O assassinato de Trotsky

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Por OSVALDO COGGIOLA*

Antecedentes históricos do crime ocorrido em 20 de agosto de 1940

A perseguição política a Trotsky por parte da fração stalinista do Partido Comunista começou na União Soviética, mas suamorte, como veremos, começou a ser planejada na Espanha. A repressão aos militantes e organizações de esquerda antiestalinistas na Espanha e o assassinato de Leon Trotsky no México se uniram por mais de um fio. Em novembro de 1927 Trotsky fora expulso do Partido Comunista da União Soviética; em 1928, foi desterrado para Alma-Ata (Cazaquistão); em fevereiro de 1929, foi expulso da URSS para a Turquia, onde viveu até julho de 1933 na ilha de Prinkipo, nas proximidades de Istambul. Entrementes, Stalin e seus aliados apelaram para a repressão política da Oposição de Esquerda, conseguindo sancionar a condenação ao “trotskismo” no V Congresso da Internacional Comunista. Esse processo adquiriu caráter global com a chamada “bolchevização” dos partidos comunistas, visando eliminar toda oposição à linha oficial. O V Congresso representouo início de uma mudança de seus objetivos fundamentais: não se tratava mais de concentrar esforços para levar o proletariado mundial ao poder, mas de defender a “Pátria Socialista”, a União Soviética, dos perigos que poderiam impedir seu desenvolvimento e consolidação. Entre eles estavam, naturalmente, todos os tipos de oposição política, descritos como representantes de interesses contrários à revolução, para a qual mereciam (e exigiam) uma repressão implacável. Desde então, a burocracia stalinista dispensou a convocação de congressos regulares da Internacional.

As agressões físicas contra os “trotskistas” na URSS começaram em finais de 1927: o carro de Trotsky foi ameaçado com armas de fogo; sua mulher, NatáliaSedova, foi fisicamente agredida. No dia seguinte ao 10º aniversário da Revolução de Outubro Trotsky pronunciou seu último discurso público na URSS, no enterro do oposicionista Abraham Ioffe (exdirigente da política externa da URSS, que tinha se suicidado na véspera), antes de ser detido e deportado para Alma-Ata.Trotsky foi excluído do partido, junto com Kamenev eZinoviev, sem que os militantes ou o país fossem informados das causas, nem das propostas da Oposição (democracia interna nos sovietes e no partido, industrialização baseada no planejamento centralizado e na taxação dos kulaki, abandono da estratégia internacional da “revolução por etapas”). No XV Congresso do partido, em dezembro de 1927, foi exigida a capitulação dos opositores: a maioria destes cedeu, com Zinoviev e Kamenev buscando (e conseguindo temporariamente) sua reintegração no partido. Trotsky, isolado, não cedeu: exilado na própria URSS reorganizou seus partidários para continuar um combate que se desenvolveria em condições cada vez mais precárias.

Repressão massiva e repressão seletiva contra os oposicionistas políticos coexistiram desde 1930 (300 oposicionistas foram detidos só em Moscou durante os primeiros meses desse ano). O terror (que em 1936-1937 vitimou um milhão dos dois milhões de membros que o PCUS possuia em finais da década de 1920) foi também uma resposta de Stalin a um potencial movimento de protesto social e à oposição que crescia dentro do próprio partido.[i]Em 1932, aoposição “de Riutin”, surgida no aparelho dirigente, vinculou-se a esse estado de coisas. Seu inspirador, Martemian Riutin (membro suplente do Comitê Central, e secretário do partido em Moscou), escreveu um programa de 200 páginas e o fez difundir secretamente. Reclamava, entre outras coisas, uma diminuição do ritmo da industrialização e da coletivização, a destituição de Stalin(a quem apresentou como o “espírito mau” da revolução, comparável com os piores déspotas da história), a reintegração dos oposicionistas excluídos.

Stalin propôs que Riutin fosse executado. Riutin pertencia à direção da organização moscovita do partido, o que tornava obrigatório que o Politburo se pronunciasse. Stalin não obteve a maioria. Kirov e Ordjonikidzé recusaram-lhe apoio: um antigo dispositivo estabelecia que a pena de morte não poderia aplicar-se a nenhum membro do partido (Trotsky tinha feito executar um bolchevique, Panteleev, por deserção de um posto de comando durante a guerra civil, o que provocara uma crise política). Riutin e seu grupo foram condenados a penas de prisão. Para Stalin, isto representou uma derrota que, segundo Margarete Buber-Neumann, jamais pode se explicar.[ii]Segundo Victor Serge, “em 1932, iluminado pelo curso dos acontecimentos, Riutin passou à oposição. Elaborou um projeto de programa no qual chamava Stalin de ‘o grande provocador, o destruidor do partido’. A Cheka (polícia política do Estado) chamou suas palavras de incitamento ao assassinato e o condenou à morte. No entanto, eles não ousaram executá-lo. Ninguém sabe o que aconteceu com ele” (o texto é de 1936).Das 200 páginas da “plataforma de Riutin”, 50 eram consagradas à descrição da personalidade de Stalin, caracterizada pela ambição pessoal e a sede de vingança. Ela recolheu numerosas assinaturas, entre elas as de antigos partidários de Bukharin.[iii]

Em 1933, houve o “caso Smirnov” (o vetrerano dirigente bolchevique Ivan Smirnov propusera uma unificação de todos os grupos opositores). Os expurgos de intelectuais atingiam, nesse momento,importantes proporções. Nesse clima, a segunda mulher de Stalin (Nadejda Svetlana Allelluyeva) se suicidou, em novembro de 1932. O XVII Congresso do PCUS, no início de 1934, consagrouum estado de espírito majoritário, favorável a um “distensão”: aceitou-se uma autocrítica de algunsexopositores (Zinoviev, Bukharin, Lominadzé), outorgou-se um estatuto jurídico aos kolkhozianos, anistiou-se muitos kulaki perseguidos, a GPU foi reorganizada (transformou-se em NKVD) sob controle de um “comissariado do interior”. Era a calmaria que precedia à tempestade. Um conflito se desenhou no próprio congresso: os secretários regionais pediram a Kirov candidatar-se ao posto de secretário-geral (Kirov recusou); segundo Roy Medvedev, se agrupavam em torno de Kirov, “aqueles que pensavam que era necessário executar o testamento de Lênin” (ou seja, tirar Stalin do secretariado geral). A reunião dos secretários regionais destacou um grupo, com AnastasMikoyan (futuro chanceler da URSS), o georgiano Ordjonikidzé, Petrovsky, Orachenlanchvili, encarregado de pressionar Kirov para que se candidatasse. Stalin teve grandes dificuldades para se reeleger como membro do Comitê Central, mas conservou seu cargo de secretário-geral.

Pela primeira e única vez na “era staliniana” houve uma espécie de consenso para a readmissão dos opositores a Stalin, com exceção de Trotsky edos trotskistas, assim como de Ivan Smirnov e seus amigos do “bloco das oposições”.A figura “conciliadora” do chefe do partido em Leningrado, Kirov, foi a mais votada para o Comitê Central eleito; na eleição, Stalin chegou em último posto, com 270 votos contrários.[iv] As palavras do informe inicial de Stalin soaram mais como expressão de desejos ou como ameaça do que como uma constatação objetiva: “Se no XV Congresso, de 1927, era necessário ainda demonstrar a correção da linha do partido e combatir certos grupos antileninistas; se, no XVI Congresso, de 1930, foi necessário dar o golpe de graça aos últimos partidários desses grupos, não há nada mais a ser demonstrardo neste Congresso, nem grupos a serem derrotados. Todo mundo compreende que a linha do partido venceu. Os debates do Congresso demonstraram a completa unidade dos dirigentes em todas as questões da política do partido. Não foi feita nenhuma objeção ao Informe”.[v] Stalin, no entanto, se recusou a fazer o tradicional discurso de clausura.

No quadro da crise política que se estendeu de 1932 a 1934 houve um nebuloso episódio: a entrevista, em Paris, entre um “membro do CC do PCUS, enviado de Kirov”, e Leon Sedov, filho e braço direito de Trotsky, na qual Kirov, por pessoa interposta, teria deixado entrever sua vontade de reintegrar todos os oposicionistas no partido, incluídos Trotsky e os trotskistas.[vi]Jean-Pierre Joubert se apoiou em um depoimento de Marcel Body (ex dirigente francês da Internacional Comunista), “cuja honestidade é indiscutível”, que “diz ter facilitado o contato com Leon Sedov (filho de Trotsky, residente em Paris) de um emissário de Kirov, membro do CC do PCUS e cunhado do Dr. Levin, enviado (à França) para informar Trotsky da intenção de Kirov de reintegrá-lo, e aos seus partidários, no partido. Pierre Broué indicou também a existência de um texto de Sedov, que confirmaria essa informação, referido às intenções de ‘camaradas bem posicionados’”. Essas informações, se verdadeiras, jogariam uma nova luz sobre o posterior assassinato de Kirov e o papel de Trotsky na crise do PCUS de 1934, e sobre os “Processos de Moscou”, nos quais Trotsky foi o principal acusadoin absentia.

O desenvolvimento da crise revolucionária na Espanha, a partir de 1931, foi um elemento decisivo na atitude de Stalin arespeito da atividade de Trotsky, na URSS e internacionalmente. Segundo Lilly Marcou, “se a decisão de matar Trotsky foi expressa em 1939, na mente de Stalin ela começou a amadurecer a partir de 1931, como testemunha um documento inédito dos arquivos daquele período. Em uma carta enviada ao Politburo, Trotsky aconselhava aos dirigentes soviéticos não se misturarem nas questões internas dos comunistas espanhóis, ou seja, ‘não lhes impor uma cisão vinda do exterior’. Furioso porque Trotsky ousava ainda dizer qual devia ser a conduta do partido, Stalin escreveu imediatamente: ‘Penso que Trotsky, esse despudorado falastrão menchevique, deveria ser eliminado. Assim aprenderá a ficar no seu lugar’”.[vii]

O misterioso assassinato de Kirov, em finais de 1934, foi usado por Stalin para provar da existência de um vasto complô com vistas a assassinar todos os dirigentes soviéticos, supostamente chefiado por Trotsky.[viii] Os três processos judiciais públicos decorrentes, os “Processos de Moscou”, que se estenderam de 1936 a 1938, abalaram a opinião pública mundial, e foram acompanhados de uma repressão política em massa (Vadim Rogovin menciona 4 milhões de detidos e 800 mil fuzilados) sem precedentes na história moderna. Stalin não exagerava suas intenções ao dizerque era chegada a hora de usar “métodos de guerra civil” contra a oposição interna. Rogovin afirmou que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência “das verdadeiras forças comunistas”.O mundo assistiu consternado às “confissões” de boa parte dos dirigentes da revolução de 1917. Kamenev dizia: “Estamos aqui sentados lado a lado com os agentes de departamentos da polícia secreta estrangeira… Servimos ao fascismo, organizamos a contrarrevolução contra o socialismo. Este foi o caminho que tomamos e este é o abismo de desprezível traição em que caímos”. E Zinoviev, o ex-presidente da Internacional Comunista, confirmava: “Sou culpado de ter sido o organizador, secundando Trotsky no bloco trotskista-zinovievista, da proposição com o objetivo de assassinar Stalin, Vorochilov e outros líderes… Fizemos uma aliança com Trotsky. Meu bolchevismo distorcido acabou se transformando em antibolchevismo e através do trotskismo chegou ao fascismo. O trotskismo é uma variação do fascismo, e o zinovievismo uma variação do trotskismo”. Nenhuma dessas “confissões” lhes poupou a vida.

Desde o primeiro “Processo”, em 1936, Trotsky era denunciado como a alma do “bloco terrorista”, e o trotskismo, como uma agência da Gestapo e do fascismo, no mesmo momento em que o CC do PC italiano propunha uma aliança “aos nossos irmãos fascistas”, sobre a base do programa (fascista) de 1919, e em que Stalin sondava secretamente as possibilidades de um acordo com Hitler, que se concretizaria três anos depois. O procurador do Estadodenunciou Trotsky, Kamenev e Zinoviev usando seus patronímicos judus: Bronstein, Rosenfeld e Radominslyski.Em janeiro de 1937, teve lugar o Processo dos Dezoito(ou “segundo Processo”), no qual antigos dirigentes bolcheviques foram acusados de colusão com o nazismo e com Trotsky, assim como (ao igual que os acusados do processo anterior) do assassinato de Kirov. Todos “confessaram”, sendo condenados e executados, com exceção de Radek (que exagerou propositalmente na “confissão”). Em plena guerra civil espanhola e governo da Frente Popular na França, “os 18” (entre outros, Radek, Serebryakov, Piatakov, Muralov, Drobnis, Sokolnikov) foram acusados e condenados por “ter constituído um centro de reserva trotskista”, executando sabotagens e envenenamentos em massa, por conta da Gestapo e do Mikado. Assim como no processo anterior, e no posterior, observadores jurídicos oficiais das “democracias” ocidentais certificaram, para o mundo, a “lisura” do processo jurídico, o que era um sinal político claro do interesse dos líderes do mundo capitalista na “normalização”da URSS. Em março de 1938, enfim, houve o Processo dos Vinte e Um: desta vez “confessaram” o ex-chefe da GPU, Iagoda, e os velhos bolcheviques Bukhárin e Rykov (chefes da antiga “Oposição de Direita”), e vários outros.

Um dos acusados negou as “confissões” obtidas durante o inquérito (mediante tortura); Bukhárin, por sua vez, “confessou” em geral (no atacado), mas negou todas as acusações precisas (no varejo). As acusações eram as mesmas dos processos precedentes: espionagem para Hitler (ou para Mussolini, oupara o Mikado), “bloco” com Trotsky e… assassinato de Kirov. Como nos processos anteriores, Stalin assistiu e controlouo desenrolar das coisas nos bastidores. Os acusados foram condenados, e quase todos executados. O procurador estatal, AndreïVychinski, se tornou célebre pela sua inclinação zoológica para referir-se aos seus inimigos bolcheviques de 1917, que ele agora acusava em nome do “bolchevismo”, como “hienas”, “chacais”, “serpentes”, “cães raivosos”. Em cifras globais, entre 1934 e 1940, 3.750.000pessoas foram enviadas para campos prisionais. Nos anos mais repressivos de 1937-1938, 1,6 milhão de pessoas foram condenadas e praticamente a metade, 680 mil, executada.Com o massacre da década de 1930, Stalin superou a crise política precedente, motivo deflagrador dos Processos. No expurgo decorrente, além da maioria dos remanescentes da velha guarda bolchevique, foram eliminados a quase totalidade dos membros do Comitê Central eleito em 1934, a maioria dos delegados ao XVII Congresso, quatro membros do Politburo, três dos cinco membros do Birôde Organização, todos perfeitamente “stalinistas”. Foram substituídos por outros stalinistas, tão incondicionais quanto os precedentes, e certamente mais apavorados. O “monolitismo” stalinianofoi, portanto, o véu de um regime de crise, que exigiu meios repressivos permanentes e vizinhos da paranoia para manter sua estabilidade.

O massacre paralelo aos “Processos” abrangeu todos os antigos opositores e suas famílias, 90% dos quadros superiores do Exército Vermelho, todos os dirigentes da polícia política antes de Ekhov, substituto de Iagoda que deu seu nome à ekhovtchina, a maioria dos comunistas estrangeiros refugiados na URSS: no total, houve de quatro a cinco milhões de detenções, um soviético para cada 17 foi detido, um para cada 85, executado.[ix] No meio do terror, floresceram os oportunismos e as vinganças pessoais através da “deduragem”. Um clima de delação geral instalou-se na sociedade “soviética”, chegando-se a registrar casos de delação dos pais pelos filhos. Em todos os processos, as acusações lidas pelo procurador pareciam o produto de uma imaginação delirante e doentia: a investigação teria provado “que, desde 1932 até 1936, se havia organizado em Moscou um centro unificado trotskista-zinovievista, com o propósito de perpetrar toda uma série de atos terroristas contra os chefes do PCUS e o governo soviético, com vistas à tomada do poder. Que o centro unificado trotskista-zinovievista havia organizado muitos grupos terroristas e adotado um certo número de medidas para proceder ao assassinato dos camaradas Stalin, Vorochilov, Jdanov, Kaganovitch, Kirov, Kossior, Ordjonikidzé e Postychev(…) Que um dos grupos terroristas, sob as ordens diretas de Zinoviev e Leon Trotsky, e sob a direção imediata do acusado Bakaiev, havia perpetrado no 1º de dezembro de 1934 o assassinato do camarada S. M. Kirov”.

