Os escritores e a política na França

Peter Doig, Vida no lago, 1996
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Por VINICIUS PANISSET*

Comentário sobre o livro de Gisèle Sapiro

1.

A ordenação, para publicação em livros, de artigos saídos originalmente em revistas acadêmicas ou coletâneas é um procedimento comum entre pesquisadores, cujas consequências esperadas incluem o aumento do público leitor e a maior circulação de suas produções. Diferentemente dos trabalhos monográficos, a reunião de escritos produzidos em diferentes momentos de uma trajetória acadêmica pode, por vezes, resultar na falta de coesão e conexão entre as ideias apresentadas.

No entanto, embora seja composto por artigos revisados, o livro de Gisèle Sapiro, experiente socióloga ligada à École des hautes études en sciences sociales, não sofre desse problema. Isso se deve às introduções elaboradas, à seleção criteriosa e à qualidade de sua condução argumentativa.

É esperado que um livro dedicado à memória de Pierre Bourdieu, antigo orientador da autora, ofereça, mais do que uma simples análise interna de obras literárias, também um mapeamento dos autores e obras estudados segundo seus contextos de produção e circulação. Dessa forma, Gisèle Sapiro oferece uma análise sociológica do envolvimento de diferentes escritores na vida política francesa ao longo do século XX.

Pode-se citar alguns nomes como os de Pierre Drieu La Rochelle, André Malraux, Louis Aragon, André Gide e Céline. Certamente, alguns dos autores e obras elencados ao longo do livro de Sapiro podem soar estranhos para o leitor não especializado em literatura francesa.

De saída, para que seu argumento faça sentido, a socióloga explica o processo de “autonomização do campo literário” a fim de que se compreenda a construção das propriedades que caracterizam a profissão do escritor (defesa da verdade, responsabilidade, ética e desinteresse). Esse é um pressuposto básico em que reside o volume e, por isso, lhe são reservadas numerosas páginas. Tal estratégia argumentativa fornece, com efeito, um caráter teórico e bastante geral da relação entre campo cultural e político.

O recorte estabelecido situa o já paradigmático modelo de engajamento em defesa da verdade e justiça, nascido com o Affaire Dreyfus e esgotado na Guerra da Argélia. Tal modelo de intervenção pública do intelectual profético foi reportado e criticado por um grande número de escritores ao longo do século XX. Como demonstrado por Gisèle Sapiro, as causas e efeitos da intervenção política dizem respeito à legitimidade dos escritores angariada pelo sucesso de suas obras literárias. Consequentemente, as intervenções públicas de literatos estabeleceram uma ligação estreita entre posições políticas (esquerda e direita) e concepções artísticas (de vanguarda, estética ou panfletária).

Dessa forma, abre-se o precedente para contaminações entre as lógicas de um e outro discurso, isto é, para a existência de uma osmose entre categorias próprias do político e literário. Daí os escritores classificarem a si mesmos, pares e instituições segundo critérios de esquerda e direita – categorização inicialmente externa, mas posteriormente fixada como pertinente ao discurso literário.

Assim, posições estéticas passam a ser entendidas segundo essa clivagem e, ato contínuo, instâncias de consagração como os prêmios literários ou a eleição à Academia francesa – cada vez mais ocupados por produtores culturais que reconhecem a legitimidade dessa demarcação política – estão sujeitos a tal classificação. O mérito da socióloga está em recompor a origem das homologias entre classificações estética e política ligadas a transformações no sistema educacional, editorial e jornalístico.

A socióloga, portanto, trabalha com a dimensão historicamente constituída para interrogar-se sobre algo que parece, inicialmente, tão natural quanto o ar que se respira: o agrupamento em termos de orientação política (que nunca é somente política, mas também estética) – substituindo em relevância a separação de autores em correntes literárias – como categorias definidoras da percepção acerca dos literatos e suas publicações. Nesse aspecto, é instigante o quadro construído pela autora em que são divididos os tipos ideais de escritores (estetas, notáveis, vanguardistas, polemistas) segundo seus estilos e divisão do capital de notoriedade.

2.

Mas isso não é tudo, pois no interior do binômio esquerda/direita, autores e agentes literários apresentam diferentes concepções de literatura e de sua função social. Tais preferências e valores impactam em escolhas e estratégias, a exemplo de suas formas de manifestação política, gênero literário preferido e suporte de divulgação.

Ao escolhê-los, os escritores estabelecem, por consequência, formas de reconhecimento e de notoriedade, cujos alguns exemplos são prêmios literários específicos, ruptura com normas estéticas, venda de livros, pretensão a representar a realidade ou responder a exigências de um partido. Do ponto de vista político, a maior ou menor adesão a valores de esquerda ou direita são decodificadas por leitores e pares.

