O xadrez ou a vida

Mira Schendel, Sem Título , 1985, Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Por THOMAZ KAWAUCHE*

Comparação entre os romances “Perto do coração selvagem” de Clarice Lispector e “The Queen’s Gambit” de Walter Tevis.

Este artigo é dedicado a todas as mulheres enxadristas, começando pela grande mestra “por puro acaso” Clarice Lispector.

A mesma musa que inspirou Clarice Lispector em Perto do coração selvagem deve ter iluminado Walter Tevis na concepção do romance – e agora minissérie da Netflix – The Queen’s Gambit. A diferença se limita à ambiência dos torneios de xadrez, pois, quanto às protagonistas, Joana e Elizabeth Harmon são gêmeas personificando variações de um mesmo tema: a menina órfã que, por tentativas e erros, vai se descobrindo uma mulher independente e empoderada num mundo patriarcal onde o reconhecimento, quando há, só pode ser conquistado à custa de certa solidão.

Solidão, sim, porém, não aquela que diz respeito aos espíritos passivos e resignados; talvez por isso seja mais adequada aqui a palavra solitude, significando adesão voluntária ao isolamento. Afinal, nem Beth nem Joana são como as heroínas de Hollywood que confundem final feliz com amor romântico – ideal aliás desconstruído de modo sagaz por Clarice pela boca de sua personagem quando esta, ainda menina, pergunta à professora: “Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?”. Eis o protótipo daquela que, mais tarde, será a inquisidora do casamento como sinônimo de happy end da própria existência.

Em suma, o que temos em Perto do coração selvagem e The Queen’s Gambit é o desafio de responder à atualíssima questão: qual o valor da mulher no tabuleiro do mundo se, mesmo quando demonstra ser tão poderosa quanto uma dama, ainda assim ela só pode existir na medida em que obedece às regras que a subordinam ao rei? Parece-me que, nessas duas obras, trata-se antes de tudo de dar corpo à luta feminista (no sentido mais amplo do termo) pelo direito de existir diante de homens que, fora do universo controlado dos 64 escaques, não sabem lidar com a iniciativa – e por vezes com a ousadia – das mulheres. Examinemos mais detidamente esse viés do problema.

Se pudermos dizer que o caráter de Beth desde cedo se manifesta na preferência por jogadas ativas e de contra-ataque bem ao estilo da “abertura Siciliana”, favorita de enxadristas com estilo agressivo, veremos aí uma estrutura de comportamento que explicaria, por exemplo, a manobra avassaladora de Joana, no capítulo “A víbora”, para engravidar de seu ex-marido, Otávio, antes de abandoná-lo de vez, como se este fosse um mero peão sacrificado (eis a definição de “gambito”) a fim de conter a ameaça da amante Lídia. Tudo se passa como se, na entrevista com sua rival, Joana estivesse disputando a iniciativa recorrendo a lances arriscados e, assim como numa partida decisiva, sacrificando todas as suas peças por não ter mais nada a perder além da própria liberdade.

A analogia é irresistível, a começar pela revolta reprimida que move a órfã de Kentucky. Clarice parece falar de Beth quando nos dá a entender, no capítulo “O dia de Joana”, que sua personagem precisa lidar desde cedo com “aquela sensação de força contida, pronta para rebentarem violência” nas relações que trava com as pessoas. Beth certamente reconheceria nesses movimentos de sobrevivência a mesma lógica sem soluções fáceis de uma partida de xadrez, como quando o misterioso homem sem nome – o amante escolhido para ocupar a casa vazia deixada por Otávio – abandona o jogo de afetos cujo controle desde o início esteve sempre nas mãos de Joana: “Ela que violentara a alma daquele homem, enchera-a de uma luz cujo mal ele ainda não compreendera” (cf. o capítulo “A partida dos homens”).

