O fenômeno Donald Trump

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Por DANIEL AARÃO REIS*

Donald Trump 2 e seus propósitos “iliberais” devem ser denunciados com a maior ênfase. Se a política de potência se afirmar como princípio nas relações internacionais será funesto para o mundo e para o Brasil em particular

1.

Na campanha eleitoral de 2016 ele surgiu como uma provocação improvável. Do palco de programas marotos de TV diretamente para a presidência da República. Contra todas as previsões, algumas do próprio partido, e apesar das baixarias, elegeu-se. Com menos votos que a oponente, mas contando com o mecanismo esdrúxulo, antidemocrático e antipopular de um Colégio Eleitoral criado em fins do século XVIII para conter a “canalha”.

Mas seu primeiro mandato não esteve à altura do demagogo que ele prometia ser. Perdeu a reeleição. Inconformado, esperneou, pressionou, corrompeu e acabou lançando suas hordas de fanáticos em cima do Congresso que se aprestava para confirmar os resultados eleitorais.

Perdeu ainda uma vez e, com muitos processos nas costas, foi dado como liquidado.

Mas deu a volta por cima. Apesar de escrachado, julgado, condenado, elegeu-se novamente em 2024. Como uma espécie de fênix, renasceu. Agora, com maioria de votos e fazendo maioria também nas duas Casas do Congresso. Uma vitória acachapante. Impossível analisar seus “feitos” atuais sem uma reflexão sobre o aparente despropósito de um homem desmoralizado conseguir ascender à presidência imperial da maior potência do mundo consagrado pela maioria dos eleitores.

2.

Entre as explicações/interpretações correntes, considerarei o que me parece mais relevante.

De um lado, a revolução digital em curso, desde as duas últimas décadas do século XX, tem transformado profundamente os fundamentos econômicos, sociais, políticos e culturais das sociedades em todo o mundo. A ela se acopla agora a da Inteligência Artificial, com resultados ainda mal conhecidos, mas entrevistos, e já produzindo resultados alarmantes. O grau de monopolização da economia e, em especial, das comunicações, alcança patamares inéditos.

Desaparecem profissões. Relocalizam-se importantes centros industriais. Desdobra-se a economia informal. Aumenta o número de trabalhadores chamados autônomos, mas sem nenhuma autonomia real, pois inteiramente nas mãos impessoais dos aplicativos. Para muita gente o mundo está se tornando/já se tornou uma realidade de areias movediças. Suscitando perplexidade, medo, desamparo, alarme. Não gratuitamente, certezas consagradas cedem lugar a hesitações e a desconfianças que, antes, seriam consideradas pueris e incongruentes. E se cogita até se a humanidade não estará ingressando numa nova fase do capitalismo.

O processo é acompanhado de um crescimento demencial das desigualdades sociais, evidente na principal potência capitalista, os Estados Unidos. Ali, um punhado de homens brancos detém quase a metade da renda nacional. Segundo dados recentes do Federal Reserve Bank, a metade mais rica do país deteria 97,5% da renda total. A outra metade ficaria com apenas 2,5%. A mesma fonte informa: 133 mil famílias possuem 6 trilhões de dólares.

Em percentuais, no topo da pirâmide social, 0,1% da população controla 13,8% da riqueza total. E, segundo dados publicados por Thomas Piketty, a concentração da riqueza acelera-se e vai em ritmo crescente nos últimos trinta anos. Tais tendências manifestam-se também na Europa, atestadas pelo, e atestando o, declínio do Estado de Bem-Estar Social, laboriosamente construído entre 1945 e 1975 e, há alguns anos em plena decadência.

Embalando/incentivando o desespero e a dúvida das gentes, as chamadas mídias digitais, dominadas por alguns poucos monopólios privados ou, em certos países, por Estados ditatoriais, através de algoritmos previamente programados, tentam condicionar as escolhas e as opções, extremando e polarizando os debates, enfraquecendo as decisões autônomas, espalhando lixo por onde chegam, envenenando e apodrecendo a capacidade de pensar criticamente: a Ciência teria realmente fundamentos sólidos? A Terra seria mesmo redonda? As vacinas funcionariam? Tudo o que está acontecendo não seria resultado de sujeitos e conspirações ocultas?

3.

As multidões reagem correndo para o abrigo supostamente seguro das versões fundamentalistas de velhas religiões. E para os braços e brados dos demagogos que oferecem poções mágicas, arquiteturas simplificadas, fórmulas salvacionistas.

O regime democrático não tem conseguido deter ou controlar estas tendências. A curva dos votos em branco ou as abstenções crescem a cada processo eleitoral. Sucessivos escândalos produzem um aumento da desconfiança nas lideranças e nos partidos tradicionais, considerados, com razão, uma elite desconectada com relação à sociedade e aos interesses das classes populares. As forças políticas ditas progressistas, com suas propostas reformistas “moles”, nem arranham o poder dos monopólios das comunicações e a hegemonia do capital financeiro. Apenas gerenciam o status quo e aparecem como antesalas involuntárias dos demagogos de extrema direita.