Na sua sentença principal, a Corte Suprema da URSS concluiu em que: “Os inimigos do povo, Trotsky, Lev Davidovitch e seu filho Sedov, Lev Ivovitch, expulsos da URSS em 1929 e privados da nacionalidade soviética por decisão do Comitê Executivo Central da URSS, em caso de ser encontrados em território russo devem ser imediatamente presos e postos à disposição do Tribunal Militar da Corte Suprema da URSS”.[x] No que respeita ao suposto “apoio popular” aos “Processos”, citemos o testemunho de Margarete Buber-Neumann, esposa do dirigente comunista alemão Heinz Neumann: “A 23 de janeiro de 1937 -naquela mesma manhã havia começado o segundo Processo de Moscou- Neumann e eu assistimos à manifestação do povo soviético, tão ‘odiado’ pelos acusados. Para dizer a verdade, esta manifestação não tinha nada de espontânea, foi organizada pelo governo. Desde as fábricas, os operários haviam sido trazidos diretamente ao local da reunião. Assistir a ela era obrigatório. Também os empregados e colaboradores das ‘Edições dos Trabalhadores Estrangeiros’ deviam estar presentes. Uma numerosa multidão se amontoava nessa ingrata jornada invernal. Não se escutava grito algum. Os homens estavam em silêncio, de pé sobre a neve; as bandeiras e letreiros que levavam mostravam consignas espetaculares: ‘Abatam-nos como a cães raivosos!’, ‘Morte aos traidores fascistas!’ Sobre um cartaz vi a imagem de um punho gigantesco armado de pregos, acompanhado por esta inscrição: ‘Viva a NKVD, punho encouraçado da revolução!’”.[xi]

No exterior, quase todos os partidos comunistas organizaramcomícios e manifestações para apoiar o fuzilamento de Bukharin, Rykov e outros antigos líderes bolcheviques. Tomando a palavra numa assembleiaem Paris, a 3 de junho de 1938, Maurice Thorez, líder do Partido Comunista Francês, afirmou: “A justiça da União Soviética prestou inestimável serviço à causa da paz, golpeando impiedosamente os traidores trotskistas-bukharinistas, esses assassinos e agentes da Gestapo, elementos da ‘quinta coluna’, cagoulards que tiveram alguns a chorar por eles na Inglaterra, mas que foram punidos com a necessária severidade”. Na primavera de 1938, um “numeroso grupo de comunistas franceses” enviou uma carta a Ekhov, chefe da NKVD, onde se lia: “A sua firmeza e a sua vontade indomável levaram ao desmascaramento dos infames agentes do fascismo […] Asseguramos-lhe a nossa plena confiança na justiça popular, que puniu os traidores como eles mereciam”.Um processo em separado “depurou” a diplomacia soviética (com Karakhan como principal acusado) e o secretariado executivo dos soviets.

A repressão se abateu sobre centenas de milhares de membros do PCUS, que eram, no entanto, fiéis stalinistas. Paralelamente aos processos públicos aconteceram os processos “a portas fechadas”, provavelmente devido à impossibilidade de extorquir confissões dos acusados, ou de apresentá-los em público: em junho de 1937, a condenação e execução da cúpula do Exército Vermelhoe de seus chefes, o marechal Tukhachevsky e o general PiotrIakir (que tinham atuado na guerra civil sob o comando de Trotsky); em julho de 1937, o processo, condenação e execução dos dirigentes do Partido Comunista da Geórgia (Mdivani e Okudjava, os comunistas da Georgia que em 1922 fizeram apelo a Lênin contra a “russificação” staliniana); em dezembro de 1937, a continuação do anterior, com a condenação e execução de Enukidzé. Com os fuzilamentos em massa de oposicionistas de esquerda na Sibéria, em 1938, aekhovtchinastalinista ficou completa.

A “poda”do Exército Vermelho teve uma importância para os destinos da URSS: em junho de 1937, o marechal Tukhachevsky, vice-ministro de Defesa, foi submetido a julgamento secreto, condenado à morte e executado quarenta e oito horas mais tarde, junto a outros sete generais que constituíam a flor e a nata do Exército Vermelho. Poucos dias antes, o general Gamalrik, comissário geral do Exército, tinha se “suicidado”. A 1° de maio de 1937, o marechal Tukhachevsky estava ao lado de Stalin, no mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha, passando em revista os manifestantes. No dia 12 de junho, a execução de Tukhachevskye de outros conhecidos oficiais e generais foi secamente anunciada. A sentença de morte de Tukhachevskytinha sido assinada pelos outros quatro marechais do Exército Vermelho: Vorochilov, Budienny, Blucher e Yegorov. Os dois últimos, logo depois foram também arrastados pela sangrenta enxurrada do terror.

Aquele era apenas o início do grande expurgo que dizimou a oficialidade do Exército Vermelho. Em questão de poucos meses e após uma farsa de sumaríssimo julgamento – quando este chegava a ser realizado – foram sucessivamente eliminados todos os generais que comandavam distritos militares, entre os quais conhecidos veteranos da guerra civil de 1918-1921, como Uborevich e Iakir, assim como todos os comandantes de corpos de Exército. Poucos generais de divisão escaparam do fuzilamento ou internação em campos de trabalho forçado na Sibéria, assim como mais da metade dos coronéis integrantes dos quadros de comandantes de regimento. No total, de um terço à metade dos 75 mil oficiais do Exército Vermelho desapareceu, entre fuzilados ou deportados para os campos de trabalho forçado controlados pela polícia secreta.Os generais foram acusados de espionagem em favor da Alemanha nazista e de preparar um complô junto a Hitler para favorecer uma derrota soviética.

Os acusados eram heróis da guerra civil: PiotrIakir, comandante militar de Leningrado, Uborevich comandante do distrito ocidental, Kork comandante da Academia Militar, e o chefe da cavalaria Primakov. O marechal stalinista Vorochilov, ministro da Defesa, acusou-os poucos dias mais tarde de serem coniventes com Trotsky. “O Exército Vermelho foi decapitado”, declarou Trotsky, ao inteirar-se das execuções. Formados junto a ele durante as guerras civis, considerava-os, à margem de não ter afinidade política especial com eles, como os melhores quadros do Exército Vermelho e, de longe, os mais populares e capazes.O processo dos generais foisó parte de um expurgo que desintegrou as Forças Armadas soviéticas. Em agosto de 1937, segundo LeopoldTrepper, “Stalin reuniu os dirigentes políticos do Exército para preparar a depuração dos ‘inimigos do povo’ que poderiam existir nos meios militares. Aquele foi o sinal para iniciar a matança: treze dos 19 comandantes do Exército, 110 de seus 130 comandantes de divisão e de brigada, a metade dos comandantes de regimento, e a maior parte dos comissários políticos, foram executados. O Exército Vermelho, assim desintegrado, ficou fora de combate por alguns anos”.[xii]A invasão da URSS pela Alemanha nazista, em junho de 1941, evidenciaria o tamanho do estrago realizado.

Calcularam-se em mais de 35 mil os oficiais assassinados. O expurgo do quadro de oficiais do Exército Vermelho prosseguiu até a invasão da União Soviética pelos alemães e seu preço foi pesadíssimo. Em 1940, mais de 10% dos generais de divisão, quase 70% dos comandantes de regimento e 60% de todos os comissários políticos eram oficiais recém-promovidos, sem qualquer experiência para o exercício de suas novas funções. Um levantamento efetuado nesse mesmo ano demonstrou que 225 coronéis comandantes de regimento tinham sido promovidos sem cursos de estado-maior. Deles, somente 25 tinham completado curso regular de formação em academias militares. Concluído o expurgo, constatou-se que somente 7% dos oficiais do Exército Vermelho haviam feito cursos de preparação superior, ao passo que 37% jamais haviam frequentado um centro de preparação para oficiais de carreira. Finalmente, entre 1939 (com a execução em Moscou de numerosos velhos bolcheviques – Kogan, Nicolaiev e Novikov, entre eles – e setembro de 1941, quando Stalin ordenou a execução de 170 detidos, entre os quais Christian Rakovsky, Olga Kameneva (irmã de Trotsky e esposa de Lev Kamenev), V. D. Kasparova, completou-se (incluindo o assassinato de Trotsky, em 1940) a exterminação física dos remanescentes da velha guarda bolchevique.[xiii]

No quadro dos “Processos de Moscou”, o choque entre Stalin/GPU (NVKD) e o Exército Vermelho era inevitável. Em 1937, os comandos do Exército estavam formados pelos quadros surgidos durante a guerra civil, a maioria deles sob o comando de Trotsky, fundador do Exército. Mesmo não tendo sido oposicionistas, a crise permanecia latente. Os chefes do Exército tinham relativa autonomia, e não deviam seus cargos a Stalin. A popularidade deles era muito grande, em particular a de Tukhachevsky, reconhecido como o modernizador que havia posto o Exército Vermelho em um alto nível técnico e estratégico (mecanização, paraquedismo). Tukhachevsky e os comandos do Exército Vermelho viam com inquietude a evolução da Alemanha nazista e consideravam inevitável um conflito militar com ela. Mesmo que Tukhachevsky e Kirov não fossem líderes políticos comparáveis a Trotsky e Zinoviev, a autoridade de um sobre o Exército e de outro sobre a própria burocracia transformava-os em rivais potenciais perigosos para Stalin.No balanço final da repressão do período, quase todos os “revolucionários profissionais” da época pré-revolucionária e da guerra civil, a maioria dos companheiros de Lênin, foram assassinados. Seu lugar no partido foi ocupado por homens que nele ingressaram no período stalinista: foi o início da “carreira” dos Brezhnev, Kossyguin, Gromyko, que se uniram aos “homens de Stalin” (Beria, Malenkov, Postrebychev). O “culto à personalidade” de Stalin desenvolveu-se contra o pano de fundo da destruição de boa parte das conquistas sociais da revolução e o reforço sem precedentes da disciplina do trabalho. O stalinista foi um regime de terror permanente, não só da burocracia sobre a população e as oposições políticas, mas também dentro da própria burocracia.

Houve resistência, inclusive em condições limítrofes. No outono de 1936, depois do primeiro “Processo de Moscou”, militantes exilados em campos de trabalho siberianos organizaram comícios e manifestações de protesto, e depois uma greve de fome, decidida em assembleia geral. Suas reivindicações foram, segundo Maria Ioffé [filha do exdiplomata soviético Abraham Ioffé e sobrevivente dos campos de trabalho, viva até a década de 1990]: 1) O reagrupamento dos presos políticos, separando os criminosos daqueles de direito comum; 2) A reunião das famílias dispersas em campos diferentes; 3) Um trabalho conforme à especialidade profissional; 4) O direito de receberem livros e jornais; 5) A melhora das condiçõesde alimentação e de vida. O menchevique “MB” acrescentou a jornada de oito horas, o envio fora das regiões polares dos inválidos, das mulheres e dos idosos:“No comitê de greve estavam G.J. Iakovin, SokratGevorkian, VassoDonadzé e Sacha Milechin, todos “bolchevique-leninistas” (partidários de Trotsky), os três primeiros veteranos das greves de fome de 1931 e1933 em Verkhneuralsk”.[xiv] Menos de dois anos depois, todos esses grevistas foram exterminados.

Durante o “grande terror”, os expurgos atingiram os aparelhos de segurança da URSS. Um de seus quadros dirigentes, Pável Sudoplátov, lembrou disso à sua maneira: “Muitos de nossos amigos, gente em quem confiávamos completamente, haviam sido detidos sob acusação de traição. Nós supunhamos que aquilo era o resultado da incompetência de Ekhov. Quero revelar aqui um fato importante, que os livros dedicados à história da polícia política soviética passaram por alto. Antes de Ekhov assumir o comando da NKVD, não existia nenhum departamento especial para investigações internas. Isto queria dizer que o agente de enlace devia investigar pessoalmente qualquer delito cometido por seu pessoal. Ekhov criou o Departamento de Investigações Especiais dentro da NKVD [com esse objetivo]”.[xv] Outro membro do aparelho clandestinointernacional da URSS, conhecido mundialmente graças ao seu livro de memórias, Jan Valtin (codinome de Richard Krebs), talvez deva a sua vida ao contato com os trotskistas no exterior da URSS, pois se encontrava em situação extremamente difícil (buscado simultaneamente pela Gestapo hitleriana –Krebs era alemão– e pela NKVD) no momento da sua ruptura com Stalin: “Depois que tomou a sua decisão, Valtin foi para Anvers [porto na Bélgica] onde, segundo o agente da Gestapo ‘König’, um grupo trotskista, chefiado por certo Jiske, ajudou-o a embarcar em um barco inglês destinado aos EUA, onde chegou em fevereiro de 1938”.[xvi] O próprio chefe da inteligência (“espionagem”) soviética no ocidente durante a Segunda Guerra Mundial –a Orquestra Vermelha–, Leopold Trepper,[xvii]reconheceu, nas suas memórias, o papel central dos trotskistasda URSS na luta contra o stalinismo, na década de 1930.[xviii]

A “limpeza” também chegou à Internacional Comunista: direções inteiras de diversos partidos comunistas foram executadas. Segundo Trepper, pereceram 90% dos militantes comunistas estrangeiros residentes em Moscou. Stalin assinava listas de condenações que continham, às vezes, milhares de nomes. Foram “depurados” os PCs da Ucrânia e Bielorrússia, as Juventudes Comunistas (Komsomol). O sindicalista e delegado da Internacional Comunista na China, Lominadzé, se suicidou. Outros foram fuzilados a portas fechadas, irredutíveis ou impresentáveis para um processo púbico: Préobrazhenski, Slepkov, Riutin, Smilga, o general Dimitri Schmidt, Gaven (ex-secretário de Trotsky), todo o comando político do Exército Vermelho (Antonov-Ovseenko, Bubnov, Gamarnik), a velha direção da Internacional Comunista residente em Moscou (Piatniski, Béla Kun, dezenas de comunistas alemães, o suíço Fritz Platten, companheiro e amigo de Lênin). Direções inteiras dos PCs estrangeiros foram convocadas a Moscou e executadas (entre outras, as dos PCs da Iugoslávia, excluído Tito, e da Polônia). A máquina de executar se precipitou também sobre juristas, historiadores, pedagogos, filósofos, físicos, matemáticos, biólogos, cientistas e artistas em geral: o diretor teatral Meyerhold foi executado após ser obrigado a beber a própria urina, foi fuzilado o romancista Isaak Babel (A Cavalaria Vermelha), símbolo literário de 1917…

Durante a “Era Ekhov” foram fuzilados em torno de 600 mil pessoas, incluídos inúmeros miluitantes comunistas, com destaque para os “trotskistas”, a velha guarda bolchevique e altos oficiais do Exército Vermelho. Com a deposição e execução de Ekhov, Stalin procurou sinalizar não concordar com os “excessos” ocorridos durante o Grande Terror (1934-1938). Por seu pequeno tamanho, Ekhov ficou conhecido como o “Anão Assassino”. Numerosos foram os militantes e simpatizantes, dentro e fora da URSS, que se afastaram do stalinismo horrorizados com a repressão e o extermínio político. Cabe mencionar o galês Burnett Bolloten, correspondente da agência United Press na Espanha durante os primeiros anos da guerra civil. Instalado no México com uma enorme documentação espanhola (foi autor de um célebre estudo sobre a guerra civil), teve uma experiência com seus amigos “comunistas” do país asteca, pois logo depois do atentado de 24 de maio de 1940 contra Trotsky, Vittorio Vidali lhe pediu para esconder Tina Modotti, procurada pela polícia por esse atentado. Passou então a analisar a sua documentação sob um ângulo novo, e a defender a revolução espanhola destruída pelo stalinismo. Em 1961, publicou uma das mais completas denúncias do papel do stalinismo na revolução e na guerra civil espanholas.[xix]

O mais importante, porém, foi o “caso Ignace Reiss” (codinomedo polonês Ignacy Poretski), um dos mais importantes agentes da NKVD na Europa ocidental, que rompeu com o stalinismo denunciando não só os seus crimes, mas também sua base política, e aderindo à IV Internacional: “O dia em que o socialismo internacional julgar os crimes cometidos no curso dos dez últimos anos está próximo. Nada será esquecido, nada será perdoado. A história é severa: ‘o chefe genial, o pai dos povos, o sólido socialismo’ darão conta de seus atos: a derrota da revolução chinesa, o plebiscito vermelho [na Alemanha], o esmagamento do proletariado alemão, o social-fascismo e a frente popular, as confidências ao senhor Howard, o idílio enternecido com Laval: todas elas histórias insólitas! Esse processo será público e com testemunhas, uma multidão de testemunhas, mortos e vivos: todos falarão uma vez mais, porém desta vez para dizer a verdade, toda a verdade. Comparecerão todos esses inocentes destruídos e caluniados, e o movimento operário internacional reabilitará a todos, a Kamenev, Mratchkovski, Smirnov, Muralov, Drobnis, Serebriakov, Mdivani, Okudjana, Rakovsky e Andreu Nin, todos esses ‘espiões e provocadores, todos esses agentes da Gestapo e sabotadores’! Para que a União Soviética e o movimento operário internacional em seu conjunto não sucumbam definitivamente sob os golpes da contrarrevolução aberta e do fascismo, o movimento operário deve se desvincular de Stalin e do stalinismo”.[xx]

Reiss anunciou sua ruptura com Stalin numa carta ao Comitê Central do PCUS de julho de 1937 (citada acima) na qual anexou a “Ordem da Bandeira Vermelha”, condecoração que tinha obtido em 1928, pois “seria contrário à minha dignidade levá-la ao mesmo tempo que os carrascos dos melhores representantes da classe operária russa”. Vítima de uma cilada da NKVD, Reiss foi assassinado pouco depois em Lausanne (Suíça). Trotsky concluiu que a ruptura de “Ludwig” (outro codinome de Reiss) era, além de uma atitude corajosa, o índice claro de que “mais de um membro do aparelho de Stalin vacila”, embora estes não tirassem a conclusão de Reiss: “Pretendo consagrar minhas humildes forças à causa de Lênin: quero combater, pois somente nossa vitória –a vitória da revolução proletária– libertará a humanidade do capitalismo e a União Soviética do stalinismo! Avante para novos combates pelo socialismo e pela revolução proletária! Pela construção da IV Internacional!”.

