O compromisso dos intelectuais

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Por LUIZ MARQUES*

A estratégia conservadora consiste em desideologizar as decisões e as visões polarizadas na equação “1% vs 99% da população”, consentâneo o Movimento Occupy Wall Street

A teoria do “princípio da incerteza”, pela impossibilidade de medir a quantidade física com precisão absoluta, é adaptada por outras áreas cognoscitivas. Para Eugênio Bucci, em Incerteza, um ensaio – como pensamos a ideia que nos desorienta (e orienta o mundo digital) a novidade está em que: “As big techs, os conglomerados monopolistas globais, imperam nos nossos dias como companhias mais valiosas de toda a história do capitalismo. O que elas fizeram? Sequestraram de nós o contato com a incerteza vital, capitalizaram os riscos, precificaram a ignorância”. Quer dizer, decidem por nós.

A flecha da história foi apropriada pelas megacorporações que destilam nossas dúvidas de modo a direcionar o consumo de mercadorias e, inclusive, o voto em candidatos nas eleições. A infocracia substituiu a partidocracia que mirava o futuro utópico. Em troca, espalhou pessimismo e desilusão para pavimentar a distopia fascista, depois de décadas de financeirização da sociedade e do Estado. Não escolhemos; somos escolhidos pelos algoritmos. Seduzidos e inermes, aceitamos a servidão.

Enquanto isso, a mídia corporativa censura as notícias positivas sobre as políticas progressistas da nova presidenta do México, Claudia Sheinbaum, que detém 85% de aprovação nas pesquisas de opinião. Ocorre algo idêntico no Brasil, onde os comentários sobre o governo Lula 3.0 saem com notas adversativas para pôr sob suspeita a palavra das autoridades oficiais. As cotas de reparação étnico-raciais são balanceadas com uma hipótese de aportes insuficientes à educação, mesmo que a acusação leviana não se sustente. Existe um veto editorial sobre a admissão dos avanços federais.

Os jornais escondem o óbvio ululante, as conquistas civilizatórias. Importam-lhes os entorpecentes da consciência para resguardar, incógnita, a realidade. Os noticiários televisivos provocam catarses de alívios temporários que bloqueiam a compreensão dos “poderes ocultos” e legitimam as políticas de ajustes fiscais, o rentismo financeiro. Sem escrúpulos, celebram a pedagogia de fake news para desinformar e manipular o povo. A máxima hegeliana é invertida pela assertiva “o real é irracional”.

As ideologias são apresentadas como manifestações alegóricas de sectarismo. O objetivo é, através de startups, oferecer alternativas ao confronto de classes qual o South Summit em Porto Alegre. A eticidade e a politicidade se desmancham no formalismo dos modelos matemáticos sobre o que é possível conhecer, engolir ou cuspir. A tecnologia chancela uma governabilidade de espetáculo. A democracia perde a validade. A cidadania é esvaziada de sentido. A política definha no analógico.

O palco da política

A estratégia conservadora consiste em desideologizar as decisões e as visões polarizadas na equação “1% vs 99% da população”, consentâneo o Movimento Occupy Wall Street. Cala-se sobre a fraude contábil de R$ 20 bilhões nas Lojas Americanas. Tira-se da cena do crime as indecentes fortunas. A correlação de forças favorável à hegemonia da moda é congelada por oráculos da via cibernética.

As sínteses superiores para a dignidade cedem à mercantilização que converte o conhecimento em informação técnica, na dinâmica do mercado. Toda privacidade é violada com a captura dos dados, nexos e associações dos internautas. O complexo explorado pela razão é reduzido ao maniqueísmo entre o bem e o mal. O espaço público é despublicizado e monetizado pelo capital imobiliário.

Se a cidade é um lugar privilegiado para formar lealdades e praticar responsabilidades, é também uma geografia urbana de atributos pessoais recusados na impessoalidade dos valores contraditórios de crenças e formas culturais. A ideia da “Nova Ágora” de communards responde à fragmentação das relações nos locais de moradia, de trabalho e de lazer (vide as Bets). O espírito de comunidade nas urbanidades é raro, prevalece o individualismo. Falta a solidariedade cevada no comunitarismo.

Tal decorre da privatização da vida da classe média, ao se retirar das ruas e das praças crivadas pela violência social. Inovações tecnológicas reforçam o tranco privatista da existência com videogames, streamings de filmes e telas de smartphones. Sobram nas artérias de asfalto os desesperançados, os laboriosos madrugadores e os recicladores do desperdício que Leonardo Boff designa de “os novos profetas”, reportando-se ao Primeiro Testamento bíblico. A resiliência implica uma reafirmação da pólis como palco da política, na acepção etimológica. Nela, trava-se o embate contra as alienações.

A economia flexível torna dolorosa a noção de que o próprio projeto de sobrevivência classista dos trabalhadores tem uma história e um tempo. Sociologicamente o trabalho já não propicia metas de identidade com significado para erguer a autoestima. A distância entre as “massas” e as “elites” é abissal. A obsolescência de profissões, sem realocação da mão de obra, toca o alarme. Desaparecem os cobradores de ônibus; a seguir, os motoristas, corretores de seguros, operadores de caixa, fiscais de trânsito, educadores, juízes. Até que não reste nenhuma empatia com o próximo infeliz da fila. Cabe às vozes universais tomarem partido nos conflitos políticos e nos impasses da democracia.

Exercer a rebeldia

Na coletânea organizada por Dênis de Moraes, Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise, Immanuel Wallerstein aponta “uma crise estrutural do nosso sistema-mundo e um período de transição para um novo sistema” (caótico e ultra-incerto). Nesse contexto de confusão e medo, a intelligentsia deve esclarecer as mentes e desmistificar messias da extrema direita para, assim, com criatividade, devolver uma racionalidade às coisas. Mas sem a garantia da redenção restauradora.

Francisco de Oliveira sublinha a “relação dialética entre o intelectual, o conhecimento e o espaço público”, por excelência o grande teatro da intelectualidade para colocar a conhecença a serviço da liberdade, não da dominação. O fazer intelectivo trança demandas de pensamento com a ação para construir novos consensos, mudanças, desafios. A academia tem de ir além da especialização para que os seus quadros exercitem uma perspectiva holística do incontornável cenário socioeconômico.

Enclaves paradigmáticos dos acadêmicos rivalizam com empuxes mercadológicos da digitalização. A propagação do desassossego faz parte do ofício em defesa de um olhar totalizante do momento histórico-conjuntural. Incide nas disputas da rede emaranhada de definições da inteligência artificial (IA) sobre o “knowledge”. Ademais, protege as universidades dos ataques difamatórios espelhados nas “executive orders” de Donald Trump, nos Estados Unidos. Por conseguinte, não é do silêncio dos intelectuais de que se trata, senão de seu silenciamento pelos obscurantismos de sociopatas.

Abduzidas pelo produtivismo inócuo, as atividades institucionais afastam-se de problemas cruciais. “Quem sabe a Universidade de São Paulo vá se interessar pela ‘questão negra’. Isso falta à USP. Quem se descuida da totalidade jamais será um intelectual vigilante e autêntico, para exercer uma rebeldia contra os conceitos assentados, respeitáveis, mas falsos”, salienta Milton Santos. As velhas instituições precisam sacudir sua apatia moral e estabelecer as pontes de extensão com a sociedade.

Last but not least, vale o registro da contribuição praxeológica de Michael Löwy: “A primeira tarefa de uma resistência cultural eficaz é tratar de estabelecer vínculos e conexões entre as reivindicações democráticas e as diversas lutas sociais”. Dos movimentos, afora a autonomia, espera-se a união de esforços contra o arbítrio imperial, o mando patriarcal, o racismo, o ecocídio e o vetor desumano do neoliberalismo. Dos intelectuais, o compromisso de diálogo com os sujeitos da transformação e da superação do status quo, rumo à sociabilidade do século XXI. “Para um mundo onde caibam muitos mundos” – na fórmula acolhedora e revolucionária apregoada pelos zapatistas, em Chiapas/MX.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.


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