaços de cartolina nas quais pude subdividir por temas os fichamentos e as anotações de Florestan Fernandes, nas quais ele costumava recolher observações e reflexões sobre as temáticas que mais lhe absorviam nas diferentes fases de sua rica e multifacetada trajetória intelectual e política. Assim, pude ter uma dimensão muito ampla do que podemos encontrar como material de pesquisa ainda hoje quase inédito e da sua importância para realizar novos trabalhos de interpretação do pensamento sociológico de Florestan Fernandes e de sua visão de mundo política. A contagem que fiz um a um dos fichamentos de Florestan – à época copiei à mão ou digitei muitas informações que me interessavam – ainda se encontra escrita à lápis em dois cadernos escolares, uma pequena contribuição minha para o mapeamento arquivístico e a construção do Fundo Florestan Fernandes. Cheguei a digitar todas essas anotações, conservando todas essas informações comigo. Pude surpreender Florestan em suas primeiras anotações de campo, que mais tarde viriam dar origem, por exemplo, às Trocinhas do Bom Retiro, trabalho premiado em 1944 e publicado com um prefácio de Roger Bastide; as fichas analíticas sobre os Tupinambá surgem como um verdadeiro exercício historiográfico de crítica interna e externa das fontes; as cadernetas de campo sobre os sírios e libaneses se encontram preservadas e nos lançam inúmeras pistas sobre os desenhos dessa sua pesquisa inacabada; o material produzido a partir de uma gama diversificada de métodos e técnicas de investigação nos estudos do Projeto Unesco sobre preconceito de cor e discriminação racial na cidade de São Paulo – tais como histórias de vida, os registros das reuniões públicas com a intelectualidade negra paulistana, depoimentos pessoais, entrevistas, observações diretas, anotações de leituras etc. – constitui fonte ainda hoje das mais ricas de informações, sugestões e hipóteses para novos trabalhos históricos e sociológicos sobre o racismo brasileiro. O que falo aqui seria apenas uma amostra do que se encontra no Fundo Florestan Fernandes e acho que não cheguei a examinar sequer um por cento de todo material. Haveria muitas outras coisas a mencionar, a exemplo dos planos de aula de Florestan sobre as revoluções em processo e suas anotações sobre América Latina, que nos ajudariam a aprofundar dimensões essenciais de seu pensamento sociológico ou de suas convicções políticas socialistas.

Falando agora da biblioteca, não posso deixar de mencionar uma leitura que julgo imprescindível e que melhor seria capaz de passar a dimensão humana do apego de Florestan à leitura. A socióloga Heloísa Fernandes, filha de Florestan, em Amor aos livros – reminiscências de meu pai em sua biblioteca (FERNANDES, 1998), nos ajuda a conhecer um pouco do método de trabalho do nosso “sociólogo-artesão”:

Seus livros eram sua fortuna, mas não fetiches a serem limpos, lustrados, encadernados. Tal como só as crianças sabem fazer com seus tesouros, seus livros eram valores de uso, lidos e relidos por um leitor ativo, atento, exigente, que anota, escreve, rabisca, grifa, a tal ponto que, muitas vezes, restam, afinal, dois textos: o do próprio autor e o de seu leitor! (FERNANDES, 1998, p. 49).

Numa breve mensagem escrita em 05 de outubro de 2020 e falando da biblioteca de seu pai, diz a socióloga Heloísa Fernandes: “sempre fiquei impressionada com a memória visual que ele tinha de todos os livros”. Aliás, a expressão “sociólogo-artesão” – que, no caso, a utiliza para analisar a obra de Wright Mills – tomo também emprestada de Heloísa Fernandes, a quem gostaria de agradecer as generosas observações sobre a biblioteca de seu pai e as críticas sempre tão precisas aos textos que escrevo sobre a obra sociológica de Florestan Fernandes. Penso que não haja palavra melhor para falar de Florestan. Ele era um mestre no domínio de seu ofício, um verdadeiro “sociólogo-artesão”. Referências ao artesanato intelectual estão sempre presentes quando Florestan Fernandes reflete retrospectivamente sobre sua própria produção sociológica. Num ensaio com fortes elementos autobiográficos, Em busca de uma sociologia crítica e militante, a ideia de artesanato intelectual sempre será mencionada num contexto de superação, remetendo-nos ao menino Vicente – filho de uma empregada doméstica portuguesa, analfabeta, que teve na mais tenra infância o direito a ser chamado pelo seu próprio nome recusado – que se transformaria então no sociólogo respeitado internacionalmente Florestan Fernandes e, segundo muitos dizem, chefe da Escola Paulista de Sociologia, título por ele mesmo considerado às vezes um pouco excessivo. Vicente assim o chamava sua madrinha, Dona Hermínia Bresser de Lima, pois Florestan seria um nome muito pomposo para o filho de uma emprega doméstica e Vicente seria nome de pobre. Muitos anos mais tarde diria o nosso grande sociólogo, numa entrevista em 1984 ao Vox Populi, que o Vicente teve uma importância crucial na formação do seu caráter. No ensaio autobiográfico acima referido, irá nos fazer o seguinte relato de suas experiências na condição de estudante do segundo ano do curso de ciências sociais da USP:

[…] já no segundo ano do curso eu sabia muito bem o que pretendia ser e me concentrara na aprendizagem do ofício – portanto, não me comparava ao bebê, que começa a engatinhar e a falar, porém ao aprendiz, que transforma o mestre-artesão em um modelo provisório. A cultura dos meus mestres estrangeiros me intimidava. Eu pensava que jamais conseguiria igualá-los. O padrão era demasiado alto para as nossas potencialidades provincianas – para o que o ambiente poderia suportar – e especialmente para mim, com a minha precária bagagem intelectual e as dificuldades materiais com que me defrontava, as quais roubavam grande parte do meu tempo e das minhas energias do que gostaria de fazer. […] Em suma, o Vicente que eu fora estava finalmente morrendo e nascia em seu lugar, de forma assustadora para mim, o Florestan que eu iria ser. (FERNANDES, 1977, p. 157).

É bastante significativo que, em relação à pesquisa sobre os Tupinambá, na qual Florestan desenvolve uma relação endopática com essa civilização originária das terras que seriam posteriormente o Brasil e outros países da América Latina, ele afirme o seguinte: “alcancei a estatura de um artesão que domina e ama o seu mister, por que sabe como deve praticá-lo e para o que ele serve” (FERNANDES, 1977, p. 175). De fato, Florestan Fernandes se constrói como um “sociólogo-artesão” e podemos conhecer o seu artesanato intelectual esmiuçando as riquezas presentes em sua biblioteca e no seu arquivo pessoal. Lembro-me de algumas leituras de Florestan Fernandes em sua biblioteca que, a meu ver, o vinculam à sua origem social. Ele leu as memórias de Gregório Bezerra e fez algumas anotações à margem, identificando-se com o comunista pernambucano de origem humilde, igual a ele. Da mesma maneira, lendo As cartas do cárcere de Antonio Gramsci e grifando todas as passagens em que o dirigente do partido comunista da Itália dizia que era preciso ter “força”, Florestan se solidariza de alguma forma com o sacrifício humano da luta social por parte daqueles que assumiram todas as consequências ao combaterem regimes fascistas, ditatoriais e violentos. O próprio Florestan foi punido por um regime de exceção e perseguido pelo terrorismo de Estado. Quis fazer essas rápidas menções porque acho que a biblioteca de Florestan é inseparável da figura do Vicente, das suas origens sociais e de tudo o que ele pretendia fazer da sociologia, um instrumento de transformação da sociedade para que os despossuídos, os de baixo, pudessem ter um futuro com dignidade, justiça, liberdade, igualdade, felicidade e fraternidade. Um diálogo central que Florestan estabelece com o pensamento de Marx diz respeito à crítica filosófica da alienação na sociedade capitalista, em particular com Os manuscritos econômico-filosóficos. É dessa tradição humanista que Florestan alimenta uma vasta curiosidade intelectual, abarcando os mais diversos campos das ciências sociais e das humanidades.

O que eu gostaria de salientar é que a biblioteca de Florestan compila obras fundamentais das mais diversas áreas do conhecimento. Recorro mais uma vez ao belíssimo texto de Heloísa Fernandes para falar dessa fonte inesgotável de pesquisas que é a biblioteca de Florestan. A autora nos faz diversos questionamentos, cujas respostas só podem ser encontradas com pesquisas coletivas, sérias e respeitosas na biblioteca, no arquivo pessoal e nas obras publicadas do nosso “sociólogo-artesão”:

Por que tantos e tantos autores de outras correntes, tendências, escolas? Por que será que, às vezes, seus mais ferrenhos adversários têm presença igual ou ainda maior que a de seus companheiros e aliados? Por que será que nunca pôde se desfazer nem sequer dos autores fascistas que tanto desprezou e combateu? Por que tanta Sociologia de tão diversas áreas, idades, escolas e procedências precisa conviver e dialogar com a Antropologia, Política, Economia, História, Geografia, Pedagogia, Psicologia, Psicanálise, Lógica, Literatura, Filosofia? Biblioteca de um humanista ou da intelligentsia, como diria Mannheim, desse tipo histórico de intelectual que marcou o que houve de melhor nesse século XX, o intelectual que reivindica seu direito de ter voz na sociedade, legitimando-se num duplo compromisso: de um lado, consigo mesmo, na cobrança da mais dura seriedade e responsabilidade, e, de outro, com as mais elevadas aspirações de seu povo e de sua época (FERNANDES, 1998, p. 49-50).