Sudoplátov admitiu o assassinato de Reiss pela NKVD, fornecendo inclusive os nomes dos executores (o búlgaro Boris Afanasiev e o russo Viktor Pravdin), mas procurou um álibi que não só ignorousuas motivações políticas, como também deformou os acontecimentos: “Reiss, aliás Poretski, era um espião sediado na Europa ocidental, que havia recebido grandes somas de dinheiro, das que não havia prestado contas, e temia ser vítima dos expurgos. Reiss decidiu fazer uso dos fundos operacionais para desertar, e assim foi como depositou dinheiro em um banco norte-americano. Antes de desertar em 1937, Reiss escreveu uma carta à embaixada soviética em Paris denunciando Stalin. Acarta conseguiu chegar até uma publicação trotskista; foi um erro decisivo. Do expediente de Reiss, se percebia que nunca havia simpatizado com Trotsky”.[xxi] Quando isso foi escrito, já se sabia que não “a carta”, mas seu autor em carne e osso, tinha se entrevistado com os trotskistas, notadamente com o holandês Henk Sneevliet (deputado na Holanda, ex-funcionário da Internacional Comunista na China sob o codinome “Maring”) antes de redigir a carta. No seu Trotsky, de 1988, Pierre Broué ainda sustentava que os assassinos de Reiss pertenciam ao “grupo de Paris” chefiado por Serguei Efron, com o mafiosoRoland Abbiate e a professora suíça Renata Steiner, que tinha tentado sequestrar Leon Sedov em 1937.[xxii]Sudoplátov esclareceu essa imprecisão.

O abalo brutal da URSS na década de 1930foi o resultado do processo de burocratização desenvolvido previamente: “Entre 1936 e 1938, num fenômeno sem precedentes na história, a direção do partido fez um gigantesco golpe de estado: aproximadamente 80% dos quadros do partido foram substituídos, foi levantado um novo partido, com Stalin na cabeça, um novo conjunto de quadros na economia e na agricultura, no exército”.[xxiii]Consumado o grande expurgo, a 13 de novembro de 1938 o Comitê Central e o Conselho dos Comissários do Povo decidiram (em texto não publicado) um abrandamento da repressão. A 8 de dezembro foi anunciado que o responsável da NKVD, Ekhov, abandonava o seu posto; logo depois seria fuzilado. Milhares, entre os mais cruéis torturadores da NKVD, foram torturados e fuzilados. Alguns milhares de pessoas foram libertados, como os futuros marechais Rokossovski e Meretskov, o futuro general Gorbatov, o físico Landau e Tupolev, o construtor de aviões. O número de novas prisões diminuía, mas não parava. Eikhe, ex-membro do Politburo, foi fuzilado em 1940. Numerosos oficiais que tinham servido em Espanha foram presos e fuzilados quando voltaram. Foi o caso de Antonov-Ovseenko (que tinha planejado a insurreição e a tomada do Palácio de Inverno em 1917), do general Stern, de Gorev e de muitos outros. Foi nessas condições que se abriu o XVIII Congresso do PCUS, em abril de 1939. Milhões de soviéticos estavam ainda deportados; três antigos membros do Politburo, Tchubar, Eikhe e Postychev, estavam na prisão, prestes a serem fuzilados. Iakovlev foi fuzilado quando transcorria o Congresso. Dos 1827 delegados ao XVIII Congresso, somente 35 tinham estado presentes no XVII Congresso, de 1934 (ou seja, apenas 2%).[xxiv]

No restante do mundo, a intelectualidade de esquerda e os “companheiros de estrada” dos partidos comunistas sofreram um abalo profundo. Daí a importância das declarações feitas, no meio dos “Processos”, pelo romancista André Malraux, símbolo mundial da “intelectualidade engajada”, e amigo pessoal de Trotsky: “Trotsky é uma força moral no mundo, mas Stalin deu dignidade à humanidade e, da mesma maneira que a Inquisição não atingiu a dignidade fundamental do cristianismo, os processos de Moscou não diminuíram a dignidade fundamental do comunismo”.[xxv]Trotsky, indignado, rompeu relações com Malraux. A quantidade e, por assim dizer, “qualidade” das mortes, só admitiam comparação com a monstruosidade delirante das acusações.

A admissão passiva delas pelos governos e a intelligentsia ocidentais constituiu, para Victor Serge, a “falência da consciência moderna”: “Eu lia na Pravda as resenhas truncadas dos processos. Apontava centenas de fatos inverossímeis, contrasentidos, grossas deformações, afirmações insensatas. Mas o delírio era também um dilúvio. Apenas tinha concluído de levantar um monte de imposturas, um monte maior chegava, varrendo o trabalho da véspera. Isto ultrapassava todos os limites. O Intelligence Service misturava-se à Gestapo, ao Japão, os acidentes ferroviários viravam crimes políticos, a grande fome da coletivização [agrária] tinha sido organizada pelos trotskistas (todos presos na época!), uma multidão de acusados a espera de processo desaparecia nas trevas, milhares de execuções eram realizadas sem nenhum processo, e havia nos países civilizados juristas instruídos e ‘avançados’, que consideravam esses procedimentos normais e dignos de crédito. Tudo virava uma lamentável falência da consciência moderna. Na Liga Francesa dos Direitos Humanos havia juristas de essa espécie: ela se dividia entre uma maioria contrária a qualquer investigação a respeito, e uma minoria desencorajada, que se retirava. O argumento mais comum era: ‘Rússia é a nossa aliada’…”.[xxvi]

Houve vozes que protestaram, minoritárias: o esforço de Victor Serge, que constituiu em Paris, junto com o poeta surrealista André Breton, o pacifista Félicien Challaye, o “poeta proletário” Marcel Martinet, veterano da “esquerda de Zimmerwald”, escritores socialistas como Magdeleine Paz e André Philip, Henry Poullaille e Jean Galtier-Boissière,dirigentes pioneiros do PCF como Pierre Monatte e Alfred Rosmer, militantes de esquerda (Georges Pioch, Maurice Wullens, Emery), historiadores como Georges Michon e Maurice Dommanget, um “Comitê pela Investigação dos Processos de Moscou e pela Liberdade de Opinião na Revolução”. Leon Sedov tentou, em vão, constituir uma comissão independente na Suíça, com ajuda de um advogado de Basileia.

O mais importante foi a constituição de uma comissão nos Estados Unidos, que colheu o depoimento de Trotsky no México (depois de tentar em vão obter um visto para que pudesse fazê-lo nos EUA). Entre seus membros, apenas um amigo de Trotsky: Alfred Rosmer. Os outros membros eram de diversas tendências, sindicalistas, radicais, anarquistas, comunistas, na maioria politicamente adversários de Trotsky. O presidente da Comissão foi o filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey. Após meses de trabalho extenuante e meticuloso, cada ítem e cada acontecimento histórico haviam sido investigados e analisados, até se eliminar toda sombra de dúvida. O veredicto da Comissão Dewey foi de total e absoluta inocência dos acusados: “Com base em todas as provas em nosso poder afirmamos que os processos realizados em Moscou em agosto de 1936 e janeiro de 1937 não passam de uma fraude… Declaramos inocentes Lev Davidovitch Trotsky e Leon Sedov”. Ao lado de John Dewey, Suzanne La Follette e Otto Rühle (ex deputado comunista no Reichstag alemão)tiveram importante papel nessa comissão, que teve forte repercussão na intelectualidade e na opinião pública dos Estados Unidos.[xxvii]

Os raros sobreviventes dos “Processos de Moscou” deixaram clara a armação. Vladimir Astrov, “velho bolchevique”, incorporado ao partido antes da Revolução de Outubro, jornalista e historiador que pertenceu ao grupo de Bukhárin na década de 1920, foi preso em 1933, e se converteu em seksot, colaborador secreto da NKVD; acareado com Bukharin, afirmou que a oposição “direitista” havia preconizado o terrorismo em geral e o assassinato de Stalin em particular. Quando escreveu a respeito em 1989, com noventa anos de idade, disse que pensara que os investigadores eram representantes do partido e havia acatado suas exigências, o que havia terminado na acareação com Bukharin; depois, caso excepcional, saiu da prisão. A principal defesa política de Trotsky, no momento dos Processos, foi realizada pelo seu filho, Leon Sedov, que não só trabalhou para a criação das “comissões” na França e nos Estados Unidos (e no frustrado “contra-processo” suíço), mas também publicou, em finais de 1936, o Livro Vermelho dos Processos de Moscouç

O livro desmontou a falsidade de facto e jurídica dos processos, e analisou sua lógica política: “Quando Trotsky estava ainda na URSS, nas mãos da camarilha thermidoriana, Stalin tinha pensado que uma operação minuciosa finalizada no exílio era o melhor meio de se livrar de um bolchevique irredutível. Enganou-se, e não é necessário ser muito perspicaz para perceber o quanto esse erro o angustia. Hoje, diante da oposição renascida e em crescimento, faz fuzilar friamente bolcheviques, velhos dirigentes do partido e da IC, heróis da guerra civil. Stalin quer a cabeça de Trotsky, esse é seu objetivo principal. Irá até o fim para conseguí-lo. Qualquer ilusão contrária foi dissipada pelo Processo de Moscou. Stalin odeia Trotsky como representante vivo das ideias e tradições da Revolução de Outubro, que atrai todo o que resta de revolucionário na URSS. Para ter a sua cabeça, Stalin se livra às piores intrigas na Noruega, e prepara outras na Sociedade das Nações [a URSS tinha sido nela admitida a partrir de 1933, NDA], preparando o terreno para a extradição de Trotsky. É por isso que o governo soviético manifestou grande interesse pela colaboração policial internacional contra os terroristas, por ocasião do assassinato do rei da Iugoslávia”.[xxviii]

Voltemos no tempo, para mesurarmos a importância política da perseguição a Trotsky.A 20 de fevereiro de 1932, quando ele ainda se encontrava na ilha turca de Prinkipo, Stalin o privou da nacionalidade soviética, por decreto especial. A importância do fato consiste em que, daí em diante, qualquer russo que entrasse em contato com Trotsky se tornava responsável por manter relações não apenas com a oposição política interna, mas também com um traidor estrangeiro ou, para usar as palavras de Stalin, “com o líder da vanguarda da contrarrevolução mundial”. A influência internacional de Trotsky, sobretudo no interior da Internacional Comunista, cresceu com a vitória de Hitler, em janeiro de 1933, poisfoi o primeiro – e, na época, o único – que procurou prevenir os operários e comunistas alemães e o Komintern contra Hitler, incitando-os a formarem uma Frente Única Operária contra o nazismo: segundo o jornalista Joseph Gorgerinski, “foram palavras jogadas ao vento. Naquele tempo, ninguém havia previsto que Hitler iria instaurar um regime totalitário. Todos o julgaram apenas mais um político ambicioso que almejava criar a seu redor um partido reacionário qualquer. Stalin afirmou que ‘o fascismo e a socialdemocracia são irmãos gêmeos’. E Trotsky: ‘Trabalhadores alemães, se Hitler subir ao poder, não haverá mais a mínima esperança para vós’. E previu tudo, tudo o que aconteceu a seguir…”. Os partidários da “Frente Única Operária” no SPD (partido socialdemocrata alemão) foram excluídos: eles, entre os quais se encontrava Willy Brandt (futuro líder da Alemanha ocidental e da Internacional Socialista) constituíram o SAP (Partido Socialista Operário), com milhares de membros; esse partido, em 1933 (depois da ascensão de Hitler,) assinou, junto aos partidários de Trotsky (organizados na “Liga Comunista Internacionalista”) e a dois partidos socialistas holandeses, uma declaração em favor da IV Internacional, a “Declaração dos Quatro”.

Trotsky, simultaneamente, manteve seus contatos com partidários e simpatizantes oposicionistas na URSS, inclusive nos aparelhos de segurança, às vezes com consequências trágicas, como no caso do ex-socialista revolucionário Blumkin, membro da GPU e autor do assinato do conde Von Mirbach, embaixador alemão na URSS, em 1918: “De passagem por Constantinopla [Istambul], Blumkin encontrou na rua Leon Sedov (filho de Trotsky). Ljova o levou a Prinkipo. Teve aí uma longa conversa com o Velho, e aceitou levar uma mensagem aos oposicionistas russos. Blumkin voltou à Rússia, onde foi detido e executado. Pensou-se que tinha feito confidência do seu encontro ao seu amigo Radek, que o teria entregue. Outros dizem que Radek, temeroso da confidência, lhe aconselhou desastradamente confiar em Ordjonikidzé, presidente da Comissão de Controle e amigo comum a ambos. Outrosaté falaram na traição de uma mulher”.[xxix]A execução de Blumkin foi a primeira de uma longa série, que iria dizimar a grande maioria dos protagonistas relevantes do período da revolução e da guerra civil de 1917-1921.

No início da década de 1930, a influência de Trotsky, na URSS e internacionalmente, começava a alarmar Stalin. Segundo Sudoplátov: “Desde o exílio, seus esforços [de Trotsky] para cindir e logo controlar o movimento comunista mundial estavam prejudicando Stalin e a União Soviética. O desafio de Trotsky a Stalin confundiu o movimento comunista e debilitou nossa posição na Europa ocidental e na Alemanha durante os anos 1930”.[xxx]As organizações da Oposição de Esquerda, que ainda se proclamavam parte da Internacional Comunista, foram sumariamente excluídas dos partidos comunistas: em alguns países, elas eram numericamente maiores do que as seções “oficiais” da Internacional: na Polônia (onde militava o futuro biógrafo de Trotsky, Isaac Deutscher, que representou o país no congresso de fundação da IV Internacional), na Tchecoslováquia, na Grécia, na Espanha, e inclusive em dois países latino-americanos: Cuba e Chile. Partidos ou grupos comunistas desses países aderiram às teses da Oposição de Esquerda. No conjunto, porém, a Oposição era extremamente minoritária.

Para Pierre Broué, as tentativas stalinistas de assassinar Trotsky foram anteriores à sua partida para o México, em 1937: “[Elas] estiveram sempre nas inquietudes de seus camaradas. No primeiro período de seu exílio, duas tentativas merecem atenção, as duas vindas de ‘brancos’ manipulados pela GPU: a do grupo Turkul e a de Larionov. Nunca, pelo que se sabe, conseguiram localizar seu alvo. Mas o grupo principal [da GPU] de Paris apareceu em 1935, o grupo de Efrom, que seguiu Sedov, preparou seu sequestro em Antibes, assassinou Ignace Reiss, e tentou envenenar a mulher e o filho deste. Esse grupo tinha também Trotsky na sua mira”.[xxxi] Os “brancos” anticomunistas, o bando contrarrevolucionário russo da guerra civil de 1918-1921, tinha todos os motivos para odiar Trotsky, chefe militar de seus vencedores “vermelhos”. Gérard Rosenthal, advogado de Trotsky na França, confirmou Broué, com diferença de alguns meses: “No início do verão de 1936, uma rede de espionagem foi constituída por Serge Efrom, compreendendo também Marcel Rollin (Smirenski), o falso fotógrafo Louis Ducomet (‘Bob’) e François Rossi, ou seja, Roland Abbiate, com mais dois ou três comparsas não identificados. Essa rede estava dotada de uma mensalidade regular”.[xxxii] Efrom era casado com a poeta russa Marina Tsévátieva: o ponto comum entre seu grupo e o “grupo Turkul” era a presença em ambos de exilados russos “brancos” (inclusive ex-oficiais do general czarista Wrangel) e membros do submundo europeu (como Abbiate). Como o revelaram diversas affaires depois desvendadas, o serviço secreto soviético não vacilava em recrutar nos meios criminosos, e preferia agir através de pessoas interpostas, de preferência estrangeiros.[xxxiii]

O assassinato de Trotsky, consumado em 1940, comoveu o mundo. Rapidamente, porém, ele desapareceu dos comentários e manchetes de jornal, abafado pelos acontecimentos da “guerra europeia” (a Segunda Guerra Mundial), iniciada com a invasão conjunta da Polônia pelos exércitos da Alemanha e da URSS, um resultado do Pacto Hitler-Stalin celebrado em 1939 (a partilha da Polônia era uma das suas cláusulas secretas), pacto ao qual o assassinato de Trotsky se vinculou por mais de um fio. Com os anos, o fato cresceu até tornar-se um momento-chave da história contemporânea. No entanto, para Eric Hobsbawm: “De longe o mais prestigioso dos hereges, o exilado Leon Trotsky – co-líder da Revolução de Outubro e arquiteto do Exército Vermelho – fracassou por completo em seus esforços políticos. Sua IV Internacional, destinada a competir com a stalinizada Terceira Internacional, foi praticamente invisível. Quando foi assassinado por ordem de Stalin em seu exílio no México, em 1940, a importância política de Trotsky era insignificante”.[xxxiv] Em 1940, Trotsky estava certamente isolado. A apreciação de Hobsbawm parte dos seguintes pressupostos: 1) Trotsky carecia de qualquer importância política nesse período; 2) Seu assassinato não teve, portanto, nenhum vínculo com os acontecimentos políticos correntes, e nenhuma influência neles; 3) Teria sido fruto exclusivo de uma vingança pessoal de Stalin.

A hipótese de que o assassinato resultou de uma vingança do seu arqui-inimigonão é surpreendente, se levarmos em conta que o mandante do assassino já tinha demonstrado sua falta de escrúpulos. As características doentio-vingativas de Stalin já haviam sido apontadas por Trotsky (Stalin não procurava “atingir as ideias dos seus adversários, mas sim o seu cérebro”). A interpretação de Hobsbawm tende a apagar as divergências políticas entre Stalin e Trotsky, e descarta que o assassinato fizesse parte de uma luta entre forças políticas e sociais contraditórias. A importância do crime ficaria reduzida à de testemunho da psicopatologia elevada à razão de Estado, onde só a figura do assassino ganharia contornos históricos. Na medida em que essa interpretação apoiou-se em elementos reais (a conturbada psique staliniana), ela adquiriu valor explicativo. Sem explicar por que, apesar de Stalin comandar pessoalmente a caçada ao exilado Trotsky, esta foi transformada em “assunto de Estado”, mobilizando a diplomacia soviética, que pressionou o governo francês de Laval para que não fosse concedido asilo político a Trotsky, além dos serviços de inteligência. Na NKVD se constituiu uma “seção Trotsky”, com dezenas de funcionários e oficiais militares consagrados à perseguição, e Stalin fez de Trotsky réu principal in absentia dos “Processos de Moscou” não desistindo do projeto depois do fracasso de uma inicial tentativa dos stalinistas mexicanos.

O exilado de Coyoacán não era uma personagem política insignificante nesses anos. Na década de 1930 não escapava a nenhum bom observador a potencial instabilidade política da ditadura stalinista, e o papel que, nesse quadro, poderia jogar o fundador, junto com Lênin, do Estado soviético. O constrangimento com que, nos anos 1930, meia dúzia de governos ocidentais se livraram de Trotsky, ao arrepio das elementares normas de direito de asilo, até o líder ser aceito num país ainda governado por pessoas que tinham de fato lutado pela democracia, só pôde ter tido razões vinculadas ao peso político internacional que Trotsky ainda possuía. Segundo uma ex-dirigente alemã da Internacional Comunista, “o governo francês deu a Trotsky o direito de residir na França no mesmo momento em que se aproximava de Moscou. Cabe supor que tinham informações acerca da fragilidade da situação de Stalin, e do reagrupamento da oposição (na URSS). Considerava-se possível um retorno de Trotsky a Moscou, e pode ter sido vista como uma boa política, em 1933, dar a Trotsky um tratamento amistoso, com um olho posto numa futura reorganização do Politburo russo”.[xxxv]

Na URSS, a influência de Trotsky crescia entre os opositores antiestalinistas. Mas os trotskistas organizados estavam na sua quase totalidade deportados na Sibéria. Na Espanha, os trotskistas e o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) foram perseguidos na própria República em guerra contra o franquismo; o líder do POUM, Andreu Nin, entre outros comunistas antiestalinistas, foi sequestrado e assassinado por agentes da NKVD. Entre os fuzilados do grande expurgo de 1937, cabe contar os agentes da NKVD Serguei Efrom, Vadim Kondratiev e Roland Abbiate, que participaram, como vimos acima, das primeiras tentativas de assassinar Trotsky (coordenados, segundo Sudoplátov, por Spiegelglass): sem dúvida, tratou-se menos de um castigo à ineficiência, do que de uma garantia de discrição, a conhecida “queima de arquivo”.

Para Trotsky, os “Processos de Moscou” e a repressão na União Soviética significaram o recrudescimento da sua perseguição. Depois da estadia na Turquia, foi expulso da França para a Noruega, e “internado” neste país em 1936 pelo governo socialdemocrata de Trygve Lie, não sem antes ter sua casa queimada e parte dos seus arquivos roubados por um grupo nazista norueguês. Trotsky viu na ação uma provável conivência com a GPU russa, conhecedor do modo de agir indireto do serviço de Stalin, suspeita indiretamente confirmada pelo comentário posterior do chefe da Noruega ocupada por Hitler, o colaboracionista nazista Quisling (“Teria sido mais simples entregá-lo à embaixada russa. Provavelmente o teriam enviado a Moscou em uma urna…”). Trotsky enfrentava, na verdade, uma coalizão stalino-nazista com cobertura socialdemocrata: “Entre o ataque nazista e a saída de Trotsky da Noruega, a cumplicidade da URSS e a Alemanha nazista foi visível nas tomadas públicas de posição de ambas e das organizações políticas a elas vinculadas. Ambas afirmavam defender a Noruega e suas leis, contra um revolucionário sem fé nem lei, para os nazistas; contra um contrarrevolucionário terrorista, para a URSS. Ambas estavam de acordo nas acusações, nas injúrias e nas ameaças, e também na reivindicação da expulsão de Trotsky da Noruega, que colocaria a possibilidade de um sequestro pela URSS, onde o esperava um assassinato judicial”.[xxxvi]

A obtenção do asilo político no México, em 1936, deu a Trotsky o prazo suplementar que esperava da vida, por motivos políticos: “O desmoronamento das duas Internacionais trouxe um problema que nenhum dos seus chefes tem possibilidade de enfrentar. As particularidades de meu destino pessoal me colocaram diante desse problema, armado com uma séria experiência. Oferecer um método revolucionário à nova geração, por cima das cabeças dos chefes da II e III Internacionais, é uma tarefa que não tem, afora minha pessoa, homem nenhum que a possa cumprir (…) Preciso ainda de pelo menos cinco anos de trabalho ininterrupto para assegurar a transmissão desta herança”, escreveu Trotsky em 1935.[xxxvii] Ele teria pouco menos cinco anos de vida suplementar. O “perigo Trotsky”, seu peso político potencial nos acontecimentos, não se devia só ao seu relevante papel na fundação do Estado soviético, ainda vivo na memória coletiva. O assassinato de Trotsky foi parte da dizimação de uma corrente política, que sustentava perante a guerra mundial uma política semelhante à defendida pelos bolcheviques durante guerra precedente, também propondo uma revolução anti-burocrática na URSS. Foi o aspecto central da tentativa, em boa parte bem sucedida, de liquidar essa corrente e seu papel potencial diante da catástrofe mundial.

As etapas prévias e os fatos do assassinato de Trotsky são conhecidos. Na noite de 24 de maio de 1940, aproximadamente 25 indivíduos disfarçados de policiais conseguiram entrar na sua residência de Coyoacán, subúrbio de México Distrito Federal, sequestrando previamente o guarda pessoal de Trotsky, Robert Sheldon Harte, que estava de sentinela, e amarrando os policiais encarregados de vigiar a casa. Dirigindo-se ao dormitório em que descansavam Trotsky e sua mulher, começaram a disparar com metralhadoras contra as janelas e as duas portas. Não atingidos pelos primeiros disparos, o líder bolchevique e sua companheira, Natalia Sedova, conseguiram chegar, arrastando-se, até um canto do quarto.

O fogo cruzado continuou, um dos atiradores entrou no quarto e descarregou sua metralhadora sobre as camas. Saiu logo, aparentemente acreditando consumado seu objetivo, e jogando uma bomba incendiária no cômodo contíguo, onde se encontrava o neto de Trotsky, menino de catorze anos que se salvou da morte (foi ferido no pé). Os atiradores afastaram-se, cobrindo sua retirada com o fogo das metralhadoras, em dois carros que depois foram abandonados. Um deles pertencia ao pintor Diego Rivera, ex-amigo e anfitrião de Trotsky quando da sua chegada ao México, cujo motorista foi detido. Rivera fugiu para Hollywood, de onde regressou ao saber que não o implicavam no atentado. Trotsky havia rompido relações com Diego Rivera em 1938, quando este apoiou o partido reacionário do general Almazán; depois, filiou-se ao Partido Comunista mexicano: Natalia Sedova, esposa de Trotsky, disse que, “de todos nossos antigos camaradas, foi o único que posteriormente se converteu de forma escandalosa ao stalinismo”. Rivera justificou sua intervenção precedente junto ao presidente Cárdenas, para que se concedesse asilo político a Trotsky, dizendo que respondia ao ânimo de atraí-lo para facilitar sua eliminação física…[xxxviii]

As investigações policiais, apesar de um começo desnorteado, provocado pela suspeita do chefe da polícia Sänchez Salazar de que se tratasse de um “auto-atentado”,[xxxix] se encaminharam. Triste papel coube à imprensa do PC do México, dirigida pelo advogado e líder sindical Vicente Lombardo Toledano, a quem Trotsky acusou perante o Procurador Geral da República de ser cúmplice moral do atentado. As suas vociferações anti-Trotsky demonstraram que Toledano conhecia perfeitamente os detalhes do atentado antes da própria polícia. Em junho, esta conseguiu esclarecer a trama, provando a culpa de vários membros do Partido Comunista mexicano, cujas confissões proporcionaram pistas para chegar aos principais organizadores: o pintor David Alfaro Siqueiros e seu secretário Antonio Pujol; também participaram David Serrano Andonaegui, membro do Comitê Central do partido, Néstor Sánchez Hernández, quem, juntamente com Siqueiros, havia atuado nas “brigadas internacionais” da Espanha, e outros membros do PC mexicano.

Não foi possível chegar a estabelecer, naquele momento, a identidade de um “judeu francês” presente no atentado e que, com toda probabilidade, era o agente direto,no teatro dos acontecimentos,da NKVD. Julián Gorkin propôs que o homem fosse Gregori Rabinovitch, presidente da Cruz Vermelha Soviética de Chicago, instituição que servia como cobertura da GPU nos EUA, e que se encontrava no México durante os fatos. Logo depois do assalto de 24 de maio, Rabinovitch retornou aos EUA, mas na capital mexicana “caiu” seu mais próximo colaborador, Vittorio Vidali (futuro deputado da República Italiana pelo PCI), antigo agente da NKVD, conhecido na guerra civil espanhola como “comandante Carlos Contreras”..[xl] A 25 de junho, o réu confesso Néstor Sánchez Hernández conduziu a polícia até uma casa situada em Tlalminalco, no deserto dos Leões, onde se encontrou o cadáver de Robert Sheldon Harte. A casa estava alugada pelos irmãos Luis e Leopoldo Arenal, cunhados de Siqueiros. Este e Pujol, fugitivos, foram finalmente presos a 4 de outubro de 1940, quando Trotsky já estava morto. Em junho, Siqueiros havia enviado uma carta aos jornais, dizendo: “O Partido Comunista não buscou, ao cometer o atentado, mais do que provocar a expulsão de Trotsky do México; os inimigos do Partido Comunista podem esperar ser tratados do mesmo modo”. Esta declaração tendia, provavelmente, e reconhecendo uma culpabilidade já inegável, a encobrir a NKVD, fazendo com o que o atentado fosso considerado fruto de um arrebatamento de cega paixão política, para o qual se anunciava “ingenuamente” que se perpetrariam outros.

Trotsky salvou-se dessa primeira tentativa com extrema dificuldade. Mas sabia que a tentativa de assassinato se repetiria, e assim o declarou à imprensa mexicana. Reforçou-se então a guarda policial em Coyoacán e se fortificou a casa, que chegou a parecer uma fortaleza. No seu livro de memórias, o ex-dirigente do PC dos EUA, Louis Budenz,[xli] convertido ao catolicismo em 1946, relatou que no final de 1936, ao se conhecer a próxima partida de Trotsky para o México, expulso do seu precário refúgio na Noruega, o líder do PC americano, Earl Browder, discutiu com um de seus ajudantes, Jack Stachel, a possibilidade do assassinato. Budenz, que reconheceu ter sido um dos agentes da GPU que operavam nos EUA, declarou que lhe foi pedido para encontrar uma pessoa simpatizante do partido, que pudesse colocar um homem de confiança em relação com os trotskistas americanos. Budenz indicou Ruby Weill, colaboradora de uma publicação simpatizante do PCA, que mantinha relações de amizade com uma jovem militante do Socialist Workers Party (SWP, Partido Socialista dos Trabalhadores, o partido trotskista dos EUA), Sylvia Ageloff, de origem russa, cuja irmã Ruth trabalhava como secretária de Trotsky em Coyoacán.

Ambas fizeram juntas uma viagem à França em 1938, na qual Weill colocou sua amiga em contato com um jovem, supostamente belga, que se dizia filho de diplomata, rico, grande viajante, que desejava ser jornalista: “Jacques Mornard” era seu suposto nome. Este cortejou Sylvia e se tornou seu amante. Em janeiro de 1939, ambos fizeram uma viagem ao México, onde encontraram os velhos amigos e hóspedes de Trotsky, Alfred e Marguerite Rosmer, aos que conduziu várias vezes em seu automóvel a Coyoacán. Como Trotsky observasse que era descortês deixar o marido de Sylvia na porta, convidou-o a entrar no jardim. Três dias depois do atentado de 24 de maio, Mornard conduziu os Rosmer em seu automóvel até Veracruz; antes de partir, compartilhou pela primeira vez o café da manhã com os habitantes da casa.

Desde então, pode entrar na casa de Trotsky como uma pessoa de confiança. Fazia breves visitas, Trotsky o atendia por cortesia alguns minutos no jardim, enquanto dava de comer a seus coelhos. Em junho de 1940, Mornard foi aos EUA, de onde regressou em agosto, em estado de extremo nervosismo e doente. Provavelmente já lhe haviam dado a ordem de executar o assassinato, visto o fracasso da tentativa prévia de Siqueiros. Uma semana antes do assassinato, Sylvia e seu “marido” fizeram uma visita a Coyoacán, oportunidade em que esta discutiu com Trotsky em favor dos pontos de vista da minoria do Socialist Workers Party, encabeçada por Max Schachtman. “Mornard”, que apenas participou na discussão e não pareceu muito interessado, escreveu um artigo curto a respeito, mostrou-o a Trotsky, que o considerou primário. Escreveu então uma segunda versão, que a 20 de agosto de 1940 levou a Trotsky para lhe pedir seu parecer.

Uma vez no gabinete deste último, Mornard levou a cabo seu atentado, enquanto Trotsky estava lendo seu texto, desferindo um golpe de picão no crânio do revolucionário. Quando se apressava para repetir o golpe, Trotsky se lançou sobre ele, conseguindo impedí-lo. Com o grito de Trotsky, os guardas e sua esposa vieram ajudá-lo. Trotsky, com o rosto ensanguentado, sem lentes e com as mãos caídas, apareceu no vão da porta. Indicou com dificuldade que não se devia matar “Jacson” (“Mornard” tinha sido apresentado a ele como “Frank Jacson”)[xlii] sem conseguir que ele falasse. O assassino, ao ser golpeado pelos guardas, gritou: “Eles têm a minha mãe… Eles prenderam a minha mãe. Sylvia não tem nada a ver com isso… Não, não é a GPU. Eu não tenho nada a ver com a GPU”. “Eles” quem, então? Um médico declarou que a ferida de Trotsky não era grave, mas este se dirigiu a seu secretário Joseph Hansen (dirigente do SWP, que fraturou o braço batendo em “Mornard”-Mercader) em inglês, dizendo-lhe, apontando seu coração: “Eu sinto aqui que é o fim… Desta vez eles conseguiram”.

Depois de uma intervenção cirúrgica, Trotsky faleceu a 21 de agosto pela noite. No bolso do assassino se encontrou uma carta na qual tentava justificar seu ato como sendo o de um “trotskista desiludido com seu mestre”, que teria lhe exigido deslocar-se para a URSS a fim de cometer atentados e assassinar o próprio Stalin, além de proibí-lhe casar com Sylvia; tanto os conceitos como o estilo da mesma era típicos das “provas” forjadas pela NKVD-GPU. Já se haviam encontrado cartas semelhantes ao lado do cadáver de outras vítimas dos serviços secretos soviéticos, como Rudolf Klement. A carta de “Mornard” repetia os “argumentos” do fiscal Vychinsky nos Processos de Moscou (Trotsky como organizador de atentados na URSS, visando eliminar Stalin e todos os dirigentes do país). A carta estava datilografada, mas a data tinha sido acrescentada a mão, o que era outro indício do seu (primário) caráter forjado. Cinquenta anos depois, o coordenador do assassinato, Pável Sudoplátov, admitiu o fato: “Era importante deixar entrever uma motivação que pudesse desprestigiar a imagem de Trotsky e desacreditar seu movimento”.[xliii]

O velório de Trotsky na cidade do México durou cinco dias. 300 mil pessoas vieram se despedir pela última vez do revolucionário. O presidente Lázaro Cárdenas e sua esposa, que tinham se abstido de conhecer pessoalmente Trotsky, visitaram Natalia Sedova e expressaram sua indignação pelo crime, assegurando que compreendiam bem onde cartas como a encontrada no bolso do assassino haviam sido fabricadas, e que ela não devia se inquietar a esse respeito. A identidade de “Jacson-Mornard”, que este conseguiu ocultar durante anos, apesar de sua origem belga e demais referências serem claramente falsas, foi esclarecida por um médico mexicano, o Dr. Quiroz, que consultou em 1950 (por ocasião de um congresso médico na Espanha) fichas datilares da polícia espanhola, que coincidiam com as do assassino no México. “Jacson Mornard” na verdade chamava-se Ramón Mercader del Río e era filho da agente espanhola da GPU, ativa na guerra civil, Caridad Mercader.[xliv]Uma meia-irmã de Ramón Mercader, atriz, casou-se,  bem depois e sem vínculo com os acontecimentos relatados, com o diretor cinematográfico e ator italiano Vittorio de Sica.[xlv]

Condenado a 20 anos, o assassino dispôs, durante a sua permanência na prisão de Lecumberri, de abundantes fundos de proveniência desconhecida, e assegurou-se um trato de favor na penitenciária. Demonstrou-se, também, sua conexão com Siqueiros. Numa determinada ocasião, antes do crime, em que Sylvia Ageloff lhe perguntara por sua direção comercial, deu as senhas de um escritório no edifício Ermita, no Distrito Federal, que se comprovou estar alugada em nome de Siqueiros. Mercader foi libertado em 1960, dirigindo-se a Cuba, onde o recém instalado (um ano e meio) regime de Fidel Castro lhe negou asilo político. Mercader foi então para a Tchecoslováquia, e daí para a URSS, onde recebeu a “Ordem ao Mérito” de Lênin. Esquecido depois, voltou para a Tchecoslováquia, onde, segundo alguns, morreu de um câncer no estômago em finais da década de 70. Sudoplátov sustentou que morreu em Cuba em 1978, depois de “trabalhar como assessor de Fidel Castro”, sendo seu cadáver transportado para Moscou, onde foi enterrado como “Ramón Ivanovich López”, versão hoje aceita e retomada por um escritor cubano num romance célebre a respeito.[xlvi] Em 1966, o jornal belga Le Soir anunciou a morte do verdadeiro Jacques Mornard, cuja identidade Ramón Mercader “expropriara” e que, em vida, negou sempre ter tido qualquer relação ou conhecimento de Mercader. Sylvia Ageloff, sua ex-mulher “trotskista”, mudou-se depois do assassinato para Nova York, onde nunca mais voltou a falar no assunto.

Levando em conta que a Oposição de Esquerda já estava derrotada, na URSS, e os métodos habitualmente empregados por Stalin, pode parecer surpreendente que o assassinato de Trotsky tenha demorado tanto e, sobretudo, que Stalin não o tivesse preso e executado quando aquele ainda se encontrava na URSS, optando por exilá-lo em 1929. Trotsky deu uma explicação para esse fato: “Em 1928, quando fui excluído do partido e exilado na Ásia Central, não era ainda possível se falar em pelotão de execução, nem mesmo em detenção. A geração com a qual eu tinha compartilhado a Revolução de Outubro e a guerra civil estava ainda viva. O Politburo se sentia pressionado por todos os lados. Desde Ásia central, eu consegui manter contatos diretos com a Oposição [de Esquerda]. Nessas condições, Stalin, depois de vacilar durante um ano, decidiu-se pelo exílio como um mal menor. Pensou que Trotsky, isolado da URSS e sem aparelho nem recursos materiais, seria incapaz de fazer qualquer coisa. Além disso, calculou que depois de me desprestigiar perante a população, não teria dificuldades em obter do governo aliado da Turquia o meu retorno a Moscou para o golpe final. Os acontecimentos posteriores, no entanto, demonstraram que era possível, sem aparelho ou recursos materiais, tomar parte na vida política. Com a ajuda de jovens camaradas, estabelecí as bases da IV Internacional… Os processos de Moscou de 1936-37 foram organizados para obter minha expulsão da Noruega, isto é, para me livrar às mãos da GPU. Mas isto não foi possível. Consegui chegar ao México. Sei que Stalin reconheceu diversas vezes que exilar-me tinha sido um erro enorme”.[xlvii]

A repressão contra Trotsky e seus partidários não se limitou à URSS, embora fosse nela especialmente forte. Em 1938, em carta a um procurador francês, Trotsky denunciava: “Iagoda levou uma das minhas filhas a uma morte prematura, e a outra ao suicídio. Deteve meus dois genros, que desapareceram sem deixar rasto. A GPU deteve meu filho menor, Serguei, sob a acusação inacreditável de envenenar operários, depois do que ele desapareceu. Levou ao suicídio dois dos meus secretários, Glazman e Butov, que preferiram a morte a realizar declarações contra sua honra ditadas por Iagoda. Outros dois secretários russos, Poznansky e Sermuks, desapareceram na Sibéria. Ainda há pouco, a GPU sequestrou na Franca outro ex-secretário meu, Rudolf Klement. A polícia francesa o buscará, o encontrará? Eu duvido. A lista citada não compreende mais do que as pessoas mais próximas, não falo das milhares que morreram na URSS, nas mãos da GPU, sob a acusação de serem ‘trotskistas’”.[xlviii] Além desses, em julho de 1937 “desaparecera”, na Espanha, o jovem tcheco Erwin Wolf, ex-secretário de Trotsky e um dos principais organizadores da IV Internacional, provavelmente morto por Erno Gerö, agente húngaro da NVKD e futuro chefe de Estado na Hungria.

Na Espanha em guerra se forjaram os homens que entrariam na Europa do Leste com os tanques soviéticos para criar as “democracias populares” da Europa do Leste, depois da Segunda Guerra: entre o sangrento esmagamento da insurreição operária de Barcelona e a brutal repressão dos levantamentos dos trabalhadores de Berlim, Budapeste e Praga nas décadas de 1950 e 1960 há um fio condutor através da história. O assassinato de Trotsky no México, como apontamos no início, começou a ser preparado na Espanha: “Após Cárdenas ter dado asilo político a Trotsky, Siqueiros y Vidali foram a uma reunião do PCEspanhol, onde La Pasionaria [a dirigente comunista espanhola Dolores Ibarruri] praticamente esbofeteou os mexicanos em relação ao caso Trotsky. Com sua masculinidade revolucionaria desafiada, Siqueiros disse que ele e outros membros da sociedade Javier Mina de ex-combatentes, da qual Vidali era membro, se consideraram obrigados a levar a cabo o ataque e a destruir a chamada fortaleza de Trotsky em Coyoacán”.[xlix]

Em inícios de 1937 fracassara uma tentativa da NKVD se sequestrar Leon Sedov, em Mulhouse (França), destinada provavelmente a sentá-lo no banco dos acusados do segundo processo de Moscou.[l] No mesmo ano, segundo Pável Sudoplátov, teria fracassado a primeira tentativa de eliminação de Trotsky, confiada por Stalin pessoalmente a um dos dirigentes da NKVD, Mikhail Spiegelglass.[li] Mas em fevereiro de 1938, Leon Sedov morreu misteriosamente, com 32 anos, depois de uma operação de apendicite em uma clínica parisiense de propriedade de um emigrado russo branco, provavelmente vinculado à NKVD. Gérard Rosenthal sustentou que os “agentes russos” encontraram facilidades para infiltrar-se no entourage de Trotsky e Sedov devido a que ambos “eram muito sensíveis ao clima em comum e ao universo compartilhado que teciam entre si os oriundos da Rússia, facilitando uma conivência privilegiada, na qual os ocidentais não acediam com facilidade”.[lii]As circunstâncias da morte de Sedov, assim como o fato comprovado de que seu principal colaborador, o russo de origem polonesa Mordchka Zborowski, foi desmascarado em 1954, nos EUA (onde era professor universitário de antropologia) como agente da NKVD, sob o codinome “Mark” (na IV Internacional, seu codinome era “Etienne”) – mas este fato foi ignorado por Trotsky enquanto viveu – levaram a pensar que Sedov fora assassinado pela NKVD.[liii] Isto nunca ficou cabalmente provado, embora Trotsky o sustentasse com foça.

Dmitri Volkogonov sustentou que Sedov foi assassinado pela NKVD, o que foi negado por Sudoplátov, que afirmou não ter encontrado provas disso no seu processo (nos arquivos da KGB russa), e que “ninguém foi condecorado ou reivindicou essa honraria” (sic), por esse fato.[liv] Volkogonov, militar de alta patente na URSSW (antes de morrer foi assessor militar de Boris Ieltsin) deve ter tido fortes razões para sustentar o contrário. “Mark” ou “Etienne” já tinha despertado as suspeitas de Victor Serge e de Pierre Naville, poeta surrealista francês paertidário de Trotsky (depois célebre sociólogo),que se dirigiram a Trotsky nesse sentido. Em 1939, “Trotsky recebeu em Coyoacán uma estranha carta anônima. Seu autor afirmava ser um velho judeu apátrida refugiado nos EUA. Pretendia ter recebido de um alto chefe dos serviços secretos soviéticos, tránsfuga no Japão, a confidência dos brilhantes serviços de um certo Mark, cuja descrição coincidia com a pessoa de Étienne”.[lv]

O “velho judeu apátrida” era Alexandre Orlov (codinome de Leiba LazarevichFeldbin, de fato judeu, mas não apátrida nem velho), um dos principais agentes da NKVD (ou “espião da URSS”, como se dizia nos meios ocidentais) no exterior, veterano não só da guerra civil espanhola, onde chefiara o aparato montado pela polícia política soviética e participou do assassinato de Andreu Nin, mas também da guerra civil na Rússia de 1918-21, na qual tinha servido no Exército Vermelho sob o comando de Trotsky. Em 1938, o “general Orlov” tinha desertado, e “havia enviado uma carta pessoal a Stalin, dos EUA, explicando sua deserção por sua iminente prisão a bordo de um barco soviético. A carta estabelecia que se Orlov descobrisse qualquer tentativa dos soviéticos de averiguar seu paradeiro ou indícios de ser vigiado, pediria a seu advogado que tornasse pública uma carta que ele havia depositado em um banco suíço, que continha informação secreta sobre falsificação de materiais para o Comitê Internacional para a Não-Intervenção na guerra civil espanhola. Orlov ameaçava também contar toda a verdade sobre o ouro espanhol, depositado secretamente em Moscou, e proporcionar as listas de embarque. Esta história teria significado um embaraço para o governo soviético e para os refugiados de guerra espanhóis no México, porque o apoio militar soviético à causa republicana era concedido supostamente em nome da solidariedade socialista”.[lvi]

Nas suas memórias,[lvii] Orlov afirmou também ter tentado entrar em contato telefônico com Trotsky, para advertí-lo sobre a presença de Etienne-Zborowski (que ele chamava de “Mark”) no seu círculo, e sobre o papel deste no roubo dos arquivos de Trotsky depositados na filial de Paris do Instituto de História Social de Amsterdã, onde ficariam aos cuidados do historiador menchevique David Dallin (casado com Lola Estrine, Lilia Ginzberg, ex-colaboradora de Leon Sedov em Paris). Na ocasião, Orlov não conseguiu passar do secretário de Trotsky no México (o holandês, futuro matemático e lógico de destaque, Jan Van Heijenoort). Quando a parte fechada dos arquivos de Trotsky na Harvard Library foi aberta, Pierre Broué descobriu uma cópia de uma carta de Trotsky (dirigida a quem?) a respeito de “Etienne” e outra da carta do “velho judeu”, que desmente a versão de que Trotsky teria feito ouvidos surdos às suspeitas que pesavam sobre o ex-colaborador de Sedov: “É necessário seguí-lo de maneira discreta e eficiente. Me parece que devemos pôr no assunto a [Boris] Nicolaievski.[lviii] Criar uma comissão de três: Rosmer, Gérard [Rosenthal] e Nicolaievski, agregando dois ou tres jovens para o seguimento, de modo individual e absolutamente secreto. Se a informação se revelar verdadeira, garantir a possibilidade de denunciá-lo à polícia francesa pelo roubo dos arquivos, em condições que não possa fugir. Comunicar de imediato estas informações a Rosmer. O melhor seria através de [James P.] Cannon, se ainda está aí [Paris], ou de [Max] Schachtman, se ele for [a Paris]. Vocês encontrão os meios. Peço notificação de recepção”.

Aparentemente, nada disso foi feito, e “Etienne” só foi descoberto em 1954, nos EUA, pelo FBI, após confissão de “Soblen” (Sobolevicius), ele também ex-espião stalinista. Pouco tempo antes, Zborowski tinha se entrevistado com Gérard Rosenthal, o ex advogado de Trotsky na França, enviando calorosas saudações “aos camaradas [trotskistas] franceses”. Nos EUA, Zborowski-“Etienne” só recebeu uma pena leve, por perjúrio nas suas declarações a respeito das atividades dos “irmãos Soblen”: no interrogatório a que foi submetido, muito minucioso, quase nada lhe foi inquirido a respeito da sua longa relação com Sedov como agente da NKVD, nem a respeito da sua possível implicação na morte dele, assuntos que evidentemente pouco interessavam aos serviços secretos (ou à justiça maccarthysta) dos EUA.[lix] Zborowski-“Etienne”-“Mark” morreu na década de 1990 nos EUA, transformado em anticomunista.

Os principais “desertores” do sistema de segurança internacional do aparelho stalinista, durante a década de 1930, buscaram alguma forma de colaboração com Trotsky, com graus diversos de aproximação política. Na verdade, tratava-se de quadros militantes em processo de ruptura política, muito mais que “espiões russos passados para o Ocidente”, como fomos acostumados a vê-lo pela literatura e a mitologia do “mundo livre” (capitalista) no pós-guerra: eram os quadros da GPU-NKVD, e do aparelho clandestino da Internacional Comunista, recrutados durante a revolução russa e a guerra civil.A crise política dos aparelhos de segurança da URSS durante os grandes expurgos na URSS é um aspecto negligenciado pela historiografia, mais preocupada nos aspectos espetaculares da “espionagem”, ou na elaboração de uma base historiográfica para o anticomunismo.[lx]

Já falamos de “Alexandre Orlov”,[lxi] célebre por ter recrutado e formado o “círculo de Cambridge” (Russell, Philby, MacLean, Burgess, Blunt e Cairncross), depois infiltrado no serviço secreto britânico.[lxii] Walter Krivitsky (codinome de Samuel Ginzburg),[lxiii] rompeu com a NKVD em 1937, esteve em contato direto com Leon Sedov e, depois, com Jan Frankel, trotskista americano, “com a consciência pesada, recusando dramaticamente julgar ou ser julgado, não querendo ser outra coisa que um soldado prestes a obedecer, inacapaz de refletir ou de pensar por conta própria, propondo só ser útil a Trotsky lhe fazendo conhecer, através dele, um tipo de homem que Trotsky não conhecia. E Sedov, diante dele, lhe falando em nome de Outubro e da revolução mundial, reivindicando e exigindo-lhe uma declaração política condenatória do stalinismo, e chamando à defensa da URSS”.[lxiv] Devia ser uma situação embaraçosa: os trotskistas sabiam que Krivitsky e Orlov eram responsáveis pelo assassinato de vários de seus camaradas, principalmente na Espanha…

Pável Sudoplátov admitiu a responsabilidade da NKVD, em agosto de 1938, no assassinato de Rudolf Klement, jovem trotskista alemão, ex-secretário de Trotsky em Turquia, que fora um dos principais organizadores da conferência de fundação da IV Internacional. O ato foi especialmente atroz, pois Klement foi sequestrado em Paris, estrangulado e esquartejado num apartamento da NKVD por um certo “Turco”: seu tronco apareceu boiando no Sena poucos dias depois. Klement conhecera pessoalmente (em Paris, em 1938) o futuro assassino de Trotsky, Ramon Mercader (então ainda “Jacques Mornard”): “Porquê a GPU atacou Klement? Não era uma personalidade eminente da IV Internacional. Mas a intimidade conseguida com o longo secretariado feito para Trotsky faria dele uma testemunha valiosa nos processos fraudulentos [de Moscou]. Sua coragem e resistência transformaram o seu sequestro em assassinato?”, se perguntou Gérard Rosenthal. A conferência de fundação da IV Internacional, em setembro de 1938, realizou-se sob a presidência de honra de Leon Sedov, Erwin Wolf e Rudolf Klement, assassinados. Pouco depois, “a 15 de novembro [de 1938] as duas pernas foram encontradas no Sena, em Garganville, amarradas. Os ossos tinham sido serrados. As pernas adaptavam-se perfeitamente ao tronco. A cabeça nunca foi encontrada. Assim desapareceu em plena Paris, sem que a polícia nunca descobrisse nada, por ter sido o secretário de Trotsky, Rudolf Klement, esquartejado morto ou vivo”.[lxv]