Em linhas esquemáticas, o paralelismo entre Beth e Joana no tocante às relações envolvendo personagens masculinos pode ser assim postulado: nas duas narrativas, há um arco que vai da infância solitária, marcada pelo homem mais velho que ensina sobre a vida e a morte como um oráculo misterioso, até chegar à maturidade, cuja figuração se dá pela fuga do amante após este perceber-se incapaz de controlar a mulher emancipada. Tal jogo de espelhos lembra, de certo modo, a simetria das peças pretas e brancas do xadrez.

De um lado, o professor que provoca Joana com lições filosóficas na época do internato, e de outro, o zelador do orfanato, Sr. Shaibel (na série interpretado por Bill Camp num papel de coadjuvante decisivo lembrando o de Burgess Meredith em Rocky), que ensina à menina lições sobre como perder esportivamente no xadrez. De modo semelhante, temos aqueles que poderiam ser chamados de amores de formação: o misterioso homem sem nome, com quem Joana se envolve após separar-se de Otávio e que a ajuda a descobrir-se independente, lembra o jovem campeão, Benny Watts, que, mesmo com orgulho ferido, aceita ser o “segundo” de Beth a fim de ajudar sua ex-amante enxadrista na partida final contra Borgov.

Nos dois casos, vemos relacionamentos pouco ortodoxos e que não duram “até que a morte os separe”, contrastando assim com o modelo de casamento convencional desejado por Lídia ou pela líder do clube de adolescentes “Apple Pi”. Além disso, tanto Joana quanto Beth se aproximam de figuras que, numa visada psicanalítica, podem ser vistas como arquétipos do pai, mas não para serem imaginadas como protetores, e sim, pragmaticamente falando, como suportes para o desenvolvimento pessoal, pois é graças à ausência da figura paterna, presente apenas na pessoa de seu substituto, que ocorre o amadurecimento e o empoderamento da adolescente que precisa sobreviver por conta própria.

No tocante à construção psicológica das personagens (e é isso que me interessa), a questão diz respeito à formação de um campo semântico do discurso das personagens onde as palavras solidão e liberdade possam ser compreendidas de modo complementar, e não como se fossem termos antagônicos entre si. Vemos essa elaboração linguística nas palavras que Joana utiliza para desqualificar o casamento: “nem a liberdade de ser infeliz se conserva porque se arrasta consigo outra pessoa” (cap. “Lídia”).

Ora, não estamos falando de uma mera crítica moral, pois a dificuldade não é a instituição do matrimônio em si, uma vez que, para Joana, o modelo do casal romântico funciona como uma experiência de autoconhecimento. A real ameaça do jogo é a perda de independência da mulher em troca de um suposto homem-salvador. Ao expressar seu desejo, Joana é muito clara quando diz que, em matéria de amante, não quer nada além de um “corpo vivendo”, bem no sentido de objeto sexual (cap. “A partida dos homens”).

Assim, se Clarice reflete sobre o casamento, não faz isso para defender o celibato feminino. Prova clara dessa postura é que Joana decide voluntariamente ficar com o amante que entra no lugar de Otávio: “Ainda poderia recuar, ainda poderia voltar as costas e ir embora, evitando-o. […] Nada a retinha ali imóvel, claramente à espera de sua aproximação” (cap. “O homem”). No fundo, o que Clarice busca é a desmontagem do estereótipo maniqueísta da mulher dependente, cuja representação oscila de modo dicotômico entre duas imagens naturalizadas: de um lado a santa, e de outro, a meretriz (ou puta mesmo, como diria a saudosa Gabriela Leite). Essas manobras desapegadas em relação aos homens se repetem como variantes de uma combinação impetuosa na vida de Beth. Falemos agora um pouco sobre a adversária.

Lídia simboliza a esposa destinada à vida doméstica ao mesmo tempo que alude ao casamento como lugar de redenção dos pecados. Porém, após a entrevista com Joana, vemos que toda essa imagem cai por terra, pois Lídia não manifesta nem santidade nem diabrura, mas apenas o desejo de uma mulher que idealiza sua autorrealização na forma de vida submissa a um homem segundo o modelo convencional de casamento. Tal esquema de inteligibilidade moral também se verifica na desqualificação de Joana quando esta é chamada de “víbora” pela tia e por Otávio: a cobra manifesta o sinal visível da “maldade” característica do estereótipo da mulher desajustada que se rebela contra seu papel na sociedade.