A arte pela arte ou a recusa da politização da literatura são preceitos valorizados pelos estetas, segundo dominação da autora. Por outro lado, para escritores ligados ao Partido Comunista Francês, a representação da realidade deve atender a uma concepção de literatura moralizante e didática de modo a apoiar a luta dos proletariados. Os que não o fazem, por sua vez, estão sujeitos a constrangimentos e a um tipo de reconhecimento particular.

Já na segunda parte da obra a autora aprofunda a análise sociológica do imbricamento entre política e literatura. Naquele que é o capítulo mais longo do volume, Gisèle Sapiro visita a produção romanesca do século XIX e a pretensão de representação da realidade.

Numa época em que a autonomização da profissão literária não estava devidamente estabelecida, a representação da ordem social, os limites entre ficção e não-ficção e o não reconhecimento da diferença entre autor, personagem e narrador causam conflitos com o aparelho estatal. A escrita, até então bastante identificada com a imprensa, e a intenção de representar a realidade levaram escritores e editores ao banco dos réus e eventualmente à prisão.

O século XIX, portanto, se apresenta como a origem da missão do escritor, pois em nome da liberdade de expressão deve-se dizer a verdade a qualquer custo, driblar a censura quando necessário, ser corajoso e assumir os riscos da perseguição.[i]

3.

No século seguinte, tendo os escritores já se diferenciado de profissionais de outras áreas do conhecimento e, tendo a instituição da alfabetização obrigatória levado ao crescimento do público leitor, a produção literária se aproxima ainda mais dos eventos políticos. Sem dúvidas, contribuiu para isso a experiência traumática da Primeira Guerra Mundial, que motivou testemunhos em série como aqueles de Céline, Jünger e Barbusse.

Cada vez mais, no século XX, devido a paulatina imbricação entre arte e política, torna-se impossível dissociar a mensagem emitida em poemas e romances das crenças e visões de mundo dos escritores. Após a Primeira Guerra, a divisão das visões de mundo dos produtores culturais se acirra com o advento das ideologias fascistas e comunista, cujos nomes de Drieu de la Rochelle e Aragon são representativos a ponto de a socióloga reservar dois capítulos especialmente para eles.

Já no pós-segunda Guerra foi a oposição entre a defesa e o repúdio ao colonialismo, cujas posições foram determinantes para a conquista de reconhecimento, que deu o tom da produção literária e dos engajamentos dos autores.

No epílogo, a autora visita a produção literária do final da década de 1970 até 2017. Aludindo a títulos produzidos dentro desse recorte, Gisèle Sapiro lembra que, a partir de 1968, a autoridade dos intelectuais foi questionada e emergiram outras formas de entretenimento que não a literatura. A credibilidade do Partido Comunista, por sua vez, foi perdida.

Dessa forma, entre escritores de esquerda, os assuntos políticos estetizados na literatura são reorientados e vê-se o surgimento da crítica pós-colonial, de gênero e sexo (Annie Ernaux, Édouard Louis, Virginie Despantes). Entre a direita, emerge com força a crítica à imigração e a decadência de valores ocidentais (Michel Houllebecq, Éric Zemmour).

Por último, considerando o peso que a produção cultural francesa obteve em outros países, o livro de Gisèle Sapiro contém importantes reflexões teóricas que transcendem o cenário francês. Nesse sentido, é possível que pesquisadores que não trabalham diretamente com o cenário francófono possam tirar proveito das contribuições da socióloga.

A eventual falta de familiaridade com os escritores, esquemas, sistemas, instituições e eventos políticos franceses não impede a compreensão global do volume, uma vez que o tradutor Névio de Campos conseguiu transmitir, por meio do prefácio e das notas, o significado de passagens cujo conteúdo demanda conhecimentos específicos.

*Vinicius Panisset é mestrando em História Social na USP.

Referência


Gisèle Sapiro. Os escritores e a política na França: do Caso Dreyfus à Guerra da Argélia. Tradução: Névio de Campos. Ponta Grossa, Editora UEPG, 2024, 382 págs. [https://amzn.to/4lPTVDi]

Nota


[i] O ponto de vista da autora põe em relevo fatores externos ao texto literário propriamente dito. Opõe-se, portanto, à interpretação, como a de Jacques Rancière (2021, p. 9–13) que concebe o surgimento da literatura moderna em termos de “revolução estética” que distingue de outras ciências sociais de acordo com a distinção aristotélica (mímese).


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