Os órfãos de Canudos

Por IVO BRANCO*

Considerações do diretor sobre o documentário de longa-metragem

A atualidade da guerra de Canudos

No dia 5 de outubro de 1897, terminava a guerra de Canudos. O conflito que durou de novembro de 1896 a outubro de 1897, movimentou um contingente de cerca de 12 mil homens do Exército e das polícias de 17 estados brasileiros. Mais de 50% do efetivo do Exército brasileiro existente na época. As baixas foram de cerca de cinco mil homens. Dos canudenses estima-se que 25 mil foram mortos.

Os defensores da recém-proclamada República do Brasil viam em Canudos um perigoso foco monarquista, liderado pelo beato Antônio Conselheiro e que, portanto, deveria ser exterminado.

Desde a chegada do Conselheiro, em 1893, às terras do Belo Monte, assim por ele batizadas, Canudos se transformara, em quatro anos, na segunda maior cidade da Bahia, depois de Salvador.

Após três expedições malogradas e vergonhosamente derrotadas pelos conselheiristas, aniquilar Canudos tornou-se uma questão de honra para o Exército e o governo do Brasil. Assim, uma quarta expedição foi preparada pelo próprio ministro da Guerra, composta por seis mil homens e chefiada pelo general Artur Oscar.

Fortemente armados, os soldados cercaram por três meses o arraial de Canudos, que sofreu violento bombardeio e depois foi queimado com querosene e dinamitado. Os casebres foram incendiados juntamente com os corpos insepultos dos sertanejos. Homens, mulheres, velhos e crianças, foram massacrados pelos soldados, que tinham ordens para não fazer nenhum prisioneiro. Os homens, principalmente, foram vítimas da “gravata vermelha”, como era conhecida a degola.

Ao contrário das palavras de Euclides da Cunha em sua obra prima Os sertões, ao descrever o quadro final da resistência canudense – “Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados ” – cerca de 200 pessoas restavam com vida, ainda que em condições precárias, após o massacre. Esses sobreviventes, mulheres e crianças em estado físico deplorável, que haviam perdido pai, mãe e parentes próximos, eram agora prisioneiros de guerra.

O documentário Os órfãos de Canudos propõe uma revisão e uma reflexão sobre a Guerra de Canudos através de um fato muito pouco conhecido, o de um grupo de mulheres e crianças sobreviventes.

 

Novas leituras

Um dos episódios mais sangrentos da história do Brasil, a Guerra de Canudos é tema cuja bibliografia alcança um grande número de títulos lançados até hoje. José Calasans, um dos maiores estudiosos sobre o assunto, coloca Canudos entre os mais importantes acontecimentos da nossa história, o que teve maior repercussão do que outros movimentos congêneres, particularmente pela multiplicidade de versões que pesquisadores representaram a figura do Conselheiro e seus adeptos.

Há algumas décadas a nova historiografia vem fazendo uma revisão sobre a guerra, a partir de novas pesquisas de documentos e manuscritos, resultando numa nova leitura que se afastou da interpretação euclidiana.

Dada a sua complexidade, com variantes sociais e históricas que apontam questões ainda não estudadas em detalhes, e que não serão esgotados, Canudos continua a desafiar historiadores e pesquisadores para a compreensão da sua curta, porém conturbada existência.

 

Abandonadas à própria sorte

Dizimada Canudos, cerca de 200 mulheres e crianças sobreviventes, em andrajos e até nuas, desnutridas, muitas com ferimentos expostos, ficaram à mercê da própria sorte. As que estavam em melhores condições de saúde foram negociadas por oficiais do Exército que as vendiam para “coronéis” e até prostíbulos. Muitas dessas meninas foram estupradas por soldados nos momentos finais da guerra e depois pelos que as compravam. Muitas foram transformadas em escravas por aqueles que as abrigavam.

Foi formado então, em Salvador, o Comitê Patriótico da Bahia, um grupo de cidadãos de bem – médicos, comerciantes, professores, jornalistas, etc. – que, preocupados com a situação daquelas crianças, resolveram se dirigir a Canudos para recolhê-las e encaminhá-las para asilos e Santas Casas da capital baiana.

O Comitê procurava também por pais e parentes para levá-las de volta às suas famílias. Ao final de seu trabalho o Comitê publicou um relatório que informava o que fora possível fazer pelas crianças onde descrevia a situação em que muitas delas foram encontradas: “E, pesa-nos dizê-lo, que grande parte dos menores reunidos pela comissão, dentre eles meninas púberes e mocinhas, se achavam em casa de quitandeiras e prostitutas. Foi, pois, para lamentar a distribuição indevida das crianças, sendo muitas remetidas para vários pontos do estado e para a capital, como uma lembrança viva de Canudos ou como um presente, sem que parentes ou o governo lhes conheça o paradeiro”.

Passado mais de um século, as crianças sobreviventes da guerra de Canudos, que foram distribuídas e levadas por soldados são as mesmas meninas prostituídas no Brasil de hoje, vítimas da pobreza e da ignorância.

O filme Os órfãos de Canudos é um recorte documental desse amplo, complexo e apaixonante tema. A sua relevância está em que, ainda hoje, Canudos suscita interrogações sobre a República que construímos e que, 124 anos depois convive com a mesma desigualdade social da época da guerra. Se para entender a Canudos da época do Conselheiro é preciso voltar no tempo, esse exercício nos coloca de imediato em confronto com a contradição de dois Brasis: o Brasil moderno contra o Brasil arcaico, o de ontem e o de hoje.

Ivo Branco é cineasta, roteirista e, às vezes, professor de cinema. Dirigiu, entre outros filmes, o documentário EH PAGU, EH!.

 

Referência


Os órfãos de Canudos
Brasil, documentário, 2017, 56 minutos
Direção e roteiro: Ivo Branco
Disponível na íntegra em
https://www.youtube.com/watch?v=-U-gH9zjBdA