A fêmea livre, capaz de legitimar para si mesma o direito de escolher e abandonar seus machos, é, nesse sentido, a imagem da “maldade”. Para Clarice, a salvação da mulher, se houver, encontra-se em si mesma, e não no casamento ou na maternidade: “Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação estaria em mim […]” (cap. “A viagem”). É assim também com Beth Harmon em relação aos homens com os quais se relaciona, a começar com o colega das aulas de russo, que pode desaparecer sem causar sofrimento nem saudade: assim como seu pai, todos eles são substituíveis e, muito embora sejam importantes em sua história afetiva, nenhum será tão indispensável a ponto de causar tristeza irreparável quando se ausentar – a vida de Beth e de Joana não perde o sentido quando elas se veem abandonadas, pois no fundo, ambas prezam pela liberdade que somente a solidão pode oferecer.

Em suma: o que Beth e Joana demonstram em suas histórias de formação é que estar sozinha não é sinônimo de castigo, mas de independência. Há várias outras semelhanças no confronto das duas obras, todas ligadas à desconstrução da figura da mulher idealizada segundo o modelo de família burguesa e, por isso mesmo, submetida às instituições misóginas que vetam até mesmo o menor anseio de emancipação. Em ambas, as heroínas colocam em xeque o destino social da mulher estabelecido segundo os padrões morais da boa família.

Ora, ainda que uma comparação exaustiva nesse quadro de análise pudesse ser interessante do ponto de vista da crítica feminista, devemos antes notar o propósito maior dos autores analisados: é preciso convir que, para além da militância pelos direitos da mulher, o que Beth e Joana nos ensinam diz respeito à representação da autossuficiência feminina em nossa cultura. Não é por acaso que nenhuma delas se enquadra em tipos psicológicos pouco complexos e pautados pelos preconceitos estabelecidos.

No arco evolutivo de Beth isso é notável: ela começa como uma jogadora apenas intuitiva (como o grande mestre cubano José Raul Capablanca), que chega ater preguiça de estudar os livros que os homens mostram para ela, mas ao final da série, Beth é uma jogadora completa, combinando, de um lado, o traço imaginativo que ao olhar dos homens marca sua feminilidade (a aversão ao estudo metódico), e de outro lado, a disciplina do estudo dos livros que legitimam o conhecimento dos jogadores homens.

Tevis e Clarice são magníficos na construção de suas personagens cujo triunfo é visto como fracasso pela sociedade tradicional. O êxito de Lídia é equivalente a um fragoroso “scholar’s mate” para Beth: é o lugar-comum de todos os principiantes, e, portanto, é o lugar onde Joana e Beth, ambas jogadoras experimentadas, não querem estar. Apesar das perdas e dos danos causados pela liberdade feminina em movimento – ao fim e ao cabo, tanto Joana quanto Beth terminam na solidão do “selvagem coração da vida” – ainda assim ambas conseguem ver na vida, para nosso espanto, algo que podem chamar de belo. A própria Joana poderia arrematar aqui dizendo: “mesmo o cansaço da vida tem certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada” (cf. cap. “Lídia”).

Vejamos agora essa questão da beleza do ponto de vista da mulher em The Queen’s Gambit. No terceiro episódio da série, a personagem interpretada por Anya Taylor-Joy conversa com uma antipática repórter que deixa transparecer o machismo de suas perguntas; e é nessa cena que Beth, numa das respostas à entrevistadora, expõe a reveladora analogia entre o jogo e sua vida: “O xadrez nem sempre é competitivo… O xadrez também pode ser… belo”. Trata-se de uma pequena mudança em relação ao livro (Tevis havia deixado a última frase apenas em pensamento, cf. Tevis, 1983, p. 136) cujo mérito está em nos fornecer uma melhor imagem de Beth, quer no tocante às suas contradições internas, quer naquilo que diz respeito ao seu lugar de fala. A Beth da série é mais empoderada que a do livro.