Previamente, a 16 de julho, uma carta dirigida a Trotsky, (falsamente) assinada por Klement, declarava que este se transformara em um aliado do fascismo, motivo pelo qual seu autor se retirava da IV Internacional, preferindo “sumir” do cenário. Depois da descoberta de seu corpo, em agosto, Trotsky dirigiu uma carta à mãe de Klement, Ruthe, que lhe solicitara informações sobre seu filho, informando-lhe tudo o que sabia sobre sua vida, e acrescentando: “Estou certo de que a carta era falsa. Contém afirmações falsas e inúteis, emitidas por alguém informado só de modo geral e imperfeito das atividades de Rudolf. A semelhança da escrita não é uma prova da sua autenticidade. Não é mais que semelhança: os inimigos de Rudolf dispõem dos melhores especialistas do mundo, que já fizeram várias vezes coisas semelhantes. Isto descarta a hipótese segundo a qual Rudolf teria passado voluntariamente para o campo dos seus inimigos. Nesse caso não teria nenhuma necessidade de se esconder. Ao contrário: se oporia abertamente aos seus camaradas de ontem, senão a deserção careceria de sentido. Nesse caso, também, teria dado um sinal de vida à sua mãe. A situação é clara, não tenho nenhuma dúvida que Rudolf foi assassinado por seus inimigos”. O assassinato de Trotsky não tinha acontecido ainda devido à notoriedade de Trotsky e aos cuidados adotados em relação a ele, e também ao asilo político concedido pelo governo mexicano, quando a eliminação de Trotsky já estava na agenda de prioridades da NKVD: Sudoplátov admitiu que Stalin encomendou a tarefa a Spiegelglass em 1937 (o que não lhe impediu afirmar que “em agosto de 1938, fiquei sabendo, pela primeira vez dos assassinatos e sequestros de trostskistas e desertores ocorridos na Europa durante os anos trinta”).[lxvi]

Nazismo, fascismo, franquismo e stalinismo eliminaram fisicamente uma geração de revolucionários, nas décadas de 1930 e 1940. Em 1937, também, a investigação suíça sobre a morte de Reiss estabeleceu que o conhecido “executor” mafioso Roland Abbiate, e um certo “Martignac” tinham se dirigido ao México (em março de 1937) no rastro de Leon Trotsky. O assassinato de Trotsky tornara-se um objetivo institucional do Estado stalinista, isto é, relativamente independente das circunstâncias políticas imediatas. Era, também, estratégico, pois implicava um grande risco diplomático: assassinar um homem de Estado – e também uma das personalidades políticas mais conhecidas internacionalmente – em uso do seu direito de asilo, em território estrangeiro. Isto significava que a empresa só seria possível se contasse, não só com os meios organizativos (o aparelho internacional da NKVD), mas também com os meios políticos, isto é, com cumplicidades “diplomáticas” do mais alto nível. Não deve surpreender que o ato criminal fosse consumado num período de relativo “abrandamento” da repressão da URSS, devido à guerra.

Depois da chegada de Trotsky ao México, diversos “homens de ação” do aparelho internacional da NKVD chegaram também a esse país, aberta ou clandestinamente, o que se intensificou com a derrota do campo republicano na guerra civil espanhola: o excônsul da URSS em Madri, Lev Haikiss, o já mencionado Eitingon, junto com CaridadMercader, Vittorio Vidali com sua companheira Tina Modotti (“Maria Ruiz”), que controlava os quadros das Brigadas Internacionais. Também chegam o venezuelano Enrique Martinez, o exguarda-costas de Gramsci, Carlo Codevilla, transformado em agente da NVKD, o ítalo argentino Vittorio Codovilla.[lxvii] As coisas chegaram ao ponto que, a 8 de setembro de 1938, o advogado norte-americano de Trotsky, Albert Goldman, fez uma declaração à imprensa: depois das mortes de Wolf, Klement e Sedov, “a GPU [NKVD, nessa altura] está determinada a um esforço desesperado para eliminar o próprio Trotsky”. Advertiu que “a campanha será levada adiante pelo PC mexicano, com a ajuda de altos funcionários do Ministério de Educação, e por Vicente Lombardo Toledano, que recebeu as instruções necessárias na sua recente visita à Europa”.

Bem antes disso, segundo Sudoplátov, a ordem já tinha sido dada pessoalmente por Stalin: “Trotsky e seus seguidores significavam uma séria ameaça para a União Soviética ao competir conosco para ser a vanguarda da revolução comunista mundial. Beria sugeriu que me colocassem no comando de todas as operações antitrotskistas da NKVD, a fim de infringir o golpe decisivo ao movimento trotskista. Aquela era a razão para que eu tivesse sido nomeado subdiretor do Departamento do Estrangeiro, sob as ordens de Dekanózov. Minha missão consistiria em mobilizar todos os recursos disponíveis da NKVD para eliminar Trotsky, o pior inimigo do povo. ‘No movimento trotskista não há figuras políticas importantes além do próprio Trotsky, disse Stalin. Eliminado Trotsky, a ameaça desaparece’. Dito isto, Stalin voltou a se sentar à nossa frente e começou a falar lentamente de quão insatisfeito estava com o atual estado de nossas operações, que, a seu modo de ver, não eram ativas o bastante”.

A decisão tomada por Stalin se explica no quadro da vigência do pacto germano-soviético. Sempre segundo PávelSudoplatov, durante um encontro da cúpula do KGB (polícia política da URSS) com Stalin na primavera de 1939, o líder se pronunciou de maneira clara: “A guerra se aproxima. O trotskismo tornou-se um cúmplice do fascismo. É preciso desferir um golpe contra a IV Internacional. Como? Decapitá-la”. Na NKVD, seu chefe máximo, LavrentiyBeria, sugeriu que fossem usados para a tarefa os contatos de Alexander Orlov, e que “falássemos com ele [Orlov] em seu próprio nome [de Beria]”. [lxviii] Ora, Orlov já tinha desertado no ano anterior e, como vimos, tinha contatado Trotsky para avisá-lo das ameaças que pairavam sobre ele: se o conselho de Beria tivesse sido seguido, Trotsky teria sido provavelmente informado com boa antecedência dos planos exatos do seu assassinato (Sudoplátov e Eitingon, evidentemente, não seguiram a sugestão de Beria).

Em setembro de 1939, os “enviados de Moscou” acusaram alguns dos dirigentes do PC mexicano de “debilidade ante Trotsky”. No congresso do PC celebrado nos meses seguintes, formou-se uma comissão especial, secreta, encarregada de planificar “a luta contra Trotsky”, dirigida realmente por Vidali, mas presidida “nominalmente”, segundo Pierre Broué, por Vittorio Codovilla que, de acordo com o mesmo autor, era um agente da GPU desde fins da década de 1920. A questão do assassinato de Trotsky tinha sido posta para a direção do PC mexicano, pelos “enviados internacionais”, desde setembro de 1938. Desde a sua chegada ao México, Trotsky vinha sendo atacado violentamente pela imprensa do PC. La Voz de Mexico, El Popular e Futuro protestaram contra o presidente Cárdenas pela concessão do asilo; continuavam a pedir a sua expulsão. Essa campanha aumentou em virulência nos primeiros meses de 1940; era conduzida com os chavões habituais – “Trotsky, o velho traidor, demonstra que quanto mais velho fica, mais covarde se torna…”, “Que peixe escorregadio é este velho traidorzinho!”, “…O novo pontífice, Leon XXX, à vista das trinta peças de prata do Judas sujo…”. Trotsky observou: “Esta é a maneira de escrever das pessoas que estão prestes a substituir a caneta pela metralhadora”.

No 1° de maio de 1940, uma manifestação uniformizada do PC marchou através da cidade do México (Distrito Federal), portando faixas que diziam “Fora Trotsky!”. Pouco antes, em março desse ano, no congresso do PC mexicano, sua direção (aparentemente reticente em passar das palavras aos atos) foi “depurada”: “Laborde foi excluído do secretariado, [Valentin] Campa do Buro Político, qualificados de sectário-oportunistas, sectários por não terem combatido pela unidade das forças populares, e terem se enfrentado na CTM com Lombardo Toledano, e oportunistas por não terem mantido a independência do partido frente ao cardenismo. A isso, os ‘enviados de Europa’, acrescentam as acusações de corrupção, provocação, cumplicidade com a maçonaria e o trotskismo. A convocação para o Congresso Extraordinário (La Voz de México, 25 de novembro de 1939) chamou à exclusão dos traidores, divisionistas, fracionistas, trotskistas, inimigos do povo, agentes do fascismo, almazanistas, corrompidos, infiltrados no passado no partido”.

Nas suas memórias, o dirigente comunista mexicano Valentin Campa relatou que Laborde “tinha-lhe comunicado que um camarada delegado da Internacional Comunista lhe expôs a decisão de eliminar Trotsky, e pediu-lhe sua colaboração como secratário-geral do partido, e a de uma equipe adequada para a eliminação…[Laborde] estava convencido de que Stalin participava na eliminação de Trotsky e no uso [para esse fim] da Internacional Comunista. Sempre tinha tido um bom conceito de Stalin, mas, indignado pelas suas manobras, chegou a dizer que Stalin ‘era un cabrón’…Desde que saí da prisão, em 1970, insistí perante a direção do PCM na necessidade de esclarecer essas verdades históricas”.[lxix] Campa reivindicou no mesmo texto a campanha anti-trotskista do PCM em 1937-1940.

A 19 de maio de 1940, aVoz de México, principal órgão do Partido Comunista mexicano, dedicou um artigo ao “velho traidor”, como Trotsky era chamado pelo secretário-geral da central de trabalhadores (CTM), Lombardo Toledano. O artigo era extremamente violento e exigia a expulsão de Trotsky do México por suas “atividades anti-proletárias e anti-mexicanas”. O general Lázaro Cárdenas (então presidente do México) também foi alvo de ataques de dois lados – da burguesia mexicana pró-americana e do PC mexicano. Quando ocorreu uma tentativa de putsch direitista, liderada pelo general Cedillo nas montanhas, o Partido Comuinista acusou Trotsky de tê-la inspirado. A direita viu, ao contrário, a “mão de Trotsky” no fato de que as companhias de petróleo europeias e americanas fossem nacionalizadas: para a direita, Cárdenas era uma marionete nas garras do “exilado vermelho”. Trotsky nunca se encontrou pessoalmente com o presidente durante seus anos no México.[lxx]

A 24 de maio de 1940, houve, como vimos acima, o atentado do grupo chefiado por Siqueiros. O PCM tentou desvincular-se deste (Siqueiros foi apresentado como “elemento incontrolável”) mas, quando retornado em 1942 do “exílio” auto-imposto no Chile (para fugir das acusações e processos), foi recebido pelo mesmo PCM como um herói. No breve período que passou na prisão, em 1941, quem cuidou da sua libertação foi o poeta chileno (vinculado ao Partido Comunista do seu país) Pablo Neruda, cônsul do Chile na cidade do México, que contou: “David Alfaro Siqueiros estava então na prisão. Alguém o havia embarcado em uma incursão armada para a casa de Trotsky. Conheci-o na prisão, mas, na verdade, também fora dela, porque saíamos com o comandante Pérez Rulfo, chefe da prisão, e íamos beber por ali, onde não nos vissem muito. Já tarde na noite, voltávamos e eu me despedia, com um abraço, de David, que ficava atrás das grades… Entre saídas clandestinas da prisão e conversas sobre tudo o que há, Siqueiros e eu tratamos de sua libertação definitiva. Munido de um visto que eu mesmo estampei em seu passaporte, dirigiu-se ao Chile com sua mulher, Angelica Arenales.”[lxxi] Pablo Neruda deu sua contribuição ao ocultamento da trama do crime (o embaixador chileno viu-se obrigado a desculpar-se diante do governo mexicano pela atitude inconsulta, e violatória das normas diplomáticas, do seu cônsul-poeta).

Trotsky foi o primeiro em concluir que o fracasso do atentado de 24 de maio não produziria a desistência dos seus perseguidores, mas exatamente o contrário. Ainda os que acreditaram no caráter só “intimidatório” desse ataque, o admitiram: “Tudo não passou de um alarde de força feito não só para atemorizar o ex-Secretário de Guerra, como também para obrigar o governo de Lázaro Cárdenas a decretar a expulsão de Trotsky do país, para não correr o risco de se envolver em uma questão internacional se o político russo fosse morto em território mexicano. Essa estratégia do medo tinha dado certo na Noruega. Mas Lázaro Cárdenas não era como o ministro da Justiça da Noruega, Trygve Lie, e aos stalinistas só restava um caminho para acabar de vez com o exilado soviético: matá-lo”.[lxxii] Trotsky não se fazia qualquer ilusão quanto a alguma reação nas fileiras “comunistas” diante da perseguição de que era objeto: “90% dos revolucionários que construíram o partido bolchevique, fizeram a Revolução de Outubro, criaram o Estado Soviético e o Exército Vermelho, dirigiram a guerra civil, foram exterminados como traidores nos últimos doze anos. Em troca, o aparelho stalinista acolheu nesse período a imensa maioria dos que estavam do outro lado da barricada nos anos da revolução… Por meio de exclusões permanentes, pressões materiais, corrupção, expurgos e execuções, a camarilha totalitária do Kremlin transformou completamente a Komintern [Internacional Comunista] em instrumento dócil. A sua atual camada dirigente, como as suas seções, compreende homens que não se uniram à Revolução de Outubro, mas à oligarquia vitoriosa que distribui títulos políticos elevados e favores materiais”.[lxxiii] Que precauções adotou Trotsky, diante dessa perspectiva, além da fortificação da sua casa? Esse ponto deu lugar a controvérsias.

O sistema de segurança de Trotsky era amador, ele o sabia e assim o declarou a um jornalista: “Alguns jornais dizem que eu ‘alugo’ para a minha guarda só estrangeiros, mercenários. Isto é falso. Minha guarda existe desde o meu exílio na Turquia, há doze anos. Sua composição mudou de acordo com o país em que me encontrava, embora alguns tenham me acompanhado de um país a outro. Sempre esteve composta de jovens camaradas, vinculados pela identidade de ideias políticas, e escolhidos pelos meus amigos mais velhos e experimentados entre voluntários que nunca faltaram”. Além disso, continuou na casa do revolucionário o desfilar de dirigentes políticos, amigos, reuniões, etc.

Isto sem dúvida facilitou a “infiltração” daquele que seria finalmente seu assassino, que exibia uma conduta que, para Isaac Deutscher, devia ter levantado suspeitas muito antes: “Este exibia um desinteresse tão completo pela política que sua atitude parecia beirar a indolência mental, algo muito surpreendente no culto ‘filho de um diplomático’. Tinha relações impenetravelmente obscuras no comércio e jornalismo; e seus antecedentes familiares eram enigmáticos. As histórias que contou a Sylvia sobre si mesmo eram estranhas e incoerentes; e gastava dinheiro aos montes, como se o sacasse de uma bolsa da abundância eterna, com festas e diversões”.[lxxiv] Para Pierre Broué, o risco da infiltração era inevitável dada a atividade e os objetivos políticos de Trotsky: “Estava condenado a viver os poucos anos que lhe restavam na plena consciência de que existiam pessoas como os irmãos Sobolevicius, tomando as precauções indispensáveis, mas sem parar de correr os riscos necessários à continuidade de uma vida militante e de combate. A conclusão se impunha: nesse quadro, os assassinos só poderiam ganhar”.[lxxv]

Nos anos 1970, um grupo trotskista inglês, chefiado por Gerry Healy, acusou os responsáveis pela guarda de Trotsky (basicamente, a direção do SWP, o partido trotskista dos EUA, em primeiro lugar Joseph Hansen) de cumplicidade com a NKVD-GPU e com… a CIA, e, portanto, com o assassinato. A acusação baseou-se em indícios circunstanciais: a campanha feita em torno dela não teria qualquer transcendência se não tivesse tido como principal porta-voz a atriz inglesa Vanessa Redgrave, membro do grupo de Healy.[lxxvi] O outro indício, a sempre suspeitada participação de um dos guarda-costas americanos de Trotsky no atentado de 24 de maio, Robert Sheldon Harte (o pai de Harte era amigo pessoal do chefe do FBI, J. Edgar Hoover),[lxxvii] foi definitivamente desfeito nas memórias de Sudoplátov, que esclareceu que esse não era o caso, e também os motivos do assassinato de Harte (o que, de passagem, deu razão póstuma a Trotsky, que sustentou contra a polícia mexicana que Harte jamais fora um agente stalinista). Ramon Mercader fez um trabalho de longo prazo (mais de dois anos), onde não faltaram os erros e as vacilações.