Confiram a intrigante sequência: nos EUA, aos dois mandatos de Barack Obama, sucedeu Trump 1. Depois de Joe Biden, Trump 2. No Brasil, Lula-Dilma Rousseff ensejaram Michel Temer-Jair Bolsonaro. Na Argentina, Javier Milei veio após Alberto Fernandez. Na França, François Holland socialista “gerou” o liberal Emmanuel Macron que, por sua vez, arrisca ser sucedido pelo partido de extrema direita.

É este contexto, aqui apenas esboçado, que nos permite compreender a ascensão e as vitórias eleitorais de Donald Trump.

4.

Vale enfatizar, porém, que Donald Trump 2 não será “apenas” uma repetição de Donald Trump 1. Um novo projeto de poder já se anunciou com bastante nitidez nestes dois primeiros meses do novo governo.

Internamente, destacam-se o desmantelamento de estruturas estatais consideradas de oposição – real ou potencial – às intenções do novo governo; a intimidação de governos estaduais, sob a ameaça, velada ou aberta, de suspensão de verbas federais, indispensáveis para a realização de programas essenciais; o cerco às universidades, objeto de agressiva política repressiva, condicionando-se, também aí, a liberação de verbas federais à renúncia da autonomia acadêmica e política; as ameaças ao poder judiciário, sob pressão em duas frentes: grandes escritórios de advocacia são dissuadidos de assumir certas causas, enquanto juízes federais são submetidos a cerco midiático, com ameaças concretas à sua integridade física e à de suas famílias.

Nas ruas, às vezes sem mandato judicial, a polícia prende supostos imigrantes ilegais e/ou participantes de manifestações públicas que desagradam o poder. Estamos diante da marcha batida no sentido da construção da assim chamada “democracia iliberal”, consolidada e popularizada na Hungria, sob liderança de Victor Orbán, ditador virtual do país e mentor/inspirador de experiências similares pelo mundo afora.

“Democracia iliberal”, é um eufemismo para designar regimes sem nenhum conteúdo democrático, onde o governo de plantão é blindado contra eventuais alternâncias por uma série de mecanismos “legais” que inviabilizam o exercício da oposição política. A capacidade da sociedade norte-americana de resistir a este processo, infelizmente, é objeto de dúvidas e controvérsias.

Ainda mais inquietante é a projeção internacional das políticas lideradas por Donald Trump 2. Em repetidos e enfáticos pronunciamentos, o presidente dos EUA tem evidenciado ambições de vassalizar ou ocupar os territórios da Groenlândia, do Canadá e do Panamá. Em suas iniciativas concernentes à Ucrânia, privilegiou conversações diretas com Vladimir Putin, virtual ditador da Rússia e liderança da potência agressora, desprezando articulações com os estados europeus, tradicionais aliados, e com o próprio país invadido, a Ucrânia.

É o resgate da política de potência, de uso corrente em séculos passados, onde prima sobre a força do direito o direito da força. Da força bruta, sem mediações, numa demonstração de arrogância e prepotência que consagra o “direito” das grandes potências de resolver os conflitos e contradições internacionais entre elas e de usar, quando lhes parecer conveniente, a força armada para defender seus interesses particulares.

O assessor especial de Lula para as relações internacionais, Celso Amorim, equivoca-se ao declarar que a novidade é que apenas a hipocrisia foi deixada de lado. Legitimar a política de potência, como dizia um antigo cínico, é pior que um crime, é um erro. Assim como tem sido um erro a conciliação com a invasão da Ucrânia.

Sendo o Brasil uma potência mediana, sem armas nucleares, detentor apenas do soft power, é uma grande inconsequência apoiar velada ou abertamente invasões de quaisquer países, o que fere os princípios da autodeterminação dos povos e da não-intervenção, formulados pelas organizações internacionais e sobretudo pelos povos e governos da Ásia, África e América ao sul do Rio Grande que cuidaram de fazer destes princípios uma espécie de pedra angular de suas políticas externas para se resguardarem das ambições das grande potências.

O fato de que tais princípios tenham sido desrespeitados não deve levar à ideia de desconsiderá-los, subestimá-los ou enterrá-los, pois eles constituem uma linha de defesa preciosa nas frentes política e diplomática, dimensões que acompanham sempre os conflitos militares.

Donald Trump 2 e seus propósitos “iliberais” devem ser denunciados com a maior ênfase. Se a política de potência se afirmar como princípio nas relações internacionais será funesto para o mundo e para o Brasil em particular.

Cabe aos pequenos países e às potências medianas, como o Brasil, mobilizar a opinião pública internacional e organizar uma grande aliança – de povos e governos – que inviabilize, antes que seja tarde demais, o resgaste desta amaldiçoada política da força bruta que será capaz de levar o mundo a novas guerras e, em consequência, à hibernação da democracia por um longo período, eis que o regime democrático, como demonstra a História, nunca fez e nunca poderá fazer par com qualquer tipo de guerra, e sobretudo, com guerras de conquista.

*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo – Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]


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