Leitores atentos logo percebem que tanto Beth quanto Joana são caracterizadas não apenas pelos sentimentos trágicos de singularidade e de inadequação social, mas também, e sobretudo, pelo princípio filosófico da autonomia, o que, aliás, torna compreensíveis as menções a filósofos nos dois romances: Aristóteles, Espinosa, Diderot etc. Os exércitos mobilizados sobre o tabuleiro expressam o autogoverno da jogadora, que pode se declarar soberana perante o lado adversário. Evidentemente, toda essa jurisdição se limita às 64 casas do jogo, mas a pretensão de Beth e Joana é expandir a soberania e o autogoverno para o mundo vivido.

Assim, a despeito de terem o sentimento de liberdade constrangido por todos os lados pela opressão do machismo institucionalizado, são elas mesmas que, encarnando a ficção do sujeito autônomo, encontram meios para se tornarem senhoras do próprio destino em sentido filosófico; cada uma à sua maneira almeja decidir, por experiência própria e à margem das etiquetas da época, os movimentos de suas peças no tabuleiro da vida. Pode parecer pouca coisa para nós, mas no século XVIII era esse o jeito como certos filósofos, Rousseau, por exemplo, entendiam as relações humanas e as instituições civis às vésperas da Revolução Francesa.

Essa invenção da filosofia moderna, o sujeito autônomo, cuja liberdade é autodeterminada, embora seja desprezado pela nobreza como se não passasse de um peão no tabuleiro, é capaz de virar a partida e declarar não apenas morte ao rei inimigo, mas também mudança radical nos costumes do tempo. Nesse sentido, desprezar uma peça fraca no jogo, seja a mulher, seja o peão, pode levar a um contra-ataque mortal culminando na morte do rei. Em sentido filosófico (de filosofia política), a postura de Beth e Joana é nada menos do que revolucionária em seu momento histórico.

Mas a personalidade de uma mulher não se constrói apenas com base nos aspectos sociais da vida. Sem cairmos em discursos biologizantes, é preciso reconhecer que há problemas psicológicos a serem levados em conta para discutirmos conceitos como a consciência feminina ou a condição feminina. A menina Joana diria sem pestanejar: “a primeira verdade está na terra e no corpo” (cap. “O banho”); Joana mulher talvez preferisse falar do “corpo vivendo” (cap. “A partida dos homens”). E, para além dos exemplos de Perto do coração selvagem, poderíamos transportar Clarice à cena do quarto de G.H. onde ela descreveria as vísceras de sua alma na imagem do “corpo neutro de barata” (cf. A paixão segundo G.H.).

Com Beth não é diferente, pois podemos ler o porão da Casa Methuen como o intestino da realidade, um submundo onde as boas maneiras de civilidade contam menos do que os recursos acessados para o controle do próprio corpo. Daí a relevância do momento em que a pequena Beth toma consciência do prazer que experimenta jogando xadrez, com o detalhe trágico de ser um prazer que só se realiza com o uso de uma certa dose de tranquilizantes.

“Naquela noite, pela primeira vez, ela tomou três pílulas. […] ela descobriu algo importante. […] Algo em sua vida estava resolvido: ela conhecia as peças de xadrez, como se moviam e capturavam; e ela sabia como fazer para se sentir bem em relação ao estômago e às tensões nas juntas dos braços e das pernas utilizando as pílulas que o orfanato dava a ela.” (Tevis, 1983, p. 8).

Graças às pílulas verdes, a menina de oito anos (“nove em novembro”) passa a controlar de modo eficaz as peças sobre as 64 casas do tabuleiro do porão do orfanato e, por conseguinte, adquire um inédito domínio de si. Doravante, a fragilíssima Beth passa a encontrar nas sucessivas partidas disputadas no porão do orfanato contra o zelador, Sr. Shaibel, uma fonte de coragem para enfrentar os acontecimentos assustadores da vida. Se até então Beth era impotente diante da autoridade dos adultos, a partir de agora, num crescendo que combina a uma só vez riscos e necessidades (ou seja, a realidade efetiva da vida, para refletirmos como Maquiavel), ela começa a construção de um novo mundo onde, em alguma medida, o poder está em suas mãos e precisa ser conservado a todo custo, mesmo que isso implique em autoviolência. A mulher figurada na pessoa de Beth não pode perder: “perder não é uma opção para ela”, como ouvimos numa fala do russo Borgov, o grande mestre e adversário de nossas histórias.

Para o bem e para o mal, o remédio, e posteriormente a bebida, ajudam Beth a suportar uma existência perpassada por traumas que remontam à primeira infância. A despeito dos juízos moralistas acerca de nossas “addictions”– afinal, quem não possui vícios a serem ocultados? –, o importante é notar que tais recursos dispensam a jovem de ter que esperar muita coisa dos adultos opressores ao seu redor. Tanto no livro quanto na série, parece-me bastante sensato que os juízos de valor voltados aos comportamentos supostamente “imorais” sejam deixados de lado: assim como Joana rouba um livro e afronta o moralismo da tia (a sobrinha é chamada pela tia de “pequeno demônio”), Beth rouba (no segundo episódio) uma revista Chess Reviewpara se informar dos torneios.

Quem naquela cena não reflete sobre as condições de possibilidade das futuras enxadristas que são anuladas em seu potencial por condições materiais impostas pela sociedade? Os desdobramentos da pauta proposta em The Queen’s Gambit é seminal e espera-se que autoras feministas escrevam inspiradas pela figura de Beth.Para nosso propósito neste pequeno artigo, noto apenas que, tanto no livro de Tevis quanto na série da Netflix, em vez de condenarmos as personagens, vale muito mais a pena esquecermos a censura. Junto a Beth, e por extensão, junto a Joana, rejeitamos moralismos baratos e compartilhamos com elas o sentimento de revolta e o desejo de agir subversivamente frente às instituições que oprimem todas as mulheres. Dessa maneira, todas as enxadristas deveriam se sentir motivadas a se declararem feministas – o que, no entanto, não ocorre, como sabemos pela postura de grandes mestras profissionais, como a genial Judit Polgar, que se recusa a ser vista como feminista (sobre esse assunto, ver o livro de Jennifer Shahade, Chess Bitch, p. 92).

Clarice e Tevis tocam ainda no tema da religião do ponto de vista da moral. A questão é de primeira importância tanto para Beth (que nega a ajuda financeira das missionárias) quanto para Joana (que pede conhecimento a Deus, ou seja, o pecado de Eva). E é também para nós hoje. Ainda que nossas heroínas triunfem no fracasso de suas batalhas inglórias contra inimigos moralistas, existem no tabuleiro da vida muitas meninas e mulheres que enfrentam lutas bem piores todos os dias – lutas cuja violência fariam uma partida contra Borgov parecer brincadeira de criança: não é à toa que o “belo”, segundo Beth, limita-se ao tabuleiro de xadrez, e ali ela mesma se autoriza a fazer tudo, como uma versão feminina do príncipe de Maquiavel.

Além disso, se Beth é comparável a Maquiavel, não é por ser uma mulher má semelhante a Joana, e sim pela necessidade de lidar com a verdade efetiva do mundo dos homens. A questão não é responder se os fins justificam os meios, pois isso seria, do ponto de vista filosófico, uma má compreensão de Maquiavel (como bem sabem os filósofos, a questão dos fins e dos meios pressupõe uma teleologia, o que está ausente no Príncipe), e do ponto de vista dos movimentos das mulheres, um recalque da verdadeira raiz de todos os males. Assim, em Clarice e em Tevis, trata-se, isto sim, de colocar em xeque a fonte dessa justificativa; trata-se de nomear, um a um, quem legitima a fonte de justificativa para meios e fins. Mesmo na condição de “macho”, acredito que nenhum moralismo barato em torno à questão feminina pode subsistir diante do problema colocado nesses termos.

Todavia, para além da questão de gênero colocada em pauta na aventura de The Queen’s Gambit, há outra igualmente instigante. O grande desafio de Beth nessa narrativa de formação é bastante familiar aos psicanalistas: escolher entre a própria vida ou os vícios, dentre os quais, o vício do xadrez, que para Beth operava como instância de significação da vida. Lembremos do que disse Jacques Lacan num de seus seminários, mais especificamente naquele em que, para falar da alienação, exemplifica com o dilema “a bolsa ou a vida”, comentando que a segunda opção (na verdade, a única possível) resulta numa “vida decepada” (Lacan, 1988, p. 201).

É portanto sintomático que, no círculo social de Beth, duas pessoas simbolizem esse dilema: Annette Packer, a primeira adversária de Beth no torneio de Kentucky, que desiste do xadrez para cursar medicina, e Harry Beltik, campeão estadual que troca a paixão não correspondida por Beth e o amor ao jogo pelo curso de engenharia elétrica. No fundo, o tema do amadurecimento em The Queen’s Gambit diz respeito à aceitação do não-senso na vida e à descoberta do lugar do Outro em nosso mundo simbólico segundo a premissa dos discursos que podem tanto nos construir quanto nos desestruturar. É Joana quem diz tudo o que não pode ser dito ao revelar o aspecto inominável – autoanálise cheia de dor! – de seu desejo por liberdade: “O que desejo ainda não tem nome” (cf. cap. “O banho”).

A própria Beth passa a maior parte do tempo em silêncio como se estivesse perdida em meio a vários desejos inomináveis. Não por acaso, vez ou outra Beth se expressa laconicamente com “ok” ou “yes, ma’am”. A exceção é quando descreve seus lances nas partidas, como se as vitórias nos torneios fossem a inominável “bolsa” de Lacan. De modo geral, Tevis se cala em uníssono com o ponto de vista feminista de Clarice, pois, num dos momentos mais singelos de sororidade entre Alma Wheatley e Bethdurante o torneio no México, lemos um diálogo inesquecível. À pergunta de sua filha, “O que é importante?”, a Sra. Weathley, uma pianista frustrada, responde como boa mãe que sonhava ser: “Viver e crescer. […] Viver sua vida” (Tevis, 1983, p. 169).Veja-se aqui que a mãe de Beth opta por largar a “bolsa”.

Há vários outros pontos interessantíssimos em The Queen’s Gambit, mas limito-me a apenas mais um: a partida contra Georgi Girev. É curioso verificar o contraponto exato da não-escolha de Beth pela “bolsa” no diálogo entre ela e o jovem Girev, espécie de retrato da própria protagonista mais jovem. O moleque genial, que Beth faz questão de humilhar cruelmente como quando se autocritica diante do espelho (os temas de psicanálise são abundantes!), simplesmente não entende a pergunta existencialista de sua adversária: “Se você for campeão mundial aos dezesseis anos, o que vai fazer pelo resto de sua vida?”. E, de modo sutil, a cena se passa como se Beth estivesse prestes a responder a si mesma que iria ver filmes de Elvis Presley num drive-in onde ela mesma jamais estivera. O sentimento de culpa e o ressentimento são patentes ali. Mas deixemos essas discussões para psicanalistas como Maria Homem, que nesse campo do conhecimento tem mais competência do que o autor destas linhas, além de ser grande leitora de Clarice Lispector em língua portuguesa. Voltemos ao xadrez.

Quem assistiu à série provavelmente vai gostar do livro, pois há passagens que não poderiam ser transpostas para a cena. Apenas um exemplo: o ápice do arco de desenvolvimento moral de Beth, que mesmo sem enxergar um tabuleiro imaginário no teto (esse é o maravilhoso recurso tecnológico da série[i]), consegue criar, em seus próprios termos de compreensão da realidade, um mundo onde é livre e senhora de si mesma:

“Ela não abriu seus olhos para ver o tempo restante em seu relógio, nem para olhar Borgov do outro lado do tabuleiro, nem para ver a multidão que viera ao auditório para vê-la jogar. Ela deixou de lado tudo aquilo em sua mente e permitiu-se apenas o tabuleiro de sua imaginação com sua posição intrincada. Não importava realmente quem estava jogando com as peças negras, nem se o tabuleiro de verdade estava em Moscou, em Nova Iorque ou no porão de um orfanato; esta imagem eidética era seu domínio próprio.” (Tevis, 1983, p. 354)

A minissérie, disponível na Netflix desde 23 de outubro de 2020, foi extremamente bem recebida pelos enxadristas. Num podcast da France Culture, a enxadrista francesa Andreea Navrotescu afirma: “do ponto de vista técnico [referindo-se ao xadrez], a série é perfeita” (ver o link para a entrevista nas referências logo abaixo). O diretor Scott Frank teve o cuidado de contratar ninguém menos que Garry Kasparov para imprimir nas cenas o mesmo clima experimentado no universo dos torneios disputados pelos Grandes Mestres. Na minha opinião, é a melhor representação cinematográfica do universo do jogo desde o filme soviético Shakhmatnaya goryachka [Febre do Xadrez], de 1925.

Os lances das partidas e as posições foram extraídos de partidas de verdade. Há soluções dramáticas espetaculares, em particular, na partida que Beth joga contra Luchenko com o absurdamente incrível sacrifício de torre em “h7”: uma manobra como essa–  lance assombroso, não mostrado na cena, mas fundamental para a combinação que vence Luchenko – é digna de uma partida de grandes mestres internacionais, verdadeira obra-prima do ponto de vista da poética do tabuleiro, e sem dúvida, espetáculo de primeira grandeza a ser visto na tela da TV. Confesso que fiquei tão emocionado assistindo à série que chego a me permitir abrir mão da crítica à indústria cultural para dizer que a Netflix fez mais pela popularização do xadrez no mundo com a série The Queen’s Gambit do que Garry Kasparov com seus cursos e discursos que mais lembram treinamentos de coaching para empresários em nosso perverso mundo capitalista (com todo respeito ao Kasparov, é claro!).

Diga-se de passagem que os aspectos técnicos da produção são um espetáculo à parte. Do roteiro coerente ao figurino da protagonista, passando pelo cenário em estilo europeu (quase toda a filmagem aconteceu em Berlin) pela trilha sonora emocionante de Carlos Rafael Rivera e temperada com canções populares nas décadas de 1950 e 60 (Fever de Peggy Lee ou Venus de Shocking Blue, além da deliciosa The End of the World), tudo se encaixa perfeitamente num quebra-cabeça onde as peças vão sendo montadas junto com os espectadores. O que talvez torne a série tão atrativa é o fato de ensinar regras de torneio de xadrez (controle do tempo, jogos simultâneos ou às cegas, adiamento de partida, lance selado etc.) de maneira didática para o público leigo. Ao longo dos sete episódios de The Queen’s Gambit, aprendemos xadrez junto com Beth e, ao final, queremos que ela nos ensine. É impressionante perceber que, antes do lançamento da série na Netflix, apenas as pessoas que estudam xadrez sabiam que “gambito” é uma jogada que sacrifica um peão em troca de alguma vantagem posicional com as demais peças.

Alie-se a isso toda a beleza do elenco feminino – Moses Ingram e Marielle Heller são tão maravilhosas quanto as duas atrizes-mirins, Annabeth Kelly e Isla Johnston, que fazem Beth aos cinco e nove anos, respectivamente – e podemos dizer que o xadrez entrou definitivamente para a cultura popular que até então não via nesse jogo nada além de um universo curioso, porém, inacessível. Toda a emoção que experimentamos vendo a série diz respeito à força moral das personagens femininas. Aplique-se esse empoderamento das enxadristas, e não será otimismo demais acreditar que muitas futuras Grandes Mestras irão se interessar hoje pelo xadrez graças à história de Elizabeth Harmon. O que as potenciais enxadristas precisam é de incentivo social e condições práticas (como comunidades para treinar) a fim de que construam suas personagens nos torneios de verdade sem nenhum pudor.

Voltando agora a Clarice – pois foi com ela que iniciamos a jornada enxadrística deste texto –, cito um trecho da crônica “Vergonha de viver”, publicada no Jornal do Brasil em 1972, na qual Clarice conta como aprendeu a jogar xadrez. Deixo então aqui minha homenagem a essa grande mestra da literatura que faria 100 anos em 10 de dezembro de 2020.

Em relação à Clarice, meu sentimento é o mesmo do japonês pseudo-enxadrista que entrou para a história da literatura brasileira no seguinte texto: “Lá [na fazenda onde Clarice passava férias sentindo vergonha de tudo e todos] estava um japonês que me perguntou se eu jogava xadrez. Respondi audaciosamente que ele me ensinasse, que eu aprenderia logo e jogaria com ele. E de repente me vi tendo que enfrentar tantas regras de jogo e com vergonha de não aprender. Mas logo em seguida aprendi superficialmente a jogar. Acontece que, creio eu, por puro acaso dei um xeque-mate no japonês que não quis mais jogar comigo. Senti-me infeliz, achava que o japonês não me perdoaria e que não gostava de mim. Fiquei muito tímida com ele. Foi pois com enorme espanto que o ouvi me dizer na hora da despedida, com uma delicadeza toda oriental que não elogia na cara, o que seria sufocante para a minha timidez. E ele disse: “Agradeço aos seus pais por terem feito você.” (Jornal do Brasil, 14/10/1972. Texto reproduzido em A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2015).

*Thomaz Kawauche é doutor em filosofia pela USP, professor visitante na Unifesp e, nas horas vagas, enxadrista amador.

 

Referências


Clarice Lispector.A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

___. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

___.Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

Jacques Lacan. Seminário 11: Quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Jennifer Shahade. Chess Bitch: Women in the Ultimate Intellectual Sport. Los Angeles: Siles Press, 2005.

Walter Tevis.The Queen’s Gambit. Nova York: Laurel, 1983.

The Queen’s Gambit. Dir. Scott Frank. Minissérie em 7 episódios. Netflix, 2020.

 

Sugestões


O maravilhoso vídeo dos bastidores da série da Netflix: https://youtu.be/ixz-r1iZZpU

O melhor vídeo sobre a construção da personagem “perfeitamente imperfeita”: https://youtu.be/_dZrHmqtyUk

As principais partidas que aparecem na série: https://www.chess.com/article/view/queens-gambit-every-chess-position

A impressionante partida entre Harmon e Luchenko analisada por Rafael Leite (não confundir com o GM Rafael Leitão): https://youtu.be/40V1BncduuQ

A entrevista de Jennifer “bitch” Shahade com Scott Frank e Garry Kasparov: https://youtu.be/562XqQUC3U4

Podcast na France Culture com bons comentários do ponto de vista da literatura, da filosofia e do universo do xadrez:

https://www.franceculture.fr/emissions/signes-des-temps/le-jeu-de-la-dame-les-raisons-du-succes-mondial-de-cette-serie

Comentário da Miriam Castro (Mikannn) sobre a semelhança de The Queen’s Gambit com os animes de esporte, em particular, a série japonesa Sangatsu no Lion: https://youtu.be/14FqRf7_oWE

Filme Shakhmatnaya goryachka [Febre do Xadrez], de 1925: https://youtu.be/0kwtVRAS3Io

 

Nota


[i] Recomendo esse vídeo que mostra o quanto de animação 3D foi aplicada à filmagem: https://vimeo.com/470787325