O clima das cidades na COP30

Imagem: Thiébaud Faix
image_pdf

Por ADALBERTO DA SILVA RETTO JR.*

A transição ecológica global exige uma mudança de paradigma que redefina o desenvolvimento como a regeneração contínua de recursos, transformando as cidades em sistemas vivos integrados e sustentáveis

1.

A COP30 em Belém nasceu sob a bandeira da contradição: uma cúpula dedicada ao futuro do planeta em uma cidade que, à semelhança da maioria das cidades brasileiras, ainda enfrenta desafios relacionados à pobreza e à desigualdade.

Dez anos após o histórico Acordo de Paris, os mais de 190 signatários são chamados a realizar um balanço das promessas cumpridas e a traduzir esses compromissos em ações concretas. Entre ambições não concretizadas e novas oportunidades de investimento sustentável, a COP30 talvez marque uma fase de maturidade ao encaminhar o debate do “quanto” para o “como” agenciar a transição ecológica global.

É sabido que a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais constitui hoje uma questão reconhecida e consolidada em diversos contextos institucionais. Regulamentações e instrumentos de controle e intervenção já estão claramente definidos, com o objetivo de fortalecer ações voltadas a fomentar os processos e dinâmicas de uma verdadeira transição ecológica.

Essa ação, contudo, tornou-se necessária devido à conexão que a modernização industrial havia estabelecido – e que parecia insolúvel – entre o uso dos recursos naturais e ambientais e a dinâmica do desenvolvimento econômico, caracterizado essencialmente pela busca de aumento do valor intermediário e final do capital investido na transformação, consumo e destruição desses recursos.

Como se pode observar, é necessária uma verdadeira mudança de paradigma, com uma alteração fundamental no significado atribuído à palavra “desenvolvimento”. O desenvolvimento não deve mais ser entendido apenas como crescimento quantitativo de fatores derivados dos recursos específicos da produção de bens e serviços, mas como a subordinação instrumental desses fatores à qualificação do capital histórico, cultural e social de uma comunidade e de seus membros, ainda que marcada por práticas e comportamentos distintos dos do passado.

O desenvolvimento é, portanto, dotado de uma mobilidade e de uma dinâmica de transformação que não eram contempladas em versões anteriores.

Ele abrange processos de transição que não implicam o consumo e a destruição de bens e recursos – naturais e ambientais –, mas sua contínua regeneração, como condição necessária à sustentação e multiplicação das formas de uso na vida social, cultural e econômica de uma comunidade. A transição ecológica, portanto, não é alheia à dinâmica do desenvolvimento integral, mas produz efeitos e resultados que reproduzem e disseminam a própria dimensão do desenvolvimento.

2.

Hoje, os campos de análise voltados à avaliação de impacto das atividades humanas tornaram-se cada vez mais diversos. As interconexões entre os estilos de vida e seus efeitos sobre o território – ambiental, social e econômico – multiplicam-se e complexificam-se. Portanto, existem diversas maneiras de abordar o tema da sustentabilidade.

Uma tendência emergente, resultante das transformações demográficas contemporâneas, é o crescimento da população urbana – fenômeno que evidencia múltiplos aspectos da sociedade, da vida comunitária e da relação da civilização humana com o meio ambiente. Essas reflexões emergem quando se compreende que as áreas urbanas constituem contextos onde a questão da sustentabilidade se torna predominante, não apenas pelos riscos de insustentabilidade associados à exploração dos recursos naturais, mas pela necessidade de orientar os assentamentos humanos para formas mais integradas de desenvolvimento territorial.

As cidades não são apenas lugares de moradia, mas verdadeiros organismos capazes de criar ou destruir valor social, ambiental e econômico, dependendo de como o capital territorial é integrado e utilizado para fins de regeneração. Esse conceito torna-se ainda mais evidente quando se reconhece que cada assentamento urbano representa concretamente as inter-relações que unem os atores do território e seus projetos de sociedade e ambiente.

Vale destacar que não apenas os lugares em que vivemos dependerão do nosso nível de consciência sobre o vínculo indissolúvel que temos com eles, mas também que as cidades, como espaços físicos e relacionais, só poderão se tornar centros de criação de valor no curto, médio e longo prazos se forem reconhecidas como sistemas vivos integrados, que unem dimensões diversas e complementares.

Esse processo de evolução e crescente sincronia com os ciclos naturais e sociais constitui talvez a mais importante transição cultural, ética e biológica, capaz de sustentar o mundo “feliz” que almejamos.

De que tipo de transição precisamos, então, em nossas cidades? Para responder a essa questão, é necessário retomar o conceito de “integração”, que, no contexto descrito, assume o papel de pilar fundamental de valores, orientando o caminho rumo à concretização do pensamento sustentável.

