Os últimos intelectuais

Imagem: Fallon Michael
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Por EMIR SADER*

A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático

É um dos livros que sempre releio, curto e recomendo: Os últimos intelectuais, do norte-americano Russel Jacoby.

Não se trata do fim dos intelectuais, mas da mudança da sua natureza. Russel Jacoby se pergunta: Onde estão nossos intelectuais? Ele responde que não encontrou muitos, usando um critério de jovens, abaixo de 45 anos.

A última geração de intelectuais norte-americano são os que nasceram na primeira década do século passado. Não se trata de um lapso moral, mas uma mudança de geração.

Os intelectuais da “última” geração escreviam para o leitor educado. Foram suplantados pelos intelectuais high-tech, por consultores e professores, que não contribuíam para a vida pública. Os intelectuais mais jovens, cujas vidas se desenvolveram quase inteiramente nos campi, se dirigem aos colegas de profissão, mas são inacessíveis e desconhecidos para as outras pessoas.

Um espectro ronda as universidades norte-americanas: o enfado. Uma geração de professores entrou nas universidades quando os campos explodiam de tanta energia. Hoje esses professores estão visivelmente entediados, se não desmoralizados.

O livro é sobre uma lacuna na cultura: a ausência de vozes mais jovens, talvez a ausência de uma geração. Uma geração intelectual não desapareceu de repente. Ela simplesmente nunca apareceu.

Em comparação com os anos 50 do século passado, a esquerda prosperou. Contudo, os intelectuais mais jovens de esquerda parecem publicamente invisíveis. Os intelectuais mais jovens não necessitam ou desejam um público mais amplo; quase todos são professores. Os campi são seus lares; os colegas, sua audiência; as monografias e os periódicos especializados, seu meio de comunicação.

Os intelectuais independentes, que escreviam para o leitor educação, estão em extinção. Hoje os intelectuais não acadêmicos são uma espécie ameaçada. Um “famoso” sociólogo ou historiador de arte é famoso para outros sociólogos ou para outros historiadores de arte, ninguém mais.

A cultura mais ampla repousa em um número cada vez de intelectuais que envelhecem sem encontrar sucessores. Os intelectuais ausentes da vida pública são principalmente aqueles que atingiram a maioridade nos anos 1960.

Nos anos 1960, as universidades praticamente monopolizaram o trabalho intelectual; uma vida intelectual fora da universidade parecia quixotesca. Quando a poeira baixou, muitos intelectuais jovens jamais haviam deixado a escola; outros descobriram que não havia nenhum outro lugar para ir. Tornaram-se sociólogos radicais, historiadores marxistas, teóricos feministas, mas não exatamente intelectuais públicos.

A desaparição dos intelectuais públicos passa necessariamente pela reestruturação das cidades, pelo desaparecimento do cenário boêmio onde viviam e trabalhavam os denominados últimos intelectuais e pela própria expansão da educação universitária depois da Segunda Guerra Mundial.

Os jovens intelectuais adaptaram-se às novas circunstâncias, mas pairam sobre eles os fantasmas da dependência e do enfado que assombram o ambiente acadêmico. O livro é um tributo àqueles que são considerados ainda hoje os críticos e pensadores fundamentais da cultura norte-americana. É uma acida crítica aos intelectuais ausentes, que evidencia um esforço para capturar uma vitalidade perdida nas décadas anteriores.

A Argentina vista do Brasil

Admiração! Essa foi a primeira sensação que tive da Argentina vinda do Brasil. O gosto da civilização, do seu cinema, da sua literatura, da sua cultura! Quando começamos a ir a Buenos Aires, foi como chegar à Europa. E a admiração só aumentou!

O peronismo nos pareceu muito mais forte do que o movimento getulista de Getúlio Vargas. A própria sobrevivência de Perón, que terminou no exílio na Espanha após o suicídio de Getúlio Vargas, marcou o fim de uma era no Brasil, enquanto a da Argentina continuava.

De certa forma, o país se desenvolvia em paralelo conosco, com políticas de substituição de importações e a instalação de indústrias automobilísticas americanas em outros países.

Mas Buenos Aires sempre conserva seu charme. Ainda hoje é um prazer visitar Buenos Aires.

No futebol, a competição é sempre acirrada. Mas o abraço entre Lula e Néstor Kirchner em 2002 selou definitivamente a irmandade política entre os dois países. Cristina Kirchner e Dilma Rousseff deram continuidade a essa tradição. Desde então, os países se tornaram parte do processo de integração latino-americana.

Os acontecimentos recentes têm sido muito surpreendentes para os brasileiros. Ninguém poderia imaginar que alguém como Javier Milei pudesse vencer eleições em um país tão politicamente ativo e com um nível cultural tão elevado como a Argentina!

E, de repente, os dois países se tornaram radicalmente diferentes! Ninguém sofre mais do que Lula com o que aconteceu, vivendo na Argentina e entre seu povo!

Não acreditamos que um país com o nível político e cultural da Argentina se renderia a alguém como Javier Milei! Nunca conseguimos entender o que está acontecendo na Argentina. Como, de fato, depois de governar o país por anos, com o evidente empobrecimento da população, incluindo sua enorme classe média, Javier Milei conseguiu vencer as eleições!

Mas o Brasil, sob Lula, está dando grandes passos no caminho do anti-neoliberalismo, um caminho radicalmente oposto ao da Argentina. Achamos inacreditável que o presidente da Argentina diga: “Entre o Estado e a máfia, prefiro a máfia!”

Enquanto o Estado democrático e a própria democracia se fortalecem no Brasil, e Lula emerge como um grande líder internacional na resistência às políticas estadunidenses, na Argentina a oposição ganha terreno. Embora a desigualdade e a exclusão social estejam diminuindo no Brasil, elas aumentam desproporcionalmente na Argentina!

Vista do Brasil, a Argentina parece um país incompreensível! Apesar da admiração que outrora sentíamos, há uma certa decepção em nossa incapacidade de entender um país que sempre parece mais complexo do que podemos compreender.

Dá vontade de gritar: Argentina! Seja parceira e aliada do Brasil novamente! Vamos caminhar juntos novamente pelo mesmo caminho! Vamos liderar mais uma vez os processos de integração e desenvolvimento da América Latina!

*Emir Sader  é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]

Referência


Russel Jacoby. Os últimos intelectuais: a cultura americana na era da academia. São Paulo, Edusp, 1990, 288 págs. [https://amzn.to/49Kw0lH]

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