O Congresso do PSOL

Bill Woodrow, Sem título, 1992.

Por JOSÉ RAIMUNDO TRINDADE*

Considerações sobre as potencialidades políticas das novas tecnologias em rede

Este texto faz uma primeira análise do processo de realização do Congresso do Partido Socialismo e Liberdade, ocorrido neste mês de setembro e encerrado no último final de semana. O referido Congresso foi, pela primeira vez na história política e partidária de uma agremiação socialista radical, realizado virtualmente através de uma plataforma de rede, sucedido ao processo de eleição direta de delegados. Este texto trata de analisar mais o processo, do que propriamente as decisões e as deliberações que foram tomadas, estando mais preocupado em socializar o que consideramos chave para o tratamento futuro próximo das ações coletivas envolvendo amplos grupamentos sociais e o uso das novas tecnologias de rede.

O ineditismo e algumas dificuldades geraram críticas interessantes e certo inconformismo em parte importante dos participantes. Ousar em se contrapor aos ritmos e dominar tecnologias, sabendo que a técnica é somente um dos componentes da disputa social, onde as relações sociais são os estímulos fundamentais, possibilitam ao PSOL se colocar em condições favoráveis para tomada de posições em uma conjuntura tão adversa quanto a atual. Analisar esse processo, procedimento e uso das tecnologias de redes é algo necessário, isso porque, como tese, essa tecnologia como uso social constitui algo que veio para ficar e não uma condicionalidade momentânea, vamos a análise.

O momento conjuntural

O Congresso Partidário do PSOL foi um dos momentos centrais do atual processo de disputa e interação política dos grupamentos da esquerda democrática nesta quadra da vida brasileira. Momento muito difícil no qual a conjuntura apresenta muitas perdas para o nosso povo, porém a decisão correta de realização do Congresso Partidário deve ser ressaltado.

Mesmo com a dificuldade do atual quadro sanitário, o PSOL resolveu mobilizar sua militância em processo de debate, mesmo que limitado, via plataformas e redes sociais e, fundamental, eleições num PED (Processo de Eleição Direta) que possibilitou trazer os diferentes grupos ao debate, tratar muitas questões do atual quadro conjuntural e enfrentar a disputa partidária, com a lógica de que mais vale a discordância debatida e criticada com vistas a construir a qualidade que pense e organize o futuro, que o conformismo do nada a se fazer. A mobilização interna fortaleceu a construção partidária, o conjunto das posições coletivas e tendenciais, estabelecendo no atual quadro momento rico de retomada da vida interna com a participação de número expressivo de militantes (cinco mil militantes participaram das plenárias virtuais e cinquenta mil participaram do processo eleitoral direto).

O debate de conjuntura e as posições estabelecidas possibilitam um amplo movimento interno que coloca o PSOL no centro da mobilização social contra o governo neofascista e o posiciona coletivamente como força política na construção da frente de esquerda unitária para combater a agenda neoliberal da burguesia brasileira.

A organização do processo deve ser tomada como ponto positivo central, mesmo que difícil frente as condições sanitárias e a dificuldade do uso das novas tecnologias. Assim, ao nosso ver, a construção partidária foi muito beneficiada pela capacidade organizativa construída no atual momento, o que coloca o PSOL  em condições privilegiadas de enfrentar a conjuntura arriscada e incerta, mas possível de construir outro futuro para o Brasil e o Mundo que vivemos.

Tecnologias e ação política

As atuais tecnologias foram desenvolvidas desde duas forças centrais: (i) a lógica de acumulação capitalista de produzir mais-valia relativa e extraordinária e; (ii) a partir da luta social e dos trabalhadores que buscamos estabelecer a condição humana de que criatividade e vida constitui a essência da humanidade. As tecnologias de redes sociais expressam essa contradição.

O limite de uso das tecnologias de transmissão de dados é algo que começamos somente a explorar. Sete condições nos parecem parte da interação futura dessas tecnologias e da relação com um projeto de radical ruptura com o capitalismo, algo tão necessário a ser aprendido e apreendido pelos amplos setores que defendem um projeto alternativo de sociedade:

(i) haverá crescente contato individual e coletivo mediante essas formas de comunicação; (ii) o controle social dessas tecnologias são parte da lógica de poder do capitalismo; (iii) outsiders no sistema, sejam contra controladores ou formas de rebeldia a lógica total do sistema sempre serão limitados ou controlados pelos algoritmos gerados pelos controladores do Capital, até o ponto de geração de anti-algoritmos ou controle social completo das tecnologias; (iv) o aprendizado socializado como forma política, ou seja, de disputa de ideias e poder político, sempre será limitado e bloqueado; (v) a conquista de rebeldes e mentes que construam uma outra significância nas redes sociais será e terá que ser um dos instrumentos fundamentais para nova esquerda revolucionária e socialista; (vi) o aprendizado social de uso e formulação de tecnologias será ponto central para revolução anticapitalista; (vii) a superação do modo de produção capitalista será parte de um gigantesco choque informacional. Alguns pontos desenvolverei para ilustrar a interação entre o Congresso Informacional do PSOL e a luta revolucionária.

Primeiramente devemos reforçar a percepção de que a tecnologia se desenvolve como uma forma além dos controladores do sistema vigente, isso é historicamente válido, não somete no modo de produção atual quanto nos anteriores, a tecnologia é fruto e produto da interação humana, por mais que controlada pelas classes dominantes. Esse entendimento nos coloca a percepção de que o atual fluxo de tecnologia informacional se produz e se reproduzirá a uma velocidade superior a que os controladores econômicos definem. Por outro deve-se assinalar que nenhuma tecnologia é neutra, controladores do sistema impõe tecnologias de controle social. Assim temos uma permanente disputa em torno do controle tecnológico e assim como a disputa se coloca em diversos campos, também no domínio e aprendizado do uso político dessas tecnologias para que sirvam ao anticapitalismo se faz imperioso.

Segundo, a ampla divulgação dessas tecnologias atuais é um primeiro ponto fundamental. A capacidade de dominar tecnologias desse tipo está ligado tanto ao exercício de uso quanto a conhecimentos básicos e não elevadas formações acadêmicas, estamos aqui num mundo de interação tecnológica de potencial socialização, o problema está nas relações sociais capitalistas mantidas, defendidas e de representação das classes dominantes. Por fim o domínio dessas tecnologias e sua disputa em tempos próximos é algo central para nós anticapitalistas, o congresso via plataforma do PSOL nos possibilitou um exercício que não é momentâneo e sim um aprendizado estrutural e que facilitará a ruptura com o capitalismo nesta parte do nosso planeta.

Vivere, mori et pugnare.

P.S.: O autor participou como delegado do referido Congresso.

*José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA. Autor, entre outros livros, de Crítica da Economia Política da Dívida Pública e do Sistema de Crédito Capitalista: uma abordagem marxista (CRV).