3.

No sistema territorial integrado, aspectos econômicos, relacionais e simbólicos – tangíveis e intangíveis – assumem papel central. A função da governança, nesse contexto, é estabelecer um léxico comum e assegurar o curso evolutivo desses ativos sob uma perspectiva sustentável, equilibrando os fatores que sustentam o desenvolvimento territorial.

A transição das cidades baseia-se, assim, em sua capacidade de transcender a visão de curto prazo, promovendo modelos de vida voltados à posteridade. Tal processo depende não apenas do bem-estar direto das pessoas, mas também do cuidado e da harmonia do sistema ambiental e social como um todo. Um sistema vivo funciona dessa maneira: sua sobrevivência depende do cuidado com todas as dimensões que o compõem.

A transição ecológica, contudo, não se resume à adaptação técnica ou institucional, mas requer uma mudança cultural e social profunda. Ela implica uma passagem de um contexto desequilibrado para outro, fundado na reconstrução de valores e práticas voltadas à sustentabilidade coletiva.

Assim, ao se buscar um novo equilíbrio ambiental e social, deve-se reconhecer a inseparável conexão entre os processos de empobrecimento social e os efeitos da pobreza energética.

O problema da inadequação dessas ações, entretanto, persiste, em razão da frágil conexão entre as políticas de limitação do consumo de recursos e os comportamentos sociais de acesso a esses mesmos recursos.

É necessário compreender que a contemporaneidade testemunha não apenas o empobrecimento energético, mas também o agravamento das desigualdades econômicas e sociais, que reforçam a diferenciação nos padrões de consumo e nas práticas sociais.

Pode-se afirmar que o crescimento da pobreza social não favorece a redução da pobreza energética; pelo contrário, amplifica seus efeitos, diversificando os comportamentos de grupos e classes sociais no acesso e uso de recursos energéticos.

A gestão da transição ecológica, portanto, não depende apenas de novas técnicas de organização e acesso a recursos, mas de estratégias que considerem as interdependências emergentes entre as relações sociais e as dinâmicas de exclusão.

É possível, assim, identificar uma dimensão social da pobreza energética e, simultaneamente, o papel dos fatores energéticos na intensificação da pobreza social. Contudo, essa conexão raramente é reconhecida nas políticas econômicas e energéticas, criando uma visão ilusória de que a transição ecológica, por si só, reduziria as desigualdades sociais.

Se a pobreza energética for entendida como a incapacidade de indivíduos ou famílias de garantir uma cesta mínima de bens e serviços energéticos, suas consequências são amplamente negativas para o bem-estar e a inclusão social. Trata-se, portanto, de uma dimensão da transição ecológica que a aproxima e a integra cada vez mais à transição social em curso nas sociedades contemporâneas.

*Adalberto da Silva Retto Jr. é professor de Arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O segundo choque global da China
06 Dec 2025 Por RENILDO SOUZA: Quando a fábrica do mundo também se torna seu laboratório mais avançado, uma nova hierarquia global começa a se desenhar, deixando nações inteiras diante de um futuro colonial repaginado
2
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
3
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
4
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
5
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
8
A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno. Por quê?
04 Dec 2025 Por VALEIRO ARCARY: O voluntarismo não é bom conselheiro. Ideias revolucionárias são poderosas e podem colocar em movimento milhões de pessoas até então desesperançadas. Mas é imprudente desconhecer a impiedosa força da realidade objetiva.
9
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
10
Asad Haider
08 Dec 2025 Por ALEXANDRE LINARES: A militância de Asad Haider estava no gesto que entrelaça a dor do corpo racializado com a análise implacável das estruturas
11
Considerações sobre o marxismo ocidental
07 Dec 2025 Por RICARDO MUSSE: Breves considerações sobre o livro de Perry Anderson
12
O agente secreto
07 Dec 2025 Por LINDBERG CAMPOS: Considerações sobre o filme de Kleber Mendonça Filho, em exibição nos cinemas
13
Terras raras e soberania: o elo invisível entre ciência, indústria e poder
05 Dec 2025 Por CELSO PINTO DE MELO: A entrada em operação da Serra Verde é um marco: faz do Brasil o único produtor ativo de terras raras fora da Ásia, mas também expõe limites estruturais. A falta de domínio tecnológico e o processamento final realizado na China mostram que o Brasil ainda exporta minério, não inteligência mineral
14
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
15
As lágrimas amargas de Michelle Bolsonaro
07 Dec 2025 Por CAIO VASCONCELLOS: Estetização da política e melodrama: A performance política de Michelle como contraponto emocional e religioso ao estilo agressivo de Jair Bolsonaro
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES