O estado da democracia

Fritz Wotruba, Untitled from Flight 1969, published 1971

Por LOURIVAL SANT’ANNA*

Prefácio do autor para o livro recém-lançado.

Este livro reúne minhas colunas dominicais no Estadão de abril de 2016 a abril de 2021, dedicadas ao tema da democracia. No período, publiquei 250 colunas, sobre política, gestão pública, economia, geopolítica, comércio, relações sociais, cultura, religião e resposta à pandemia – frequentemente misturados, em análises transversais. Quase a metade, 120, trataram da democracia, das quais selecionei 100 para esta coletânea. Esses números refletem uma realidade: nesses cinco anos, a democracia passou pelo maior teste de estresse desde o fim da Guerra Fria, há três décadas.

O teste é, em grande medida, gradual e sutil. No período, foram poucos os golpes militares clássicos, como o de Mianmar, em fevereiro de 2021, no qual a líder civil Aung San Suu Kyi foi presa, depois da avassaladora vitória eleitoral de seu partido, e uma junta militar assumiu o poder.

O período foi caracterizado pelo crescimento de outra forma de autoritarismo: a captura das instituições democráticas com artimanhas que até certo ponto seguem a letra da lei, embora não seu espírito. Até começarem a mudar as leis para tornar o assalto irreversível.

O desfecho não é necessariamente a perpetuação de um governante no poder, como ocorreu na Venezuela, Rússia e Turquia. Pode ser simplesmente a normalização de comportamentos públicos que antes não eram aceitáveis; trazer para a chamada “praça pública”, a antiga ágora, discursos e atitudes que antes se restringiam ao ambiente doméstico, ou à mesa de bar.

Esse movimento fortuito acaba resultando em retrocessos bastante tangíveis no que diz respeito à qualidade do debate, ao espaço para a negociação e aos limites antes impostos aos preconceitos de gênero, sexualidade, raça, origem e religião. A subordinação aos conteúdos de ordem moral, religiosa, cultural e identitária transforma a política em uma caricatura de si mesma, e o Estado e as leis, em arsenais de uma guerra tribal.

No centro da estratégia, está a mentira. Foi uma proeza notável (para o mal) nesses últimos anos a relativização dos fatos a ponto de eles se equipararem a versões; o enfraquecimento da realidade, convertida em “narrativas”, opiniões, preferências subjetivas.

A mentira sempre foi uma arma valiosa do arsenal da política. Mas ao longo do tempo as democracias desenvolveram ferramentas para diminuir a vantagem competitiva dos mentirosos. O jornalismo exerce um papel central nisso, ao lado da educação e da atuação de cidadãos atentos.

O modelo de negócios da mídia foi enfraquecido pelo surgimento das plataformas digitais, que canibalizaram o conteúdo jornalístico, oferecendo-o de graça e concentrando na distribuição, e não mais no produto, a sua monetização.

Ao mesmo tempo em que asfixiavam financeiramente as empresas de mídia tradicionais, as plataformas digitais passaram a distribuir indiscriminadamente notícias falsas e opiniões sem embasamento em fatos, misturadas com informações apuradas segundo os critérios do jornalismo. Foi um prêmio para a mentira e para o populismo, que ressurgiu com força nesses cinco anos.

Quando esse processo de deterioração da qualidade do debate e das lideranças nos regimes democráticos havia atingido seu auge, espalhando-se por países grandes e populosos como Estados Unidos, Brasil, México e, em certa medida, a Índia, surgiu a Covid-19.

A pandemia é um teste para a qualidade de gestão de um país, e para sua adesão às diretrizes da ciência e à verdade factual, ambas relegadas a segundo plano pela estratégia populista. Inevitável observar o oportunismo darwinista do vírus.

O ano de estreia da coluna, 2016, foi marcado pelo plebiscito que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia, pela margem apertada de 52% a 48%. A campanha pelo “sim”, repleta de mentiras sobre o custo econômico de permanecer no bloco, teve como um de seus principais artífices Boris Johnson, que mais tarde se elegeria primeiro-ministro, aproveitando a vantagem competitiva de prometer coisas impossíveis de cumprir, na tortuosa negociação dos termos do Brexit.

Para coroar 2016, Donald Trump se elegeu presidente no fim do ano, tornando o cenário político americano irreconhecível. A partir daí, ganhou enorme impulso o populismo – tema do primeiro e, não por acaso, mais longo capítulo do livro.

No ano seguinte, a França, berço do Iluminismo, deu um susto no mundo, com um segundo turno no qual a líder de extrema-direita Marine Le Pen, cuja Frente Nacional tem raízes no regime pró-nazista de Vichy, obteve 34% dos votos. Vieram as eleições de Andrés Manuel López Obrador, no México, e Jair Bolsonaro em 2018. E de Alberto Fernández no ano seguinte, tendo como vice a dama do populismo Cristina Kirchner, apesar de sua profusão de problemas com a Justiça argentina.

Nesse período, a Lava Jato se espraiou pela América Latina, com enorme impacto sobretudo no Peru e Equador, à medida que os contratos da Odebrecht nesses países iam sendo dissecados. Indícios e escândalos apareceram em muitos países da região, mas foram abafados por ministérios públicos menos independentes.

Enquanto esses terremotos balançavam as democracias, em partes mais sombrias do mundo o autoritarismo foi se consolidando. Um mal explicado golpe fracassado na Turquia deu a Recep Tayyip Erdogan o pretexto para eleger um novo inimigo nacional, ao lado dos curdos: o movimento Hizmet.

A perseguição ao grupo acabou envolvendo o Brasil por meio do pedido de extradição ao turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi. E aqui, uma modesta vitória do jornalismo. Minha coluna publicada no dia 23 de junho de 2019 foi citada pelo advogado de defesa Theo Dias no julgamento do Supremo Tribunal Federal em agosto daquele ano. Nela, descrevo o Hizmet e argumento que a acusação de terrorismo não tem fundamento. O pedido de extradição foi negado.

Escrevi a coluna em Pequim, no domingo anterior ao da publicação, antes de partir para a Coreia do Norte, onde ficaria uma semana sem internet, e sob estrita vigilância. Assim era minha vida antes da pandemia. As constantes viagens estão refletidas nas colunas. Espero que seja uma leitura prazeirosa e proveitosa, uma oportunidade para pensar sobre os ventos que têm soprado no mundo, e para onde eles nos levam.

*Lourival Sant’Anna é mestre em jornalismo pela ECA-USP. Autor, entre outros livros, de O destino do jornal (Record).

Referência


Lourival Sant’Anna. O estado da democracia: 100 colunas no Estadão sobre o grande desafio do nosso tempo. São Paulo, e-book, 2021. 224 págs.