O sonho de Chico Mendes

Imagem: Filipp Romanovski
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Por LEONARDO BOFF*

Enquanto as COPs fracassam, a utopia concreta de Chico Mendes segue viva: a Amazônia como bem comum, não como santuário ou commodity

1.

A COP30 em Belém terminou com resultados insatisfatórios. No documento final é nulo o compromisso na diminuição gradual dos combustíveis fósseis e pela fragilidade de decisões no financiamento das políticas de minoração de gases de efeito estufa. Isso levou a numerosos cientistas e ecólogos afirmar: “suprimir a menção dos combustíveis fósseis é traição à ciência e às pessoas mais vulneráveis e é incoerente com as metas até 2030”.

Mas houve alguns avanços, especialmente quanto aos 59 metas da adaptação, a inclusão das desigualdades de raça como componente da crise climática, a valorização das mulheres, dos afrodescentens e povos originário na defesa da vida e principalmente o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Problema nunca resolvido é o do financiamento porque os países industrializados e ricos, os principais causadores do aquecimento global, se negam a colaborar de forma realmente eficiente.

Num contexto geral de impasse face ao acúmulo de crises que podem ameaçar futuro da vida e da espécie humana, lembramo-nos daquelas figuras paradigmáticas que nos inspiraram caminhos novos e nos dão esperança. Seguramente uma delas é Chico Mendes, tão conhecido mundialmente quanto é conhecido Pelé.

Ele era um lídimo representante dos povos da floresta e um observador atento da lógica da natureza. Nós que o conhecemos e com quem privamos na amizade, sabemos de sua profunda identificação com a floresta amazônica, com sua imensa biodiversidade, com os seringais, com os animais, com o mais leve sinal de vida da mata. Era um São Francisco secular e moderno. Dividia seu tempo entre a cidade e a selva.

Mas quando estava na cidade ouvia fortemente o chamado urgente da selva, em seu corpo e em sua alma. Sentia-se parte e parcela dela. Por isso regressava de tempos em tempos ao seringal e à comunhão natural e cósmica. E aí sentia-se em seu habitat, em sua verdadeira casa. Tive o privilégio de fazer algumas penetrações na floresta amazônica do Acre, ocasião em que pude admirar a alma ecológica de Chico Mendes.

Mas sua consciência ecológica o fazia deixar, por algum tempo, a floresta para organizar seringueiros, fundar células sindicais e participar das lutas de resistência (os famosos “empates”, estratégia pela qual os seringueiros junto com suas crianças, velhos e outros aliados se postavam pacificamente diante dos desmatadores e de suas máquinas impedindo-lhes de derrubar árvores).

2.

Face à crise ecológica imposta à Amazônia sugeriu em nome do movimento dos povos da floresta a criação de reservas extrativistas, aceitas pelo governo central ainda em l987.

Era muito realista ao dizer: “nós entendemos – os seringueiros entendem – que a Amazônia não pode se transformar num santuário intocável. Por outro lado, entendemos também que há uma necessidade muito urgente de se evitar o desmatamento que está ameaçando a Amazônia e com isto está ameaçando a vida de todos os povos do planeta. Por isso pensamos numa alternativa de preservação da floresta que fosse ao mesmo tempo econômica. Então pensamos na criação da reserva extrativista”.[1]

Ele mesmo explica como funciona este modo de produção:” nas reservas extrativistas nós vamos comercializar e industrializar os produtos que a floresta generosamente nos concede. A universidade precisa vir acompanhar a reserva extrativista. Ela é a única saída para a Amazônia não desaparecer. E mais: essa reserva não terá proprietários. Ela vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o usofruto não a propriedade”.[2]

Destarte se encontraria uma alternativa ao extrativismo selvagem que somente traz vantagens aos especuladores especialmente durante o governo de Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe. Uma árvore de mogno, cortada no Acre, custa de 1 a5 dólares; vendida no mercado europeu custa cerca de 3 a 5 mil dólares.

Na véspera do Natal de l988 foi vítima da sanha dos inimigos da natureza e da humanidade. Foi assassinado com cinco balas. Deixou a vida amazônica para entrar na história universal e no inconsciente coletivo dos que amam nosso planeta Terra e sua imensa biodiversidade.

Como arquétipo Chico Mendes anima a luta pela preservação da Hiléia amazônica e dos povos da floresta, hoje assumida por milhões de pessoas no mundo inteiro. Bem cantou um poeta da floresta do Pará:” Ai! Amazônia! Amazônia! Enterraram Chico Mendes, só não se enterra a esperança” (João de Jesus Paes Loureiro). Essa esperança se transformou num esperançar (Paulo Freire), vale dizer a criação dos meios e das circunstâncias para realizar o que alguns chamam a Terra da Boa Esperança, a Terra respeitada e tida como a Grande Mãe Geradora.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Sustentabilidade e cuidado: como assegurar o futuro da vida (Editora Conhecimento Liberta). [https://amzn.to/3MtoMJG]

Notas


[1] Cf. Grzybowski, C.,(org.) O testamento do Homem da Floresta: Chico Mendes por ele mesmo, FASE, Rio de Janeiro, l989.

[2] Cf. Jornal do Brasil, 24/12/l988.


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