Na biblioteca de Florestan se destacam livros que nos ajudam a reconstruir muito da história das ciências sociais no Brasil, na América Latina e no plano internacional. O acervo existente sobre América Latina é verdadeiramente impressionante, dispondo de obras de muitos pensadores clássicos como o revolucionário anticolonialista e herói da luta de Independência em Cuba, José Martí, e o marxista peruano José Carlos Mariátegui ou de cientistas sociais latino-americanos que com Florestan se corresponderam em momentos específicos, dentre os quais podemos citar  nomes como os de Orlando Fals Borda (Colômbia), Pablo González Casanova (México), Gérard Pierre-Charles (Haiti), Roberto Fernández Retamar e Julio Le Riverend (Cuba), Orlando Albornoz (Venezuela) e José Nun (Argentina), este último seu amigo e colega na Universidade de Toronto.  Em suma, a biblioteca e o arquivo pessoal de Florestan Fernandes representam um manancial inesgotável de informações não só para aqueles que estudam sua trajetória intelectual, sua produção sociológica e seu pensamento político, mas para todo e qualquer pesquisador das mais variadas áreas das ciências sociais e das humanidades. Podemos encontrar livros de outras áreas, inclusive, como uma das obras raras de um geneticista russo chamado Theodosius Dobzhanksy, amigo de Florestan e que, em suas visitas ao Brasil, fazia questão de procurá-lo para conversar. Fiquei o período de um ano frequentando todos os dias a biblioteca e considero que haveria nela muitos territórios ainda por explorar e searas para mim completamente desconhecidas. Folheando alguns de seus livros, pude localizar várias das imagens literárias a que Florestan aludia em seus escritos, como a do jovem José, retirada dos romances de Thomas Mann. A metáfora do poço era sempre lembrada por Florestan quando se remetia a suas origens sociais ou à crise política que lhe sobreveio com a punição do regime ditatorial por 25 anos prestados à pesquisa científica no país. O mesmo obscurantismo nos assola hoje. Florestan era um humanista. No dizer de Heloísa Fernandes, trata-se da biblioteca de um “humanista”, lembrando que nos seus últimos dias Florestan se dizia um socialista que defende o humanismo.

Antes de encerrar minha fala, gostaria muito de apresentar um pouco do trabalho que ando fazendo com o intuito de ilustrar os métodos de leitura de Florestan. Trata-se dos seus registros de leitura das obras completas de Lênin, pensador marxista que conhecia em profundidade e para o qual organizou e introduziu uma coletânea para a famosa coleção Grandes Cientistas Sociais, de cuja coordenação se incumbiu junto à editora Ática publicando ao todo sessenta volumes. Seguindo alguns passos da sua leitura de Lênin pretendo reconstruir as principais linhas do artesanato intelectual de Florestan Fernandes, no qual podemos vislumbrar as interfaces entre sua própria biografia, os movimentos históricos de correntes ideológicas em disputa e as estruturas opressivas da sociedade brasileira. A primeira circunstância histórica a se considerar é que Florestan irá se dedicar à leitura das obras completas de Lênin ainda antes de concluir A revolução burguesa no Brasil, livro publicado em 1975. O seu esforço era justamente de compreender os motivos políticos da contrarrevolução preventiva de 1964 e minha hipótese é a de que a leitura de Lênin lhe serviu como critério comparativo em relação às especificidades da formação social russa, que já havia passado por uma revolução burguesa em atraso. Preocupado com o capitalismo dependente no Brasil e, por conseguinte, com o caráter peculiar de sua (contra)revolução burguesa, Florestan recorre a Lênin justamente como uma perspectiva teórica fundamental para analisar as revoluções burguesas em processo nas periferias do sistema e nos elos mais frágeis do capitalismo. É nesse sentido que dirá:

A última análise socialista consistente do processo de uma revolução burguesa atrasada é a de Lenin – aproveitando a fase de 1905 na Rússia até 1907, mais ou menos –, onde aparece algumas de suas contribuições teóricas mais importantes às ciências sociais (FERNANDES, 1978, p. 99-100).

Além disso, outro elemento da perspectiva leniniana pelo qual Florestan iria se interessar crescentemente seriam as análises do marxista russo das últimas fases da dominação czarista. “Ele [Lênin] interpreta a situação russa confrontando a situação da burguesia com o poder relativo do czar, da nobreza e da burocracia” (FERNANDES, 1978, p. 100), de modo que a burguesia – ao se acomodar com “setores mais poderosos da sociedade russa” (FERNANDES, 1978, p. 100), as forças da velha ordem – irá exercer o poder burguês com uma forte dimensão autocrática típica do czarismo, embora se configure historicamente já como uma dominação de classe de tipo especificamente capitalista. Nesse sentido, o termo autocracia passa a ter uma validade mais geral e ultrapassa os horizontes particulares da formação social russa. Defrontando-se com sua própria biografia de perseguido político da ditadura e direcionando seu olhar para as raízes históricas do Golpe de Estado de 1964, Florestan vai se inspirar em Lênin para desenvolver a categoria teórica de “autocracia burguesa” e foi essa situação histórica particular do capitalismo dependente latino-americano que o levou ao enfoque comparativo com a sociedade russa. Marcando uma dominação de classe própria da periferia do sistema na era do imperialismo e do capitalismo monopolista, a categoria de “autocracia burguesa” apanha justamente uma característica estrutural das sociedades capitalistas em escala internacional e que hoje talvez tenda a se generalizar. A dominação de classe se exerce de forma autocrática em face da hegemonia das frações parasitárias do capital financeiro nos centros e nas periferias.

Não é a leitura de Lênin que conduz Florestan, teoricamente, a descobrir noções teóricas de alto valor explicativo, mas a própria situação brasileira e sua biografia política de opositor do fascismo instalado nas estruturas do Estado brasileiro que o levam, ao contrário, a se apropriar de modo original do pensamento leniniano para descortinar o sentido das lutas políticas das sociedades latino-americanas. Por isso, o “Florestan leitor de Lênin” irá exercitar todo seu talento inventivo na tradução em chave brasileira e latino-americana das ideias do líder bolchevique. Com isso quero dizer que Florestan sabia muito bem das diferenças históricas entre a sociedade russa da época de Lênin e o Brasil dos anos 70, porém o recurso comparativo lhe foi essencial para pensar as características estruturais e conjunturais do Estado burguês no capitalismo dependente. Por isso sua leitura de Lênin não pode ser tomada como mera manifestação de uma profissão de fé marxista, mas como um esforço de análise política das correlações de forças entre classes, frações de classe, grupos e demais categorias sociais que sinalizam as tendências históricas em curso. Essa análise concreta da situação concreta seria a baliza de Florestan para pensar os rumos da ação política das forças democráticas, com base nas situações de interesse das classes trabalhadoras e das massas despossuídas.