Desde 1938, segundo Sudoplátov, “seguindo instruções de Eitingon, absteve-se de toda atividade política. Seu papel consistia em fazer-se de amigo, que ocasionalmente dava apoio financeiro, mas sem desempenhar nenhum papel político”. Sua linha geral de atuação foi lembrada pela última testemunha viva do crime de Coyoacán, Seva Volkov, neto de Trotsky: “O pseudo-belga, Jacson Mornard, começou a cultivar a amizade dos guardas. Era uma pessoa muito generosa, amável e prestativa. Levava os guardas para comer, convidou-os para o casamento de Otto Rühle, às vezes também convidava Charles Cornell, um professor primário norte-americano, e um dos guardas. Cultivava a amizade do casal Rosmer. Chegou a dar-me pequenos presentes e levou-me ao campo, juntamente com Margarite e Alfred [Rosmer]. Porém nunca mostrou interesse em agradar Leon Trotsky. Algumas vezes, casualmente, encontravam-se no jardim e Mornard apenas o saudava. Uma vez, apresentou sua companheira Sylvia e nada mais. Assim foi-se criando a imagem de um homem que queria ajudar e ser amável com os camaradas”.[lxxviii]

A 17 de agosto de 1940, Mercader teve uma primeira ocasião (ficou a sós com Trotsky, no seu gabinete, em atitude nervosa, que chamou a atenção deste) que não aproveitou: “Mercader ou Mornard ou Jacson, mostrara sinais de sua angústia, ficara doente; espalhava pistas que poderiam expor sua falsa identidade. Pode ser que para se sentir mais confiante para o assassinato, tenha precisado de um ensaio geral. Os criminosos e a polícia, como Trotsky observara, parecem necessitar de cenários, como nas peças de teatro. Ou, diante de Trotsky, a sós no escritório, Jacson pôde simplesmente ter-se sentido sem jeito”.[lxxix] Ainda assim, Trotsky tornou a recebê-lo três dias depois, quando Mercader consumou o atentado mortal. Sobre a mesa de Trotsky restou seu último escrito, inconcluso, cujo parágrafo final, o último que escrevera, adaptava-se ao cenário: “Houve mais obstáculos, dificuldades e etapas, na estrada do desenvolvimento revolucionário do proletariado, do que previram os fundadores do socialismo científico. O fascismo e a série de guerras imperialistas são a terrível escola através da qual o proletariado deverá libertar-se das tradições pequeno-burguesas e das superstições, desembarçar-se dos partidos oportunistas, democráticos e aventureiros, forjar e educar a vanguarda revolucionária, preparando assim a solução da tarefa fora da qual não há saída para o desenvolvimento humano”.[lxxx]

No dia seguinte, antes de morrer, pronunciou suas últimas palavras: “Estou certo da vitória da IV Internacional. Avante!”, seguidas de um “Natalia, te amo”, dirigido a sua esposa. Pouco depois, morreu. Dois dias mais tarde, Pravda (“Verdade”) de Moscou anunciava simplesmente: “Tendo ultrapassado ainda mais os limites do aviltamento humano, Trotsky ficou preso em sua própria rede e foi assassinado por um dos seus discípulos”. Uma década e meia depois, no seu Informe Secreto ao XX Congresso do PCUS, Kruschev denunciou os crimes de Stalin (morto em 1953), mas legitimou a eliminação de Trotsky. O assassino, obviamente, não negou o crime: atribuiu-o à “impulsão súbita” de um discípulo desiludido. O informe da polícia mexicana, no entanto, não deixou dúvidas: além do picão de alpinista usado no crime, nas roupas do ainda chamado “Mornard” “encontrava-se uma bainha de couro cor de café, recamada de prata, com um punhal de 35 centímetros de comprimento e três de largura, e o punho de metal cinzelado (…) Além disso, foi encontrada com o assassino uma pistola Star, calibre 45, número de registro P.195-264, com oito balas no pente e uma no cano. Todas essas armas demonstravam que o assassino estava disposto a matar Trotsky de qualquer maneira. Por que não usara a pistola em vez do picão? Sem dúvida, para evitar o ruído da detonação. Tinha evidentemente a intenção de fugir após desferir o golpe mortal”.

No primeiro parte policial, Mercader era ainda chamado de “Raft Jakkson” (sic, seguramente insistindo na sua identidade de “Frank Jacson”, assim transcrita pelo escrevente mexicano).[lxxxi] Nos depoimentos posteriores, feitos à polícia mexicana, Mercader incorreu em todo tipo de contradições e faltas de verossimilhança, sempre negando qualquer vínculo com a GPU-NKVD. Sua declaração, na carta apócrifa, de que Trotsky era um agente do imperialismo americano (ainda estava vigente o pacto Hitler-Stalin) mudou em menos de um ano, depois da invasão da URSS pela Alemanha, para “agente da Gestapo”. Menos de duas semanas depois do crime, o Juiz de Instrução encarregado, Raúl Carrancá Trujillo, recebeu uma carta anônima em que era ameaçado: “Qualquer ação que você faça no processo que acusa Jacques Mornard pelo homicídio de Trotsky, que tenha que fazê-lo declarar que é agente da GPU e em consequência esclarecer uma questão internacional de profunda e gravíssima transcendência, você pagará muito caro. Lembre-se de que a ação poderosa de uma organização perfeita se infiltrou até uma mansão que se acreditava inatacável. Limite-se a buscar uma causa ordinária sem pretender, no mínimo que for, ir além das fronteiras do assunto tratado. Não se esqueça, camarada Juiz, que você pode ser premiado ou castigado segundo sua atuação. Não se esqueça e tenha sempre presente, durante o julgamento, que há mil olhos sobre você, de todas as raças, que vigiam seus atos. Saudações, camarada”.[lxxxii]

Nos vinte anos posteriores, preso, Mercader não rompeu o seu silêncio a respeito dos seus vínculos com a GPU-NKVD, o que lhe deu fama de “homem de aço”. Sua vida na prisão – que parece ter incluído um caso amoroso com sua diretora, vinculada ao PC mexicano, e que incluiu a celebração de um matrimônio com outra mulher mexicana – não parece justificar a fama, pois pouco pareceu-se com uma vida de sofrimentos. A revista italiana Oggi informava, a 23 de outubro de 1951, que “alguém continua cuidando dele por todos esses anos; alguém, pagando generosamente, providenciou que se garantissem a ele todas as comodidades de que se pode dispor numa prisão (e nas prisões mexicanas tais comodidades são muitas e notórias). A cela número 27 da penitenciária Juárez não fica muito longe de um bom apartamento de hotel. Basta ter o dinheiro para pagar tais luxos e, no caso do assassino de Trotsky, esse dinheiro jamais falta”.

A figura de “homem de aço” de Mercader, exaltada em poema por Nicolás Guillén,[lxxxiii] foi desmentida por Seva Volkov, que presenciou, adolescente, os momentos seguintes ao crime: “Muitas pessoas na porta, policiais, um carro mal-estacionado… Rapidamente senti uma angústia interior. Sabia que algo acontecera e, ao mesmo tempo, o temor de que tivesse sido algo grave. Ocorreu-me que, da outra vez, havíamos tido sorte, porém já era ir contra o destino que na primeira ocasião fora esquivado. Apressei os passos. Vi a porta aberta e entrei em casa. Imediatamente encontrei um dos guardas, Harold Isaacs, todo agitado e perguntei o que estava acontecendo. A única coisa que pude ouvir, pois ele se afastara, foi ‘Jacson, Jacson…’. Eu não entendia o que isto teria a ver com tudo o que estava se passando. Efetivamente, quando atravessei o jardim, vi dois policiais detendo um homem que era, de fato, o famoso stalinista que mais tarde receberia a Legião de Honra. Era um autêntico covarde. Guinchando, lamentando-se, queixando-se de dores. Realmente apresentava algumas manchas de sangue, pois havia sido golpeado. A sua triste figura significava um grande contraste com os trotskistas que foram levados aos campos de concentração e de extermínio da URSS, onde foram mortos. Este era o suposto herói stalinista, em oposição aos prisioneiros políticos trotskistas dos campos de Vorkuta, de Kolyma, que morriam sem claudicar e proclamando vivas à revolução, a Lênin e a Trotsky”.[lxxxiv]

Em 1952, ainda na prisão, Ramón Mercader fez um depoimento a La Nuova Stampa (18 de novembro) acerca do crime: “Abriram-me a porta e encontrei Trotsky no quintal, ocupado em dar comida aos coelhos. Disse-lhe que eu tinha um artigo de estatística muito interessante sobre a França e ele me convidou para entrar no escritório, assim como eu havia previsto. Fiquei de pé, à sua esquerda. Coloquei minha capa impermeável sobre a escrivaninha, a fim de tirar o picão de alpinista que estava no bolso. Decidi não perder a excelente oportunidade que surgira para mim, e no momento preciso em que Trotsky começava a ler o artigo que me servira de pretexto, saquei o picão da gabardina, segurei-o fortemente e desfechei-lhe um violento golpe na cabeça. Trotsky se atirou contra mim, mordeu minha mão, obrigando-me a soltar o picão. Lutamos, entrou gente no escritório e me golpearam. Implorei aos secretários de Trotsky que me matassem, mas não quiseram fazê-lo”. Na verdade, foi Trotsky que lhes impediu de fazê-lo.

O único traço de personalidade de Mercader que se tornou visível, durante a sua prisão, foi uma espécie de esquizofrenia teatral: “Tornou-se teatral e, a princípio, exageradamente encantador para as pessoas que vinham vê-lo; a seguir, ao se defrontar com as perguntas difíceis, ficava outra vez imóvel, de olhos fixos e mãos trêmulas; ou remexia os cigarros e espalhava as cinzas e fagulhas por toda a roupa. Repentinamente começava a falar sem parar, incoerente outra vez, antes de escapar e fingir que era surdo. Demonstrava certo desprezo pelos psiquiatras. Ria e lhes contava histórias de caipiras que ‘não enxergavam além da ponta do nariz’. Ocasionalmente, realizava uma espécie de pantomima, representando vários papéis diferentes, fazendo vozes diversas”.[lxxxv]

Outros agentes da NKVD que estiveram perto de Trotsky manifestaram distúrbios de conduta, como o já mencionado Sobolevicius (“Soblen”), que tornou-se psiquiatra nos EUA e que, preso, tentou se matar em 1957, engolindo quase “meio quilo de pregos e parafusos” (!) na Penitenciária de Lewisburg (finalmente suicidou-se em 1962). De acordo com Sudoplátov, “Mercader estava preparado para três alternativas: matar Trotsky com um tiro, apunhalá-lo ou matá-lo a golpes”. Quando Mercader, já livre, se encontrou com Sudoplátov em Moscou, em 1969, confessou: “Eu, que tinha morto um guarda a facadas na guerra civil espanhola, fiquei paralisado pelo grito do Trotsky”. Em consequência, “quando a mulher de Trotsky apareceu com os guarda-costas, Mercader estava paralisado e não conseguiu usar o revolver”.[lxxxvi] O último grito e a última resistência de Trotsky permitiram prender seu assassino, o que contribuiria para desvendar o crime e sua trama (caso Mercader não fosse preso, é provável que a tergiversação sobre o seu assassinato persistisse).

A fama de “homem de aço” de Mercader, por outro lado, parece ter existido só entre os “companheiros de estrada” dos PCs, não entre os profissionais do aparelho de “segurança”. Pouco se sabe sobre a vida ulterior de Mercader, livre e condecorado em Moscou, salvo que foi “infeliz” (embora recebesse, como comprovam os arquivos, “uma pensão equivalente à de um general de divisão aposentado”), talvez pelo motivo apontado por Jorge Semprún em um romance autobiográfico, ao relatar uma conversa entre dois “agentes” a respeito do seu célebre colega: “- Este inverno, em Moscou, foi-me mostrado [Mercader]. No Bolshoi, dizia Walter. Um desamparo abjeto: assim se podia qualificar a expressão desse homem. E o que faz lá?, perguntava Herbert. Nada, dizia Walter. Tem uma datcha, uma pensão por velhice. Ninguém lhe fala. Walter ria. Atualmente, não se morre. Ás vezes me pergunto se isso é melhor” (grifo nosso).[lxxxvii] Em 1977, Mercader pediu em Moscou a Santiago Carrillo (principal dirigente do PC espanhol, e figura principal do “euro-comunismo”) que interferisse junto ao governo da Espanha para passar os últimos anos de sua vida em sua Catalunya natal. Carrillo pôs como condição que Mercader escrevesse suas memórias contando quem lhe ordenara o assassinato de Trotsky. Mercader teria rejeitado o pedido, dizendo: “A los míos nunca los voy a traicionar“.

O assassinato de Trotsky não foi o “episódio final” da caçada anti-trotskista. Na véspera do assassinato, jornais americanos alertavam para o perigo da “instalação de um governo revolucionário no hemisfério norte”, devido à presença do líder bolchevique no México. Podiam os serviços secretos americanos (FBI) desconhecer os planos do assassinato, em um país que forma parte de sua “área de segurança”, e onde seus agentes circulavam livremente? A burguesia americana odiava explicitamente Trotsky. O Departamento de Estado negou-lhe asilo político em 1933; a imprensa norte-americana hostilizou o México por haver lhe dado refúgio; em 1938, a chancelaria dos EUA rejeitou sua entrada temporal, mesmo convidado por uma Comissão parlamentar (a Comissão Dies). Morto Trotsky, o Departamento de Estado proibiu a entrada de suas cinzas, solicitada pelos trotskistas norte-americanos para realizar um ato público de homenagem.

Dmitri Volkogonov, que realizou pesquisas na parte fechada dos arquivos da KGB, escreveu: “Pouco tempo depois da notícia da morte de Trotsky, foi dada a ordem de ‘liquidar os trotskistas ativos nos campos’. E, na véspera da guerra, houve uma nova onda silenciosa, que varreau as últimas pessoas condenadas por ‘trotskismo ativo’. [Os campos de] Petchura, Vorkuta, Kolyma, foram as testemunhas mudas de uma vingança que entoou o réquiem da luta contra o dirigente assassinado da IV Internacional. Stalin não queria compreender que matar alguém era um modo ineficaz de combatir suas ideias” (sic).[lxxxviii] No plano internacional, “penetrar nos grupos trotskistas continuou sendo de máxima prioridade para o serviço secreto soviético em 1940. Como saberiamos o que se passava no movimento trotskista depois de matar Trotsky? Continuariam os trotskistas sendo um perigo para Stalin depois de perderem seu líder? Stalin lia regularmente os informes do agente que haviamos infiltrado no jornal trotskista de Nova York… Lia amiúde artigos e documentos trotskistas antes que fossem publicados”.

Segundo o mesmo depoimento, “depois do assassinato de Trotsky, vários membros da rede dos EUA e México foram incorporados a outras redes da região. Essa rede ampliada teria um valor incalculável no hora de obter os segredos da primeira bomba atômica”. [lxxxix] Como explicar o papel dos governos do “mundo livre” na perseguição aos antiestalinistas da URSS, e a Trotsky em particular? Esses governos, como vimos, legitimaram os “Processos de Moscou” através do envio de observadores oficiais dos poderes judiciários. Já vimos a cumplicidade stalino-nazista na Noruega, em relação a Trotsky, bem antes do “pacto germano-soviético” de 1939: “O atentado [contra Trotsky] foi evidentemente obra de Stalin, mas isso não exclui que tenha sido realizado em aliança concreta com Hitler, e não se pode duvidar que Churchill, se consultado, teria dado seu aval. A eliminação de Trotsky era uma necessidade absoluta, no momento em que a guerra explodia, abrindo o risco de uma revolução que a concluísse. Com oprimeiro atentado falido, os assasinos fizeram funcionar a máquina de intoxicar destinada a enfraquecer a defesa, e a criar condições mais favoráveis para uma segunda tentativa que não demoraria”.[xc]

Nos anos posteriores ao assasinato, a viúva de Trotsky, Natalia Sedova, que continuou a viver no México, recebeu ameaças de morte,[xci] e viu-se obrigada a desmentir um suposto “testamento” – falsificado – de Trotsky, em que este renunciava à (e denunciava a) revolução socialista, provando tratar-se de uma nova falsificação da NKVD.[xcii] Quando a publicação das memórias do ex-dirigente do PC norte-americano e ex-agente da GPU, Louis Budenz, jogou alguma luz sobre a trama da conspiração para matar seu marido, solicitou um novo interrogatório de Mercader – ainda chamado de “Mornard” – e publicou um artigo em que concluía: “A responsabilidade do crime de Coyacán – e de tantos outros – recai diretamente, muito mais que sobre miseráveis agentes secretos, sobre Stalin, quem os concebeu, ordenou e pagou. Uma investigação completa exigiria a extradição de Stalin, e sua posta a disposição dos tribunais mexicanos. Em qualquer hipótese, será Stalin quem responderá perante a opinão do mundo, perante o fururo, perante a história”.[xciii]Um silêncio ensurdecedor acompanhou a luta da (fisicamente) pequena mulher, que perdeu seu marido e seus dois filhos assassinados pelo stalinismo.

A história “oficial” nunca respondeu: o regime de Gorbachev negou-se a reabilitar Trotsky, para não falar do regime “pós-comunista” (a fúria literária contra Trotsky foi, no regime russo pós-URSS, comparável à do período stalinista).[xciv] O assassinato de Trotsky não foi um episódio marginal, mas um acontecimento situado no olho do furacão que arrasaria o mundo nos anos sucessivos, os da Segunda Guerra Mundial; no próprio centro, portanto, da crise histórica do século XX. A burocracia stalinista concluiu, através dele, a destruição física da geração marxista que encabeçou a Revolução de Outubro de 1917. A dizimação destes continuou durante a Segunda Guerra: os dirigentes da organização trotskista belga (Abraham Leon e o sindicalista Leon Lesoil) foram mortos pelos nazistas; o ex-dirigente do PC italiano, Pietro Tresso, “Blasco”, engajado no maquis francês, foi morto por seus “companheiros” do PC francês, o que foi denunciado pelo historiador Marc Bloch, resistente fuzilado em 1943 pelos nazistas.[xcv]Stalin sobreviveu em treze anos ao seu principal adversário político, durante os quais continuou a perseguir seus seguidores. Uma batalha política que ainda continua.