O que tudo isso tem a ver com a biblioteca de Florestan? Os procedimentos técnicos da leitura de textos, então utilizados de maneira muito própria pelo nosso “sociólogo-artesão”, deixaram registros sob formas múltiplas e diversas de grifos, destaques de parágrafos, exclamações, reticências, notas à margem das páginas, índices analíticos ao final dos livros elaborados para seus fins de pesquisa e, por fim, muitas vezes comentários que sintetizam raciocínios a serem depois desenvolvidos por meio de fichamentos ou resumos em folhas de caderno. Em relação a Lênin, temos um verdadeiro compacto que nos permite comparar as marcas e registros das leituras de Florestan com o seu texto introdutório à já aludida coletânea de escritos políticos do revolucionário russo para a coleção Grandes Cientistas Sociais da editora Ática. Além disso, num dos exemplares desse volume em sua biblioteca, Florestan deixou novos registros de sua releitura da obra política de Lênin, os quais podem ser comparados com a sua leitura anterior dos textos retirados da tradução francesa. Assim, num dos textos leninistas retirados por Florestan do tomo 9 das obras completas em francês do marxista russo, Duas táticas da socialdemocracia na revolução democrática, podemos conhecer as passagens por ele consideradas como fundamentais, todas elas assinaladas com um F maiúsculo na margem. Todo o texto não foi selecionado, mas apenas a seção intitulada “De onde vem o perigo para o proletariado de ter as mãos atadas na luta contra a burguesia inconsequente?”. À página 43 Florestan grifa o trecho “[…] a inteira independência de classe do partido do proletariado no movimento ‘democrático geral’ da atualidade” como fundamental, escrevendo um F ao lado e, em vários de seus escritos, como em O que é revolução, publicado em 1981 pela editora Brasiliense, o nosso “sociólogo-artesão” fala constantemente da necessária autonomia de classe das organizações políticas das classes trabalhadoras. Um pouco mais adiante, entre as páginas 44 e 45 desse escrito de Lênin, Florestan grifa passagens que sinalizam o desenvolvimento insuficiente do capitalismo na Rússia, apresentando como corolário político que a revolução democrático-burguesa elevaria o patamar das condições de luta do proletariado. Talvez se possa buscar em várias sugestões de Lênin algumas das fontes teóricas mais imediatas das elaborações posteriores de Florestan das categorias de “revolução dentro da ordem” e “revolução contra a ordem”, tais como forjadas na análise concreta dos solos históricos brasileiro e latino-americano. Esses passos da leitura leninista de Florestan Fernandes nos permitem identificar seu método de trabalho e reconhecer como foi transformando as ideias originais do revolucionário russo, apropriando-se teórica e politicamente delas em novo patamar. Essa análise das leituras da obra de Lênin por Florestan tem nos possibilitado identificar seus procedimentos específicos de apropriação e reinvenção de conceitos e, por esse motivo, quis indicar em linhas gerais os caminhos que venho seguindo na interpretação de seu pensamento a partir de pesquisas realizadas em sua biblioteca e arquivo pessoal. Penso que tais procedimentos podem ser estendidos com proveito em futuras investigações sobre outros aspectos de sua vasta obra sociológica e política.

Acredito que há muito por se fazer no estudo da obra de Florestan Fernandes e nos caberia desenhar um plano de pesquisa coletivo – em que os livros de sua biblioteca e os arquivos pessoais do Fundo Florestan Fernandes sejam examinados minuciosamente por especialistas em cada um dos temas trabalhados pelo nosso “sociólogo-artesão” e que, ao mesmo tempo, tenham lido seriamente os aspectos da produção intelectual de Florestan vinculados a suas respectivas especialidades – que fosse consistente o bastante para aproveitarmos um material de grande valor histórico para o Brasil e a América Latina do qual a UFSCar, como universidade pública e por uma visão estratégica de longo prazo de seus dirigentes à época, se tornou a guardiã e vem conservando graças ao esforço denodado de nossas colegas servidoras bibliotecárias. Esse trabalho em equipe seria também uma espécie de resgate do valor da pesquisa coletiva nas ciências sociais, valor esse tão almejado e estimulado por Florestan Fernandes como prática e estilo de vida na geração de sociólogos brasileiros que ele contribuiu para formar. Muito obrigado!

*Diogo Valença de Azevedo Costa é professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Texto estabelecido a partir de palestra proferida em mesa-redonda do VI Seminário de Política de Informação e Memória e Centenário de Florestan Fernandes, no dia 30 de outubro de 2020. Disponível em: <https://m.youtube.com/watch?v=MTXitSaS2CQ>. Gostaria de agradecer à Heloísa Fernandes Silveira pelas críticas e observações.

Referências

FERNANDES, Florestan. A sociologia no Brasil: contribuição para o estudo de sua formação e desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 1977.

FERNANDES, Florestan. A condição de sociólogo. São Paulo: Hucitec, 1978.

FERNANDES, Heloísa Rodrigues. Amor aos livros – reminiscências de meu pai em sua biblioteca. In: MARTINEZ, Paulo Henrique (org.). Florestan ou o sentido das coisas. São Paulo: Boitempo, 1998.

SOARES, Eliane Veras. Florestan Fernandes: o militante solitário. São Paulo: Cortez, 1997.

Entrevista Vox Populi com Florestan Fernandes. Youtube, 1984. Disponível em: <https://m.youtube.com/watch?v=0u_x-6m_mQI> Acesso em: 06 de jun. de 2021

Nota

[1] O livro com as entrevistas, Florestan Fernandes: trajetória, memórias e dilemas do Brasil, se encontra no prelo e será publicado por Marxismo21. Além do conjunto das entrevistas concedidas por Florestan Fernandes a Eliane Veras Soares, o livro conta com ensaios sobre a obra do sociólogo paulistano, escritos pela equipe de pesquisadores empenhada na organização e apresentação dos depoimentos, a saber: Eliane Veras Soares (coordenadora do projeto), Diogo Valença, Ana Rodrigues Cavalcanti, Aristeu Portela, Lucas Trindade e Remo Mutzenberg.