*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Trotsky ontem e hoje (Nosso Tempo).

Notas


[i] Vadim Rogovin. 1937. Stalin’s year of terror. Londres, Oak Park-Mehring Books, 1998.

[ii] Margarete Buber-Neumann. Historia del Komintern. A revolução mundial. Barcelona, Picazo, 1975, p. 425.

[iii] Cf. Anna L. Boukharina. Boukharine ma Passion. Paris, Gallimard, 1989, pp. 275-6.

[iv] Roy Medvedev. Le Stalinisme.Origines, histoire, conséquences. Paris, Seuil, 1972.

[v] Joseph Stalin. Rapport au XVII Congrès du PCUS. Paris, Éditions Sociales, 1934.

[vi] Jean-Pierre Joubert. L’affaire Kirov commence en 1934. Cahiers Leon Trotsky n° 20, Paris, dezembro 1984. Nos escritos de Trotsky não existe nenhum indício nesse sentido: Kirov é qualificado como um burocrata, cujo assassinato foi usado por Stalin como pretexto para o terror e os “Processos de Moscou”.

[vii] Lilly Marcou. Stalin Vita Privata. Roma, Editori Riuniti, 1996, p. 132.

[viii] Amy Knight. Quem Matou Kirov? Rio de Janeiro, Record, 2001.

[ix] Pierre Sorlin. The Soviet People and Their Society. Nova York, Praeguer, 1970.

[x] People’s Commissariat of Justice of the URSS. Report of Court Proceedings in the case of the Anti-Soviet “Bloc of Rights and Trotskyites”. Moscou, 1938.

[xi] Margarete Buber-Neumann. Op. Cit., p. 431.

[xii] Leopold Trepper. O Grande Jogo. São Paulo, Portugália, sdp.

[xiii] Pierre Broué. Comunistas contra Stalin. Masacre de una generación. Málaga, SEPHA, 2008.

[xiv] Pierre Broué. Les trotskistes en Union Soviétique. Cahiers Leon Trotsky n° 6, Paris, ILT, 1980.

[xv]Pável e Anatoli Sudoplátov. OperacionesEspeciales. Barcelona, Plaza &Janés, 1994, p. 71.

[xvi] Jacques Baynac. Post-face. In: Jan Valtin. Sans Patrie ni Frontières. Paris, J-C Lattès, 1975, p. 708.

[xvii] Gilles Perrault. A Orquestra Vermelha. Porto Alegre, Nova Época, 1985.

[xviii] Cf. Leopold Trepper. O Grande Jogo, cit.

[xix] Burnett Bolloten. El Gran Engaño. Las izquierdas y su lucha por el poder en la zona republicana. Barcelona, Caralt, 1975.

[xx] Carta de Ignace Reiss ao CC do PCUS. In: Elisabeth K. Poretski. Nuestra Propia Gente. Madri, Zero, 1972.

[xxi] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 78

[xxii] Pierre Broué. Trotsky. Paris, Fayard, 1988, p. 871.

[xxiii] Martin Malia. Comprendre la Révolution Russe. Paris, Seuil, 1980, p. 219.

[xxiv] Cf. Robert C. Tucker. Stalin in Power. Revolution from above. Nova York, Norton, 1990.

[xxv] Cf. Curtis Cate. Malraux. São Paulo, Scritta, 1995; e Maria Teresa de Freitas. Trotsky e Malraux: sobre o marxismo na literatura. In: Osvaldo Coggiola. Trotsky Hoje. São Paulo, Ensaio, 1994.

[xxvi] Victor Serge. Mémoires d’un Révolutionnaire. Paris, Seuil, 1978, p. 350.

[xxvii] Cf. Gérard Roche. Les intellectuels américains et la Commission Dewey. Cahiers Leon Trotsky n° 42, Paris, ILT, julho 1990; e Alan Wald. La Commission Dewey 40 ans après.Cahiers LéonTrotsky nº 3, Paris, ILT, 1979. Em Moscou, a Comissão Dewey foi combatida através da “detenção” de um certo Donald L. Robinson, norte-americano, apresentado como “espião trotskista” vinculado ao Japão, aos trotskistas dos EUA e à própria Comissão. A reação nos EUA, em especial a investigação do jornalista Herbert Solow, demonstrou rapidamente que se tratava de uma montagem. “Robinson” nunca foi identificado.

[xxviii] Leon Sedov. Le Livre Rouge des Procès de Moscou. Paris, La Pensée Sauvage, 1981 [1936], pp. 9 e 123.

[xxix] Gérard Rosenthal. Avocat de Trotsky. Paris, Robert Laffont, 1975, p. 103.

[xxx] Pável Sudoplátov e Anatoli Sudoplátov. Op. Cit., p. 105.

[xxxi] Pierre Broué. Trotsky, cit., p. 925.

[xxxii] Gérard Rosenthal. Avocat de Trotsky. Paris, Robert Laffont, 1975, p. 227.

[xxxiii] Por exemplo, os “cinco de Cambridge” (Kim Philby, Guy Burgess, Donald McLean, Anthony Blunt e John Cairncross), agentes duplos na inteligência britânica, recrutados pela espionagem da URSS (por Alexander Orlov, do qual falaremos adiante) quando eram estudantes na Universidade de Cambridge. Durante longo tempo se supôs que fossem apenas três, excluindo, além de Cairncross, Anthony Blunt, curador das jóias e coleções de arte da Coroa inglesa: o impacto que a descoberta dessa rede provocou na opinião pública deveu-se tanto ao seu caráter espetacular como a origem social elevada dos seus membros.

[xxxiv] Eric Hobsbawm. Era dos Extremos. O Breve Século XX, 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1994, p. 80.

[xxxv] Ruth Fischer. Trotsky à Paris, 1933. Cahiers Léon Trotsky n° 22, Paris, junho 1985.

[xxxvi] Pierre Broué. Op. Cit., p. 839.

[xxxvii] Leon Trotsky. Diário do Exílio. São Paulo, Edições Populares, SPD, p. 53.

[xxxviii]Luis Suárez. Confesiones de Diego Rivera. México, Grijalbo, 1975.

[xxxix] Cf. Leandro A. Sánchez Salazar. Así Asesinaron a Trotski.México, La Prensa, 1955.

[xl] O “judeu francês”, segundo Pável Sudoplátov, era Leonid A. Eitingon, codinome de Naum Iakovlevich Ettingon, que tinha “servido” na França como “Pierre”, também como “Tom”, e na Espanha, durante a guerra civil, como “general Kotov”. Sudoplátov nega que Eitingon fosse amante ou marido de Caridad Mercader, mãe do assassino de Trotsky. Atuou no México, segundo Sudoplátov, “com um falso passaporte francês de um judeu sírio que padecia de uma doença mental”.

[xli] Louis Francis Budenz. This is My Story. Nova York, McGraw-Hill, 1947.

[xlii] “Mornard” explicara a Sylvia Ageloff que comprara um passaporte canadense a nome de “Frank Jacson” para sair da Bélgica se livrando do serviço militar, passaporte que usou nos EUA e no México.

[xliii] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 115.

[xliv] O estabelecimento definitivo dessa identidade, baseado em provas e documentos, foi feito por Isaac Don Levine: L’Homme qui a tué Trotsky. Paris, Gallimard, 1960.

[xlv]María de la Asunción MercaderFordada (1918 – 2011) foi uma atriz de filmes espanhola. Ela apareceu em 40 filmes entre 1923 e 1992. Ela foi a segunda esposa do diretor de cinema Vittorio De Sica (MaríaMercader, laactrizcatalana que amó a De Sica, El País, Madri, 30 de janeiro de 2011).

[xlvi] Leonardo Padura. O Homem que Amava os Cachorros. São Paulo, Boitempo, 2015.

[xlvii] Leon Trotsky. Oeuvres. Maio-agosto 1940. Vol. 24, Paris, ILT, 1987, p. 103.

[xlviii] Leon Trotsky. Lettre à Pagenel (24 de outubro 1938). Oeuvres. Vol. 18, Paris, p. 251.

[xlix] Margaret Hooks. Tina Modotti. Fotógrafa e revolucionária. Rio de Janeiro, José Olympio, 1997, p. 263.

[l] Cf. Pierre Broué. Ljova, le “fiston”. Cahiers Leon Trotsky n° 13, Paris, março 1983.

[li] A. e P. Sudoplátov. Op. Cit., p. 103.

[lii]Gérard Rosenthal. Op. Cit., p. 262.

[liii] Dois médicos franceses, fazendo uma “autópsia retroativa”, chegaram à conclusão de que Sedov pôde, de fato, ter morrido de complicações pós-operatórias (Jean Michel Krivine e Marcel-Francis Kahn. La mort de Leon Sedov. Cahiers Leon Trotsky n° 13, Paris, março 1983).

[liv]P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 121.

[lv] Gérard Rosenthal. Op. Cit., p. 263.

[lvi] A. e P. Sudoplátov. Op. Cit., p.78.

[lvii]Alexander Orlov. The Secret History of Stalin’s Crimes. Nova York, Jarrolds, 1954.

[lviii] Boris Nicolaievski foi, depois, autor de uma biografia de Karl Marx, publicada pela Penguin Books, que durante anos foi considerada a mais completa sobre a vida do revolucionário alemão.

[lix] Cf. Michel Lequenne. Les demi-aveux de Zborowski. Cahiers Leon Trotsky n° 13, Paris, março 1983.

[lx]Cf., por exemplo: John J. Dziak.Chekisty. A history of the KGB. Lexington, DC Heath, 1988; John Barron. KGB Today. The hidden hand. Londres, Hodder &Soughton, 1985; Christopher Andrew e Oleg Gordievskij. La Storia Secreta del KGB. Milão, Rizzoli, 1996.

[lxi] Alexander Orlov. Op. Cit.

[lxii] Esse “círculo” teria inspirado o romance de Graham Greene, The Third Man, do qual foi tirado o filme homônimo, de Michael Curtiz, com Orson Welles e Joseph Cotten nos papéis principais.

[lxiii] Walter G. Krivitsky. In Stalin’s Secret Service. An exposé of Russia’s secret policies by the former chief of the Soviet Intelligence in Western Europe. Nova York, Harper Brothers, 1939.Krivitsky (1899-1942) foi um alto funcionário dos serviços secretos soviéticos; rompeu com Moscou em 1937, após o assassinato do seu superior Ignace Reiss (Reiss havia rompido com a NKVD quando do primeiro «Processo» de Moscou). Depois de publicar seu livro, juntou-se aos mencheviques exílados nos EUA; foi misteriosamente assassinado num quarto de hotel em Nova York, em 1942.

[lxiv] Pierre Broué. Ljova, le fiston, cit.

[lxv] Gérard Rosenthal. Op. Cit., p. 280-1.

[lxvi] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 78. Esta contradição, entre outras, joga luz sobre o método de confissão-ocultamento que permeia todo o livro de Sudoplátov que, como os de outros ex-agentes (também da CIA) procura resolver o problema de confessar os crimes, defendendo ao mesmo tempo a inocência do autor.

[lxvii] Olivia Gall. Trotsky en México y la Vida Política en el Periodo de Cárdenas 1937-1940.México, ERA, 1991. A autora confunde Codevilla con Codovilla.

[lxviii] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 103 e 108.

[lxix] Valentin Campa. Mi Testimonio. México, Cultura Popular, 1985, p. 161-166.

[lxx] Cf. Alain Dugrand. Trotsky in Mexico 1937-1940. Manchester, Carcanet, 1992.

[lxxi] Pablo Neruda. Confieso que he Vivido. Buenos Aires, Circulo de Lectores, 1976, p. 168-9. O descaso com que Neruda se refere a Trotsky e ao atentado contra sua vida, o tom de “pilheria irresponsável” com que se refere à participação de seu amigo Siqueiros, talvez revelem algo mais do que a imagem de bon vivant “comunista” de sua autobiografia. A NKVD trabalhava com três círculos concêntricos: a) O “núcleo político”, composto por membros do aparelho soviético; b) Os “executores”, de diversas nacionalidades, se possível não-russos; c) A “periferia”, na qual tinham seu lugar os “companheiros de estrada”, que eventualmente podiam desempenhar tarefas de importância.

[lxxii] José Ramón Garmabella. Operação Trotsky. Rio de Janeiro, Record, 1972, p. 60.

[lxxiii] Leon Trotsky. Oeuvres. Maio-agosto 1940. Vol. 24, Paris, ILT, 1987, p. 313.

[lxxiv] Isaac Deutscher. Trotsky. El profeta desterrado (1929-1940). México, ERA, 1969, p. 434.

[lxxv] Pierre Broué. Op. Cit., p. 52.

[lxxvi] Cf. Is a Shameless Frame-up! A statement on the slanders circulated by the Healy Group against Hansen, Novack, and the SWP, 1976.Em um relatório interno do FBI, J. Edgar Hoover acusou Joseph Hansen e outros dirigentes do SWP de terem assassinado “George Mink” (codinome do lituano Dimitri Utnik), “executor” da GPU-NKVD residente nos EUA (responsável pelo assassinato dos libertários italianos Camillo Berneri e Francesco Barbieri) jogando seu cadáver na cratera de um vulcão. “Mink” estava no México no período da preparação do assassinato de Trotsky.

[lxxvii]Toda a “responsabilidade” de Harte parece ter sido a de conhecer um agente, Ióssif Grigúlevitch, a quem Sudoplátov empresta o codinome “Padre”, supostamente também conhecido por outros trotskistas como “politicamente neutro”, que foi o responsável pela abertura das portas da casa de Coyoacán no atentado de 24 de maio de 1940 (o que também desemente a versão de que Mercader teria enganado Harte nessa ocasião). Harte, segundo Sudoplátov, foi assassinado para que não revelasse a verdadeira condição de agente de Grigúlevitch.

[lxxviii] Esteban Volkov-Trotsky. Leon Trotsky: lembranças e significado. In: Osvaldo Coggiola. Trotsky Hoje. São Paulo, Ensaio, 1992, p. 315. Este texto é a transcrição do depoimento que o neto de Trotsky fizera, como último sobrevivente dos acontecimentos de agosto de 1940, no simpósio internacional que organizamos, no Departamento de História da USP, em setembro de 1990, por ocasião do 50° aniversário do assassinato de Trotsky.

[lxxix] Nicholas Mosley. The Assassination of Trotsky. Nova York, Josef Schaftel, 1972, p. 148.

[lxxx] Leon Trotsky. Op. Cit., p. 376.

[lxxxi] As atas policiais completas, tanto do atentado de 24 de maio como do assassinato de 20-21 de agosto, encontram-se nos Arquivos da Generalitat de Catalunya.

[lxxxii] Um relato minucioso do inquérito policial se encontra no livro do general Leandro A Sánchez Salazar, citado acima.

[lxxxiii]Era duro e severo / Grave tinha a voz / E era de aço sua apostasia / (Era, não. É,que ainda hoje em dia / está o homem inteiro) / É.De aço.De aço é. Aço!Isso é!(Nicolás Guillén, Bajo elcielo de Lecumberri –Elegia a Jacques Mornard).

[lxxxiv] Esteban Volkov-Trotsky. Leon Trotsky: lembranças e significado, cit., p. 317.

[lxxxv] Nicholas Mosley. Op. Cit., p. 153.

[lxxxvi] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit., p. 115-116.

[lxxxvii] Jorge Semprún. La Segunda Muerte de Ramón Mercader. Caracas, Tiempo Nuevo, 1970, p. 117.

[lxxxviii]Pravda, Moscou, 9 de setembro de 1988.

[lxxxix] P. e A. Sudoplátov. Op. Cit, p. 113 e 121.

[xc] Pierre Broué. Présentation. In: León Trotsky. Oeuvres. Vol. 24, Paris, ILT, 1987, p. 19.

[xci]Victor Alba. Trotsky visto por Natalia Sedova, manuscrito inédito, Arquivo da Generalitat de Catalunya.

[xcii] Demanda de Natalia Sedova contra “France-Dimanche”. Excelsior, México, 8 de maio de 1948.

[xciii] Natalia Sedova Trotsky. La culpabilidad de Stalin en el asesinato de Leon D. Trotsky. Novedades, México, 21 de abril de 1947.

[xciv] Boris Kagarlitsky. A Desintegração do Monolito. São Paulo, Edunesp, 1997.

[xcv] Um relato pormenorizado desse fato, incluindo a identidade dos militantes do PCF que assassinaram Pietro Tresso, encontra-se em: Pierre Broué e Raymond Vacheron. Meurtres au Maquis. Paris, Grasset & Frasquelle, 1997.